Crônica sem fadas

Francisco de Paula Horta Manzano (*)

Fada 1Era uma vez… Pronto, já está com jeitão de conto de fadas. Porém, isto não é um conto de fadas, nem ao menos um conto, mas sim uma crônica. E nunca se viu crônica de fadas. Mas… e a vontade que eu sempre tive de escrever alguma coisa que começasse com um “era uma vez”? É a minha oportunidade, desculpem. Pois bem, se você não tiver nada melhor para fazer nos próximos 3 ou 4 minutos, vamos lá então.

Era uma vez, em um lugar muito bonito e distante (as histórias desse tipo sempre acontecem em lugar bem longe de onde a gente as lê e todo lugar distante é sempre mais bonito do que aquele onde se está), uma moça que tinha uma grande amiga. E, por feliz coincidência, a outra moça também a tinha como grande amiga!

Esta história aconteceu no tempo em que ainda se tinha o salutar hábito de cultivar boas e grandes amizades. Logo depois, foi que pararam de escrever histórias de “era uma vez”. Foi justamente quando se acabaram as grandes amizades. Talvez as grandes amizades não passassem de conto de fadas, vai saber.

Às vésperas do aniversário de uma das duas amigas, já tarde, lá pelas 10 da noite, toca o telefone:

Sandalia 1– Alô (com voz de sono).

– Oi Cidinha! Tudo bem com você?

– Hermê! (Ninguém tinha coragem de pronunciar Hermengarda). Tudo bem. E com você?

– Pois é, amiga, eu estou ligando por causa de seu aniversário.

– Sério mesmo? Que legal! E daí?

Telefone 2– Sabe o que é? É que eu vi, numa loja, uma sandalinha que é a tua cara! Logo me lembrei de você e do aniversário, Cidinha.

– Ora, que bobagem, não se preocupe com isso, Hermê.

– Não é preocupação nenhuma. Eu só liguei pra saber qual é o seu número.

– Por favor, não se incomode não! Eu nem estou pensando em fazer nada no meu aniversário.

– Não tem importância. Não tô nem aí com festa nenhuma, amiga. Eu faço questão de dar um presentinho pra você. Coisa pouca, mas é de coração.

– Ah! Deixa disso! Não precisa se preocupar com nada, tá?

– Mas eu faço questão! É como eu falei, é coisinha à toa mas é muito sincera, viu, Cidinha? Me diz o número, vai.

– Você sabe que eu nunca vou poder retribuir.

– Mas quem está pensando em retribuição? Deixa disso, fala o número pra mim, vai.

– É, eu sei bem porque você faz questão de ficar me dando presentes, sua metida.

– Eu dou presentes porque gosto muito de você e quero demonstrar isso, Cidinha. Por favor, não pense nada errado.

– Que nada! Eu estou pensando o certo. Você quer é mostrar que pode mais que eu. O Olavo é humilde, não tem o suficiente pra me presentear, mas eu estou feliz assim mesmo, viu?

Telefone 1– Mas quem falou no Olavo, meu Deus!? Eu gosto muito do seu marido!

– E eu sei que gosta, eu sei muito bem o quanto gosta! Pensa que eu não percebi quando você começou a dar em cima dele? Pois saiba, minha amiga, ele é pobre mas ainda é meu, só meu, viu? Só meu.

– Acho que você está nervosa à toa. Eu nunca quis nada com o Olavo e agora eu só quero te agradar no aniversário, que coisa!

– Tá vendo só? Agora é “que coisa”, né? Olha só o seu jeito de falar.

– Foi só uma maneira de falar… Me desculpa, vai.

– Uma ova! Primeiro fica de olho no marido dos outros. O Olavo, pobre Olavo…

– Mas eu nunca quis nada com seu marido, Cidinha! Por favor…

– E além do mais, fica tentando me humilhar comprando sandalinhas que sabe que eu não posso ter.

– Eu não quero te ofender nem te humilhar! Que é isso, amiga?!

– E olha, não quero mais saber de conversa. E se quer me fazer um favor, não fale mais comigo, tá? Nunca mais!

O telefone é desligado.

– Alô? Alô? Cidinha?…

Castelo medieval 2Assim como a história começou com era uma vez, assim termina também: era uma vez uma grande amizade. Após o fim da conversa, o Olavo (marido da Cidinha, lembra dele?), que por coincidência estava ao lado da Hermê, no apartamento dela, pergunta:

– Hermê, o que foi que a Cidinha achou da idéia da sandalinha?

Interligne 18h

(*) Francisco de Paula Horta Manzano (1951-2006), escritor, cronista e articulista.

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