Novos costumes

Eduardo Affonso (*)

Um dos bichos-papões da minha infância se chamava Nélson Carneiro. Era – diziam – o homem que queria acabar com a família brasileira, instituindo o divórcio. Tive medo dele até o dia em que descobri que o divórcio era só para quem quisesse se divorciar. Meus pais não seriam separados à força. Teriam fim apenas os casamentos falidos, as uniões infelizes. Como, então, alguém poderia ser contra?

Tempos depois, a família esteve novamente ameaçada, com a perspectiva do “casamento gay” – o bicho-papão agora era a Marta Suplicy. Não cheguei a ter pesadelos com a homossexualidade compulsória que, pela reação dos tradicionalistas, seria imposta à população. Tinha aprendido que a lei é para todos – mas que há uma diferença crucial entre “permitido” e “compulsório”.

As pautas progressistas sempre apavoraram os conservadores, como se mudanças naturais nas instituições, nas relações, na sociedade, ao ser incorporadas à legislação, se tornassem mandatórias. Daí o medo irracional que parte do eleitorado tem cada vez que a esquerda se aproxima do poder. Tolice.

A grande ameaça de Lula não é o progressismo, mas o atraso. O PT contou, por 13 anos, com os meios e a oportunidade – e não houve descriminalização de drogas para uso pessoal (experiência já empreendida com sucesso em Portugal, Holanda, Espanha, Canadá e parte dos EUA). Não colocou em pauta a eutanásia (direito sancionado, sob a esquerda, no Chile, na Argentina e no Uruguai, e, sob a centro-direita, na Colômbia). Nem houve a regulamentação do aborto (a interrupção da gravidez em caso de anencefalia fetal foi obra do STF).

Energia limpa? O PT sempre esteve mais interessado em garantir apoio do Centrão (distribuindo “diretoria que fura poço”) do que em fazer evoluir a matriz energética. Ou em tocar obras como Belo Monte, Abreu e Lima e Comperj, de olho nas possibilidades de corrupção – exploradas com maestria.

O perigo da volta do PT está nos crimes que cometeu (e de que não se arrepende), não na agenda liberal, que só apoia pró-forma, para consumo interno. Aborto, drogas e eutanásia assustam – e tiram votos.

No entanto descriminalizar o porte e uso de drogas não quer dizer que elas possam vir a ser vendidas na porta das escolas, mas que haverá regulação estatal (retirando recursos do tráfico, que sustenta o crime organizado) e investimento na redução de danos (não no encarceramento injusto, ineficaz). Legalizar o aborto não é chancelar um morticínio, mas tratar a questão como de saúde pública – com aconselhamento, acolhimento e segurança para a mulher. Aprovar a eutanásia não é promover o extermínio de idosos, mas permitir um fim digno e sem sofrimento para quem assim desejar.

Apesar de Dilma já estar convidando para a posse, ainda é abril, e muita enxurrada passará por baixo (ou por cima) da ponte. Há tempo para que surja uma alternativa liberal, que trate temas controversos (como um dia foram o divórcio ou o casamento entre pessoas do mesmo sexo) com mais racionalidade do que Bolsonaro e menos hipocrisia do que Lula.

(*) Eduardo Affonso é arquiteto, colunista do jornal O Globo e blogueiro.

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