TPI – Complemento

Aerolula atual

José Horta Manzano

Este texto dá sequência ao post anterior.

A fala idiota de Luiz Inácio provocou um tsunami que varreu todas as chancelarias do planeta. Nosso Lula nacional continua ignorando o alcance de suas palavras. Pela sem-cerimônia com que se exprime, ele parece achar que, como nos tempos do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo, seu discurso morre na porta da fábrica. Hoje, com ele presidente, não é mais assim.

Logo depois de se exprimir, todo pimpão, diante das câmeras da tevê indiana, deve ter ouvido reprimenda de horrorizados assessores. Dá pra imaginar o diálogo.

Assessor
Não, Lula! Você não podia dizer que o Pútin não será preso se botar o pé no Brasil!

Lula
Mas por quê? Ele não está na lista vermelha da Interpol, que eu saiba.

Assessor
Não, na lista da Interpol não está. Mas tem ordem de prisão do TPI contra ele.

Lula
TPI? Que que isso? É coisa dos americanos?

Assessor
Não, Lula, não é criação americana. É um tratado internacional de cooperação judicial. O Brasil e mais 120 países assinaram faz 20 anos. Os americanos nem fazem parte. Nem a China nem a Rússia.

Lula
Como é que é? Então é engodo? Só bagrinhos assinaram? Por que que nós temos que respeitar uma ordem se os grandes não respeitam? Aí tem coisa. Semana que vem vamos dar uma estudada nesse tratado daí. Dá pra anular?

Assessor
Acho que vai ser difícil, Lula. Anular um tratado com assinatura de 120 países? Não vai ser possível.

Lula
Não, estúpido! Eu quis dizer anular a participação do Brasil! Sair do tratado.

Assessor
Possível sim, mas acho que vai pegar mal pra caramba.

Lula
Semana que vem nós damos uma olhada.

Enquanto semana que vem não chega, um Lula envelhecido e cada vez mais voluntarioso quer porque quer um avião mais confortável, com cama de casal, chuveiro e escritório particular.

Digo “um Lula envelhecido” porque foi ele próprio quem decidiu pela compra do atual Aerolula, um Airbus modelo 319. Na época, longas viagens não lhe pesavam.

Sem dúvida, há modelos maiores e mais confortáveis. Só que um exemplar de segunda mão custa entre US$ 70 mi e US$ 90 mi. Em reais, dá quase meio bilhão.

É um valor considerável pra quem quer só um chuveiro e uma cama de casal…

TPI – Tribunal Penal Internacional

José Horta Manzano

Em 7 de junho de 2002, o Diário Oficial da União publicou o Decreto Legislativo n°112, pelo qual o Congresso Nacional ratificou a adesão do Brasil ao termos do Estatuto de Roma do Tribunal Penal Internacional. A partir de então, o Brasil é Estado Parte do Tribunal.

O Artigo 86 do Estatuto reza:
“Os Estados Partes deverão, em conformidade com o disposto no presente Estatuto, cooperar plenamente com o Tribunal no inquérito e no procedimento contra crimes da competência deste.”

O objetivo é evidente: um tratado desse teor só pode funcionar se todos os Estados Partes se comprometerem a cumpri-lo. Do contrário, não faria sentido. O Estatuto de Roma congrega hoje 123 Estados Partes. Alguns países preferiram não se comprometer – entre eles, alguns importantes: os EUA, a China, a Rússia.

Em março passado, o Tribunal Penal Internacional emitiu ordem de prisão contra o cidadão Vladímir Valadímirovitch Pútin, presidente da Federação Russa. É coisa séria. Todos os Estados que assinaram o Estatuto têm o compromisso de cumprir a ordem. Não é à toa que Pútin declinou o convite para comparecer à reunião do Brics na África do Sul. Foi avisado que, caso desembarcasse no território sul-africano, poderia acabar preso.


Frase 1
”O que eu posso dizer é que, se eu sou o presidente do Brasil e ele for para o Brasil, não há por que ele ser preso”


Foi o que Lula da Silva declarou no sábado, todo sorrisos, em entrevista a um canal indiano de informação, quando lhe perguntaram se Pútin será preso se for ao Rio de Janeiro para a reunião 2024 do G20. E não parou por aí. Lula garantiu que vai mesmo convidar Pútin para o encontro. E completou seu pensamento:


Frase 2
“Ninguém vai desrespeitar o Brasil, porque tentar prender ele no Brasil é desrespeitar o Brasil”


Análise da Frase 1
O discurso suscita alguma reflexão. Ao pronunciar a Frase 1, Luiz Inácio mostra que acredita ser dono do país. Ele se faz de bobo, como se não conhecesse as atribuições do presidente da República. Vivemos numa democracia em que cada um dos Poderes é autônomo. “Mandar prender” não é assunto da quitanda dele. E ele sabe disso perfeitamente.

Ao se pronunciar assim, Lula deixa em ouvidos estrangeiros a convicção de que o Brasil vive sob um regime de republiqueta de bananas, em que o líder máximo detém poder absoluto sobre todas as instituições. É ele que “manda prender” ou “manda soltar”.

Ao agir dessa maneira, Luiz Inácio faz um desfavor a si mesmo e ao país inteiro. Está agindo como um certo capitão que o antecedeu, aquele que passou quatro anos tentando escantear as instituições. Lula entra de sola em paróquia alheia, o que nunca é muito bom.

Ao anunciar que, em caso de visita do russo, passará por cima da autoridade do TPI (Tribunal Penal Internacional), Luiz Inácio deixa claro que considera seu juízo melhor que o do próprio Tribunal. Os juízes da Haia (Holanda) lançaram mandado de prisão contra um indivíduo, mas Lulinha paz e amor resolveu estufar o peito e dar guarida ao procurado pela justiça.

Com essa ideia escrachada – um triste repeteco do caso Cesare Battisti –, Lula informa que o Brasil continua sendo um país acolhedor para fugitivos da justiça, mas pouco confiável no geral, visto não respeita nem a própria assinatura em tratados internacionais.

Análise da Frase 2
“Tentar prender ele no Brasil é desrespeitar o Brasil”. Como é que é? A princípio, achei que Lula quisesse dizer que o Brasil deixaria de ser um país de respeito se prendesse o ditador russo. Achei até que a ideia trazia um propósito patriótico, de um presidente preocupado com a imagem do país.

Só que não era isso. Ao reler, me dei conta de que Luiz Inácio não parece ter ideia do que seja um mandado de prisão internacional. As palavras que ele pronunciou mostram que ele teme que “alguém” (uzamericânu?) vá prender Putin em território brasileiro, o que seria “desrespeitar o Brasil”.

É urgente que alguém avise ao presidente que o temor dele é infundado. Nenhum comando armado até os dentes vai singrar as águas da Baía de Guanabara no mormaço noturno, todos vestidos de preto, para sequestrar o ditador russo e despachá-lo para a Holanda. Não é assim que costuma funcionar.

Conclusão
Por um lado, Lula acredita que “alguém” pode abduzir o visitante e fazê-lo desembarcar diante dos magistrados do TPI. Por outro, o mesmo Lula garante que o ditador russo pode vir tranquilo, que nada lhe acontecerá.

Ora, se a ameaça de sequestro vem de fora, Lula não tem como garantir a integridade física do visitante.

Enquanto isso, Pútin, que não é ingênuo e sabe os perigos que corre, não irá rever os encantos de nossa terra tropical. E será melhor assim.

Sete de Setembro e o futuro da sociedade

José Horta Manzano

Em artigo publicado no Estadão deste 7 de setembro, o analista William Waack destaca que vivemos numa “sociedade desordeira, sem grande apego a valores de comunidade, carente de lideranças abrangentes e profundamente desconfiada dos sistemas político e de governo”.

Não há como discordar.

  • Ignorando que o cimento que mantém a sociedade unida são as normas que valem para todos, os brasileiros formam uma sociedade avessa a regras e regulamentos.
  • As tensões provocadas pela impermeabilidade entre os diferentes estratos sociais são sentidas no dia a dia. A ausência difusa do sentimento de pertencer a uma comunidade impede a adesão do cidadão a valores comuns.

A mistura desses ingredientes produz uma sociedade bloqueada, que se compraz em carregar seu pecado original sem jamais tentar se lavar dele.

Nessas condições, toda veleidade de conserto vai esbarrar na apatia geral da nação. Complacentes, continuamos eletrizados pela trama da novela da noite – talvez o único fato que recebe apoio geral da população. E o resto não avança.

Quadro desanimador, não é? Impróprio para um Sete de Setembro. Gostaria de trazer alguma notícia alvissareira, mas não encontro.

Nossa data maior resume-se hoje a uma partida de pingue-pingue surreal. Uma vez, é o capitão avacalhando a festa ao conclamar seus discípulos à derrubada do regime. Outra vez, é Luiz Inácio, todo sorrisos, soltando palavreado manso e sem energia, num discurso pronunciado de véspera.

Se encontrar ânimo, volto outra hora pra dar explicações sobre meu artigo de ontem (Ministros do Supremo), que acredito não ter sido compreendido por todos.

Por enquanto, bom feriado aos distintos leitores e às encantadoras leitoras!

Ministros do Supremo

José Horta Manzano

Suponho que todo país democrático, como o nosso, conte com uma corte suprema. Em certas repúblicas, a magistratura suprema é exercidas por duas diferentes instituições.

Na França, por exemplo, a única atribuição da Corte Constitucional é certificar a constitucionalidade (ou não) das leis feitas pelos parlamentares. Em caso de controvérsia, é essa Corte que dá a palavra final.

Em paralelo, há também a Corte de Cassação, que corresponde a nosso tribunal de terceira instância. Na França, sua função não é julgar processos. A primeira e a segunda instâncias são as que julgam. Esta terceira instância, se for provocada, analisa o processo e dá sua aprovação à decisão tomada na instância inferior ou, se for o caso, cassa a decisão da segunda instância – daí o nome de Corte de Cassação. Nesse caso, o processo dá um passo atrás e faz o caminho de volta para ser de novo julgado.

No Brasil, uma mesma instituição – o Supremo Tribunal Federal – exerce as duas funções: corte constitucional e última instância judicial. Com a particularidade de não somente cassar decisões anteriores, mas também, em casos específicos, de agir como tribunal comum e julgar processos.

Nosso sistema não é melhor nem pior que o dos outros, com a ressalva de que essa dupla função representa enorme volume de trabalho para os ministros. Espero (e acredito) que eles estejam sendo bem assessorados.

Nos países com os quais tenho contacto mais chegado (Europa ocidental), não me lembro de ter visto ou ouvido algum membro de corte suprema se pronunciar em público ou dar entrevista. Em geral, a população sequer conhece o nome dos componentes do colegiado.

Já no Brasil, não sei por que razão, todos conhecem os 11 ministros do Supremo, com nome, sobrenome, idade, estado de origem, situação familiar, salário. Também, pudera: dia sim, outro também, os magistrados aparecem na mídia. Dão entrevista, arriscam palpite em assuntos delicados, parecem adorar um palco iluminado. É curioso.

Lula fez hoje um pronunciamento em que abordou o assunto da discrição dos ministros do STF. O presidente gostaria que os votos de cada magistrado fosse emitido discretamente, sem anúncio público, o que evitaria espetáculos selvagens como torcida, apostas, apupos, insultos por rede social.

Olhe, quem me lê sabe que não costumo concordar com Luiz Inácio. No entanto, exceções às vezes acontecem: estou perfeitamente de acordo com ele nessa matéria.

Depois de anos de estrelato por parte de ministros do STF, a população está desorientada. Imagina que o normal seja esse: aplaudir o Ministro X em avião ou agredir o Ministro Y no aeroporto.

É complicado dar ordens a Suas Excelências. Assim mesmo, os gênios da comunicação que se encarregam de propaganda institucional deveriam ser convocados para porem mãos à obra. O povo brasileiro tem de entender que o STF funciona em sistema de colegiado, ou seja, o que conta é o voto final. Como votou cada ministro individualmente é ponto irrelevante, que deveria ficar entre quatro paredes. Não sei se isso pode ser feito sem ferir a Constituição.

Artista de palco, de show e de streaming é uma coisa; ministro do STF é outra. As duas carreiras não se confundem. Precisamos devolver a serenidade ao debate nacional, e isso começa com a discrição de Suas Excelências.

Que Lula anote bem o elogio. Que não se acostume porque é raridade.

Se livrar do dólar?

José Horta Manzano

Mês de abril passado, em visita a Pequim, Luiz Inácio entrou no palco pisando duro. O estilo era pra ser “O Brasil está de volta”, mas os modos estouvados estavam mais pra elefante em loja de porcelana.

Num dado momento, exibiu seu ar mais ingênuo e lançou ao ar uma pergunta retórica que o fez parecer um adolescente que começa a descobrir como o mundo funciona mas ainda não entendeu bem.


“Toda noite me pergunto por que todos os países estão obrigados a fazer o seu comércio em dólar? Quem decidiu que é o dólar a moeda depois que desapareceu o ouro como paridade?”


Com certeza, a candura de Lula é fingida. Não dá pra acreditar que, depois de ter presidido “essepaiz” por quase 9 anos, ele ainda não tenha entendido os passos básicos do balé das trocas internacionais.

Ele deve saber que ninguém “decidiu” que a moeda das transações internacionais seria o dólar americano. Para funcionar, certas coisas não carecem de leis ou de regras. Funcionam da maneira que satisfaz aos usuários.

E assim continua enquanto os atores estão satisfeitos. A partir do momento em que as condições deixam de satisfazer ao distinto público, tendem a ser modificadas.

Desde o final da década de 1960, o dólar está ocupando o lugar de principal moeda nas trocas internacionais. No passado, franco francês e libra esterlina já tinham sido moedas de referência. Apesar dos 50 anos decorridos desde que o dólar passou a ser referência, a erosão vem sendo muito lenta. Metade das transações mundiais continuam sendo feitas em moeda americana.

Por seu lado, 59% das reservas internacionais que praticamente todos os países possuem está garantida em dólares. Essa porcentagem tem baixado – 25 anos atrás eram 71% – mas a moeda americana continua resistindo. Atualmente, a segunda moeda que abriga reservas internacionais é o euro, que responde por apenas 20% dos depósitos.

Indagado, Monsieur Julien Vercueil, professor de Economia no Instituto Inalco (França) considera que “Apesar dos inconvenientes, o dólar constitui hoje a melhor opção, para a maioria dos operadores, de quitar suas transações internacionais. E, para os bancos centrais, de investir suas reservas internacionais.” E isso dura há meio século.

Mas, enfim, o dólar vai exercer para sempre o papel de moeda de referência nas compensações internacionais?

A situação atual certamente não é eterna, que tudo tem um fim. Um dia, o dólar perderá sua força e será aos poucos substituído por outra(s) moeda(s). Só que isso não vai ocorrer “porque o Lula quer”. Será realidade no dia em que a maioria dos operadores se sentir desconfortável e decidir mudar de quitanda.

Assim como ninguém impôs o dólar, difícil será expulsá-lo das trocas internacionais.

A dinastia Bongo

Foto de 1973 mostra Omar Bongo e esposa em visita à rainha da Holanda e ao príncipe consorte.

José Horta Manzano

Em 2004, no segundo ano de seu primeiro mandato, Lula da Silva viajou muito. Estava a-do-ran-do andar de avião presidencial, ser recebido com honras de chefe de Estado, visitar palácios e comer do bom e do melhor. Cá entre nós: quem não adoraria?

Deslumbrado, falava pelos cotovelos, dava suas impressões a torto e a direito e revelava seus desejos mais recônditos ao primeiro jornalista que aparecesse. Um belo dia, indagado sobre sua viagem ao Gabão (país da África equatorial, vizinho da Guiné, de Camarões e do Congo-Kinshasa) soltou a bravata: “Fui ao Gabão aprender como se fica 37 anos no poder”. (*)

As palavras sempre têm um fundo de verdade (“onde tem fumaça, tem fogo”). Por trás da fanfarronada, devia estar um desejo oculto de repetir, no Brasil, a façanha de Omar Bongo, o colega gabonês. Para sua própria sorte (e nossa também), Luiz Inácio não aprendeu a lição do ditador.

Recentemente tivemos na Presidência um indivíduo que, envolto na névoa das mentiras criadas por ele mesmo, tentou subverter a ordem e enveredar pelo caminho pedregoso e incerto da autocracia. Não conseguiu, levou uma rasteira e quebrou a cara. Afinal, o Brasil não precisa de autocrata e, ainda que precisasse, o escolhido jamais seria esse estropício falastrão.

Mas voltemos ao Gabão. O ditador que Lula visitou era o primeiro da dinastia. Chamava-se Omar Bongo. Tinha assumido o poder em 1967, seu caminho cruzou o de Lula em 2004, e faleceu em 2009, depois de 42 anos no poder. Sempre houve eleições para renovar seu mandato. Os resultados eram soviéticos: Bongo venceu sempre com pelo menos 90% dos votos, coisa do outro mundo.

Em 2009, morto e enterrado o patriarca, um dos filhos se apresentou como candidato a suceder ao pai. Herdeiro era o que não faltava: Omar Bongo tinha 52 filhos reconhecidos oficialmente! Com eleições fraudulentas e um sistema viciado, o filho Ali Bongo ganhou com folga. E o sistema continuou tranquilo nos mesmos moldes de antes. Uma dinastia estava instaurada.

Só que tudo tem um fim. Quarta-feira passada, os programas de rádio e televisão do Gabão foram subitamente interrompidos. Entrou no ar o anúncio solene feito por uma junta militar: “Ali Bongo está deposto. O agora ex-presidente está em prisão domiciliar, recebendo bons tratos, mas definitivamente afastado do poder”. A presidência do pai somada à do filho dá um total de 56 anos – mais que o longo reinado de D. Pedro II.

O Gabão é um dos países mais ricos da África em PIB por habitante. Extrai petróleo, gás natural, manganês, ferro, urânio. Os combustíveis fósseis representam oitenta porcento das exportações. Um nível tão elevado de PIB deveria indicar um país de população rica, bem de vida e próspera. No entanto, não é exatamente assim. Os habitantes são muito pobres porque, durante décadas, essa dinheirama vem sendo desviada pela corrupção.

As elites do país, irrigadas por esse dinheiro fácil, apoiaram e sustentaram a dinastia dos Bongo. Desconheço o estopim da revolta militar que depôs o presidente, acredito que tenha havido dissensões no interior da corporação.

Os membros da extensa família do ditador podem até estar sendo bem tratados, mas não vão escapar à justiça francesa. De fato, a riqueza da família, só contando o patrimônio em território francês, é calculada em 85 milhões de euros (420 milhões de reais). São 33 propriedades de luxo na região parisiense mais 11 na Côte d’Azur.

O MP francês acredita que esse patrimônio tenha sido adquirido fraudulentamente, fruto de desvio de dinheiro público e de corrupção das sociedades petroleiras. Nove dos 52 filhos do patriarca da dinastia já são réus na justiça francesa por esses crimes. É mais que provável que os imóveis serão confiscados e devolvidos ao Gabão no dia em que o país virar democracia.

O mundo está ficando pequeno e, de certa forma, mais transparente. Se, anos atrás, era viável esconder algum objeto ou algum malfeito, hoje vai ficando mais difícil. Os métodos modernos de vigiar a população têm efeito dissuasivo.

Se não dá pra esconder nem uns dólares na cueca, como é que alguém haveria de esconder dezenas de apartamentos em Paris ou…  joias de  ouro cravejadas de diamantes?

(*) Em 2016 escrevi um artigo sobre o Gabão. Clique aqui.

Beijo na boca

O Globo online

José Horta Manzano

Esse señor que, em pleno estádio, diante das câmeras do mundo inteiro, tascou um beijo na boca da capitã da Selección española de fútbol parece estar chegando direto do planeta Marte.

Nós outros, que nunca tiramos os pés deste vale de lágrimas, já adotamos a nova realidade que nos foi incutida a partir de 2017. O mundo despertou naquele ano com a explosão do caso Harvey Weinstein, produtor de cinema americano e voraz predador sexual.

Desde essa época, todos entenderam que não se podia mais tratar a mulher como simples objeto manipulável. Parece incrível, mas tínhamos adentrado o terceiro milênio com uma visão arcaica do sutil equilíbrio entre os sexos. O caso #MeToo deu lugar a reações tão marcantes e universais, que acabou pondo as coisas em pratos limpos.

“Só um sim é um sim” – é uma das palavras de ordem. Todos entenderam, menos o cartola espanhol. Ao roubar um beijo na boca, fez o que não devia. Pra piorar, instado a pedir demissão da presidência da Real Federación Española de Fútbol, deu uma de marrudinho e bradou: “No voy a demitir!”. E repetiu: “No voy a demitir!”.

O resultado veio rápido: seu afastamento forçado por ordem da Fifa, a federaçâo que congrega todas as entidades nacionais de futebol. Resta a esse senhor voltar para seu planeta e se esconder nalguma caverna marciana. No espremer dos limões, não se demitiu, foi demitido.

Vamos agora à informação que O Globo online nos traz. Estou me referindo ao texto reproduzido na entrada deste post. Lá pela quinta linha, o autor nos diz que ele “dá um beijo na boca dela.

No tempo em que professor ensinava e aluno aprendia, todos sabiam que precisa tomar cuidado para evitar encontros de palavras que produzam sons estranhos ou desagradáveis. Palavrão não é, mas convenhamos que, entre o beijo e a moça, surgir de repente uma “cadela” não tem nada a ver.

“É dez reais por cada dúzia, freguesa!”. Não está no artigo do jornal, mas vale lembrar que esse é outro encontro de palavras que produz cacófato. De repente, no meio da mercadoria, aparece uma “porcada”.

Continuando a leitura do trecho d’O Globo, noto uma inadequação vocabular. O autor diz que o dirigente “se pendura” na jogadora enquanto lhe dá um abraço. Pendurar-se é outra coisa. Roupa pendurada no varal, por exemplo, fica sempre presa por cima enquanto se espicha pra baixo. Não é o que se vê na foto. Repare bem. O dirigente se agarra na jogadora e dá um salto. Ou, se preferir, ele se apoia na jogadora pra dar um salto.

Depois da grita que se alevantou e deu volta à Terra, tenho cá pra mim que hão de se passar décadas até que outra vez um dirigente esportivo ouse beijar na boca uma jogadora.

Paz familiar

O Globo

José Horta Manzano

Se eu disser que Bolsonaro era (e acho que ainda é) vulgar e desbocado, não será nenhum furo de reportagem. É de conhecimento de todos, até mesmo do mais carola de seus eleitores – fato, aliás, incompreensível.

Sempre me perguntei de onde vem esse vício de rechear a conversa com palavrões e palavras de baixo calão. Será porque aprendeu dentro de casa, desde pequeno, ouvindo conversas entre pai e mãe? Será que se viciou fora de casa, junto aos colegas de serviço ou de farda? Não tenho a resposta.

Mas de uma coisa se pode ter certeza: naquela família, nos diálogos entre pai e filhos, a argumentação se exprime através daquele palavreado que, mesmo num botequim, seria bom pronunciar à meia voz.

É o jornalista Lauro Jardim quem dá a informação. Corria o ano de 2017. Bolsonaro era então deputado assim como o filho zero três (o “Bananinha” – carinhoso apelido que lhe conferiu, involuntariamente, o general Mourão).

A cena se passa no plenário da Câmara. Bolsonaro pai assistia à sessão, mas o Bananinha, pelo teor da conversa, parece estar no exterior. Não se sabe fazendo o quê. Pela carraspana pespegada pelo pai, boa coisa não era. Os deputados se preparavam para eleger o presidente da Casa.

Um fotógrafo flagrou a tela do celular de Bolsonaro e imortalizou o trecho de conversa que corria entre o pai e o n° 03. O “Renan” que aparece na conversa é o filho n° 04, meio-irmão do n°03.

Advertência: A partir daqui, espíritos sensíveis devem se abster de continuar a leitura.

Bolsonaro pai
“Papel de filho da puta que você está fazendo comigo. Tens moral para falar do Renan? Irresponsável. Mais ainda, compre merdas por aí. Não vou te visitar na Papuda. Se a imprensa te descobrir aí, e o que está fazendo, vão comer seu fígado e o meu. Retorne imediatamente”.

Filho n° 03 (o “Bananinha”)
“Quer me dar esporro tudo bem. Vacilo foi meu. Achei que a eleição só fosse semana que vem. Me comparar com o merda do seu filho, calma lá.”

Taí uma tocante mostra de puro amor paterno e filial, não é mesmo?

Vale o ditado: “Família que se insulta unida permanece unida”. E pode até terminar na Papuda. Unida.

Esse episódio revela que, mesmo antes de chegar à Presidência, o capitão já temia passar uns tempos na Papuda. Na época, só ele sabia por quê. Hoje sabemos todos.

Coincidências

Folha de S. Paulo

José Horta Manzano

Não é montagem não. As duas chamadas saíram assim no jornal, no mesmo dia, empilhadas, de tamanho igual. Cada um dos dois “entregou” à sua moda: um entregou fichas de banco, o outro foi fichado e… se entregou.

Gente fina é assim
Unidos até o fim.

Do you speak English?

José Horta Manzano

Artigo publicado no Correio Braziliense de 26 agosto 2023

Faz tempo que a era bolsonariana está nos acréscimos, mas parece que o juiz esqueceu de apitar o fim do jogo. Para quem imaginou que, virado o calendário para 2023 o capitão desceria do palco, o desagrado está sendo enjoativo. Apupado e alvejado por ovos e tomates, o capitão continua sob os holofotes. O espetáculo das joias traficadas é tão palpitante que está ofuscando outros fatos nacionais tão ou mais importantes que as vilezas bolsonáricas.

Muitos anos atrás, quando este blogueiro cumpria a escolaridade obrigatória, aprendíamos quatro línguas: Português, Inglês, Francês e Latim. O Português, língua oficial, tinha carga horária mais consistente. O Inglês e o Francês se justificavam por sua importância nas relações internacionais de então. Já o Latim contribuía para o aprendizado de nossa língua.

Nas décadas seguintes, o ensino de línguas foi seguidamente podado. Foi-se o Latim, foi-se o Francês. Só sobrou um inglesinho um tanto precário. Armou-se turbilhão vicioso e descendente: com a baixa de qualidade no ensino, professores receberam formação precária; uma vez formados, transmitiram o que tinham aprendido.

Com a chegada de Lula 3.0, certas distorções do governo anterior começam a ser desfeitas. Fora, escola militarizada! Fora, todos esses sinais que remetem à verticalidade de um mando único! Xô, aliciamento juvenil estilo Hitler-Jugend!

A nova bússola merece aplausos, só que o diabo se esconde nos detalhes. Sem alardeio, o Ministério da Educação anunciou seu plano geral. No capítulo línguas, o texto traz uma formulação sutil que tende a informar que o objetivo é acabar com o estudo do Inglês – a ser substituído pelo… Espanhol.

O pretexto é um malabarismo ensaboado: nosso país é cercado de vizinhos que falam espanhol. Seria argumento a considerar, não fosse enganoso. Como se sabe, desde o início do povoamento, lusos e castelhanos nunca se bicaram, e cada um viveu voltado para sua respectiva metrópole. Tirando zonas fronteiriças, é pequeno o contacto entre brasileiros e vizinhos. Quando há, o “portunhol” faz milagres. As relações entre vizinhos nunca se deixaram entravar pela barreira da língua.

O que o governo não diz é que, atrás da proposta de banir o inglês, está o velho ressentimento, herdado dos tempos da Guerra Fria, que manda lançar mão de qualquer artimanha para combater o imperialismo do malvado Tio Sam. O banimento do inglês está na mesma linha que a proposta de Luiz Inácio de substituir o dólar por qualquer outra moeda no comércio internacional.

O que Lula não percebe é que ele se meteu numa luta assimétrica. A luta pela substituição do dólar por outra moeda é combate de estilingue contra tanque de guerra. Nas trocas internacionais, o peso do Brasil é pequeno. Toda agitação lulopetista nesse campo será esforço desperdiçado.

No ensino, substituir o Inglês pelo Espanhol só prejudicará os brasileirinhos. No exterior, com o inglês, o brasileiro poderá se virar em qualquer lugar do mundo. Unicamente com o espanhol, não irá muito longe.

Na internet, então, o domínio da língua inglesa é acachapante. Estatísticas deste mês, que levam em consideração os 10 milhões de sites mais consultados, informam que mais da metade deles são escritos em inglês. São exatamente 53,6% enquanto o espanhol se contenta com 5,3%. Isso corresponde a uma página em espanhol para dez em inglês. Não há ressentimento lulopetista que possa alterar essa realidade. Para pesquisa, informação, estudo ou diversão, o consulente terá 10 vezes mais chance de ser bem servido em inglês do que em espanhol.

O inglês se tornou de facto a língua franca planetária. Quem quiser se comunicar com um fornecedor (ou um cliente) da Europa, da Ásia, da África ou da Oceânia terá obrigatoriamente de fazê-lo em inglês. Ou na língua local do correspondente, exercício complicado quando não se fala coreano ou vietnamita.

O espanhol dificilmente somará pontos no currículo, ao passo que o inglês é cada vez mais exigido. Profissões para as quais português antes bastava hoje exigem domínio ou bons conhecimentos de inglês.

Está na hora de a empoeirada doutrina lulopetista se sacudir. Será bom o governo entender que o que está em jogo não é a permanência ou não do Tio Sam no comando – o que se quer é formar brasileirinhos preparados para ter sucesso no mundo difícil e competitivo que os espera. Ainda dá tempo.

O desejo da dependência

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Há mais de cinco anos venho estudando e pensando em escrever sobre o tema da dependência, um tópico complexo por si só, já que se manifesta através de múltiplas formas: dependência química (drogas, álcool, comida, medicamentos), financeira, afetiva/emocional, de jogos de azar e de videogames e, mais recentemente, de gadgets eletrônicos, dentre outras.

Mesmo antes de começar, sabia da existência de centenas de estudos, que foram capazes de trazer à luz os mecanismos neuropsicológicos dessas compulsões. O princípio da dependência parece simples de entender: nosso cérebro está condicionado a repetir situações que causam prazer. Cada sensação prazerosa aciona um circuito cerebral de recompensa e libera uma carga de dopamina, o hormônio do prazer, que nos leva a querer experimentar de novo a sensação. A cada nova tentativa, todavia, o indivíduo vai se frustrando por não ser capaz de atingir a mesma intensidade de prazer da primeira experiência, não só porque os contextos são diferentes, mas também porque o organismo vai se adaptando à quantidade e à qualidade dos estímulos. Mesmo assim, ele se força a insistir na repetição, na esperança de que da próxima vez o resultado seja mais satisfatório.

Embora a explicação das neurociências me pareça necessária para produzir tratamentos mais eficazes, o que eu deduzia desse roteiro prazer-recompensa-repetição era que a dependência acaba se instalando na maior parte das vezes “por acidente”, sem que o indivíduo se dê conta desde o início de que está entrando numa cruzada cada vez mais asfixiante. E o que me motivava a persistir no estudo dos mecanismos psicológicos que levam à dependência era outra coisa: descobrir por quais motivos uma pessoa deseja conscientemente se tornar dependente de algo ou alguém.

Não sei se é porque, ao contrário de outros mamíferos, passamos por um longuíssimo período de maturação ou se a sensação de incompletude é característica inexoravelmente atrelada à condição humana. O fato é que muita gente sente a necessidade de ser tutelada por um guia, mestre ou provedor. Falo, por exemplo, de adultos que se recusam a abandonar a casa dos pais e também de cidadãos que buscam incansavelmente eleger líderes populistas autoritários que prometam abrir-lhes as portas da prosperidade e da felicidade eterna. Seja por medo de se expor a situações desconhecidas que possam causar descontrole ou pela comodidade que representa a terceirização de responsabilidades, a pessoa permanece presa a uma situação nem sempre agradável. Por quê? Baixa autoestima? Falta de autoconfiança? Limitação intelectual? Preguiça? Carência emocional? Distúrbios psiquiátricos?

Zygmunt Bauman tinha razão: se você deseja mais liberdade, tem de renunciar a um pouco de sua segurança e, se anseia por mais segurança, precisa ceder uma fatia de sua liberdade.

A autonomia sempre foi um valor sagrado para mim. Sou filha de uma mulher profundamente desapontada por não ter podido seguir uma carreira profissional fora do casamento e que resolveu jogar todas as suas fichas na criação de filhas autônomas, insubmissas às regras do patriarcado e da misoginia. Tomei como regras de ouro para minha vida a independência financeira, a busca de autoconhecimento para administrar melhor a solidão e a vontade de me autoafirmar no plano social apenas por meus méritos pessoais.

Apesar de tudo isso, recentemente enfrentei um surto inexplicável do desejo de dependência. Comecei a me ressentir da falta de interlocução com outras pessoas que me ajudassem a relativizar crenças e visões de mundo. Depois da aposentadoria e do trabalho em home office que passei a fazer, fui me isolando cada vez mais e abrindo mão de antigos prazeres, em função dos baixos rendimentos recebidos. Minhas únicas fontes de prazer diário passaram a ser minhas duas cachorras. Ultimamente, entretanto, eu já vinha notando um certo desgaste na relação com elas. Percebia que passava mais tempo recriminando suas peraltices do que interagindo com elas em brincadeiras e que os passeios diários estavam se tornando uma obrigação, mais do que um prazer. Secretamente desejava contar com a ajuda de um adestrador e de um passeador para não ter que lidar com esses sentimentos negativos.

Outra coisa de que me ressentia era da falta de variedade, sabor e valor nutricional das minhas refeições. Como nunca me interessei em desenvolver talento culinário e enfrentava restrições alimentares por ser diabética e vegetariana, via-me forçada a engolir sem nenhum prazer a gororoba básica de sempre. Sonhava em me sentar à mesa e ter à disposição, já prontos, pratos mais elaborados e “pecaminosos”, sem ter de sofrer para compor o cardápio do dia.

O surto se agravava mais ainda com questões relacionadas à vontade de mudança de profissão e à necessidade de encontrar um trabalho que me rendesse mais dinheiro para fazer frente a todas essas demandas. Em resumo, eu estava cansada de cuidar de mim mesma. Mesmo que não o admitisse racionalmente, sentia que precisava de colo e tempo livre para recuperar velhos prazeres abandonados. Foi quando uma desastrada queda me propiciou as condições necessárias para questionar o estranho desejo de renunciar a uma parte da minha autonomia.

Fui derrubada e arrastada por minhas cachorras, que se assustaram durante um passeio. Fraturei o úmero e tive uma fissura no quadril. Resultado: um mês inteiro sem poder andar e dois meses com o braço esquerdo na tipoia (sou canhota), o que significava não poder voltar a morar sozinha nem dar andamento a meu trabalho de tradutora. Ainda pior, tinha de aceitar me desfazer da tutela das cachorras por um longo período ou talvez para sempre. Fui acolhida na casa de uma irmã, que é ótima cozinheira e me mimava todos os dias com pratos especiais; ao mesmo tempo, as cachorras foram abrigadas na casa de um sobrinho, onde parecem estar mais felizes por poderem brincar com outros cachorros e circular sem guia ao ar livre na hora que quiserem.

Passei dois meses totalmente alienada dos eventos do mundo exterior, sem sair à rua, ler jornais, assistir televisão e sem redes sociais. O ensimesmamento não me trouxe nenhum benefício. Ao contrário, vi desfilarem diante dos olhos da minha mente todos os meus defeitos de caráter, minhas hipocrisias, culpas e conflitos interiores. Tive de encarar uma mudança radical de hábitos, como horário de acordar, dormir e comer, e acima de tudo passei a precisar de autorização para fumar. Enfrentei crises infantis de birra do tipo ‘você não manda em mim’ e ataques de rebeldia juvenil do tipo ‘se eu não posso ter o que quero, então não quero mais nada’. Fosse como fosse, eu tinha de admitir: meus desejos secretos estavam milagrosamente se realizando.

Hoje, já de volta à minha casa, mas ainda lambendo as feridas de corpo e alma, sinto ter me transformado numa mistura perfeita de ceticismo e cinismo. Já não acredito na possibilidade de recomeço nem na identificação de outros propósitos de vida. Sei que perdi um dos pilares fundamentais da minha identidade – que era a curiosidade de comparar instintos animais com comportamentos estereotipados humanos.

As únicas lições que tirei desse período de trevas foram:

• que a necessidade é mãe da invenção,

• que não há escolhas sem consequências,

• que é preciso equilibrar o olhar para fora e o olhar para dentro.

E, finalmente, que a resposta para um psiquismo saudável está, como sempre, em seguir o caminho do meio: nem se pretender independente de tudo e de todos, nem se resignar a engolir em seco as regras ditadas por terceiros.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Monte Branco

José Horta Manzano

Todos os dias, faça o tempo que fizer, o Serviço Nacional de Meteorologia da Suíça manda aos ares sondas meteorológicas. São balões cativos (presos à terra), soltos a partir de um aeroporto militar, que sobem por ação de um gás mais leve que o ar (hélio ou hidrogênio). A função deles é medir pressão, umidade, temperatura, vento e outros parâmetros meteorológicos. Essa rotina teve início em 1954, há quase 70 anos, e continua sendo metodicamente cumprida duas vezes por dia.

Para os não-iniciados, o isoterma do zero grau pode não ter significado preciso. Vamos lá. Sabe-se que a temperatura da atmosfera diminui à medida que se sobe. A velocidade desse resfriamento varia entre meio grau e um grau (centígrado) a cada 100 metros de subida. Se o tempo estiver mais seco, a diminuição de temperatura é mais rápida. Se estiver mais úmido, será preciso subir até 200 metros para perder um grau.

Uma marca importante para os meteorologistas é o isoterma do zero grau, ou seja, a que altitude a temperatura do ar encosta no zero grau. Na Suíça, esse ponto costuma se situar numa altitude de 2000m – 3000m no inverno e de 3000m – 4500m no verão.

Se faltasse uma prova do rápido aquecimento global, aqui está ela: o isoterma do zero grau está situado cada vez mais alto. Se, dez ou vinte anos atrás, nos dias muito quentes, bastava subir 4500m para o termômetro bater no zero, agora precisa subir mais.

Na noite de domingo para segunda-feira última (21 de agosto), foi batido o recorde de altitude do isoterma do zero grau. A sonda o encontrou a exatos 5.298 metros, numa altitude mais elevada que o Monte Branco, o pico culminante dos Alpes! Nunca antes essa marca havia sido registrada.

Só para entender o que se passa, imagine que o isoterma se fixasse nessa altura. O resultado seria que, em pouco tempo, os Alpes inteiros (incluindo o Monte Branco) perderiam seu manto de neves eternas. E o nome do pico (Branco) não faria mais sentido.

A coisa é muito séria e o fenômeno se precipita. O aquecimento que se esperava para o ano 2050 está acontecendo agora. Dá pena pensar no apuro das novas gerações, que vão viver num planeta bem mais problemático do que aquele que conhecemos.

Enquanto isso, um Luiz Inácio mais preocupado com a promoção pessoal que com os brasileirinhos do futuro continua firme na intenção de furar poços de petróleo. Na Amazônia, ainda por cima.

Valha-nos, São Benedito!

Vegetais de folhas verdes

O Globo, 21 ago 2023

José Horta Manzano

Saiu n’O Globo de hoje um primor de artigo. Ele promete revelar os alimentos milagrosos para controlar o colesterol. “Oba, vamos dar uma olhada” – pensei.

De fato, o longo texto trazia diversos subtítulos, um para cada categoria de alimento. Entre eles, o subcapítulo dos “Vegetais de folhas verdes”. Achei esquisito.

Por mais que eu me esforce, não me vem à cabeça nenhum vegetal comestível com folhas de outra cor. Não me lembro de ter comido planta de folha azul, roxa, cor-de-rosa. Foram sempre de folhas verdes.

Depois de ler o capítulo inteiro, desconfiei que a novilinguesca expressão “vegetais de folhas verdes” é provável tradução canhestra de alguma expressão inglesa.

Talvez soe natural a ouvidos modernos; a mim, não. Ainda sou do tempo em que “vegetais de folhas verdes” se chamavam verduras.

Pra regular o colesterol, prefira o original.


Naqueles que comem verdura, a saúde perdura.


Fico imaginando a mãe de Joãozinho chamando para o almoço. “Vem almoçar, filho, preparei um ensopado de “vegetais de folhas verdes” que está uma delícia!”

Será?

Caça às palavras versão Beta

José Horta Manzano

A briga é antiga. Cochila sossegada por anos até que, de repente, desperta de sobressalto, assim que algum esperto decide redescobrir o trovão e reinventar a pólvora.

O episódio que vou narrar se desenrolou no início da década de 1960. Naquela época, gramáticas e dicionários assinados pela equipe de Francisco da Silveira Bueno (1898-1989) eram adotados nas escolas oficiais. O Silveira Bueno foi precursor do Houaiss e do Aurélio.

Em meados de 1961, por iniciativa de um advogado carioca influente junto ao governo federal, uma comissão foi nomeada especialmente para avaliar a ‘perniciosidade’ de manter no dicionário Silveira Bueno certos vocábulos julgados ofensivos.

Os tempos eram outros. As preocupações não eram as de hoje. Ninguém podia prever, por exemplo, que um dia existiria a sigla LGBT e as preocupações que a acompanham. A ênfase não era posta em assuntos sexuais, como hoje. Aliás, pouco se falava de sexo, que não era assunto de salão. Ainda que, à boca pequena, se cochichassem comentários sobre certos comportamentos sexuais fora dos padrões, oficialmente dava-se de barato que todos se conformavam com a norma, sem rebeldia nem fantasia. A briga com os dicionários era de outra natureza.

Os verbetes incriminados, aqueles que podiam perturbar a “mente inocente” dos jovens que consultavam a obra, eram: judeu, judiar, negro, favela, panamá, jesuíta.

Na época, a palavra judeu era polissêmica, ou seja, tinha mais de um significado. Além de designar a religião ou a etnia, também designava um usurário, avarento, negocista – acepção pouco usual nos dias de hoje. O verbo judiar, embora bastante utilizado na linguagem de todos os dias, lembrava os maus tratos infligidos aos judeus nos tempos sombrios da Santa Inquisição.

Negro sempre simbolizou coisa infeliz, como hora negra, sorte negra, nuvens negras, sentimentos negros. A proposição da comissão era eliminar(!) do dicionário a palavra negro e substituí-la por preto. Mas os tempos mudam, senhores! Fosse hoje, a discussão talvez viesse com sinais invertidos. É que, meio século atrás, chamar alguém de “negro” podia ser tomado como xingamento pesado. O certo era dizer preto. Veja como as coisas mudam.

Favela, que também tinha a acepção de “lugar de malandros e vagabundos”, deveria ser cortada do dicionário. Panamá como sinônimo de negócio podre era outra a banir. (Essa acepção se referia à Cia. do Canal do Panamá, que faliu estrepitosamente no fim do século XIX, fato hoje caído em completo esquecimento.)

Havia mais. A comissão implicou ainda com o verbete jesuíta. (Francamente, parece que tinham fixação com religião.) De fato, entre os significados do termo, dicionários mencionavam (e ainda mencionam) finório, astuto. Segundo a comissão, a palavra podia até ficar, mas essa menção tinha de desaparecer.

Pra encurtar, não deu em nada. O presidente Jânio Quadros renunciou ao cargo poucas semanas depois, e, da comissão, ninguém mais ouviu falar. A um repórter, Silveira Bueno, o “dono” do dicionário, afirmou que, de qualquer maneira, os verbetes não seriam retirados em hipótese nenhuma. O futuro confirmou a afirmação. Estão todos lá, alguns em morte cerebral, mas de coração batendo.

São os falantes que fazem a língua, não os dicionários. Acusar o “pai dos burros” é caminho equivocado. Seria como se um internauta, desagradado com os spams que recebe, quebrasse a tela do computador. Não veria mais nada, mas as mensagens indesejáveis continuariam a se acumular em sua conta email.

Encobrir a realidade é perda de tempo e de esforço, que ela sempre acaba aparecendo. Você a expulsa pela porta, ela volta pela janela.

Igualdade de gênero antes da hora

José Horta Manzano

Nos países da Europa central, a tradição manda dar ao filho unicamente o sobrenome paterno. Durante séculos, desde que nomes de família começaram a ser atribuídos, lá pelo século 13 ou 14, é o que se costuma fazer.

Mas os tempos mudam. A tendência do “politicamente correto” e da “igualdade de sexo” (ou de gênero) impõe certas modificações. Um a um, países em que a atribuição unicamente do nome paterno era a regra vão se adaptando aos novos tempos. Atualmente, Alemanha, França, Suíça e numerosos outros países já relativizaram o rígido sistema que vigorou por séculos.

Na maior parte desses países, já é permitida a escolha entre nomear o recém-nascido unicamente com o sobrenome do pai, unicamente com o da mãe, ou ainda dar-lhe os dois sobrenomes, na ordem desejada pelos pais. Em geral, em caso de pais casados, a decisão é tomada quando nasce o primeiro filho. Feita essa escolha, os filhos(as) seguintes terão de receber o(s) mesmo(s) nome(s), na mesma ordem. É o caso da lei alemã, por exemplo.

Na Itália, até outro dia, era inconcebível alguém levar o sobrenome da mãe – exceto no caso de o pai ser desconhecido. Isso começou a mudar. Faz alguns meses, a Corte Constitucional deu um parecer pouco habitual: mostrou-se favorável à adaptação da Itália aos novos tempos.

Considerou que o costume de dar automaticamente ao recém-nascido o sobrenome paterno, deixando o materno de lado, é “discriminatório e prejudicial à identidade” da criança. Acrescentou que os pais deveriam ser autorizados a escolher o sobrenome da criança. A Corte vê com bons olhos a atribuição, aos futuros cidadãos, de sobrenome formado pelo do pai acoplado ao da mãe, na ordem que o casal preferir. Naturalmente, os pais estão livres de decidir dar apenas um dos sobrenomes, o do pai ou o da mãe.

É interessante que o costume ibérico, que prevalece na Espanha e em Portugal (e que nós herdamos) é uma moda politicamente correta de vanguarda, estabelecida muito antes das imposições atuais. De fato, na Península Ibérica, faz séculos que pai e mãe são tratados com isonomia. (Pelo menos, no momento de dar nome aos filhos.)

A pequena diferença entre os dois países é que os espanhóis colocam o sobrenome paterno primeiro, enquanto os portugueses põem o nome do pai no fim.

Na Espanha, a tradição costuma ser rigorosamente seguida; praticamente todos os espanhóis têm o sobrenome do pai primeiro, e o da mãe em seguida. É por isso que, em sobrenomes dados segundo a norma espanhola, a abreviação do nome de um indivíduo nos parece curiosa. Por exemplo, temos Fidel Castro R., em que o R. corresponde a Ruz, sobrenome materno do pranteado ditador cubano.

Em Portugal, a tradição é respeitada até hoje. Praticamente todos os portugueses têm dois sobrenomes, sendo primeiro o da mãe, em seguida o do pai. Já no Brasil, um pouco por influência das correntes migratórias de um século atrás, um pouco por desconhecimento ou por indisciplina mesmo, a regra lusa nem sempre é seguida, dando lugar a certa cacofonia.

Há brasileiros que têm os dois sobrenomes, bonitinho, na ordem certa. Há os que têm só o do pai. Há ainda cidadãos que carregam três, quatro ou mais sobrenomes, como se fossem de linhagem nobre. Sabe-se até de irmãos, filhos do mesmo pai e da mesma mãe, que têm sobrenomes diferentes.

São coisas nossas.

Minha casa, minha vida

José Horta Manzano

Durante a gestão bolsonárica, o programa de habitação popular “Minha Casa Minha Vida” esteve em hibernação. Estender a mão a quem precisa não era realmente o forte do capitão.

Lula, desde o começo do mandato versão 3.0, prometeu retomar os programas sociais que tinham dormitado por quatro anos – e que são primordiais para quem realmente precisa. Embora tenha vivido, nas últimas décadas, bem acima da carne seca, Luiz Inácio ainda se lembra da infância difícil, quando tudo faltava.

Nunca vi pessoalmente uma implantação do Minha Casa Minha Vida mas já vi fotografias. Que tristeza, minha gente! Aquelas fileiras de casas alinhadas como soldadinhos de chumbo de batalha napoleônica compõem um quadro desanimador.

As casas são todas desesperadamente idênticas. Os terrenos (se é que aquelas minúsculas parcelas podem ser chamadas de “terrenos”) têm rigorosamente a mesma metragem. Até a pintura das casinhas é de um deprimente tom branco sujo. Sujo e uniforme. Não se vê, em todo o loteamento, um arbusto, nem unzinho. Nem grama. Nem um matinho. A impressão é de que falta vida. Nem nossas roupas comuns dependuradas hão de dar jeito.

Acredito que, pra tirar esse aspecto borocoxô, três medidas simples e pouco onerosas deveriam ser tomadas.

Primeiro, que se pense em variar o colorido das casinhas. Basta escolher 5 ou 6 cores e alternar. Vai sumir esse aspecto de acampamento de refugiados.

Segundo, que se plantem árvores ou, pelo menos, arbustos antes de entregar as casas aos contemplados. Não precisa criar uma floresta (se bem que não faria mal), basta uma moita aqui, outra acolá. Com essas manchas de vegetação, o aspecto geral subiria alguns graus.

Terceiro, não é muito complicado acabar com esse aspecto de vila soviética, onde todas as casas são idênticas. Em vez de desenhar uma planta única, que os arquitetos façam o esforço de criar três ou quatro tipos de casa. Que conservem a metragem estipulada, mas que apliquem seu talento a modificar a disposição dos cômodos e os exteriores: uma janela deste lado, uma janela do outro lado, a porta de entrada aqui, a porta de entrada ali. E assim por diante. “Assim, vareia”, como diz o outro.

Não é só porque se destinam ao povão que esses loteamentos têm de ter aspecto de carregação. Vida de pobre já é triste o suficiente. Não vale a pena cultivar a desesperança.

Cúpula de Belém

José Horta Manzano

Abriu-se ontem em Belém uma reunião de cúpula, convocada por Lula, reunindo chefes de Estado dos países amazônicos. Respondem a essa qualificação os países cujo território inclui uma fração da floresta tropical. A mídia disse e repetiu que são oito os países amazônicos. Está errado, a conta não bate.

Na verdade verdadeira, os países amazônicos são nove. E por que razão todos falam de apenas oito? É porque a Guiana Francesa, território francês vizinho de parede de nosso Amapá, apesar de ter a totalidade de sua área coberta pela floresta amazônica, não enviou representantes de alto escalão.

Bem que Luiz Inácio convidou pessoalmente seu colega Emmanuel Macron (que, aliás, está de férias neste momento, descansando num forte pertencente à Marinha e situado na Côte d’Azur). Monsieur Macron não veio nem mandou nenhum de seus ministros. Preferiu enviar representantes de segundo escalão. E por quê?

Evidentemente, Paris não deu a verdadeira explicação, que a linguagem diplomática não permite. Nessas horas, apesar das férias de Macron, alega-se que há “problemas de agenda”. Aos observadores, resta especular. E não é difícil descobrir.

Em primeiríssimo lugar, Macron está profundamente desapontado com a atitude de Lula diante da guerra na Ucrânia. Paris imaginava que, mais vivido e experiente que seu antecessor, Lula tivesse facilidade de compreender a mecânica do mundo. Macron pensava que Lula entendesse que, nesse conflito, há um agressor e um agredido. A obstinação de Luiz Inácio em pôr os dois beligerantes no mesmo balaio e se recusar a condenar Putin pela agressão criou um ambiente de desconfiança e desagrado. Tendo sido um dos primeiros a apoiar Lula e parabenizá-lo pela vitória, Macron decepcionou-se com o apoio que Lula deu (e continua dando) a Putin. Em Paris, a atitude de Lula soou como traição.

Em segundo lugar – e essa foi a gota d’água – a França não foi convidada a participar da cúpula de Belém como país amazônico, mas como Estado associado. Em suma, como participante de segunda classe, daqueles que a gente convida de favor. Se o chefe de Estado francês tivesse vindo, teria sido percebido como uma espécie de penetra. Diante dessa condição inaceitável, Macron não veio.

Luiz Inácio fez mal em não prestigiar o colega francês. Não se deve maltratar gratuitamente os amigos, especialmente aqueles que te deram a mão num momento difícil. Além de mostrar mau-caratismo, o descaso pode custar caro e fechar portas.

O Brics

Da Folha de São Paulo

José Horta Manzano

O clube chamado Brics não passa de fantasia sem qualquer consistência. Esse acrônimo foi bolado vinte anos atrás por um economista do banco Goldman Sachs. O rapaz teve a ideia de enfileirar a letra inicial de cada um dos países que, segundo a bola de cristal daqueles tempos, dominariam a economia global por volta de 2050. Brasil, Russia, India, China. Deu: Bric. Anos mais tarde, talvez na intenção de incluir um país africano no elenco, foi acrescentada a África do Sul (South Africa) e o acrônimo virou Brics.

Como se vê, entraram na mesma sacola países que quase nada têm em comum além do fato de serem promessas para o futuro. A Rússia tem tanto a ver com a África do Sul quanto a China tem a ver com o Brasil. No fundo, a qualidade comum aos membros do clubinho é ter uma população importante, se bem que a África do Sul nem tanto.

Dirigentes do Brics se reúnem com certa frequência e tomam decisões de pouca relevância. A heterogeneidade dos membros é tão grande que até o nome do clube flutua no entendimento de cada um. Veja a imagem reproduzida no alto deste artigo: a própria Folha de SP, que costuma ser cuidadosa nos detalhes, hesita entre “os Brics” e “o Brics”.

É verdade que aquele “s” no final parece indicar plural. Mas é só impressão. Como Mercosul, Brics é um nome coletivo, não admite plural. Quem diz “os Brics se reúnem” deveria também dizer “os Mercossuis se reúnem”. Não se deixe impressionar pelo “s” final.  O Brics é suficiente, assim como o pires e o lápis.

A associação é atualmente composta por 5 países: Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul. Desses cinco, dois são ditaduras autoritárias (China e Rússia) e um está a caminho (Índia). Pior que isso: o ditador russo está na lista vermelha da Interpol com ordem de captura emitida pelo Tribunal Penal Internacional. Para ele, é temerário botar um pé fora de suas fronteiras.

A população da Índia é 25 vezes maior que a da África do Sul. O PIB da China, pelo conceito ppp, é 3 vezes maior que o da Índia, 7 vezes maior que o do Brasil ou da Rússia, 30 vezes maior que o da África do Sul. A assimetria econômica entre os membros é paralisante.

O distinto leitor e a encantadora leitora hão de convir que, com sócios díspares e sem um objetivo comum, a associação tem chances magras de prosperar. A continuar assim, vai acabar se tornando um agrupamento de países-súditos da China.

Caso o Brics aceite novos membros nos próximos anos, a ascendência chinesa sobre todos vai se tornar ainda mais evidente. O Brasil deveria combater vigorosamente toda expansão do clube.

Não sei se o lulopetismo já se deu conta de que o preço a pagar para levar seu antiamericanismo às últimas consequências é jogar-se nos braços da China. É bom que comecem a pensar nisso com urgência porque, sabendo ou não, é o que estão fazendo.

A sabedoria popular ensina que não se deve trocar o certo pelo duvidoso.