Ocidente

Ocidente

José Horta Manzano

No curto espaço de tempo que durou a passagem de Lula por Roma, alguns dias atrás, jornalistas do milanês Corriere della Sera solicitaram e obtiveram entrevista exclusiva com o presidente.

Como costuma se comportar diante de questionadores estrangeiros, Luiz Inácio se mostrou escandalizado. A razão foi exposta numa comparação numérica que, apesar dos ares de tirada ex abrupto, já veio preparadinha e decorada. Lula explicou que o dinheiro que o mundo gastou com armamentos em 2024 foi US$ 2,7 trilhões, sendo que, ao mesmo tempo, 673 milhões de seres humanos padecem com a fome.

Ao menos, essa verdade precisava ser dita por alguém. E dá até um pouco de orgulho que seja o presidente de nosso país que cuida de contar isso ao mundo. Talvez não dê em nada, talvez o mundo continue gastando trilhões em armas enquanto pobres morrem de fome. Mas ninguém poderá dizer que não tinha sido avisado.

Prefiro um presidente pronunciando esse tipo de frase, em vez de um ex-presidente que, quando de uma viagem à mesma Itália alguns anos atrás, teve de bater papo com um garçom, dado que nenhum dirigente queria conversa com ele.

Mais adiante na entrevista, o jornalista abordou a aproximação entre Lula e Donald Trump. Nosso presidente mostrou-se otimista quando à evolução dos contactos e argumentou que lhe parece natural “as duas maiores democracias do Ocidente” manterem relações amistosas.

Quem não concorda? Se alguém tem sido contra essa aproximação, é justamente o próprio Lula, com seu antiamericanismo ginasiano. As sanções trumpianas só vieram dar a estocada final nos “200 anos de amizade cordial”. Agora, passada a tempestade, parece que nos encaminhamos para nova fase de bonança.

Não sei quais são os países que Luiz Inácio inclui em sua noção de Ocidente. O Brasil e os EUA, isso é certo. Quais outros? Inclui a Europa? O Japão? As antigas colônias britânicas da Oceania? Não ficou claro.

Acredito que certas correntes de nossa diplomacia entendam o termo Ocidente como indicação rigorosamente geográfica. Pertencem ao Ocidente todos os países situados a oeste do Meridiano de Greenwich, ou seja, basicamente as Américas. E pronto.

O problema é que esse entendimento excluiria a Europa inteirinha do mundo ocidental. E excluiria também, deixando transparecer certa dose de má fé, uma dezena de países africanos situados totalmente no hemisfério ocidental.

Na Europa, a abrangência desse termo é diferente. Por Ocidente, subentende-se a Europa inteira (excluindo Rússia, Bielo-Rússia e Ucrânia), o Japão, a Austrália, a Nova Zelândia, os EUA e o Canadá. Mais ninguém. Estou de acordo que é um entendimento meio torto, que junta doze frutas diversas e chama o conjunto de “uma dúzia de laranjas”. Mas é com esse significado que se usa o termo Ocidente, quando se refere ao conjunto de países mais desenvolvidos.

Talvez os digníssimos assessores de nosso presidente concordem que é o momento de fazer uma ligeira correção no discurso do presidente. Em vez de “as duas maiores democracias do Ocidente”, que ele diga “as duas maiores democracias do Hemisfério Ocidental. Não muda quase nada, mas muda tudo.

O pequeno El Salvador visto por seu próprio presidente

José Horta Manzano

Ganhar uma eleição para presidente da República com 85% dos votos no primeiro (e único) turno – sabe lá o que é isso? Pois a façanha foi conseguida pelo jovem Nayib Bukele (42 anos), presidente de El Salvador, pequeno país da América Central. Aliás, não é de simples eleição que se trata, mas de reeleição. Bukele entra em seu segundo mandato.

Ele teve carreira meteórica, indo em sete anos de prefeito de cidadezinha até a Presidência. Analisando seu score soviético de reeleição, depreende-se que seu primeiro mandato deve ter agradado muito à população de El Salvador.

Nayib Bukele (que, fosse brasileiro, teria o prenome de Nagib) é de origem palestina. Teve um dia da semana passada em que ultrapassou 10 milhões de visualizações no Tweeter (atual X), com um vídeo em que aparece dando lições de história e democracia “à moda salvadorenha” a um compadecido jornalista da BBC.

O moço tem seis milhões de seguidores nessa mesma rede, multidão igual à população de seu país. Conclui-se que sua fama já atravessou as fronteiras.

Neste segundo mandato, o “ditador mais cool do mundo” (como se autodefine) continuará a governar à sua particular maneira. Com a força de seu partido Nuevas Ideas, que ocupa 54 dos 60 assentos do Parlamento, pulverizou a oposição. O país vive um estado de emergência agora permanente, que lhe dá amplos poderes, tudo com a clara aprovação da maioria de seus compatriotas.

Aqui estão alguns trechos de sua entrevista à BBC.

«Você não vive mais no El Salvador que foi, no passado, o campeão do mundo dos assassinatos. De país mais perigoso do mundo, passamos a ser o país mais seguro do Hemisfério Ocidental e a única maneira de chegar a isso foi prender todos os 70.000 assassinos.

Não havia outro jeito. O que você queria? Que prendêssemos uma centena de pessoas deixando 69.900 pandilleros (membros de gangues criminosas) nas ruas e que, por arte ou magia, os assassinatos diminuíssem? Ou você acha que nós, como salvadorenhos – uma espécie de cidadãos de segunda classe – merecemos morrer, deixar matar nossas famílias e nossos filhos porque vossa concepção de democracia precisa ser respeitada?

Devemos continuar a sangrar por mais 50 anos por causa das políticas importadas de vossos países? Na década de 1980, vocês financiaram uma guerra entre nós, salvadorenhos, uma guerra entre irmãos. Naquela ocasião, 85.000 salvadorenhos morreram. Depois, um milhão de deslocados foram para os EUA, para guetos, criaram gangues. Esses membros de gangues acabaram deportados de volta para El Salvador: os pandilleros.

Vocês nos impuseram outra de vossas receitas: “Não prendam menores”. Mas naquela época todos os membros de gangues eram menores. Assim, as pandillas cresceram e terrorizaram o país. Tentamos a receita da ONU, a receita da União Europeia, a receita dos EUA. Nenhuma delas funcionou.

Tínhamos que fazer alguma coisa para salvar nossa gente. Agora somos o país mais seguro do Hemisfério Ocidental, mas de repente parece que alguma coisa desagrada a vocês. Saiba que não apenas temos o direito de fazer o que achamos certo e o que o povo de El Salvador decide por meio de eleições livres, mas provamos que isso funciona.

Se eu pusesse o melhor governo da União Europeia para governar o Afeganistão, ele não duraria uma semana. Pare de nos pedir para usar suas receitas porque aqui elas não funcionam.»

Observação
Por diferentes razões, tanto Lula quanto Bolsonaro devem estar babando de inveja do jovem ditador.

Lula simplesmente adoraria poder controlar 90% do Parlamento. Todas as suas vontades e seus caprichos passariam fácil, sem reclamação e sem demora, sonho de todo candidato a autocrata. Governar sem oposição, já pensou?

Bolsonaro há de vibrar com a ideia de poder prender gente assim, à vontade, a torto e a direito, por um sim ou por um não. Proporcionalmente, os 75 mil salvadorenhos presos corresponderiam a 2,5 milhões de brasileiros atrás das grades. Nessa cifra, dá pra incluir todos os bandidos do país e ainda sobra bastante espaço para prender parlamentares, juízes, governadores, oponentes, rivais, adversários e inimigos.

Prognóstico

Corriere della Sera, 24 nov° 2022

José Horta Manzano

“O líder da direita [Bolsonaro] contabilizou o apoio de Neymar e fez duas promessas: “Eu vou ganhar as eleições e ele, a Copa”. A primeira aposta frustrou-se. Quanto à segunda, hoje começa o baile.

E se, no final, a seleção que mais títulos já recebeu na história devesse chegar de novo ao topo, provavelmente Lula vai esquecer a brincadeirinha de Neymar e vai abraçá-lo como um filho predileto. Porque essa é a democracia, e sobretudo esse é o futebol (não somente) no Brasil.”

Cristofascismo

Fascio Littorio: emblema do fascismo

José Horta Manzano

Em longo artigo, o italiano Corriere della Sera digital discorre sobre a campanha presidencial brasileira deste ano. Sobrevoa as acusações de canibalismo, satanismo e pedofilia. Lembra a sombra de um possível golpe de Estado, a ser dado unicamente em caso de vitória da esquerda.

Menciona ainda: a Venezuela e a Nicarágua, o “pintou um clima”, Janja da Silva, Michelle Bolsonaro, o ditador paraguaio Stroessner, Silas Malafaia, Fernando Collor, confisco de aposentadorias, Neymar, Copa do Mundo, fechamento de igrejas, aborto, satanás, dom Odilo Scherer, o “perigo comunista”. E outros nomes e fatos que nós todos conhecemos.

Fechando o cerco, relata a inacreditável história de tráfico de crianças, que Damares Alves “ouviu na rua” e denunciou à Justiça. Acrescenta a apropriação que “cantanti gospel” (=cantores evangélicos) fizeram da historinha horripilante. E conclui discorrendo sobre o cristofascismo. (Esse conceito fica por conta do Corriere della Sera, não é tema de campanha no Brasil.)

Fascismo cristão ou cristofascismo é expressão cunhada por uma teóloga alemã nos anos 1970. Descreve o ponto de contacto entre o fascismo e o cristianismo, contacto induzido pelas teorias de extrema-direita. O cristofascismo pode ser entendido como uma ampla muleta que dá uma fachada de dignidade cristã aos princípios atrozes e violentos que formam a ossatura da ideologia fascista.

É exatamente o que desabrochou na nação brasileira quando se instalou o governo do capitão. E que continua plantando raízes em nossa sociedade. É um movimento pérfido e insidioso, dado que se instila como veneno na mente de honestos cidadãos que se enxergam como cristãos verdadeiros, ao mesmo tempo que toleram – e até praticam sem se dar conta – comportamentos extremistas.

É desse mal corrosivo que temos de nos desvencilhar domingo agora, enquanto é tempo.

Anauê, cidadãos!(*)

(*) Anauê era a saudação adotada pelos adeptos do integralismo, corrente de pensamento de matriz fascista que chegou a ter certa força no Brasil dos anos 1930.

Grã-Bretália

Capa da revista

José Horta Manzano


“Podem falar de mim à vontade, desde que seja bem. Falar mal, não admito.”


A historieta que vou lhes contar hoje é bom exemplo dessa afirmação. Na verdade, creio que é próprio do ser humano. Todos a-do-ram ser incensados e de-tes-tam ser zombados.

A conceituada revista britânica The Economist é famosa por suas capas. A cada semana, leitores (e não leitores) se põem curiosos pra tomar conhecimento da nova tirada.

Talvez o distinto leitor se lembre da capa que a revista fez, lá pelos anos eufóricos da Copa 2014, quando o Brasil ainda bombava. Foi publicada uma montagem com o Cristo Redentor do Rio subindo aos céus como se fosse um foguete. Simbolizava o arranque de um Brasil que se preparava para sentar à mesa dos grandes.

Talvez vosmicê se lembre também que, alguns anos depois, constatando que o foguete brasileiro tinha dado chabu, a Economist publicou capa muito parecida, com o mesmo Cristo impulsionado por foguete, só que em queda, em direção ao solo.

Os mesmos que haviam aplaudido a primeira capa se sentiram indignados quando saiu a segunda. É natural. Ninguém gosta de ser caçoado.

Esta semana, a capa da revista apresentou uma Liz Truss (primeira-ministra britânica) vestida como deusa da Roma antiga. Só que, no lugar do escudo, está uma pizza margherita; em vez de lança, há um garfo; e na ponta do garfo, espaguete enrolado. O mais marcante é o título: “Welcome to Britaly”, uma fusão de “Brexit” com “Italy”, que o Estadão teve a luminosa ideia de traduzir: “Bem-vindo à Grã-Bretália”.

A intenção da Economist foi comparar a atual bagunça político-econômica do Reino Unido com a Itália, país onde crises de governo e problemas econômicos são recorrentes.

O fato é que os italianos não acharam nenhuma graça na gracinha. A mídia da península está indignada, em pé de guerra. Não houve um veículo que não manifestasse desagrado, embalado sob forma de editorial ou artigo.

O Corriere della Sera faz longa explanação político-econômica para demonstrar que os atuais percalços britânicos não podem ser comparados às agruras italianas. Trata o Brexit de “catástrofe econômica, cultural e civil”. Lembra que a Itália é o 7° exportador mundial, enquanto a Grã-Bretanha é o 14°. E continua por numerosos parágrafos a demonstrar que a Itália está em posição bem mais confortável e segura que a Inglaterra.

Carta do embaixador

A onda de protesto bateu até na Embaixada da Itália em Londres. O embaixador endereçou carta de reclamação à redação da Economist. Lamenta que a capa tenha se baseado unicamente em estereótipos batidos. Sugere que, de uma próxima vez, a revista não se atenha ao espaguete e à pizza (embora sejam a comida mais popular no mundo), mas que se lembre dos setores aeroespacial, biotécnico, automotivo e farmacêutico.


“Podem falar de mim à vontade, desde que seja bem. Falar mal, não admito.”


 

Deu chabu

by Lezio Júnior, desenhista paulista

José Horta Manzano

Nesta quarta-feira 8 de setembro, acordei ansioso. Estava curioso pra ver com que olhos a imprensa europeia tinha observado as passeatas que Bolsonaro convocou em louvor de si mesmo. Logo de manhã, ao ligar o rádio, um calafrio me fez imaginar que pudessem estar em edição especial anunciando com voz grave um golpe de Estado no Brasil.

Não estavam em edição especial. Sintonizei as rádios suíça e francesa. Fui para a internet. Dei uma olhada nos títulos da BBC. Perpassei as manchetes do Corriere della Sera e as chamadas do Figaro. Olhei ainda duas ou três mídias menos importantes. Nada. Na respectiva primeira página, cada um estava preocupado com as próprias mazelas.

A BBC, sempre atenta ao que ocorre no exterior, dá prioridade a notícias do novo governo do Afeganistão. O Corriere della Sera está preocupado com intrigas da política interna italiana e com o passaporte sanitário – que lá se chama “green pass”. Na França, discute-se também o “pass sanitário”, mas o grande assunto do dia é a abertura do alentado processo que julga 20 acusados de participar do ataque terrorista desferido na boate Bataclan em 2015, assalto que deixou 130 mortos, centenas de feridos e um país traumatizado. O suíço Le Temps comenta a nova regra que limita a velocidade da circulação a 30 km/h, que vai vigorar em todo o perímetro urbano da cidade de Lausanne, de 22h a 7h da manhã. Uma lei aprovada no México, para destravar o aborto voluntário, era outro tema.

Enfim, cada um com suas preocupações. De Brasil, muito pouco, quase nada. Alguma coisinha aparecia lá no fundo, bem abaixo dos títulos, em clara sinalização do pouco interesse que o assunto desperta nos leitores daqui. Por que será? Acredito que se deva atribuir ao cansaço de ouvir sempre os mesmos acontecimentos, que, de tão repetidos e previsíveis, já não encantam nem surpreendem.

Este é um blogue de respeito. Portanto, não tem cabimento ficar repetindo palavrório pesado que a gente usava na adolescência. (É verdade que presidente da República hoje fala pior que adolescente, mas essa já é outra história.) O que eu queria dizer é que, com seu chove e não molha, Bolsonaro me lembra a frase que a gente soltava quando alguém ameaçava, ameaçava, sem nunca se decidir a partir para a ação. Em termos próprios “para senhôras”, era algo como: “ou resolve logo ou sai de cima”. Se é que me entendem.

A jornada com que o presidente nos brindou ontem deixou um gostinho de chabu. Tudo era pra ser grandioso e definitivo, mas não passou do nível habitual de discurso de bêbado de botequim: rasteiro, com ameaças, insultos e palavrões, mas vazio de efeito. Nem a PM, que parecia amaciada e pronta pra pegar carona na carroça do chefe fazendo “arminha” com as mãos, deu as caras. Como o presidente deve ter se sentido desamparado…

Dos salvados do incêndio, sobram dois restos – ambos desagradáveis. O primeiro, desagradável para o presidente, é que ele queimou todos os cartuchos. Sua “revolução”, anunciada com antecedência e data marcada, munida de ordem de marcha e financiada com dinheiro (público) às pencas, simplesmente não deu certo. O dia terminou exatamente como tinha começado, com a única diferença que o capitão, ainda mais fraco que antes, arrumou mais algumas dúzias de inimigos e atiçou o Congresso para apressar o lançamento desse processo de impeachment antes que seja tarde. Bolsonaro está desarmado e desacreditado como um leão sem dentes. Tudo o que vier pela frente não passará de mais do mesmo. Seus truques, conhecidos de todos, já não assustam ninguém.

O outro salvado do incêndio é desagradável para a população brasileira, que ficou privada do 7 de Setembro, seu feriado maior. Isso não se faz. Em vez de visita de convidado de honra estrangeiro na tribuna de honra, damas de longo e cavalheiros empertigados, desfile de gente fina nos saguões do Planalto, o que tivemos? Uma tribuna mequetrefe, com crianças fantasiadas de bandeira do Brasil. Após passagem rápida e protocolar pela cerimônia brasiliense, o capitão correu pra participar de uma festa mambembe, que não deixou nada a dever ao animado estilo dos trios elétricos lulopetistas. Participantes havia às pencas, só que, desta vez, os ônibus estacionaram longe; o sanduíche de mortadela e a cloroquina(*) foram distribuídos dentro dos veículos, longe das câmeras, que é pra não dar na vista.

Tem nada não. No próximo 7 de Setembro, teremos nossa festa tranquila, risonha e descontraída. E, oxalá, sem Bolsonaro.

(*) Foi o próprio capitão a afirmar que o povo “de esquerda” toma tubaína, enquanto o “de direita” engole cloroquina.

Apocalipse vende mais

José Horta Manzano

Puxa! Nunca imaginei que o Brasil se tivesse tornado tão importante! Visto do exterior, parece que o país subiu de nível. Passou a eleição, o novo presidente está definido há dez dias, mas o assunto continua a ser comentado na imprensa. Em volume de citações, este período supera com folga a época de ouro do lulopetismo, quando se imaginava que um salvador da pátria tinha surgido da secura da caatinga para redimir definitivamente a nação tupiniquim. Quá!

A abundância de artigos, entrevistas e análises atuais se deve, com certeza, à rede mundial de telefones e computadores, que faz que a informação circule fluente e dê volta ao planeta num segundo. No entanto, apesar das facilidades modernas, constato que a informação que chega ao exterior pende para um lado que não é o que os brasileiros escolheram. Com folgada maioria, os eleitores elegeram doutor Bolsonaro. Passando por cima dessa realidade, a mídia europeia continua de queixo caído, incapaz de reconhecer que o eleito encarna a mudança pela qual todos anseiam, tanto os que votaram nele, quanto os demais.

Por aqui, o discurso que se ouve é aflitivamente semelhante ao do lulopetismo. Analistas continuam a mostrar-se escandalizados com a «deriva conservadora» do eleitorado do maior país da América Latina. Acusam os brasileiros de ‘fascistas’, ‘adeptos da extrema-direita’, ‘homofóbicos’, ‘machistas’, ‘adeptos do autoritarismo’ e outros apodos graciosos.

Também, brasileiros com projeção internacional não ajudam. Outro dia, ouvi nosso ultraconhecido fotógrafo Sebastião Salgado, convidado matinal da rádio pública francesa, declarar que ‘os brasileiros ficaram loucos’ e martelar o relato do golpe sofrido por doutora Rousseff. Entre dezenas de outros, essa mesma ex-presidente, mais Chico Buarque e até FHC ‒ quem diria! ‒ botam lenha na fogueira. Correspondentes da mídia internacional baseados no Brasil também contribuem para difundir a versão lulopetista. É que anunciar o apocalipse vende mais do que falar em esperança de enfiar corruptos na cadeia e pôr ordem no país.

O festival de desinformação continua. Por minha parte, preferia que se falasse do país por outros motivos. Mas as coisas são como são. The (poor) show must go on. O show (mambembe) tem de continuar.

Adendo 1
Signor Paolo Mieli é colunista do italiano Corriere della Sera há 25 anos. Passando por cima do fato de que foi o próprio povo brasileiro a fazer sua escolha, ele assina um artigo publicado domingo passado que dá a impressão de que o novo presidente nos tenha sido imposto por algum poder extraterrestre. Aqui vai a primeira frase:

“Il trionfo elettorale di un personaggio discutibile e discusso come Jair Bolsonaro è stata una pessima notizia non soltanto per il Brasile, ma anche per l’America Latina tutta e, probabilmente, per il mondo intero ‒ O triunfo eleitoral de um personagem discutível e discutido como Jair Bolsonaro foi péssima notícia não só para o Brasil, mas também para toda a América Latina e, provavelmente, para o mundo inteiro.”

Precisa ler o resto?

Adendo 2
Ouvi outro dia no rádio, no dia seguinte ao da eleição do novo presidente, o comentário de um jornalista, que soava como trovão:

«Les minorités entendent déjà le bruit des bottes sur le sable de Copacabana ‒ As minorias já podem ouvir o ruído de botas nas areias de Copacabana.»

Que talento dramático! De todo modo, pouco importa o conteúdo, o que conta é a embalagem. Não é pra assustar qualquer cristão?

Melhor que novela

José Horta Manzano

Hoje eu ia contar algumas particularidades curiosas do exército suíço. Atropelado pelos acontecimentos pátrios, deixo para uma próxima vez.

Provando que realmente faz jus ao mais alto cargo da Câmara, senhor Cunha mostrou empatia com o anseio de 90% dos brasileiros e, magnânimo, abriu as portas para o processo de destituição de dona Dilma. Foi gesto louvável de desprendimento.

Aliás, fez-me lembrar o adágio «alegria de palhaço é ver o circo pegar fogo». Ao dar-se conta de que estava cercado por todos os lados – ilhado em seu universo de mentiras desmascaradas, abandonado pouco a pouco por gente com quem imaginava poder contar, ameaçado de perder o cargo, o mandato e a liberdade, com fortuna confiscada –, o deputado jogou a última ficha.

Dilma 15Doravante, sua única (tênue) esperança é ver a tempestade se transformar em forte furacão, daqueles que carregam tudo. Se não vier o tufão, nosso rancoroso presidente da Câmara tem pouca esperança de sair incólume.

Os mais antigos hão de se lembrar da novela Vale Tudo, exibida 25 anos atrás. O Brasil parou durante os capítulos finais, quando todos queriam saber quem tinha matado Odete Reutemann(*). Curiosamente, o intuito do autor da obra era abrir o debate sobre um problema de sociedade. «Até que ponto vale ser honesto no Brasil?» – era a questão de fundo. A resposta clara não veio até hoje.

Como o distinto leitor há de imaginar, a notícia do iminente processo de destituição da presidente repercutiu na mídia mundial. Dou aqui uma coletânea.

(*) Talvez para evitar erros de pronúncia, os responsáveis decidiram grafar Roitman no lugar do original Reutemann.

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Chamada de The Guardian, Inglaterra

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Chamada de Le Figaro, França

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Chamada de Der Spiegel, Alemanha

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Chamada de La Nación, Argentina

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Chamada de Digi24, Romênia

Chamada de Digi24, Romênia

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Chamada de El Periódico Internacional, Catalunha, Espanha

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Chamada de Sveriges Radio, Suécia

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Chamada de De Volkskrant, Holanda

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Chamada de El País, Espanha

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Chamada de TVN24, Polônia

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Chamada de Corriere della Sera, Itália

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Chamada de Observador, Portugal

Chamada de Observador, Portugal

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