Excesso de precipitação

Carlos Brickmann (*)

O presidente Bolsonaro foi visitar as enchentes de Pernambuco e disse a verdade: que os dirigentes políticos são responsáveis pela tragédia provocada pelas chuvas.

Mas logo voltou ao normal: botou boa parte da culpa na população, “que poderia colaborar também, evitando construir suas residências em locais com excesso de precipitação”.

Ah, esses pobres! Insistem em construir em terrenos ruins. Como preferem comer ossos em vez de uma picanha de R$ 2 mil o quilo. Como fazem questão de morar em lugares sem infraestrutura.

Gente malvada, esses pobres: fazem isso de propósito para se fingir de vítimas e constranger as autoridades.

(*) Carlos Brickmann é jornalista, consultor de comunicação e colunista.

E eu com isso?

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Quando a polícia carioca, mesmo contra a determinação do STF, intensificou as operações contra o tráfico de drogas nas favelas que resultaram em dezenas de mortes de moradores e pessoas que não tinham nada com isso, fiquei chocada com a violência desmedida mas não protestei porque não moro no Rio de Janeiro nem em comunidades de morro.

Quando a polícia paulista introduziu desafiadoramente blindados e atiradores de elite nas recentes incursões na Cracolândia, fiquei aterrorizada com a possibilidade concreta de reação armada dos traficantes e consequente morte indiscriminada de passantes e moradores, mas segui em frente cuidando dos meus afazeres porque não sou viciada, nem tenho parentes e amigos nessa condição, e também não moro nas adjacências.

Quando a polícia rodoviária federal de Sergipe jogou gás de pimenta e gás lacrimogêneo dentro de uma viatura matando um esquizofrênico negro cujo único deslize era estar pilotando uma moto sem capacete, fiquei indignada com a inadmissível barbárie, mas acabei me distraindo com a necessidade de cuidar da minha própria sobrevivência: afinal, os preços dos alimentos estão pela hora da morte, os planos de saúde já são impagáveis e ninguém consegue encontrar estabilidade financeira, nem empregos mais bem remunerados.

Quando chuvas torrenciais ocasionaram centenas de mortes em diversos estados brasileiros, fiquei, é claro, entristecida diante de tanta dor e sofrimento, mas lembrei que isso é consequência inevitável do aquecimento do planeta – e que, portanto, resta muito pouco para nossas autoridades fazerem para evitar a repetição dessas tragédias. Além disso, não moro em área de risco e respeito o meio ambiente, fazendo coleta seletiva.

Quando bandidos disfarçados de entregadores de moto passaram a assaltar e, por vezes, matar pedestres desavisados para roubar seus celulares, comecei a me sentir um tanto insegura, mas logo espantei as sombras porque não uso celular em público e nunca ando sozinha à noite. É bem verdade que tenho irmãos, sobrinhos e amigos que se expõem a esse risco, mas sei que eles estão um pouco mais protegidos por não circularem em bairros de periferia e morarem/trabalharem em áreas onde há maior presença de forças de segurança.

Quando o número de casos de violência doméstica, feminicídio e pedofilia começou a crescer em função do confinamento na pandemia, roguei a Deus que ela terminasse o mais rápido possível e que nossas autoridades encontrassem algum jeito de serem mais efetivas no combate a esses males; mas não me incomodei tanto, uma vez que moro sozinha e não tenho filhos.

Em suma, sei e sinto que involuímos como sociedade, que a realidade brasileira adquiriu tons surreais e macabros e que não há perspectivas concretas de construirmos um futuro promissor para nossa pátria. No entanto, mesmo perplexa com tantas catástrofes, permaneço fiel a meus princípios democráticos: sou uma cidadã de bem, cumpridora dos meus deveres sociais, pago meus impostos regularmente, sou instruída, bem-informada politicamente, temente a Deus e não me meto na vida das pessoas. Se ao menos meus compatriotas entendessem que a cada ação corresponde uma reação, as coisas seriam muito mais fáceis de administrar, tenho certeza.

Sou a favor das liberdades individuais: cada um que cuide do seu próprio nariz e evite como puder colocar-se em situações de perigo e confronto social, racial, religioso, político e de classe.

E você?

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Talento de uns e de outros

Carlos Brickmann (*)

O talento de Musk
Elon Musk, que amealhou uma fortuna de mais de cem bilhões de dólares, é sem dúvida um gênio. E não apenas por ter criado, do nada, a Tesla, fabricante de cobiçados carros elétricos cujo valor em Bolsa supera hoje o da General Motors, da Toyota, da Volkswagen; não só por produzir foguetes espaciais e vendê-los para a Nasa. É um gênio por convencer o presidente da República de que pode fornecer internet à Amazônia via satélite, conectando à rede 19 mil escolas rurais e colaborando no monitoramento ambiental da região, sendo que sua empresa de internet, a Starlink, não cobre essa área e não tem satélites operando na órbita exigida.

Sua SpaceX pode lançar rapidamente esses satélites – mas estará ele disposto a investir nisso a poucos meses do fim do governo, sem saber se o presidente será mesmo reeleito?

O talento de Bolsonaro
Já Bolsonaro conseguiu convencer Elon Musk de que o monitoramento ambiental da Amazônia pode render um bom contrato. O problema do Brasil não é monitoramento, que é bem feito por gente ligada ao próprio Governo, em entidades como o INPE – Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais – ligado ao Ministério da Ciência e Tecnologia.

Para Bolsonaro, o monitoramento é uma dor de cabeça: mostra direitinho como caminha a devastação. E fica mal para o governo mostrar ao mundo esses dados de desmatamento ilegal.

(*) Carlos Brickmann é jornalista, consultor de comunicação e colunista.

A régua

Myrthes Suplicy Vieira (*)

 


“O homem é a medida de todas as coisas”

Protágoras


 

Bolsonaro ouviu o canto do galo do poder absolutista mas até hoje não descobriu de onde ele vem, nem que tipo de vocalização lhe seria necessária para reproduzi-lo com sucesso por aqui. Escutou o canto da sereia mas, acreditando que não passava de singela homenagem de seus seguidores fardados, desatou-se do mastro e jogou-se atabalhoadamente na água.

 

Freud e Paulo Freire
Tivesse algum dia se dado ao trabalho de esmiuçar o pensamento desse e de outros filósofos da antiguidade, saberia que tudo é relativo, inclusive e principalmente sua autoridade. Imediatista, megalomaníaco, voluntarista e incapaz de pensamento crítico, ele confunde alhos com bugalhos e costuma tomar a parte pelo todo – provavelmente entenderia a palavra homem como simples indicador de gênero. Acreditando ser ele próprio medida de tudo à sua volta, julga que o Brasil e o mundo deveriam se curvar à sua paralela noção de realidade, aos seus princípios morais (ou falta deles), às suas vontades e ambições.

Tivesse lido Freud alguma vez, saberia que seu psiquismo está fixado na fase de onipotência típica de Sua Majestade, o Bebê. Entenderia que nessa etapa primitiva do desenvolvimento psíquico não existe mundo fora dele e a mãe (pátria) é apenas um seio que jorra leite sempre que requisitado. Tudo leva a crer que, por circunstâncias familiares adversas (mãe omissa e pai castrador), Bolsonaro jamais superou a fase do narcisismo infantil e regride continuamente à ilusão de poder inquestionável sempre que se sente ameaçado por alguma autoridade externa.

Tivesse ido além do título do livro de Paulo Freire, compreenderia que “se a educação não é libertária, o sonho do oprimido é se tornar opressor”. Se educar é frustrar, como postulam os especialistas, ele nunca se deixou educar para a cidadania. Sua formação militar o ajudou a radicalizar a noção de que toda obediência tem de ser necessariamente cega, acrítica: afinal, soldados não são feitos para pensar. No entanto, num arroubo juvenil e ainda apostando em sua superior autoridade moral, achou um dia que poderia subverter o dogma supremo da hierarquia militar. A humilhação máxima que sofreu ao ser expulso do exército por transgressão marcou sua personalidade para todo o sempre.

 

A ferida narcísica
A profunda ferida narcísica que se abriu em seu peito e o ressentimento acumulado desde então tornaram-se a marca registrada de sua atuação no mundo político e transformaram o caráter de virilidade tóxica – compensatória de sua impotência – em marco distintivo do bolsonarismo. Dando sequência ao seu complexo de Édipo embutido e jamais resolvido, Bolsonaro e bolsonaristas continuam tentando a todo custo matar o Pai Supremo, simbolicamente representado pelo Judiciário e encarnado na figura de Alexandre de Moraes, antes que sejam eles próprios castrados.

Desde que assumiu o poder em 2019, ele se comporta literalmente como se tivesse comprado a fazenda Brasil de porteira fechada. Dono de todas as consciências, ele não se cansa de instituir como regra que a ninguém é dado enxergar o mundo com outras cores ou rebelar-se contra seus éditos, uma vez que “autorizado” por seu povo e seu exército.

 

O STF e a Constituição
Professor de Deus, ele vem dando aulas diárias de constitucionalidade aos ministros do Supremo. Exibe em tom ameaçador seu douto saber jurídico, abordando temas de alta relevância para a democracia e o estado de direito, afetos principalmente ao conceito de liberdade de expressão, mas se aventurando também em questões secundárias, como a demarcação e exploração de terras indígenas, os limites de ação da Petrobrás na determinação de preços e as exigências legais imprescindíveis para a realização de eleições limpas e auditáveis.

Pontifica livremente sobre critérios de inocência e culpabilidade de parlamentares e membros do seu governo, sobre liberdade de imprensa, sobre equilíbrio e autonomia dos três Poderes da República, sobre o “interesse público” da não-adoção de medidas que beneficiariam minorias e sobre tudo o que causa “legítima comoção” na população brasileira, como se ela estivesse contida como um todo no seu grupinho de aliados e apoiadores.

 

Meu reino, meu gozo
Reinar sozinho, sem se sentir constrangido pelos tais pesos e contrapesos democráticos, seria sua única possibilidade de gozo orgástico – e ele sabe que nunca o poderá atingir graciosamente. Para chegar lá, seria preciso ter capacidade de entrega, abrir mão do desejo de ser o condutor e deixar-se ser conduzido no balé amoroso, o que lhe é impensável. Se não vai por bem, deve raciocinar, então é legítimo que se faça pelo estupro das instituições democráticas.

Mas não lhe basta o poder secular. Precisa também fazer seus apóstolos acreditarem que ele possui traços divinos de liderança carismática: a obsessão pela verdade que liberta, o pendor pastoral (“Eu sou, realmente, a Constituição”), acreditar-se ungido pelo próprio Deus para conduzir os destinos da nação.

 

Cloroquina e ivermectina
Como iluminado defensor das liberdades individuais, transgredir é com ele mesmo. Quanto mais normas legais forem quebradas em sua gestão, mais sente seu poder fortalecido e reforçada a crença de que ele é a única régua admissível para medir acertos e erros na condução dos negócios públicos – como transformar reserva natural em polo turístico, defender o trabalho infantil, defender a tortura, defender o excludente de ilicitude para policiais e militares, armar a população civil ou eliminar os radares de trânsito.

Na sua visão, é mera questão de tempo para que a OMS declare oficialmente que as vacinas são, de fato, experimentais e que foi um erro usá-las para substituir a cloroquina e a ivermectina, já que, além de custarem muito caro, podem ter efeitos colaterais inaceitáveis, como causar Aids em adolescentes ou miocardite em crianças, ou ainda conter chips para transformar pessoas em robôs. Ou para que o Supremo declare que, “dentro das quatro linhas da Constituição”, só ele teria o direito de decretar confinamento na pandemia, e interdite governadores e prefeitos que não seguissem a orientação federal. Sociólogos, filósofos e historiadores também se renderão um dia ao fato de que o nazismo foi um movimento de esquerda e que é possível perdoar o Holocausto mas não esquecê-lo, uma vez que “quem esquece seu passado não tem futuro”.

 

O psiquiatra aprendiz
Sua mais recente – e estupefaciente – incursão foi no universo da psiquiatria. Demonstrando sua expertise na área de psicopatologia aplicada à política, alertou para os eleitores ainda indecisos: só um “imbecil ou psicopata” defende a volta do AI-5.

Campeão mundial de atos falhos, resta saber se ele mais uma vez se autorrotulou sem querer (“O chefe do executivo mente”) ou se a crítica velada ao comportamento padrão de seus apoiadores mais exaltados foi só uma maneira de recriminá-los por vazarem antes da hora a intenção de golpe caso fracasse nas urnas. Ou talvez ainda ele tenha imaginado que, se vencedoras, as hostes de esquerda vão tentar instituir a ditadura do proletariado e, assim, roubar dele a bandeira do fechamento do Congresso e do STF.

Vale conferir com o psiquiatra-chefe de plantão após a abertura das urnas.

 

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Imunidade arcaica

Ascânio Seleme (*)

Nenhum país concede tantas imunidades aos seus parlamentares quanto Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai. Do grupo de ex-ditaduras do Cone Sul, apenas o Chile está fora da lista de piores num estudo feito em 90 países pelos professores e pesquisadores Karthik Reddy, Moritz Schularick e Vasiliki Skreta.

Os quatro países refletiram em suas leis preocupação que teve origem nas ditaduras, procurando defender os parlamentares da má vontade de um governante de botas.

Na maioria dos países pesquisados as imunidades são limitadas. Na Inglaterra não há qualquer imunidade parlamentar, nem mesmo para o primeiro-ministro. O que deve ser inalcançável pela Justiça é o voto do representante popular, não as suas opiniões e palavras.

O exagero pode significar que não importa o que diga o parlamentar, nada lhe será imputado. Essa é a questão de Daniel Silveira. Alega que a ameaça que fez ao Supremo, aos ministros e seus familiares era opinião e deve ser protegida. Não foi opinião, foi crime e precisa ser punido.

(*) Ascânio Seleme é jornalista. Trecho de artigo publicado no jornal O Globo de 7 maio 2022.

Apelo

Carlos Brickmann (*)

Bolsonaro faz campanha contra as urnas eletrônicas e deve saber do que fala: sempre teve seus votos clicados em urnas eletrônicas, elegeu-se e elegeu seus três filhos mais velhos. Levanta suspeita de fraude nas eleições de 2018, que o levaram à Presidência. Será que ele sabe algo de que não sabemos?

Lula declarou que a ONU não é levada a sério. Lula também deve saber das coisas. Pois não é que um comitê da mesma ONU concluiu que ele foi vítima de procuradores parciais e de um juiz parcial na Operação Lava Jato?

Um apelo aos dois principais candidatos à Presidência: contem tudo!

(*) Carlos Brickmann é jornalista, consultor de comunicação e colunista.

Conservadorismo e defesa da família

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Eu estagiava num hospital psiquiátrico, como parte obrigatória da graduação em psicologia clínica. Uma de minhas pacientes era uma jovem franzina, tímida, na casa dos vinte e poucos anos, que pouquíssimo falava sobre sua vida pregressa. Dado seu mutismo quando questionada sobre as emoções que se agitavam em seu universo interior, era difícil para mim obter informações confiáveis sobre os motivos que a haviam levado a ser internada e que alimentavam delírios religiosos frequentes.

Decidi então submetê-la ao teste de Rorschach para colher subsídios que pudessem determinar a melhor forma de abordar o caso. Esse teste, também chamado de “teste dos borrões de tinta”, consiste na apresentação, em uma sequência padrão, de 10 pranchas com manchas aleatórias, em branco e preto ou coloridas, e a solicitação de interpretação simbólica das figuras formadas – mais ou menos como acontece na brincadeira de identificar formatos nas nuvens em movimento no céu que se pareçam com pessoas, animais ou objetos.

A cada prancha apresentada, ela respondia com uma evidente mistura de curiosidade e medo. Depois de se deter por alguns minutos escaneando visualmente mas em silêncio os detalhes com total interesse, ela se retraía súbita e inexplicavelmente, dizendo: “Não estou vendo nada… só meu pai consegue ver”. O comportamento e a frase esdrúxulos se repetiram ao longo de todo o teste. Cada vez mais intrigada com aquela clara proibição interna de revelar conteúdos profundos, resolvi então reapresentar as 10 pranchas, uma a uma, perguntando: “O que seu pai vê aqui?”

Naquele instante, o psiquiatra que supervisionava o estágio entrou na sala e me lançou um olhar furioso. Como eu ousava alterar as regras do jogo irresponsavelmente, confundindo ainda mais a cabeça da garota? Fiz um intervalo, saí da sala e contei a ele o que estava acontecendo. Expliquei que, como o teste é projetivo, isto é, depende da projeção de percepções, emoções e sentimentos pré-existentes no psiquismo do paciente e que só são liberados quando há autorização da censura interna, eu precisava apostar que ela estaria driblando a própria censura ao assumir as percepções do pai como suas e trazendo à tona os elementos necessários para compreender as razões de sua falta de autonomia. Ele consentiu.

Minha estratégia foi um sucesso. Ela produziu um farto material para investigação, na maior parte das vezes com conteúdo de violência sexual. Entrou num frenesi verborrágico ao entrar em contato com uma prancha em que há uma mancha vermelha, com respingos espalhados sobre um fundo preto, que interpretou em meio a muita angústia como vagina sangrando, penetração violenta, sensação de fragmentação do corpo.

Comecei a escarafunchar o histórico familiar da paciente, na tentativa de descobrir as raízes dessas percepções. Sabia que o pai da garota era pastor de uma igreja fundamentalista cristã e era tido na comunidade como modelo de moralidade exemplar. No entanto, ninguém sabia informar como eram as relações dele no interior da família, com a esposa e com a filha.

Contrastando o material colhido no teste com esses fatos, foi-se revelando aos poucos que a garota não só era vítima aterrorizada de um pai autoritário, que se pretendia também possuidor de moralidade religiosa inatacável, mas havia sido estuprada seguidas vezes por ele e dele havia engravidado aos 14 anos. Forçada a abortar para não manchar a reputação do pai na comunidade, com o silêncio cúmplice da mãe, ela colapsou sob o fardo da opressão sexual e enlouqueceu.

Diagnosticada como esquizofrênica, ela passou a ter delírios religiosos, durante os quais se via como a Virgem Maria, a única pessoa isenta de pecado que poderia aceitar a missão de conceber o filho de Deus, representado pelo pai pastor. A morte forçada do filho também se encaixava à perfeição nesse contexto de autoridade divina inquestionável. Só ele sabia o que era melhor para ela e ela não podia duvidar das intenções e desígnios “sagrados” dele.

Sem o saber, eu havia encostado num fio desencapado em que entravam em curto o horror sexual real e a fantasia da pureza espiritual. Ela se refugiava nas alucinações místicas para escapar da loucura de sua realidade familiar. A partir dali, percorremos juntas toda uma Via Crucis de reinterpretações, avanços, quedas e retrocessos, até que ela se abrisse para a possibilidade de ajuda terapêutica. Esse caso me ajudou a entender não só o papel da cisão esquizofrênica na tentativa de restaurar a coesão do Eu mas também a aprofundar minha compreensão da violência contida na estrutura patriarcal de nossa sociedade.

Agora, com a campanha eleitoral de 2022 já em andamento, constato estarrecida que um grande número de candidatos insiste em apresentar-se ao público como “conservador”, repisando orgulhosamente o tema da “defesa da família” como trunfo eleitoral. Inevitavelmente, o caso dessa jovem esquizofrênica volta à minha cabeça e me força a perguntar: A qual família eles se referem, afinal? À família patriarcal, branca, de classe média/alta, heteronormativa? Àquela mesma família em cujo seio se instala a imensa maioria dos casos de pedofilia, estupro, abuso sexual, perversões e violência doméstica? Àquele tipo de família em que deve haver um abafamento compulsório de casos de homossexualidade e transgeneridade, mesmo que isso termine em suicídio de crianças e jovens?

Se é a esse tipo de família que precisamos voltar para reestruturar nossa sociedade, estamos de fato perdidos. Se ele fosse realmente tão poderoso para gerar harmonia social, convivência democrática e progresso, por que vivemos tempos tão sombrios de ódio e intolerância radical? Quando a esse modelo patriarcal se junta a noção de um Deus Pai todo-poderoso, guardião dos costumes para o alcance de elevação espiritual, não há como vislumbrar um futuro de mínima sanidade psíquica, de respeito às diferenças e de reafirmação da cidadania para o avanço das pautas das minorias.

O foco central da família patriarcal cristã sempre esteve na exigência de pastoreio rigoroso da sexualidade… feminina apenas, é bom lembrar. Segure suas cabras que meu bode vai sair para pastar. O duplo padrão de moralidade sexual do patriarcado continua a se vender como salvação da lavoura nacional ‘against all odds’ e, no atual contexto de direito à “liberdade de expressão” sem limites, deriva muitas vezes para um padrão de masculinidade tóxica que ainda seduz politicamente muitas cabeças jovens.

Claro que há famílias saudáveis, bem-estruturadas e funcionais em todos os estratos sociais, raciais e religiosos, mas ninguém se atreve a questionar de que forma esse modelo fantasiado de família de comercial de margarina se encaixa com a realidade da imensa maioria das famílias brasileiras em que as mulheres são as chefes, as provedoras e os modelos inspiracionais, em meio a muita carência, fome, desemprego e violência sexual/social.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Os brutos também amam

Ruy Castro (*)

Mais de um antigo faroeste de Hollywood já mostrou a sequência em que alguém parado numa esquina é baleado no peito por um bandido, mas se salva porque leva no bolso interno do paletó uma Bíblia, que lhe apara a bala. Woody Allen, um dia, propôs outra ideia: o sujeito está parado na esquina e alguém lhe atira no peito uma Bíblia. Mas ele se salva porque traz no bolso uma bala, que lhe apara a Bíblia.

Milton Ribeiro, pastor, teólogo, professor, ex-reitor universitário e ex-ministro da Educação de Jair Bolsonaro, tentou descarregar sua pistola Glock calibre 9 mm, que trazia dentro de uma pasta de couro, ao fazer o check-in no balcão do aeroporto de Brasília para embarcar para São Paulo. Como a pasta estava muito cheia – certamente lotada de Bíblias –, Ribeiro tinha pouco espaço para manobra e a arma disparou, atravessando o coldre e a pasta e atingindo o chão, com os estilhaços ferindo de leve duas pessoas que não tinham Bíblias para protegê-las.

Por que um homem de atividades tão pias precisaria andar armado? Será por ter afirmado que a homossexualidade é fruto de lares desajustados, pregado a não inclusão de deficientes com não deficientes em sala de aula e defendido em público o espancamento de crianças como forma de educá-las? Ou por ter se revelado um benigno protetor de lobistas desamparados, intermediando a exploração de prefeitos por seus colegas pastores Arilton e Gilmar, para atender a um pedido de Bolsonaro? Afinal, hoje nada disso é crime. E, se for, será agraciado com o indulto presidencial.

Ribeiro é registrado como colecionador, atirador e caçador, o que o autoriza a andar por aí armado. Deve ter em casa um estoque de munição ao lado de sua coleção de Bíblias, muitas das quais trazem sua foto na página 3, disputando com Moisés a autoria do Pentateuco.

E mais respeito com ele, que integra também a Comissão de Ética Pública da Presidência da República.

(*) Ruy Castro (1948-) é escritor, biógrafo, jornalista e colunista. Seus artigos são publicados em numerosos veículos.

Honrou a toga

Elio Gaspari (*)

O ministro André Mendonça foi terrivelmente ingênuo, até impróprio, na manhã de quinta-feira, quando foi às redes sociais para explicar seu voto do dia anterior condenando o deputado Daniel Silveira. Justificou-se como cristão e como jurista.

Juízes, diferentemente de vereadores e deputados, não devem explicações ao seu eleitorado. Decidem, e ponto final. Mendonça decepcionou os bolsonaristas que esperavam dele uma conduta à la general Pazuello. Podia ter pedido vistas, retardando o resultado do julgamento do deputado. Seria uma chicana vulgar. Podia ter acompanhado o voto de seu colega Nunes Marques, absolvendo o réu. Preferiu condená-lo a dois anos de prisão.

Afora a chicana do pedido de vistas, não havia o que fazer. Ao votar pela condenação mostrou que, uma vez no tribunal, demarcou a linha de sua independência. Por onde ela passa, só o tempo dirá, e ele ficará na Corte até dezembro de 2047: “Mesmo podendo não ser compreendido, tenho convicção de que fiz o correto.”

Quando um cidadão é nomeado para o Supremo Tribunal Federal, espera-se dele apenas isso. É verdade que alguns ministros do tribunal se comportam como criaturas da política, ora buscando holofotes, ora cabalando nomeações de servidores. São pontos fora da curva do ideal.

Ao se explicar nas redes sociais, Mendonça foi ingênuo. Contrariou o desejo de pessoas que esperavam dele o comportamento de um miliciano e nada poderá fazer, salvo alistar-se numa milícia judiciária.

(*) Elio Gaspari é jornalista. O texto é parte de artigo publicado em 24 abr 2022 n’O Globo. Aqui para assinantes.

Minha Páscoa estragada

Myrthes Suplicy Vieira (*)

A bem da verdade, não foi apenas a atual que foi conspurcada. Foram 21 Páscoas minhas estragadas, justo no período que deveria ter sido o mais produtivo e de mais efervescente participação social da minha vida. Longuíssimos 21 anos em que eu e muitos de meus compatriotas fomos forçados a percorrer em silêncio e impotência todas as estações da Via Crucis da ditadura militar e a reviver em agonia todos os anos o martírio da carne de nossos companheiros seviciada impunemente. Para meu desconsolo, a elas juntam-se agora mais três Páscoas estragadas, contaminadas pelo veneno do descompromisso de nossas elites civis e militares para com a vida e a dignidade humana.

Não sei se o indigníssimo general se deu conta em algum momento de que seu pronunciamento foi feito exatamente em referência ao dia em que os cristãos celebram a vitória do espírito sobre a carne. Ao dia da Ressurreição do compromisso cidadão (mais do que cristão) com o combate à desigualdade, com o respeito às diferenças e com a justiça social. Não, é mais do que provável que ele não tenha percebido. A Páscoa, para ele, deve ser apenas mais um feriado de comilança com a família, depois do tempo do jejum forçado. Aquele dia tão aguardado em que o gosto amargo de sangue em suas bocas pode finalmente ser substituído pelo sabor doce da consagração do princípio do excludente de ilicitude.

Tivesse compreendido que ‘mesmo calada a boca, resta o peito’, não teria se dado ao luxo de debochar de maneira tão afrontosa de nossa dor, de nossas feridas mal cicatrizadas que voltam a sangrar sempre que somos atingidos por novos golpes de desfaçatez. Pensando bem, é até compreensível que ele se dirija à nação como se dono fosse do país e da razão: não está acostumado a perguntar a opinião de seus comandados. Foi treinado para mandar, não para o exercício da cidadania.

Para sustentar sua indiferença arrogante, o Pilatos de plantão deve ter partido da premissa de que foi uma escolha de nossa sociedade – representada por todas aquelas senhoras cristãs da Marcha da Família com Deus pela Liberdade – a implantação de um regime de horror e exceção. Afinal, tudo estava uma bagunça e havia o risco de uma ditadura comunista, não é mesmo? Estava claro o que os mais céticos nunca conseguiram compreender: a urgente necessidade de implantar um regime autoritário de direita para impedir a ascensão do autoritarismo de esquerda. Mas, por um descuido, por um desses raciocínios matemáticos incompreensíveis, ele pulou de uma equação a outra e acabou não conseguindo explicar a conexão lógica entre a necessidade da tortura e o pleno restabelecimento da democracia.

Desculpe minha ignorância, general. Não compreendo muito bem as razões estratégicas de Estado para conduzir a nação com mão de ferro a seu destino glorioso de paz e harmonia social. Deve ter sido um ‘mal necessário’ para alcançarmos o ‘bem’ de uma vida civilizada, disciplinada, em que os de farda se locupletam e os sem farda se contentam resignados com a evidente impossibilidade de restauração da moralidade. Pena que nem todos, como eu, compreendamos a nobreza patriótica dos atos das Forças Armadas nos porões do Doi-Codi.

Para ser sincera, seu pronunciamento fez-me lembrar a prepotência da patricinha alienada que reage às cobranças de maior sensibilidade social dizendo: “O que vem de baixo não me atinge”. Perdão mais uma vez, general. Nós, aqui de baixo, não conseguimos visualizar a estrada toda, só os descaminhos.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Novos costumes

Eduardo Affonso (*)

Um dos bichos-papões da minha infância se chamava Nélson Carneiro. Era – diziam – o homem que queria acabar com a família brasileira, instituindo o divórcio. Tive medo dele até o dia em que descobri que o divórcio era só para quem quisesse se divorciar. Meus pais não seriam separados à força. Teriam fim apenas os casamentos falidos, as uniões infelizes. Como, então, alguém poderia ser contra?

Tempos depois, a família esteve novamente ameaçada, com a perspectiva do “casamento gay” – o bicho-papão agora era a Marta Suplicy. Não cheguei a ter pesadelos com a homossexualidade compulsória que, pela reação dos tradicionalistas, seria imposta à população. Tinha aprendido que a lei é para todos – mas que há uma diferença crucial entre “permitido” e “compulsório”.

As pautas progressistas sempre apavoraram os conservadores, como se mudanças naturais nas instituições, nas relações, na sociedade, ao ser incorporadas à legislação, se tornassem mandatórias. Daí o medo irracional que parte do eleitorado tem cada vez que a esquerda se aproxima do poder. Tolice.

A grande ameaça de Lula não é o progressismo, mas o atraso. O PT contou, por 13 anos, com os meios e a oportunidade – e não houve descriminalização de drogas para uso pessoal (experiência já empreendida com sucesso em Portugal, Holanda, Espanha, Canadá e parte dos EUA). Não colocou em pauta a eutanásia (direito sancionado, sob a esquerda, no Chile, na Argentina e no Uruguai, e, sob a centro-direita, na Colômbia). Nem houve a regulamentação do aborto (a interrupção da gravidez em caso de anencefalia fetal foi obra do STF).

Energia limpa? O PT sempre esteve mais interessado em garantir apoio do Centrão (distribuindo “diretoria que fura poço”) do que em fazer evoluir a matriz energética. Ou em tocar obras como Belo Monte, Abreu e Lima e Comperj, de olho nas possibilidades de corrupção – exploradas com maestria.

O perigo da volta do PT está nos crimes que cometeu (e de que não se arrepende), não na agenda liberal, que só apoia pró-forma, para consumo interno. Aborto, drogas e eutanásia assustam – e tiram votos.

No entanto descriminalizar o porte e uso de drogas não quer dizer que elas possam vir a ser vendidas na porta das escolas, mas que haverá regulação estatal (retirando recursos do tráfico, que sustenta o crime organizado) e investimento na redução de danos (não no encarceramento injusto, ineficaz). Legalizar o aborto não é chancelar um morticínio, mas tratar a questão como de saúde pública – com aconselhamento, acolhimento e segurança para a mulher. Aprovar a eutanásia não é promover o extermínio de idosos, mas permitir um fim digno e sem sofrimento para quem assim desejar.

Apesar de Dilma já estar convidando para a posse, ainda é abril, e muita enxurrada passará por baixo (ou por cima) da ponte. Há tempo para que surja uma alternativa liberal, que trate temas controversos (como um dia foram o divórcio ou o casamento entre pessoas do mesmo sexo) com mais racionalidade do que Bolsonaro e menos hipocrisia do que Lula.

(*) Eduardo Affonso é arquiteto, colunista do jornal O Globo e blogueiro.

Ansiedade global

Dorrit Harazim (*)

Raras vezes o sentimento de ameaça esteve tão difundido globalmente. Trata-se de uma ameaça existencial difusa, imaterial, desvinculada de perigo físico, embora também afetada pelo espetáculo dantesco da guerra em curso na Ucrânia.

Emergiu daquela terra invadida, com cidades reduzidas a esqueletos e ruínas, um espécime de líder capaz de se comunicar com os seus por meio de uma linguagem universal que pode ser letal, quando não autêntica: a empatia. Talvez por não ter tido tempo de ensaiar uma estratégia de marketing político para tempos de guerra, o presidente da Ucrânia sob assalto, Volodimir Zelenski, teve de optar por ser quem é, sem retoques.

Acabou matando de inveja e assombro a elite política mundial. Suas falas de compaixão e urgência soam autênticas, parecem confiáveis – a ponto de importar pouco, neste mundo contaminado por extremos, sua real inclinação ideológica.

(*) Dorrit Harazim é jornalista. Trecho de artigo publicado no jornal O Globo de 10 abr 2022.

Ganhar e perder

Carlos Brickmann (*)

Uma característica importante desta eleição é que nem todos têm a mesma concepção do que é ganhar. Bolsonaro e Lula disputam para ganhar a eleição de acordo com o pensamento da maioria da população: quem ganha ocupa a Presidência da República.

Mas vamos combinar: ser presidente é bom (ou não haveria tanta disputa), mas dá trabalho. Enquanto isso, com as leis que prepararam, deputados e senadores ganham excelentes salários (com todos os penduricalhos, muito mais que o presidente), têm férias mais constantes, têm acesso, se quiserem, a diferentes tipos de corrupção, dispõem de assessores que desempenham todo o trabalho (inclusive, conforme o cargo, até recebem para entregar ao patrão), têm passagens aéreas, diárias, etc.

Um vidão! É por isso que tantos partidos preferem buscar aliados diferentes, um em cada estado, pedindo em troca facilidades para ampliar a bancada. Uma boa bancada representa uma boa parcela do dinheiro público para financiar as eleições.

Poder é dinheiro, dinheiro é poder. Não é preciso ser presidente.

(*) Carlos Brickmann é jornalista, consultor de comunicação e colunista.

A síndica

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Tem gente que se torna praticamente virtuose na arte de manipular emocionalmente outras pessoas. Sua expertise é provocar a fúria de qualquer um que atravesse seu caminho, fazendo comentários desrespeitosos sobre características que a pessoa não tem como controlar (como cor da pele, gênero, deficiências físicas ou mentais), desqualificando moralmente seus oponentes e abalando sua autoestima.

Um dos pontos-chave dessa estratégia é que a ofensa seja feita sempre de forma sorrateira, indireta: é preciso que o agressor pegue o outro desprevenido, seja através de uma postura inicialmente amistosa, seja através de um raciocínio ferino rápido durante a conversação que pareça ocasional, não-intencional. O emprego de um tom de voz contido ou jocoso colabora para que a intenção de causar descontrole emocional no noutro se concretize mais rapidamente. O lado triste é que, quando a vítima finalmente sai do sério, retrucando de forma intempestiva, ela não está dando uma resposta à altura, mas apenas reforçando a eficácia da estratégia e confirmando o poder demolidor do agressor.

As mulheres sabem bem como isso funciona. Acuadas por frequentes comentários discriminatórios a respeito de sua competência técnica ou autoridade para liderar grupos, ou ainda por observações de baixo nível (normalmente de cunho sexual), se reagem chorando ou estapeando o agressor, lá vem a velha cantilena: “Mulheres são instáveis emocionalmente, não têm sangue frio para lidar com situações de tensão, não têm senso de humor”. E o agressor, impune e com presumido ar de espanto, se rejubila com a comprovação na prática de suas teses.

Forçoso é admitir que, para que a estratégia funcione, o agressor precisa possuir algum resquício de inteligência. Precisa saber que não pode levantar acusações diretas aos berros, uma vez que isso demonstraria para os circunstantes que ele também não consegue controlar seus impulsos. Precisa saber identificar com antecedência qual é o posicionamento exato de seu oponente na escala reativa que vai de “sangue de barata” a “pavio curto”. Precisa impedir a qualquer custo que os circunstantes se alinhem com a vítima e saiam em defesa dela. Um caso emblemático desse tipo de expertise é o que eu relato abaixo.

Todo mundo sabe como os síndicos costumam ser malvistos pelos moradores de um condomínio. As razões para esse estereótipo são muitas: postura autoritária, moralismo, tentativas de interferência na vida particular dos moradores, formação de panelinhas no atendimento às demandas dos moradores, suspeitas de apropriação indébita ou de má gestão orçamentária, dentre muitas outras.

No condomínio onde moro não foi diferente. A síndica de ocasião era uma senhora de cerca de 80 anos, que se apresentava como especialista em administração de pessoal, contabilidade, legislação trabalhista e fiscal. O síndico anterior havia sido acusado de desviar dinheiro do condomínio. A eleição dela representava, portanto, a esperança de uma faxina completa nas contas do condomínio.

Era uma pessoa altiva e austera mesmo fora das funções de síndica. Ríspida no trato com moradores e funcionários, logo começou a causar um sem-número de conflitos. Sentia-se à vontade para legislar sobre novas regras de convivência caso a convenção do condomínio fosse omissa nesse sentido. Gritava com crianças e adolescentes que brincavam no jardim do térreo pisando na grama, ou ouviam música alto. Vira e mexe soltava uma circular recriminando hábitos dos moradores que, segundo ela, contrariavam a imagem de um condomínio “de classe”.

Uma das coisas que mais a irritavam era o contato afetivo próximo dos moradores com os porteiros. Alegando questões de segurança, ela passou a proibir que o contato fosse além do ‘bom-dia’. Mandou reformar a portaria, colocando-a num plano mais elevado e revestiu os vidros com filtro escuro. Proibiu os funcionários de se afastarem do posto mesmo que por alguns segundos para ajudar moradores com sacolas de compra ou problemas de locomoção.

Ao longo do tempo, sua especialidade mostrou ser mais especificamente a de tirar os moradores do sério, tratando-os como subordinados. Para isso, ela não economizava adjetivos pejorativos e humilhações em público. Chamou a mãe de uma moradora, de quase 90 anos, de esclerosada. Acusou, sem provas, um morador eletricista de ter feito uma gambiarra na antena de tevê para ter acesso indevido a canais pagos. Certa vez, depois de ter brigado com um morador gay por seu comportamento espalhafatoso, interfonou para meu apartamento, pedindo que eu alertasse a mãe dele de que ele “não valia a comida que a mãe preparava”.

Intimidados, os condôminos deixaram de recorrer a ela para resolver quaisquer pendengas. Temendo serem a próxima vítima de seus maus bofes, limitavam-se a comentar em voz baixa pelos corredores os absurdos mais recentes. A tensão escalou sem controle até o dia em que ela resolveu confrontar um morador que era um ex-militar aposentado por distúrbios psiquiátricos. Como o homem tinha surtos frequentes de agressividade e andava armado, representava um páreo duro para a intempestividade dela. Certo dia, ao passar em frente ao escritório da administração, ele foi questionado sem meias palavras se não se envergonhava de ser “encostado na mulher”, que trabalhava dia e noite para sustentar a casa, enquanto ele levava uma vida fútil, cuidando apenas de sua cachorra.

Foi o que bastou: furioso, o homem invadiu o escritório e estapeou a síndica sem dó nem piedade. Pega no contrapé pela primeira vez, ela registrou um boletim de ocorrência, mandou trancar a porta da administração e deslocou um vigia para fazer sua segurança 24 horas por dia. Contratou um advogado e exigiu que os moradores pagassem por seus serviços, alegando que estava no exercício de suas funções quando da agressão. O rebuliço foi total. Logo os moradores se dividiram, uns apoiando uma mulher idosa vítima de agressão e outros justificando a perda de controle de um homem aviltado em sua honra, já sem muitos freios racionais.

Por fim, um grupo de moradores decidiu organizar um abaixo-assinado para a realização de uma assembleia extraordinária, em que se discutiria o afastamento definitivo da síndica em função de tantas polêmicas. Para que ninguém fosse alvo isolado de fúria, ficou combinado que cada morador apresentaria de própria voz as circunstâncias de seu embate pessoal com ela. Informada dessa tática e vendo que não teria como contraditar cada caso, poucos minutos antes do início da assembleia, a síndica apresentou sua renúncia por escrito.

Aprendi com essa mulher que não há uma forma 100% eficaz de reagir a esse tipo de manipulação emocional, nem mesmo o silêncio despeitado. No limite, pode-se respirar fundo, perguntar-se se há um fundo de veracidade no comentário insultuoso e retrucar usando da mesma técnica: a ironia ou o sarcasmo.

Certa vez, quando nos encontramos no corredor e ela pretendeu me ensinar a melhor forma de embalar o lixo para que ele não provocasse mau cheiro, olhei para ela espantada e emendei com toda coragem: “Nossa, me desculpe, devo estar ficando com Alzheimer! Imagine a senhora que eu não me lembro de ter pedido sua opinião…”

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Eu sou o bom

Carlos Brickmann (*)

O governador da Bahia, Rui Costa, do PT, concedeu ao governador da Bahia, Rui Costa, do PT, a Medalha do Mérito da Casa Militar do Governador.

A condecoração foi criada pelo governador Rui Costa, do PT, em 15 de setembro de 2020. Mas o governador da Bahia, Rui Costa, do PT, não foi o único agraciado com a comenda criada por ele mesmo: ele também as entregou a companheiros de PT baiano e a auxiliares de seu governo.

Entre os premiados pelo governador petista, estão o cacique maior do PT baiano, senador Jaques Wagner; o candidato do PT ao Governo da Bahia, Jerônimo Rodrigues Souza; um oficial da Polícia Nacional da Colômbia, tenente-coronel John Alexander Becerra Zabala, e auxiliares diretos do governador.

Note que nenhum baiano que não seja do PT mereceu a condecoração.

Estranhou a presença de um oficial estrangeiro entre os condecorados? Eu também: até agora jamais imaginaria que houvesse petistas na Colômbia.
(*) Carlos Brickmann é jornalista, consultor de comunicação e colunista.

Minha viagem a Urucânia

Mário Marinho (*)

Meu corpo frágil e pequeno foi sacudido violentamente e quase cai da cama. Ou do que pensava ser a cama. Abri os olhos, sonolento, não consegui entender nada. Estava escuro e minha cama continuava com suas estranhas sacudidas.

Percebi que estava deitado com a cabeça no colo do meu pai. Percebendo que eu estava acordado, meu pai me fez um afago na cabeça e disse para dormir porque estava muito cedo.

Consegui dormir mas, logo, os solavancos, as sacudidas, me acordaram. Com alguma dificuldade consegui sentar-me e as imagens foram se clareando. Eu estava dentro de um carro. Ao meu lado, meu pai.

O carro sacudia muito e em alguns momentos os homens que estavam no carro desceram para empurrá-lo. Percebi que o carro estava atolado num lamaçal.

Além de meu pai, dois outros homens estavam no carro: o motorista e o passageiro a seu lado. Quando o carro balançava muito naquela estrada esburacada, meu pai me abraçava fortemente. Dava segurança e carinho.

Ao fim de um tempo, que não sei precisar quanto, chegamos a uma localidade. O que me chamou a atenção logo de cara, foi a quantidade de pessoas. Uma multidão que eu nunca vira.

Quando descemos do carro perto de uma casa, agarrei a mão do meu pai com força. Tinha medo de me perder no meio de tanta gente. Depois vim a saber que havíamos chegado ao nosso destino: Urucânia.

Vamos ao princípio da aventura. A primeira em minha jovem vida.

Corria o ano de 1949 e eu tinha seis anos de idade. Eu era um menino pequeno para minha idade e tinha um problema crônico de purgação no meu ouvido direito. Já havia passado por um médico especialista e nada de resolver o problema que, além do desconforto de um permanente algodão no ouvido, causava dores.

Foi aí, então, conforme fiquei sabendo bem depois, que meu pai tomou conhecimento dos milagres do padre Antônio Ribeiro Pinto na localidade de Urucânia. O povoado pertencia então ao município de Ponte Nova, hoje a 260 quilômetros de Belo Horizonte. Na época, por falta de estrada direta, essa distância certamente era maior.

Morávamos no bairro Parque Riachuelo, Zona Noroeste de Belo Horizonte, onde meu pai tinha um próspero armazém que se chamava Botafogo. Meu pai, saudoso Paulo Marinho, devia gozar de boa situação financeira, pois alugou o carro para nos levar. Até hoje não faço ideia de quem era o outro homem e se ele ajudou na despesa.

Só sei que acordei dentro daquele sacolejante carro que volta e meia parava para ser empurrado. Os homens chegaram em Urucânia totalmente enlameados.

Depois que eles se lavaram e trocaram de roupa, almoçamos e saímos à praça apinhada de gente em direção à Igreja do padre Antônio Ribeiro Pinto. Com muita dificuldade conseguimos chegar perto do padre que abençoou o meu ouvido e nos deu um litro de água benta que deveria ser colocada em gotas em meu ouvido.

Pouco depois empreendemos a aventura da volta. Acho que fizemos um outro caminho, pois não me lembro de tanto buraco, tanto barro e tantas paradas.

A bem da verdade, meu ouvido não sarou. Conforme fui crescendo, o problema foi diminuindo. Lembro-me, entretanto, que o primeiro inverno que passei em São Paulo, em 1968, tive problemas da velha purgação no ouvido.

Na época não havia planos de saúde. Mas o Estadão e o Jornal da Tarde mantinham uma espécie de convênio com uma clínica chamada Paula Santos: os jornais publicavam anúncios da clínica que atendia aos funcionários.

Contei ao médico meu drama, inclusive contando da água benta.

Ele me disse:

– Aquela água devia ser benta mesmo. Porque, se não fosse, você teria perdido a audição, já que água e qualquer umidade são verdadeiros venenos para quem tem esse problema.

O médico me receitou remédio para combater a inflamação e disse que eu precisava fazer uma timpanoplastia. Que, evidentemente, eu não fiz até hoje.

Urucânia saiu da minha vida. Nunca tive curiosidade de perguntar ao meu pai sobre aquela viagem. Ele também, talvez certo de que eu não me lembrava, nunca tocou no assunto.

Há alguns poucos anos, em conversa na casa de minha irmã Maria Helena, tentei lembrar o nome da cidade. Sabia que era Uru qualquer coisa.

Fui socorrido pelo meu cunhado Ismar Eterovik, casado com a Maria Helena, que conhece todos os 854 municípios de Minas – alguns, presencialmente, outros de ouvir falar.

Quando falei Uru… ele completou:

– É Urucânia, fica perto de Ponte Nova. E agora, com a Ucrânia sendo impiedosamente massacrada pelo ditador Putin, Urucânia e aquela aventura do século passado me vieram à cabeça. A cidade tem hoje, 2022, cerca de 10 mil habitantes. Quantos ela teria há 70 anos passados? Não faço ideia.

O padre Pedro Ribeiro Pinto morreu em 1963. No mesmo ano, Urucânia ganhou a condição de município, desmembrando-se de Ponte Nova e elegeu o seu primeiro prefeito.

Hoje, a data mais importante é o 27 de novembro quando se comemora Medalha Milagrosa de Nossa Senhora das Graças no Santuário onde estão depositados os restos mortais do Reverendo Padre Antônio Ribeiro Pinto.

Urucânia vem de urucum que, na linguagem indígena, se referia uma planta de cujas sementes eles faziam tinta. Também usado na culinária, na fabricação do colorau que dá cor avermelhada a, por exemplo, o arroz.

Às vezes, tenho vontade de voltar à pequena Urucânia, palco e motivo da minha primeira grande aventura.

Quem sabe?

(*) Mário Marinho é jornalista. O artigo foi publicado no Chumbo Gordo.

O pós-guerra na Ucrânia

Dorrit Harazim (*)

Até 25 dias atrás, excetuando os diretamente interessados, brasileiros podiam confundir Carcóvia, na Ucrânia, com Cracóvia, na Polônia — ambas majestosas segundas maiores cidades de seus países. Não mais.

Também foi preciso desempoeirar às pressas nosso mapa-múndi escolar e aprender, com esta primeira guerra “live” da humanidade, a chamar Carcóvia de Kharkiv, versão anglicizada do nome original da cidade. Tudo em vão. Quando a guerra acabar não haverá mais a Kharkiv/Carcóvia de antes. Restarão apenas pirâmides de escombros e uma abissal dor coletiva, misturada a um oceano de luto individual.

Serão inúmeros os horrores e as memórias a reparar por toda a nação invadida. Da eviscerada Mariúpol, no sul do país, à europeia Lviv, no oeste, ficarão as marcas da desumanidade. A Ucrânia inteira, ou o que dela restar, precisará juntar seus cacos como sociedade.

(*) Dorrit Harazim é jornalista. Trecho de artigo publicado no jornal O Globo de 20 mar 2022.

Chefe Burro Sentado

Carlos Brickmann (*)

Repetindo o texto, para quem acha que já viu tudo: o ministro da Justiça, Anderson Torres, concedeu a Medalha do Mérito Indigenista a Bolsonaro. É falso que a medalha homenageie o General Custer, americano que em 25 de junho de 1876 atacou os índios comandados pelos caciques Touro Sentado e Cavalo Louco, em Little Bighorn, sendo morto e levando todos os seus soldados à morte.

Já a frase de Bolsonaro sobre lutas entre militares e índios é verdadeira, e foi dita em abril de 1998, em discurso na Câmara dos Deputados:

“A cavalaria brasileira foi muito incompetente. Competente, sim, foi a cavalaria norte-americana, que dizimou seus índios no passado e hoje em dia não tem esse problema em seu país”.
(*) Carlos Brickmann é jornalista, consultor de comunicação e colunista.

Das intenções

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Um fenômeno relativamente recente espalha-se pelo mundo como praga. Filho dileto do pensamento dicotômico, da polarização sem sentido, da mania de enxergar o mundo em preto e branco e de raciocinar sempre em espelho, ele ganhou em inglês o título de ‘whataboutism’.

O nome pode ser complicado de entender mas é uma das características mais marcantes da bipolaridade da cultura brasileira. ‘What about…?’ pode ser traduzido como ‘E quanto a…?’. Refere-se a uma tática comum de conversação em que, ao invés de responder diretamente a uma crítica, assumindo-a como pertinente e legitimando-a (ou não) na resposta, opta-se por desviar do assunto em pauta e focar na contracrítica à isenção (ou ao caráter) de quem levantou a discussão pela primeira vez. É um jeito matreiro de demonstrar que a crítica está por princípio invalidada pelo simples fato de que o outro lado também não pode ser considerado totalmente isento de miopia, viés ideológico, preconceito, parcialidade, culpa ou responsabilidade.

Se você ainda não ligou o nome à situação, é fácil lembrar como isso acontece entre nós. Alguém critica alguma medida controversa da administração Bolsonaro e lá vem a indefectível pergunta: “E o PT? E o Lula?”. E o debate se arrasta interminavelmente em torno de quem teria feito mais mal ao país, a corrupção das esquerdas ou a contínua destruição do patrimônio natural e das instituições democráticas brasileiras promovida pela extrema-direita. Embora fosse possível esperar que levar em consideração os argumentos dos dois lados da disputa implicasse maior transparência ou racionalidade na abordagem, não é isso o que acontece: ao contrário, o maniqueísmo só se aprofunda e interdita a manifestação de neutralidade, acusando-a de “ingenuidade”, analfabetismo político ou alienação. A ninguém ocorre perguntar: se os dois lados são perniciosos, como escapar da armadilha da polarização e promover a emergência de uma terceira via responsável, como deixar de votar em nomes e passar a pensar em termos de projetos de futuro para o país ou, no limite, como desapegar da ideia de que só um salvador da pátria pode nos tirar do atoleiro em que nos metemos.

Os exemplos abundam, cada um deve ter seu preferido no noticiário nacional ou internacional. Agora, diante da invasão da Ucrânia, o whataboutism ressurge poderoso, reeditando o patrulhamento ideológico dos tempos da ditadura militar, como numa espécie de indagação irritada sobre o ‘lugar de fala’ de cada parte envolvida nas críticas. Só que, desta vez, ele vem ineditamente mancomunado com outro mecanismo psicológico perverso que passei a chamar de ‘gaslighting’ geopolítico. Ou seja, toda vez que alguém posta um elogio à resiliência dos ucranianos e à coragem e espírito patriótico de Zelenski – e as mulheres são maioria, nesse sentido – muitos analistas deixam no ar a suspeita de que se está “romantizando” a guerra e vendo o líder ucraniano como uma espécie de Príncipe Valente que veio salvar a donzela fragilizada e acuada.

Verdadeiros batalhões – tanto de direita quanto de esquerda – se mobilizam para demonstrar que não há inocentes no conflito, que a Ucrânia está pagando o preço de cutucar irresponsavelmente onça com vara curta, que Zelenski teve várias oportunidades de negociação com a Rússia antes da guerra e as descartou, que é um ‘inocente útil’ manipulado pelo imperialismo dos EUA e pelo expansionismo da Otan – lembrando que ambos têm as mãos sujas de sangue inocente e, portanto, não têm moral para acusar Putin de terrorismo de Estado. Todos sempre se pretendendo especialistas em conflitos no leste europeu, agregando “informações privilegiadas” obtidas em jornais e revistas especializados ou alegando possuírem contato com fontes mais confiáveis entre os ‘insiders’.

No Brasil, ao whataboutism vieram ainda se juntar duas outras bestas apocalípticas: a defesa irracional da liberdade de expressão sem limites (mesmo que ela signifique o direito de injuriar terceiros e atacar a democracia) e da supremacia das liberdades individuais em desfavor dos interesses coletivos. Não é só na política que usamos e abusamos desse tipo de cacoete intelectual. Desde o direito ao aborto, passando pela inaudita violência contra mulheres, gays e trans, as cotas raciais nas universidades, o viés do judiciário que não enxerga o abismo de desigualdade social, até a substituição da adoção de bebês humanos abandonados por filhos de 4 patas, nos damos cotidianamente ao luxo de manifestar desapreço pela conciliação de diferentes princípios éticos e visões de mundo.

Diferentemente do que acontece com os animais, o discurso humano é sujeito a um sem-número de mal-entendidos. Como dizia muito apropriadamente o psicanalista Lacan, você pode saber o que disse mas nunca o que o outro escutou. A escolha das palavras, o tom de voz, a postura corporal e o gestual que empregamos ao defendermos uma ideia são todos dependentes da interpretação de seus significados. Isso nos remete inexoravelmente ao reino das intenções.

E o terreno das intenções é pantanoso e impenetrável por princípio, já que só se pode lidar com suposições. Questionar-se a respeito das reais intenções de quem justifica a guerra levantando bandeiras como ‘desnazificação’ da Ucrânia ou a nobreza de intenções de quem defende a paz, suspeitando do alastramento da ‘russofobia’, só eleva o conflito a um novo patamar de tensão. O subtexto da guerra psicológica ora em curso agrava sobremaneira nossa já combalida consciência cidadã e certamente terá reflexos importantes sobre a próxima campanha eleitoral.

É de se esperar que assistamos em breve a um forte recrudescimento das teorias conspiratórias, a novos delírios persecutórios decorrentes do inesperado reagrupamento das forças que se diziam anteriormente “anticomunistas” e “patrióticas” e da triste ideia que as minorias devem se curvar diante da vontade da maioria. Preferencialmente, sem nem tentar lutar pela abertura de novos espaços de conciliação.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

No mundo que se delineia, eu quase ficaria feliz de não ter filhos

Laurent Sagalovitsch (*)

Que eu saiba, não tenho filhos. Apesar dos repetidos apelos de minhas inúmeras parceiras (duas), eu nunca quis ter. Me faltava pique. Eu estava muito alheio, muito sintonizado com minhas próprias ansiedades para pensar em produzir um herdeiro ou uma descendência. E eu não tinha certeza – ainda não tenho – de que a vida vale a pena ser vivida.

Para mim, era responsabilidade demais. Que direito tinha eu de impor a uma criatura inocente o fardo de viver, de abraçar uma existência que inevitavelmente acabaria numa campa dum cemitério municipal onde, desde tempos imemoriais, os mortos são amontoados? A alegria de seu nascimento teria sido ofuscada pela certeza de sua morte. Assim sendo, raciocinei como o grande otimista que nunca deixei de ser ao longo da vida.

Insisto que, se me comportei assim, não foi com o objetivo de não sobrecarregar o planeta com outro nascimento. Eu não estava motivado por nenhuma ideologia que não fosse preservar minha saúde mental e viver de acordo com o que me parecia ser uma filosofia de vida. O tormento de viver num mundo abandonado à própria sorte, em que Deus se afasta da razão e nos deixa sós e indefesos diante dos mistérios insondáveis do universo, me pareceu um motivo a mais para recusar a procriação.

Quando olho para o espetáculo que o mundo nos tem oferecido ultimamente, fico aliviado por ter agido como agi. Não sei como me sentiria hoje se uma ou duas crianças estivessem me acompanhando na estrada da vida. Decerto eu ficaria aterrorizado. Paralisado de angústia. Atordoado diante dos obstáculos que se levantariam diante delas. Com sentimento de culpa e grande tristeza só de pensar que elas teriam de viver num mundo que perdeu a bússola.

Os desafios para aqueles que sobreviverão a nós são inúmeros. Não somente terão de lidar com desregramentos climáticos em uma escala sem precedentes – aumento das temperaturas, elevação do nível do mar, migração de populações, secas recorrentes, incêndios gigantescos – mas também terão de enfrentar os perigos de guerras residuais que podem degenerar em conflito nuclear a qualquer momento.

Tudo isso tendo, como pano de fundo, sociedades civis profundamente divididas, em que valores progressistas e recuos nacionalistas estão em constante conflito, batalhas titânicas cujo vencedor ninguém saberia hoje prever. Para um número significativo de indivíduos, e em particular para os mais jovens, a própria noção de democracia perdeu sua essência, substituída por uma irrefreável necessidade de autoridade, pelo desejo de ter um líder – um homem providencial capaz do melhor, mas também certamente do pior.

Ainda que a gente procure não escurecer ainda mais o quadro, a evidência está diante de nós: o mundo de amanhã não será um mar de rosas. Teremos de lutar contra o obscurantismo, o conspiracionismo, o retorno do nacionalismo com sua ciranda de loucuras identitárias.

A necessidade de fazer mudanças radicais de comportamento para conter os efeitos do desregramento climático trará uma série de aborrecimentos que vão impactar as liberdades individuais. Essas mudanças vão acabar causando todo tipo de desordem, desde a recusa em obedecer a leis e regras até o desejo de negar o óbvio, com o risco de tornar a crise ambiental ainda pior.

A guerra provocada neste momento pela Rússia entreabre a porta de um mundo largado à própria sorte, no qual até a idéia de um apocalipse nuclear parece ter se tornado uma possibilidade como outra qualquer. Um cenário que ontem parecia inconcebível – uma guerra de conquista territorial nas fronteiras da Zona do Euro – está se desenrolando diante de nossos olhos. Com a possibilidade de ser apenas o prelúdio de novas conquistas.

E tudo isso acontece no final de uma pandemia que nos terá obrigado a nos confinar, a nos vacinar, a usar máscaras e a contar mortos aos milhões, sem a garantia de que outros vírus, ainda mais mortais, não venham perturbar novamente o curso de nossas vidas.

Basta, não aguento mais.

Dito isso, vou me deitar.

Psiu, crianças, silêncio! Papai está dormindo.

(*) Laurent Sagalovitsch é escritor e articulista franco-canadense.

Traduzido do original francês por este blogueiro.