É fome

Carlos Brickmann (*)

Num país em que cada parlamentar tem até 80 assessores, em que os ministros do Supremo têm funcionários para puxar suas cadeiras, em que o presidente precisa colocar seus gastos no cartão em sigilo para evitar escândalo, em que candidatos usam bilhões públicos para a campanha, há gente que não sabe quando vai comer. Os campeões de gastos brigam entre si. Os famintos que se danem.

(*) Carlos Brickmann é jornalista, consultor de comunicação e colunista.

O golpista

Ascânio Seleme (*)

Se as pesquisas continuarem mostrando que o crescimento de Lula se consolida, aumentando a possibilidade de vitória já no primeiro turno eleitoral, Jair Bolsonaro vai antecipar sua tentativa de golpe para o dia 7 de setembro. Será uma nova setembrada, como a do ano passado, mas desta vez com mais violência e sem freios.

Não tenha dúvida de que o presidente do Brasil vai incentivar a invasão do Supremo Tribunal Federal e do Tribunal Superior Eleitoral. De maneira mais clara e direta do que em 2021.

Mas desde já é bom que ele fique sabendo que não vai dar certo. Pior. Além de dar errado, vai significar o fim de sua carreira política e muito provavelmente o seu encarceramento.

(*) Ascânio Seleme é jornalista. Trecho de artigo publicado no jornal O Globo de 11 junho 2022.

Excesso de precipitação

Carlos Brickmann (*)

O presidente Bolsonaro foi visitar as enchentes de Pernambuco e disse a verdade: que os dirigentes políticos são responsáveis pela tragédia provocada pelas chuvas.

Mas logo voltou ao normal: botou boa parte da culpa na população, “que poderia colaborar também, evitando construir suas residências em locais com excesso de precipitação”.

Ah, esses pobres! Insistem em construir em terrenos ruins. Como preferem comer ossos em vez de uma picanha de R$ 2 mil o quilo. Como fazem questão de morar em lugares sem infraestrutura.

Gente malvada, esses pobres: fazem isso de propósito para se fingir de vítimas e constranger as autoridades.

(*) Carlos Brickmann é jornalista, consultor de comunicação e colunista.

Talento de uns e de outros

Carlos Brickmann (*)

O talento de Musk
Elon Musk, que amealhou uma fortuna de mais de cem bilhões de dólares, é sem dúvida um gênio. E não apenas por ter criado, do nada, a Tesla, fabricante de cobiçados carros elétricos cujo valor em Bolsa supera hoje o da General Motors, da Toyota, da Volkswagen; não só por produzir foguetes espaciais e vendê-los para a Nasa. É um gênio por convencer o presidente da República de que pode fornecer internet à Amazônia via satélite, conectando à rede 19 mil escolas rurais e colaborando no monitoramento ambiental da região, sendo que sua empresa de internet, a Starlink, não cobre essa área e não tem satélites operando na órbita exigida.

Sua SpaceX pode lançar rapidamente esses satélites – mas estará ele disposto a investir nisso a poucos meses do fim do governo, sem saber se o presidente será mesmo reeleito?

O talento de Bolsonaro
Já Bolsonaro conseguiu convencer Elon Musk de que o monitoramento ambiental da Amazônia pode render um bom contrato. O problema do Brasil não é monitoramento, que é bem feito por gente ligada ao próprio Governo, em entidades como o INPE – Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais – ligado ao Ministério da Ciência e Tecnologia.

Para Bolsonaro, o monitoramento é uma dor de cabeça: mostra direitinho como caminha a devastação. E fica mal para o governo mostrar ao mundo esses dados de desmatamento ilegal.

(*) Carlos Brickmann é jornalista, consultor de comunicação e colunista.

Imunidade arcaica

Ascânio Seleme (*)

Nenhum país concede tantas imunidades aos seus parlamentares quanto Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai. Do grupo de ex-ditaduras do Cone Sul, apenas o Chile está fora da lista de piores num estudo feito em 90 países pelos professores e pesquisadores Karthik Reddy, Moritz Schularick e Vasiliki Skreta.

Os quatro países refletiram em suas leis preocupação que teve origem nas ditaduras, procurando defender os parlamentares da má vontade de um governante de botas.

Na maioria dos países pesquisados as imunidades são limitadas. Na Inglaterra não há qualquer imunidade parlamentar, nem mesmo para o primeiro-ministro. O que deve ser inalcançável pela Justiça é o voto do representante popular, não as suas opiniões e palavras.

O exagero pode significar que não importa o que diga o parlamentar, nada lhe será imputado. Essa é a questão de Daniel Silveira. Alega que a ameaça que fez ao Supremo, aos ministros e seus familiares era opinião e deve ser protegida. Não foi opinião, foi crime e precisa ser punido.

(*) Ascânio Seleme é jornalista. Trecho de artigo publicado no jornal O Globo de 7 maio 2022.

Apelo

Carlos Brickmann (*)

Bolsonaro faz campanha contra as urnas eletrônicas e deve saber do que fala: sempre teve seus votos clicados em urnas eletrônicas, elegeu-se e elegeu seus três filhos mais velhos. Levanta suspeita de fraude nas eleições de 2018, que o levaram à Presidência. Será que ele sabe algo de que não sabemos?

Lula declarou que a ONU não é levada a sério. Lula também deve saber das coisas. Pois não é que um comitê da mesma ONU concluiu que ele foi vítima de procuradores parciais e de um juiz parcial na Operação Lava Jato?

Um apelo aos dois principais candidatos à Presidência: contem tudo!

(*) Carlos Brickmann é jornalista, consultor de comunicação e colunista.

Honrou a toga

Elio Gaspari (*)

O ministro André Mendonça foi terrivelmente ingênuo, até impróprio, na manhã de quinta-feira, quando foi às redes sociais para explicar seu voto do dia anterior condenando o deputado Daniel Silveira. Justificou-se como cristão e como jurista.

Juízes, diferentemente de vereadores e deputados, não devem explicações ao seu eleitorado. Decidem, e ponto final. Mendonça decepcionou os bolsonaristas que esperavam dele uma conduta à la general Pazuello. Podia ter pedido vistas, retardando o resultado do julgamento do deputado. Seria uma chicana vulgar. Podia ter acompanhado o voto de seu colega Nunes Marques, absolvendo o réu. Preferiu condená-lo a dois anos de prisão.

Afora a chicana do pedido de vistas, não havia o que fazer. Ao votar pela condenação mostrou que, uma vez no tribunal, demarcou a linha de sua independência. Por onde ela passa, só o tempo dirá, e ele ficará na Corte até dezembro de 2047: “Mesmo podendo não ser compreendido, tenho convicção de que fiz o correto.”

Quando um cidadão é nomeado para o Supremo Tribunal Federal, espera-se dele apenas isso. É verdade que alguns ministros do tribunal se comportam como criaturas da política, ora buscando holofotes, ora cabalando nomeações de servidores. São pontos fora da curva do ideal.

Ao se explicar nas redes sociais, Mendonça foi ingênuo. Contrariou o desejo de pessoas que esperavam dele o comportamento de um miliciano e nada poderá fazer, salvo alistar-se numa milícia judiciária.

(*) Elio Gaspari é jornalista. O texto é parte de artigo publicado em 24 abr 2022 n’O Globo. Aqui para assinantes.

Só vou de mulher

José Horta Manzano

 

“Ninguém gosta de homossexual, a gente suporta.”
Jair Bolsonaro, então deputado.
Vídeo do ano 1997.

 

“Pelotas é uma cidade-polo, né? Exportadora de veados.”
Lula da Silva, então sem função política definida.
Vídeo do ano 2000

 

“Um estudo publicado em 1996 no ‘Journal of Abnormal Psychology’ demonstrou que os homens homofóbicos – só eles, não os demais – se põem fisiologicamente excitados ao visionar vídeos explicitamente homossexuais.”
Boris Cheval, doutor em Ciências e pesquisador em Neuropsicologia da Saúde, Psicologia do Esporte e Epidemiologia Social.
Entrevista do ano 2016

O título deste post faz alusão a um samba fora dos padrões, composto por Luiz Reis e Haroldo Barbosa em 1961, aqui na interpretação bem-humorada de Ivon Curi (1928-1995).

Ansiedade global

Dorrit Harazim (*)

Raras vezes o sentimento de ameaça esteve tão difundido globalmente. Trata-se de uma ameaça existencial difusa, imaterial, desvinculada de perigo físico, embora também afetada pelo espetáculo dantesco da guerra em curso na Ucrânia.

Emergiu daquela terra invadida, com cidades reduzidas a esqueletos e ruínas, um espécime de líder capaz de se comunicar com os seus por meio de uma linguagem universal que pode ser letal, quando não autêntica: a empatia. Talvez por não ter tido tempo de ensaiar uma estratégia de marketing político para tempos de guerra, o presidente da Ucrânia sob assalto, Volodimir Zelenski, teve de optar por ser quem é, sem retoques.

Acabou matando de inveja e assombro a elite política mundial. Suas falas de compaixão e urgência soam autênticas, parecem confiáveis – a ponto de importar pouco, neste mundo contaminado por extremos, sua real inclinação ideológica.

(*) Dorrit Harazim é jornalista. Trecho de artigo publicado no jornal O Globo de 10 abr 2022.

Ganhar e perder

Carlos Brickmann (*)

Uma característica importante desta eleição é que nem todos têm a mesma concepção do que é ganhar. Bolsonaro e Lula disputam para ganhar a eleição de acordo com o pensamento da maioria da população: quem ganha ocupa a Presidência da República.

Mas vamos combinar: ser presidente é bom (ou não haveria tanta disputa), mas dá trabalho. Enquanto isso, com as leis que prepararam, deputados e senadores ganham excelentes salários (com todos os penduricalhos, muito mais que o presidente), têm férias mais constantes, têm acesso, se quiserem, a diferentes tipos de corrupção, dispõem de assessores que desempenham todo o trabalho (inclusive, conforme o cargo, até recebem para entregar ao patrão), têm passagens aéreas, diárias, etc.

Um vidão! É por isso que tantos partidos preferem buscar aliados diferentes, um em cada estado, pedindo em troca facilidades para ampliar a bancada. Uma boa bancada representa uma boa parcela do dinheiro público para financiar as eleições.

Poder é dinheiro, dinheiro é poder. Não é preciso ser presidente.

(*) Carlos Brickmann é jornalista, consultor de comunicação e colunista.

Eu sou o bom

Carlos Brickmann (*)

O governador da Bahia, Rui Costa, do PT, concedeu ao governador da Bahia, Rui Costa, do PT, a Medalha do Mérito da Casa Militar do Governador.

A condecoração foi criada pelo governador Rui Costa, do PT, em 15 de setembro de 2020. Mas o governador da Bahia, Rui Costa, do PT, não foi o único agraciado com a comenda criada por ele mesmo: ele também as entregou a companheiros de PT baiano e a auxiliares de seu governo.

Entre os premiados pelo governador petista, estão o cacique maior do PT baiano, senador Jaques Wagner; o candidato do PT ao Governo da Bahia, Jerônimo Rodrigues Souza; um oficial da Polícia Nacional da Colômbia, tenente-coronel John Alexander Becerra Zabala, e auxiliares diretos do governador.

Note que nenhum baiano que não seja do PT mereceu a condecoração.

Estranhou a presença de um oficial estrangeiro entre os condecorados? Eu também: até agora jamais imaginaria que houvesse petistas na Colômbia.
(*) Carlos Brickmann é jornalista, consultor de comunicação e colunista.

O pós-guerra na Ucrânia

Dorrit Harazim (*)

Até 25 dias atrás, excetuando os diretamente interessados, brasileiros podiam confundir Carcóvia, na Ucrânia, com Cracóvia, na Polônia — ambas majestosas segundas maiores cidades de seus países. Não mais.

Também foi preciso desempoeirar às pressas nosso mapa-múndi escolar e aprender, com esta primeira guerra “live” da humanidade, a chamar Carcóvia de Kharkiv, versão anglicizada do nome original da cidade. Tudo em vão. Quando a guerra acabar não haverá mais a Kharkiv/Carcóvia de antes. Restarão apenas pirâmides de escombros e uma abissal dor coletiva, misturada a um oceano de luto individual.

Serão inúmeros os horrores e as memórias a reparar por toda a nação invadida. Da eviscerada Mariúpol, no sul do país, à europeia Lviv, no oeste, ficarão as marcas da desumanidade. A Ucrânia inteira, ou o que dela restar, precisará juntar seus cacos como sociedade.

(*) Dorrit Harazim é jornalista. Trecho de artigo publicado no jornal O Globo de 20 mar 2022.

Chefe Burro Sentado

Carlos Brickmann (*)

Repetindo o texto, para quem acha que já viu tudo: o ministro da Justiça, Anderson Torres, concedeu a Medalha do Mérito Indigenista a Bolsonaro. É falso que a medalha homenageie o General Custer, americano que em 25 de junho de 1876 atacou os índios comandados pelos caciques Touro Sentado e Cavalo Louco, em Little Bighorn, sendo morto e levando todos os seus soldados à morte.

Já a frase de Bolsonaro sobre lutas entre militares e índios é verdadeira, e foi dita em abril de 1998, em discurso na Câmara dos Deputados:

“A cavalaria brasileira foi muito incompetente. Competente, sim, foi a cavalaria norte-americana, que dizimou seus índios no passado e hoje em dia não tem esse problema em seu país”.
(*) Carlos Brickmann é jornalista, consultor de comunicação e colunista.

Hora das promessas

Carlos Brickmann (*)

Para se candidatar a governar São Paulo, os bolsonaristas não estão preocupados com Tarcísio Freitas, aquele ministro que continua procurando o estado no mapa: têm certeza de que ele, ouvindo especialistas como Carla Zambelli e estudando um pouco, logo estará inteirado dos problemas de São Paulo.

Para alguém como Tarcísio, que conseguiu ser alto funcionário de Dilma e ministro de Bolsonaro, não é difícil.

E certamente mudará o nome do Aeroporto de Campinas, para não homenagear adversários. Viracopos, onde já se viu? Melhor algo mais bolsonarista, tipo Espalhafarofa.
(*) Carlos Brickmann é jornalista, consultor de comunicação e colunista.

Devastação: projeto de governo

Bernardo Mello Franco (*)

A Amazônia registrou o maior índice de desmatamento em dez anos. De janeiro a dezembro, a floresta perdeu 10.362 km² de mata nativa. Isso equivale a metade do território de Sergipe.

Os números foram divulgados na segunda-feira pelo Imazon. No mesmo dia, Jair Bolsonaro comemorou a redução de 80% nas multas aplicadas pelo Ibama. “Paramos de ter grandes problemas com a questão ambiental”, festejou.

O presidente transformou a devastação em política de governo. Trata a fiscalização como problema e a derrubada de árvores como solução. Sua cumplicidade com o crime ambiental é explícita. Grileiros, madeireiros e garimpeiros ilegais sabem que têm um aliado no Planalto.

(*) Bernardo Mello Franco é jornalista. Trecho de artigo publicado n’O Globo de 19 jan° 2022.

La crevette de Bolsonaro

José Horta Manzano

Aproveitando o gancho da mais recente hospitalização de Bolsonaro, Aitor Alfonso, cientista político franco-espanhol, publicou artigo na revista Slate. O texto, bem-humorado e repleto de trocadilhos, lembra os grandes deste mundo que foram vítimas de acidente devido a um alimento ou a uma bebida. Vamos lembrar alguns deles.

O bretzel de Bush
Faz exatamente 20 anos, o presidente Bush (filho), deitado no sofá, assistia a um jogo de fotebol americano. Displicente, pegou um bretzel – aquele biscoito seco e salgado, de forma trançada. Logo na primeira mordida, engasgou. O sufoco foi tamanho, que seu ritmo cardíaco sofreu baixa súbita e o presidente, atordoado, caiu de cara no chão. Perigou empacotar ali mesmo, mas teve sorte: escapou com um “galo” azul abaixo do olho esquerdo.

O curioso caso de Fidel Castro
O Líder Máximo da revolução cubana detém o record do número de tentativas de assassinato. Foram 638 atentados, todos gorados. Dificilmente essa marca será superada. Dezenas, se não centenas, dessas tentativas passaram pelos alimentos ou pelas bebidas. A CIA tentou por todos os modos, mas nunca conseguiu atingir o objetivo. Castro faleceu de causas naturais aos 90 anos.

O bolo do rei Adolfo da Suécia
O rei Adolfo Frederico, da Suécia, gostava muito de comer. Na terça-feira do carnaval de 1771, como preparação para enfrentar as privações alimentares que a Igreja impunha na Quaresma, ele fez uma refeição reforçada. Engoliu caviar, sopa de repolho, arenque, lagosta com chucrute – tudo regado a champanhe. Para terminar a refeição com um gosto açucarado na boca, o rei optou por uma bomba glicêmica. Comeu uma especialidade sueca chamada semla, que é servida somente no mardi gras (terça-feira de carnaval). O doce lembra um pouco nosso sonho de padaria, só que é recheado com marzipan e creme Chantilly. Um ou dois não dão dor de barriga a ninguém. Mas o rei comeu quatorze. Não deu outra: o estômago travou, ele sentiu-se mal e morreu de um AVC provocado por indigestão aguda. Os estudantes suecos o conhecem como o rei que morreu de tanto comer doce.

O copo d’água do filho do rei Francisco da França
O rei Francisco I, da França, estava em Lyon com os filhos, já adultos. Fazia um calor sevilhano daquele mês de agosto de 1536. Apesar disso, Francisco, o filho preferido do rei, resolveu fazer uma partida de jeu de paume (= jogo de palma, antepassado do tênis). Terminado o jogo, cansado e transpirado, o jovem engoliu duma vez um copo d’água gelada. Logo começou a passar mal, sentiu-se fraco e morreu dias depois. Naquele tempo, era impossível saber se a morte era acidental ou se a água continha veneno. Na dúvida, o rei acusou o infeliz que tinha trazido o copo. O homem foi condenado à morte.

O melão de Maximiliano da Áustria
Era janeiro de 1519. O arquiduque Maximiliano I, imperador do Sacro Império Romano-Germânico, estava passando uma temporada de cura de saúde nos Alpes austríacos. Um dia, um bufê foi organizado em sua honra. O imperador bateu o olho nuns melões que estavam num canto da mesa. É bom lembrar que janeiro não é tempo de melão. Hoje em dia, qualquer fruta chega por via aérea em qualquer época do ano. No século 16, não era assim. Os melões que encantaram o arquiduque tinham sido conservados desde o verão anterior. Ele se jogou em cima das cucurbitáceas. Comeu tanto, que acabou sofrendo uma crise de apoplexia. Empacotou. Dizem que o pai dele, Frederico III, teria morrido por ter abusado da mesma fruta mais de vinte anos antes.

La crevette de Bolsonaro
Crevette, em francês, é nosso camarão. No capítulo bolsonaresco, o autor se diverte com o camarão não mastigado de Bolsonaro.

Ele deve ter sabido da explicação dada pelo médico, de pé ao lado do capitão, sobre o estrago que um camarão causou no tubo digestivo do capitão.

Fiquei escandalizado com a tartufaria daquela cena. Pergunto a meus botões: será que alguém está interessado nos detalhes da masticação, da deglutição e da digestão do presidente?

Falo em tartufaria ao constatar a hipocrisia dessa mise-en-scène. O Brasil está pouco ligando para o camarão assassino. O país quer que o capitão explique direitinho essa história de usar nosso dinheiro para montar um bilionário “orçamento secreto” com o objetivo de favorecer os amigos. Pouco nos importa saber dos soluços e dos engulhos presidenciais.

Quanta dor

Dorrit Harazim (*)

O espetáculo de grand-guignol exibido pelo governo Jair Bolsonaro neste fim de ano ofende qualquer norma de civilidade. Pouco tem de humano o espécime que cavalga jet skis da Marinha, visita parque de diversões e joga na Mega-Sena da Virada enquanto uma parte do país pede socorro.

O Brasil já teve um leque bastante improvável de chefes de nação – inclusive a galeria militar cujo programa de manutenção no poder incluiu matar adversários políticos. Ainda assim, Jair Bolsonaro consegue ser único – seu ostensivo desprezo pelo povo que governa, pela dor do outro, é maníaco. E lugar de maníaco é no manicômio, não na Presidência da República.

(*) Dorrit Harazim é jornalista. Trecho de artigo publicado no jornal O Globo de 2 jan° 2022.

Servidor extinto

Ascânio Seleme (*)

O governo federal gasta, anualmente, R$ 8,2 bilhões para manter mais de 69 mil servidores ativos que ocupam cargos já extintos, como ascensoristas, datilógrafos e técnicos de manutenção de videotape.

Entre 2014 e 2015, o governo contratou afinadores de instrumentos musicais e datilógrafos. Apesar de tais cargos terem sido extintos em 2019, os servidores permanecerão na folha de pagamento pelos próximos 53 anos.

Ainda existem servidores ativos que ocupam cargos de açougueiro, chaveiro, encadernador e operador de telex.

(*) Ascânio Seleme é jornalista. Trecho de artigo publicado no jornal O Globo de 1° jan° 2022.