Coisas nossas

José Horta Manzano

As peripécias judiciais que nossos figurões têm atravessado estes últimos anos estão forçando a um curioso (e torto) raciocínio. Criminosos de colarinho branco dão mostra de dissociar condenação e cumprimento de pena.

Pelo que se lê, vê e ouve, o Lula & coorte de aduladores adotam esse conceito bizarro. Chegam a aceitar, ainda que de cara torcida, a condenação imposta pela Justiça. Não costumam se insurgir contra o comprimento da pena, mas contra o cumprimento dela.

E muitos incautos caem na cilada, reparem. Poucos se espantam com o rigor da sentença mas muitos aderem inconscientemente à tese de que a pena é mera abstração, desconectada da execução. Em resumo, admite-se que este ou aquele tenha sido condenado a cinco, dez ou vinte anos de cadeia, mas a o encarceramento propriamente dito nos parece impensável, inadmissível.

Em outras terras, a pena e seu cumprimento são uma sequência lógica e inexorável. Entre nós, são realidades independentes, figuras jurídicas que não se conhecem nem de elevador.

A coisa não vem de hoje. Doutor Maluf, condenado há quase vinte anos, continuou livre e solto. Seu encarceramento efetivo em dezembro último, ao invés de ser visto como consequência natural da condenação, é considerado por muitos como injusto, um exagero, uma obstinação do judiciário, uma vingança, uma crueldade.

Outro que tem reforçado a tese da dissociação entre condenação e prisão é o próprio Lula. Das declarações dele e dos que o rodeiam, depreende-se que uma coisa não tem nada que ver com a outra. Condenado, vá lá. Preso? Nunca!

São coisas nossas.

Nota
Coisas nossas é o título de um maxixe de Noel Rosa, gravado em 1932.

Personalidades caninas

Myrthes Suplicy Vieira (*)

É estranho como um pet, principalmente se for um cachorro, é capaz de denunciar com seu comportamento a maneira de seu dono encarar a vida. Explico melhor: se o dono é uma pessoa esportiva, o cachorro será elétrico, propenso à ação. Se o dono é um intelectual, amante dos livros, o cão será capaz de permanecer horas a fio deitado aos pés da cadeira onde o dono está sentado em absoluto silêncio, dormitando (ou, quem sabe, até “filosofando”).

Já contei aqui que sou uma pessoa repleta de manias e hábitos arraigados. No entanto, percebo que meu espírito burocrático foi transferido de formas distintas para minhas duas cachorras. No caso da mais velha, ele parece ter sido absorvido integralmente, sem tirar nem pôr. Sempre me surpreendo ao vê-la circulando livremente, sem guia. Ela faz sempre o mesmo percurso, dia após dia, cheira os mesmos lugares e caminha sempre no mesmo ritmo, não importa se está chovendo, fazendo frio ou se é um esplendoroso dia de sol primaveril. Rói cada grãozinho de sua ração com a paciência de um chinês ou como se conhecesse os benefícios da mastigação saudável. Se está com um petisco na boca, é pura perda de tempo tentar atraí-la com outro ou chamá-la para outra atividade qualquer. Enquanto não terminar o que está fazendo, ela nem mesmo se digna a levantar os olhos. Sua humildade se revela nas coisas mais simples: ela não aceita nada que considere grande demais, seja alimento, petisco ou brinquedo.

Cachorro 7Já no caso da mais nova, é mais difícil perceber como a rotina se entranhou nela. Festeira e carente por natureza, ela sempre se mostra disposta a incorporar uma novidade, seja de que tipo for. Se está mordiscando um petisco e é apresentada a outro, ela rapidamente cospe fora o anterior e abre o bocão. Se for possível, come os dois ao mesmo tempo. Se está pacatamente entretida com uma bolinha e alguém mostrar outra, ela corre de um lado para outro tentando decidir qual das duas prefere abocanhar. Se está sonolenta, basta chamá-la para passear que ela se levanta e dispara, sem nem mesmo olhar para trás. Precisa de movimento, agitação e atenção em tempo integral.

Outra coisa que me intriga desde sempre é como a mais nova parece observar e copiar o comportamento da mais velha, especialmente se ele provoca uma reação positiva em mim. Se elogio a capacidade da Molly de conter impulsos, a Aisha imediatamente tenta refrear os dela. Se a Molly tem um lugar favorito para dormir, na primeira oportunidade a Aisha a expulsará sem nenhuma delicadeza (já chegou a se deitar por cima da pobre coitada). Se a Molly escolhe um lugar para fazer xixi, a Aisha a segue e faz o seu exatamente por sobre o dela.

Por estes dias me dei conta de que, todo dia de manhã, a mais nova me espera fazer o café e depois me segue, trazendo consigo sua indefectível bolinha. Tão logo eu me sente, ela senta à minha frente e encosta a cabeça no meu joelho, o rabo abanando feliz, à espera de um carinho ou de que eu aceite brincar com ela. Se a ignoro, ela se afasta e vai deitar em algum canto distante, com uma cara de amuada de fazer dó.

Se eu tivesse de fazer uma analogia da postura característica de cada uma com a de atrizes tradicionais do cinema, diria que a Aisha é certamente uma mistura de Mae West e Greta Garbo. Só quem já a viu deitada no sofá, com a cabeça recostada numa almofada, olhar lânguido e o rabo pendendo em suave curva para fora do sofá, pode testemunhar a favor dessa tese. Às vezes, chego a pensar que um dia ela vai me olhar e dizer com cara de enfado: “I’m no angel” ou “Leave me alone”.

Crédito: WaveMusicStudio

Crédito: WaveMusicStudio

Por outro lado, qualquer um pode perceber à distância que a Molly exala um ar de seriedade, tem a elegância de uma “lady” recatada como Audrey Hepburn, misturado a uma aura dramática de mistério, como Bette Davis. Muitas vezes, quando está deitada, cruza as patas da frente e me encara altiva, como se imperatriz ou esfinge fosse. Por vezes, tenho a impressão de ouvi-la dizer “Decifra-me ou te devoro”.

Não sei dizer se a raça ou a coloração do pelo interferem nessa avaliação. Aisha, uma Golden Retriever, tem a personalidade estereotipada das loiras fogosas: é extrovertida, exibicionista, explosiva e quer sempre ser o centro das atenções. Molly, uma Bernese Mountain Dog, traduz em tudo o padrão comportamental das morenas aspirantes ao esplendor espiritual: é tímida, assustadiça e desconfiada das pessoas que fazem muito estardalhaço. Ao mesmo tempo, quando se aproxima espontaneamente de alguém (o que acontece raríssimas vezes), pode-se apostar que ela encontrou uma alma gêmea.

santos-dumont-1De qualquer maneira, vejo-me forçada a admitir: tenho um lado defendido, de quem luta com unhas e dentes para preservar a própria intimidade, mas adoro também ser alvo de admiração. Pensando bem, talvez seja eu mesma uma combinação das tradições francesas e da malemolência insolente brasileira. Unindo os dois lados, só o meu desejo de fazer a Europa curvar-se ante o Brasil, como dizia a modinha que minha avó cantarolava.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Interligne 18cNota deste blogueiro
A modinha à qual a autora se refere é a cançoneta em homenagem a Santos-Dumont composta por Eduardo das Neves e gravada pelo cantor Bahiano no longínquo ano de 1902. Quem quiser ouvir um trechinho dessa preciosidade pode clicar aqui.