Cinema

Francisco de Paula Horta Manzano (*)

Não fosse a grande dificuldade que tenho em vencer minha preguiça natural de sair de casa, eu frequentaria mais as salas de cinema. Existe ainda um outro importante fator: o trauma. Sei que é difícil acreditar em algum tipo de trauma que a gente possa carregar por causa de uma diversão como essa, mas eu arrasto um e posso explicá-lo melhor.

Há muitos anos, quando eu era solteiro e ainda muito mocinho, fui assistir a um filme. Nem me lembro qual era, mas fui. Levei minha namorada de então. Também não me lembro quem era, mas levei. Naquele tempo, namorar no escurinho do cinema era o máximo. Só vou fazer uma ressalva: quero deixar claro que, quando eu era mocinho, o cinema não era mais mudo. Ele já falava.

Enfrentávamos uma imensa fila para comprar os ingressos, quando dois meninos, bem vestidos até, se aproximaram e nos ofereceram dois ingressos. Ótimo. Assim, não teríamos de encarar toda aquela fila para comprar entrada e mais outra para entrar no cinema.

Os meninos nos explicaram que, como os pais deles já haviam comprado ingresso, aqueles estavam sobrando. Eu e minha namorada (qual o nome dela mesmo?…) nos entreolhamos e concordamos tacitamente em comprar os tais ingressos. Ficamos todos muito felizes. Tanto os garotos quanto eu e a… a… tá bom, vá lá, a moça que me acompanhava.

Saímos daquela fila e fomos para a outra, menos apinhada e mais rápida, para propriamente entrarmos no cinema. Logicamente, nos posicionamos atrás do último da fila para aguardar nossa vez. Percebemos que todos os companheiros de fila levavam ingressos de cor verde. Só os nossos dois eram cor-de-rosa.

Naquele exato momento, senti acender em minha testa uma luzinha que piscava: “otário, otário” em vermelho! Puxei minha namorada para fora da fila e saímos em busca dos meninos. Era um cinema de bairro, perto de onde eu morava. Naquele tempo existia apenas o cinema falado. Os shopping centers ainda não. Nem falados, nem mudos.

Saímos à cata dos dois garotos e, não demorou muito, os encontramos. Justamente na fila para comprar os bilhetes, com o meu dinheiro. Agindo como se participássemos de um filme de espionagem, ficamos atrás deles, para nos valer do fator surpresa. (Aprendi isto em filme do James Bond, mas o pessoal da Swat também usava esse truque.)

Claro, o truque funcionou como no filme. Já ia até dizer: “Meu nome é Manzano. Francisco Manzano”, com um canto da boca. Mas desisti rapidamente e comecei ali mesmo, segurando um dos meninos pelo braço, movido pelo impulso e pela raiva que eu sentia no momento, a gritar com os dois aprendizes de estelionatários.

A coisa mais delicada que eu vociferei foi que eles eram dois marginaizinhos, golpistas mirins. Disse que iria chamar a polícia para resolver o caso. Eles, ainda não recuperados da total perda de cor da pele (que, de tão branca, deixava transparecer os pulmões ofegantes), imploraram com um “pelo amor de Deus, moço, a polícia não!”.

Mexeram com meus sentimentos humanitários e fizeram jus às benesses da minha condescendência. Concordei com eles. Pra que a polícia? Antes de soltar o braço do garoto, fiz com que eles nos devolvessem o dinheiro que nos haviam surrupiado, o que fizeram com expressão apavorada. Ainda os ameacei. Num piscar de olhos, os dois sumiram. De tão rápidos, ninguém saberia dizer que rumo tomaram.

Quando já íamos nos afastar do local, com o dinheiro recuperado ainda guardado no meu bolso, surgiram-nos pela frente dois não muito simpáticos representantes de nossa polícia, que foram sem cerimônia alguma nos pegando pelo braço, enquanto uma senhora gorda, toda esbaforida, apontava para nós e gritava, chamando a atenção não só dos policiais, como de todos os que passavam pelo local:

‒ Foram esses aí mesmo, seu guarda! Foram eles que tiraram dinheiro das duas crianças. Eles ameaçaram os coitadinhos! Foi horrível! Pobres crianças! Gente tarada! Achei que eles iam bater nas crianças, até matar!

Pronto. Tentei explicar ao solícito policial o que ocorrera. Porém, no primeiro “mas” que esbocei, fomos, aquela moça que estava comigo e eu, gentilmente instalados dentro da viatura e levados até a delegacia.

Cinema é muito complicado. Depois da roda, a maior invenção foi o DVD.

(*) Francisco de Paula Horta Manzano (1951-2006), escritor, cronista e articulista.

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