Réveillon de Natal

José Horta Manzano

Chegou o Natal de um ano pra lá de especial. Natal, temos todos os anos; mas o deste ano parece mais um filme de Fellini, com festa de mascarados e um balé de convidados racionados dançando ao passo da distanciação social. Não é muito alegre, mas é o que temos.

No fundo, até que temos sorte de ainda estar aqui – milhares ficaram pelo caminho. Não deve haver nenhum brasileiro que não conheça alguém que morreu de covid, um parente, um amigo, um vizinho, um colega, um conhecido.

O Natal é a festa maior da cristandade, tanto na Europa ocidental quanto nas antigas colônias, Brasil incluído. Mas este ano, além do significado religioso, o que estamos festejando mesmo são duas coisas: nossa sobrevivência à pandemia e a chegada da tão esperada vacina.

E vamos em frente, de bacalhau com batatas, ou o que lhe apetecer. Com rabanada pra arrematar.

Uma curiosidade vale ser mencionada. Franceses, belgas, suíços e canadenses se preparam hoje para o réveillon de Natal. Para nós, parece esquisito misturar Natal com réveillon, que nos parecem coisas distintas.

Em francês, até o século 19, se usava a palavra réveillon para designar uma refeição tomada tarde da noite, fosse em que dia fosse. Hoje essa acepção saiu de moda. Réveillon se especializou em dar nome aos festejos da véspera de Natal e também da passagem de ano. Pra distinguir, basta especificar: réveillon de Noël (de Natal) ou réveillon de la Saint-Sylvestre (de fim de ano).

Réveillon descende do verbo latino vigilo, que significa estar desperto. Em nossa língua, a parentela é extensa: vigia, vigiar, vigilante, velar, vigília (véspera de certas festas religiosas). Vela e velório fazem parte do clã. Todas essas palavras carregam o sentido de estar desperto para cuidar.

Feliz Natal a todos!

A sutileza do general

A arrogância do líder

Otávio Santana do Rêgo Barros (*)

Os filmes de faroeste produzidos nos estúdios de Hollywood nos faziam torcer por muitos mocinhos e abominar alguns vilões. Na maioria das vezes retratavam a saga da colonização e a expansão americana rumo ao Oeste.

O “General” George Armstrong Custer foi um desses personagens, e desde já o escalo no time dos vilões, cuja ambição o tocava até no desejo de ser presidente americano, embora de sua história o que mais despertou meu interesse tenha sido seu perfil de liderança.

Custer (1839-1876) estudou na Academia Militar de West Point (equivalente aqui à Academia Militar das Agulhas Negras), formando-se em último lugar de sua classe. Não era nem aplicado nos estudos (limitado intelectualmente), nem muito rígido na observância das regras (indisciplinado).

Muito jovem, ainda como tenente, combateu na Guerra de Secessão, comissionado temporariamente no posto de general de brigada. Ao término do conflito, foi promovido a capitão e depois a tenente-coronel, assumindo o comando do lendário 7º Regimento de Cavalaria.

General Rego Barros

Antes da batalha do rio Little Bighorn, efeméride das Guerras Indígenas, batedores índios informaram ao “general cabelo comprido”, no comando de 647 homens, que estavam diante de um enorme acampamento indígena. Custer duvidou dos batedores. Como gente de uma sub-raça podia deduzir efetivos, baseando-se na profundidade das pegadas de cavalos? Ordenou o ataque. O vaidoso líder era obcecado, quase louco, por glória.

O 7º Regimento de Cavalaria atacou em várias direções, esperando provocar a dispersão dos inimigos, levando-os a uma fuga precipitada. Nesse dia, o General Custer incorreu em diversos erros. Acostumara-se a ver os índios entrarem em pânico diante de sua cavalaria. Imprudente, não valorizou as informações de seus batedores. Deparou-se com cerca de 15.000 índios de diversas tribos, liderados por Touro Sentado e Cavalo Louco. Usavam armas tradicionais e até modernos rifles de repetição.

Se fosse previdente, Custer teria estudado melhor o terreno e aguardado reforços. Ao sofrerem um contra-ataque, duas de suas colunas debandaram. Cercado numa pequena colina, pediu reforço a um subordinado, comandante de outro contingente, que recebeu a mensagem e a ignorou.

A batalha – uma carnificina – durou cerca de 20 minutos. Custer e seus comandados, incluindo seus dois irmãos, foram chacinados. Apenas um cavalo sobreviveu. Muitos estudiosos na arte da guerra o culparam pelo massacre, afirmando que ele cobiçava receber todo o prestígio pela vitória que lhe parecia destino.

A história de sua morte é plena de ensinamentos e deve ser considerada por aqueles que se encontram em posições de mando. Dela depreende-se que:

  • É impositivo planejar com segurança a hora do ataque;
  • é preciso ouvir assessores experientes;
  • não se divide forças contra inimigos poderosos;
  • é preciso cautela, mesmo que a ansiedade por fama fale mais alto;
  • há infiltrados que são mercenários e se vendem pelo melhor preço;
  • os inimigos não ficam inertes, fazem alianças e estudam os adversários e
  • os verdadeiros guias de uma nação chegam ao poder e passam à história por terem conduzido e superado com serenidade e determinação as crises e as catástrofes.

Arrematando, líderes que decidem de forma figadal podem fenecer, levando consigo seus subordinados e deixando apenas um trôpego cavalo para contar a história.

Oxalá esses ensinamentos ajudem nossos Custers contemporâneos a reverem seus conceitos de liderança, incorporando no seu alforje de atributos a humildade, a serenidade, a temperança, a maturidade, a empatia e, acima de tudo, a verdade.

Estamos ficando angustiados. Estamos chorando. Não queremos mais perdas. Nossa batalha de Little Bighorn é a da covid-19. É preciso mais ponderação e menos arrogância para enfrentá-la.

Índios ensandecidos, da temida e poderosa tribo coronavírus, desejam arrancar o nosso escalpo e demonstrar que erramos, mais uma vez, ao escolhermos esses atuais líderes.

Senhores políticos, provem que eles estão errados! É o presente de Natal que desejamos. Somos reféns de suas idiossincrasias.

Feliz Natal! E um ano novo com mais esperanças! Paz e bem!

(*) Otávio Santana do Rêgo Barros é general. Foi porta-voz da Presidência da República até 7 out° 2020.

Assédio: adequação vocabular

José Horta Manzano

Desde que o movimento #MeToo ganhou o noticiário mundial, a noção de assédio tem estado presente em todas as conversas. A palavra assumiu conotação predominantemente sexual. Quem diz assédio, subentende assédio sexual.

O verbo assediar é antigo, mas seu uso nessa acepção é relativamente recente. Sua presença crescente no vocabulário do dia a dia é sintoma da evolução da sociedade. Atitudes e gestos que, poucas décadas atrás, passavam ignorados deixaram de ser aceitos. É passo importante em direção a um patamar mais civilizado.

Faz uns dias, um deputado estadual paulista teve a péssima ideia de apalpar o seio de uma colega sem seu consentimento – em público, ao sol do meio-dia e sob o olho das câmeras. Talvez o paspalhão imaginasse que tudo ia ficar por isso mesmo. Não ficou. O país inteiro se inteirou da traquinagem primitiva de Sua Excelência que, agora, corre risco de ver seu mandato encurtado.

Ao comentar o fato, todos os órgãos da mídia falaram (ainda falam) em assédio. Apesar da unanimidade, a mim não parece a melhor palavra pra definir o caso. Vamos ver por quê.

O verbo assediar, presente em todas as línguas latinas, descende do verbo latino sedere (=sentar, parar, postar-se, estar parado). Portanto, assediar contém a ideia de ação contínua, de demora, de repetição, de insistência.

Na acepção original, assédio é termo de guerra. Na Idade Média, quando ainda não havia canhões nem aviões, o único jeito de conquistar uma cidade fortificada era assediá-la, isto é, cercá-la com tropas de modo a não deixar ninguém entrar nem sair. E esperar até que os habitantes não aguentassem mais de fome e se rendessem. Podia levar meses ou até anos, mas um dia a cidade caía.

Assim, para que se possa falar em assédio (sexual, moral ou escolar), é preciso estar presente o fator repetição insistente. No caso da deputada paulista, a não ser que o apalermado indivíduo seja um habitué nas artes de apalpá-la, não se deve falar em assédio. Melhor será utilizar: importunar, incomodar, molestar.

Aquela (ou aquele) que passa dias, semanas ou meses sendo atormentado sexual ou moralmente, esse sim, poderá dizer que foi assediado.

De criança que vive atormentada por coleguinhas, costuma dizer-se que sofre bullying. A importada é chique, mas difícil de escrever e de pronunciar; além disso, a importação é desnecessária por haver similar nacional. Assédio é assédio, seja no trabalho, em casa ou na escola. Assédio escolar diz exatamente o que quer dizer.

Para quem quiser ousar caminhos novos, há outra opção. Acosso ou acosso escolar é expressão rara mas autoexplicativa. Aliás, é a palavra que os espanhóis utilizam pra dizer assédio: acoso.

Ministro fake

José Horta Manzano

Eduardo Pazuello, nosso apalermado ministro-júnior da Saúde, não entende por que é alvo de uma permanente chuva de críticas. Não se deu conta de que é sua submissão canina ao chefe que o põe em situação vulnerável. A plateia nacional nunca assistiu a um militar representando papel tão ridículo como o dele.

Mas por que é que ele não dá demissão? É permitido imaginar que o que está em jogo não é apenas o salário de ministro – afinal, o soldo de general é suficiente pra levar uma vida confortável. Fica no ar a impressão de que debaixo desse angu tem carne. Pra se rebaixar a esse ponto perante seus 200 milhões de conterrâneos, a razão há de ser maior que um mero contracheque mensal. Que será? A cada um, a liberdade de cogitar.

O ministro-júnior deve achar que os brasileiros não gostam dele por causa de seu jeito de sorrir, de se exprimir ou de se vestir, sei lá. Contratou um marqueteiro-mor, um certo senhor Marcos Marques, que prefere ser chamado de Markinhos. Assim, com K, como um certo Kassio. Fica a impressão de que o governo que se proclama ‘nacionalista’ dá preferência a colaboradores que tenham K no nome. Entenda quem puder.

O general parece não ter dificuldade em seguir ordens. Se seguir direitinho as do marqueteiro e modificar seu jeito de comunicar, o general imagina que os problemas estarão resolvidos. Engano. O erro não está no invólucro, mas no conteúdo. Ninguém está incomodado pela silhueta do homem nem pela impostação de sua voz. O que encoleriza são as enormidades que profere.

O pior vem agora. Markinhos, o marqueteiro político contratado por Pazuello, é conhecido pelo perfil beligerante e pelas propostas belicosas. Tentem imaginar o opulento ministro-júnior soltando suas frases sem pé nem cabeça, porém agora num estilo guerreiro, enérgico, agressivo. Aí sim, ele periga afundar de vez.

Onomástico
Pazuello é um sobrenome de evidente origem ibérica. Na língua galega, falada nas províncias do noroeste da Espanha, a raiz latina Palatium evoluiu para pazo, que equivale a nosso paço. Designa um solar, uma casa suntuosa.

Pazuello seria, pois, o diminutivo de pazo = um pequeno solar, um palacete. O nome é curiosamente de formação híbrida. Embora o núcleo seja galego, o sufixo uello é castelhano legítimo. Em galego, faz-se o diminutivo com o sufixo iño, que corresponde a nosso inho. Portanto, seria de esperar um Paziño (Pazo + iño).

Híbrido ou não, neste ponto, surge um problema. O sobrenome é raríssimo. Tão raro que, vasculhando a lista telefônica da Espanha inteira, não se encontra ninguém que o ostente.

No entanto, ele aparece no Dicionário Sefaradi de Sobrenomes, obra compilada por Paulo V. Faiguenboim & alia, ao lado de variantes tais como Pazuelo (com um L só) e Pazuelos (com S no final).

Sefaradis são os judeus espanhóis. Eles foram expulsos do país em 1492 pelos reis católicos, o que explica o desaparecimento do nome na Espanha. É concebível que o general seja descendente de uma dessas famílias forçadas ao exílio quinhentos anos atrás.

Assédio

by Damien Glez (1967-), desenhista francês

Ascânio Seleme (*)

O assédio do deputado Fernando Cury à deputada Isa Penna é uma demonstração absurdamente explícita do desrespeito e do abuso. Como pôde o deputado imaginar que podia se esfregar assim numa mulher sem o seu consentimento e que não aconteceria nada? Ainda mais em se tratando de uma parlamentar do PSOL, partido conhecido por sua constante luta contra este tipo de abuso. O partido de Marielle Franco, convenhamos. E, depois, o local do assédio era o plenário da Assembleia Legislativa de SP, local monitorado por câmeras o tempo todo. Cury deve ser punido por importunação sexual, falta de decoro e burrice atroz.

(*) Ascânio Seleme é jornalista. O texto foi publicado no jornal O Globo de 19 dez° 2020.

Cinema

Francisco de Paula Horta Manzano (*)

Não fosse a grande dificuldade que tenho em vencer minha preguiça natural de sair de casa, eu frequentaria mais as salas de cinema. Existe ainda um outro importante fator: o trauma. Sei que é difícil acreditar em algum tipo de trauma que a gente possa carregar por causa de uma diversão como essa, mas eu arrasto um e posso explicá-lo melhor.

Há muitos anos, quando eu era solteiro e ainda muito mocinho, fui assistir a um filme. Nem me lembro qual era, mas fui. Levei minha namorada de então. Também não me lembro quem era, mas levei. Naquele tempo, namorar no escurinho do cinema era o máximo. Só vou fazer uma ressalva: quero deixar claro que, quando eu era mocinho, o cinema não era mais mudo. Ele já falava.

Enfrentávamos uma imensa fila para comprar os ingressos, quando dois meninos, bem vestidos até, se aproximaram e nos ofereceram dois ingressos. Ótimo. Assim, não teríamos de encarar toda aquela fila para comprar entrada e mais outra para entrar no cinema.

Os meninos nos explicaram que, como os pais deles já haviam comprado ingresso, aqueles estavam sobrando. Eu e minha namorada (qual o nome dela mesmo?…) nos entreolhamos e concordamos tacitamente em comprar os tais ingressos. Ficamos todos muito felizes. Tanto os garotos quanto eu e a… a… tá bom, vá lá, a moça que me acompanhava.

Saímos daquela fila e fomos para a outra, menos apinhada e mais rápida, para propriamente entrarmos no cinema. Logicamente, nos posicionamos atrás do último da fila para aguardar nossa vez. Percebemos que todos os companheiros de fila levavam ingressos de cor verde. Só os nossos dois eram cor-de-rosa.

Naquele exato momento, senti acender em minha testa uma luzinha que piscava: “otário, otário” em vermelho! Puxei minha namorada para fora da fila e saímos em busca dos meninos. Era um cinema de bairro, perto de onde eu morava. Naquele tempo existia apenas o cinema falado. Os shopping centers ainda não. Nem falados, nem mudos.

Saímos à cata dos dois garotos e, não demorou muito, os encontramos. Justamente na fila para comprar os bilhetes, com o meu dinheiro. Agindo como se participássemos de um filme de espionagem, ficamos atrás deles, para nos valer do fator surpresa. (Aprendi isto em filme do James Bond, mas o pessoal da Swat também usava esse truque.)

Claro, o truque funcionou como no filme. Já ia até dizer: “Meu nome é Manzano. Francisco Manzano”, com um canto da boca. Mas desisti rapidamente e comecei ali mesmo, segurando um dos meninos pelo braço, movido pelo impulso e pela raiva que eu sentia no momento, a gritar com os dois aprendizes de estelionatários.

A coisa mais delicada que eu vociferei foi que eles eram dois marginaizinhos, golpistas mirins. Disse que iria chamar a polícia para resolver o caso. Eles, ainda não recuperados da total perda de cor da pele (que, de tão branca, deixava transparecer os pulmões ofegantes), imploraram com um “pelo amor de Deus, moço, a polícia não!”.

Mexeram com meus sentimentos humanitários e fizeram jus às benesses da minha condescendência. Concordei com eles. Pra que a polícia? Antes de soltar o braço do garoto, fiz com que eles nos devolvessem o dinheiro que nos haviam surrupiado, o que fizeram com expressão apavorada. Ainda os ameacei. Num piscar de olhos, os dois sumiram. De tão rápidos, ninguém saberia dizer que rumo tomaram.

Quando já íamos nos afastar do local, com o dinheiro recuperado ainda guardado no meu bolso, surgiram-nos pela frente dois não muito simpáticos representantes de nossa polícia, que foram sem cerimônia alguma nos pegando pelo braço, enquanto uma senhora gorda, toda esbaforida, apontava para nós e gritava, chamando a atenção não só dos policiais, como de todos os que passavam pelo local:

‒ Foram esses aí mesmo, seu guarda! Foram eles que tiraram dinheiro das duas crianças. Eles ameaçaram os coitadinhos! Foi horrível! Pobres crianças! Gente tarada! Achei que eles iam bater nas crianças, até matar!

Pronto. Tentei explicar ao solícito policial o que ocorrera. Porém, no primeiro “mas” que esbocei, fomos, aquela moça que estava comigo e eu, gentilmente instalados dentro da viatura e levados até a delegacia.

Cinema é muito complicado. Depois da roda, a maior invenção foi o DVD.

(*) Francisco de Paula Horta Manzano (1951-2006), escritor, cronista e articulista.

A simbologia da foto

José Horta Manzano

Desde que o primeiro vírus chegou ao Brasil, viajando de avião, Bolsonaro fez o que pôde para minimizar a gravidade da pandemia de covid. Negou, desdenhou, zombou, escarneceu, debochou.

O vírus, que é estrangeiro e não entende a língua do presidente (quem entende?), se fez de desentendido. E continuou seu trabalho paciente, ceifando um aqui, estropiando outro ali, desgraçando mais um acolá. Como convém a todo bom micróbio comunista, não discrimina ninguém: pobre ou rico, preto ou branco, importante ou zé-ninguém, tanto faz. Diante do infortúnio, todos são iguais.

Logo no início da pandemia, o pessoal do Planalto, incluindo o presidente, impacientes de estrear o novo coronavírus, deram carteirada pra furar a fila. Foram à Florida e fizeram importação direta do bichinho. Na volta daquela malfadada viagem em que se hospedaram no resort privado de Trump, duas dúzias de medalhões estavam infectados. O alto escalão de nossa República tornou-se importante foco de infecção.

Faz alguns dias, um assessor mais atirado do presidente tomou coragem e, com muito jeito, alertou o chefe para o desgaste que ele se está autoinfligindo. O homem está prestes a cortar o último fio que o liga à população. A reação do chefe mostra que ele entendeu a mensagem e se apavorou.

Na contramão da pregação negacionista em vigor há 9 meses, um plano de vacinação foi rascunhado às pressas e apresentado ao distinto público em cerimônia solene. É tentativa de recuperar o tempo e o esforço desperdiçados desde que o presidente soltou seu primeiro sarcasmo, em março passado.

A ocasião rendeu uma foto oficial que merece ser analisada com vagar.

Cadeiras
Surpreende a qualidade e o tamanho das cadeiras. Elas podem até servir para decorar restaurante chinfrim mas, para reunião ministerial solene, não caem bem. Aquele tipo de cadeira fica bem para decorar corredores; pra dar assento a ministro e aparecer na tevê, não. Considerando a dinheirama que engorda a contabilidade do Planalto, é curioso que não invistam em cadeiras decentes e apresentáveis. Além disso, visto o tamanho ‘king size’ de alguns personagens, cujas nádegas extravasam, o mobiliário não vão durar muito – o barato sai caro.

Mesa
Falta uma mesa instalada à frente dos participantes. Ainda que não tenha outra utilidade, uma mesa (coberta com toalha roçando o chão) ajuda a disfarçar posturas inadequadas.

Fundo roxo
Este blogueiro é do tempo em que, na Quaresma, era costume da Igreja cobrir crucifixos e estátuas com um pano roxo. Imagino que ainda seja assim. A intenção é ressaltar que se está atravessando um período de recolhimento e reflexão. No imaginário popular, no entanto, a cor ficou estreitamente ligada à tristeza e à morte. Por sinal, caixão de defunto de segunda linha (o caixão de segunda linha, não o defunto) costuma ter detalhes dessa cor.

Quando se está anunciando ao povo que a redenção dos males está chegando, usar o roxo como cor dominante não é boa ideia.

Paridade chacoalhada
A paridade entre sexos é meta perseguida em todas as instâncias. Em escolas e repartições públicas, por exemplo. A lei eleitoral chega a impor quotas para os sexos. Pois bem, a foto escancara o profundo desprezo que doutor Bolsonaro tem por essa paridade.

Dos 17 personagens visíveis, apenas 2 são mulheres. Há ainda 2 ou 3 escondidos, que parecem ser homens. Uma das mulheres (aquela da bananeira) está quase oculta na fila de trás; a outra foi relegada a uma extremidade, quase caindo da foto, como se estivesse sentada num banco rebatível (daqueles que há nos teatros e que são utilizados em dias de forte afluência).

Em matéria de paridade entre sexos, a composição da assessoria presidencial é desbalanceada e machista, à imagem e semelhança do chefe.

Tênis
Um dos figurantes, de terno escuro e gravata, veio de tênis. É composição vestimentária moderninha, que cai bem numa festinha descontraída ou num convescote com amigos. De ministros que comparecem engravatados a uma solenidade, espera-se mais recato. (Taí um dos horrores que mesa e toalha teriam escondido.)

Naquela mesa…
Na ponta esquerda, aparece uma cadeira vazia. A legenda não informa quem é o ocupante. Terá ido fazer pipi? Ou não compareceu?
… tá faltando ele
Se não havia ninguém para ocupá-la, por que é que a cadeira foi deixada lá? É desleixo? Quem souber ganha uma passagem de ida simples para Caracas. De ônibus.

Time unido
Até time de futebol, que é composto de jogadores cuja juventude lhes permite certa dose de indisciplina, costuma ser mais organizado que o grupo da foto.

Dos 17 personagens, 9 estão mascarados e 8 temerários aparecem sem máscara. Numa reunião que trata da pandemia! É constrangedor ver um grupo partido ao meio, deixando a impressão de que, na falta de uma orientação vinda do chefe, cada um faz o que lhe dá na telha. Há os que obedecem ao instinto de sobrevivência – esses vestem máscara. E há os que preferem arriscar a vida para agradar ao chefe – esses estão de rosto nu. É flagrante a impressão de um time de bate-cabeças.

É verdade que fica esquisito, justo no momento de apresentar a vacina à nação, ver que metade dos figurantes abandonaram a principal medida adotada no mundo para conter a epidemia e proteger a população. Dada sem máscara, a recomendação de que todos devem tomar a vacina soa falsa, feita pra inglês ver.

Bolsonaro & assessores estão sempre de olho em gente comendo banana na rua. Assim que enxergam uma casca no chão, atravessam a rua e correm para pisar nela e escorregar. Ainda outro dia, o doutor chamou de maricas aqueles que se protegem contra a epidemia. Depois de ter dado essa mostra de coragem e desprendimento, realmente cai mal pra caramba aparecer de máscara. Que vergonha! O que é que a turma lá de casa vai pensar? E os do boteco então?

Conclusão
Essa simples foto é um símbolo do microcosmo que nos governa: um agrupamento heterogêneo e desarticulado cuja última preocupação é o bem do povo que paga seus salários. Valei-nos, São Benedito!

E ponto final

José Horta Manzano

“Eu não vou tomar vacina e ponto final. Minha vida está em risco? O problema é meu.”

A declaração foi dada por Jair Bolsonaro terça-feira última.

O jornalista Rafael Barifouse, da BBC Brasil, relata a conversa que teve com dois eminentes infectologistas sobre a displicente declaração presidencial.

“Quem diz que não vai se vacinar porque é decisão individual diz isso por ignorância. Vacinação não é nem nunca foi uma preocupação individual”, é o que afirma a infectologista Raquel Stucchi, da Unicamp.

Ela explica ainda que o objetivo da vacinação é conferir proteção contra um vírus a uma parcela da população suficientemente grande, para impedir que a doença continue a se disseminar.

Quanto maior o número de pessoas vacinadas, mais fácil será controlar a propagação. Se poucas pessoas se vacinarem, ela se alastra facilmente.

“É diferente de um câncer, por exemplo. Se eu não me tratar, só eu vou sair prejudicada porque vou morrer mais cedo. A decisão de não se vacinar tem impacto na saúde coletiva”, acrescenta a infectologista.

O percentual de pessoas que têm que ser vacinadas para conseguir a imunidade coletiva – bloqueando a disseminação de um vírus ou bactéria e evitando epidemias – varia. Depende da taxa de contágio, ou seja, a facilidade com que o patógeno passa de uma pessoa a outra. Depende também da eficácia da vacina, quer dizer, da proporção de pessoas que ficam protegidas ao serem vacinadas.

O infectologista Alberto Chebabo, diretor do Hospital Universitário Clementino Fraga Filho (RJ), esclarece que, para bloquear uma uma doença altamente infecciosa como o sarampo, a taxa de pessoas imunizadas tem de ser de 95%.

Para a covid-19, ainda não se sabe ao certo qual é esse índice, porque ainda é preciso verificar se a eficácia dos estudos será confirmada pela vacinação em massa e quanto dura a imunidade. Assim mesmo, estima-se que será necessário vacinar entre 70% e 80% da população para reduzir a circulação do coronavírus e acabar com a pandemia.

“Temos que lembrar que sempre haverá uma parte da população que não poderá ser vacinada, como grávidas, para quem hoje não é recomendado, quem tem alergias graves e outras contraindicações”, diz Chebabo.

Para os que não puderem se vacinar, a imunização em massa é essencial para evitar que sejam infectadas. O mesmo vale para os que não tiverem uma resposta ideal à vacina.

“Uma postura como a do presidente é atitude egoísta, de quem só pensa em si próprio e não em proteger quem está à sua volta”, diz o infectologista. Chebabo diz ainda que se vacinar será importante mesmo para pessoas que já tiveram covid-19, como Bolsonaro, porque há cada vez mais casos de reinfecção, às vezes deixando o paciente em estado pior do que antes.

Os cientistas ainda não sabem ao certo quanto dura a imunidade adquirida pelos que tiveram a doença. Por isso, uma parte destas pessoas, ou mesmo todas elas, podem ainda ser vulneráveis ao coronavírus.

“A recomendação é que todos se vacinem”, diz Chebabo.

Imbecil

José Horta Manzano

O adjetivo imbecil existia em latim sob a forma imbecillus. Na língua dos romanos, seu significado era diferente do que lhe atribuímos hoje. Era usado para indicar fraqueza de corpo. Em vários textos de Cícero, o adjetivo aparece como qualificativo de homem: homo imbecillus = indivíduo fisicamente diminuído.

É daquelas palavras órfãs que não parecem pertencer a nenhuma família. Sua origem é controversa. Alguns cogitam que talvez pudesse ser formada pela partícula in + becillum, uma forma alterada de bacillum, diminutivo de baculum (bastão). Se assim fosse, a palavra imbecil evocaria a imagem do indivíduo que se move apoiado num bastão. Apesar de simpática, a explicação não é geralmente aceita.

As principais línguas latinas utilizam o adjetivo. Até por volta de 250 anos atrás, ele conservava o valor de fraco de corpo. Aos poucos, foi adquirindo o sentido de fraco de inteligência.

Dado que o burro é um animal simpático (e não mais burro que uma galinha, um sapo ou uma girafa), me dói chamar de burro um indivíduo pouco inteligente. Prefiro imbecil, termo que evoluiu até tornar-se hoje perfeito para designar pessoa com forte déficit de inteligência.

Dois dias atrás, pela enésima vez, doutor Bolsonaro avisou que não tomará a vacina contra a covid, seja ela qual for. Logo ele, que tem a pretensão de tornar-se nosso guia!

Seu universo mental é limitado e não lhe permite enxergar a realidade como ela é. Não se dá conta de que sua ostensiva resistência à vacinação vai influenciar boa parte dos cidadãos, que acabarão fugindo da imunização. E os não-vacinados continuarão a infectar-se entre si, prolongando a duração da pandemia. E a economia continuará sem fôlego. Ora, prosperidade econômica é a chave da reeleição! Mas ele não consegue enxergar isso.

O homem está preso a meia dúzia de ideias que vem ruminando há 30 ou 40 anos. São essas e mais nenhuma.

Acredita ter vocação para ditador e acalenta a tola esperança de que o povo se levante numa guerra civil e o consagre como defensor perpétuo da nação. Isso explica sua fixação em distribuir armas à população.

Homem de poucas letras e de cultura geral indigente, tem visão fragmentária do mundo exterior.

De alguma viagem que possa ter feito no passado, reteve algumas imagens que gostaria de aplicar ao Brasil. Isso explica:

  • 1) sua insistência em tranformar santuários marinhos em resorts tipo Cancún;
  • 2) sua vontade de fazer ancorar na minúscula ilha de Fernando de Noronha naves de cruzeiro que lá despejarão 6000 passageiros de uma vez;
  •  3) sua afirmação de que ‘na Europa, não há mais florestas’, quando se sabe que a cobertura vegetal do território europeu é bem superior à do Brasil – excluída a selva amazônica.

Para falta de cultura, existe remédio. Se se esforçar, o indivíduo pode até cultivar o espírito através do estudo. Lula da Silva, um dos predecessores de Bolsonaro, é, de certa forma, um exemplo. Mesmo tendo chegado à Presidência ignorantão e não tendo estudado nada durante o mandato, manteve o espírito aberto e conseguiu absorver algum conhecimento. Deixou a Presidência, digamos, menos chucro.

Já o déficit de inteligência é mais cruel. É o caso de nosso doutor. Chegou à Presidência ignorantão e de lá há de sair ignorantão. É a sina dos imbecis.

Aquele abraço

Fernando Gabeira (*)

Quando William Shakespeare tomou sua vacina no histórico 8 de dezembro, confesso que o invejei. A primeira coisa que me veio à cabeça foi abraçar, depois de tantos meses, minha filha que vive longe daqui. Imaginei imediatamente quantos abraços e beijos estão congelados a 70 graus negativos, esperando o momento da vacina.

Mas aqui, caro Shakespeare, a vacina ainda é sonho de uma noite de verão. Gostaria também de voltar à estrada, passar longos dias no mato, voltar ao escurecer, com os curiangos voando diante do para-brisa, as primeiras luzes se acendendo na periferia da pequena cidade.

Aqui, William, somos reféns de um governo obscurantista, que não só negou a Covid-19, como o governo britânico no início, mas, ao contrário dele, nunca mudou de posição.

Não vou te cansar com detalhes biográficos. Para quem conheceu Hamlet, o nome Bolsonaro e seus dramas acabariam aborrecendo pela vulgaridade.

O fato é que ele acredita mais num remédio do que na vacina contra o coronavírus. Primeiro, importou da Índia insumos para hidroxicloroquina, e ela encalhou nos laboratórios do Exército. Depois, ao lado de um astronauta, investiu milhões em pesquisa sobre um vermífugo chamado Anitta. Fracasso.

Ele escolheu um general para comandar essa guerra. É um especialista em logística que deixa milhões de testes contra Covid-19 adormecidos num galpão de São Paulo.

Esse general talvez fosse um personagem. Ele acha que o inverno brasileiro do Nordeste coincide com o europeu. E promete comprar vacinas se houver demanda, como se nenhum de nós sonhasse com o seu 8 de dezembro, William.

A única preocupação do homem que preside o país é que a vacina não seja obrigatória. Mas como poderia ser, se levaremos mais de um ano para vacinar todo mundo? Como tornar obrigatório algo que não está disponível? A liberdade será preservada.

Vejo nas redes sociais que seus seguidores temem que a vacina, sobretudo as que trabalham com RNA, possam mudar o código genético. Temem a vacina que você tomou, a da Pfizer, como se depois dela William Shakespeare deixasse de escrever e se tornasse lenhador na cidade de Warwick.

O Brasil talvez seja o único país onde as vacinas têm um peso ideológico. As chinesas são preteridas pelo governo porque são chinesas, têm o olho apertado e podem nos transformar numa multidão de fanáticos do comunismo invadindo as ruas com o livrinho vermelho na mão.

O general que confunde invernos e entraria em mais frias do que Napoleão não se lembrou ainda de comprar as seringas e agulhas, dessas que foram usadas aí, William, nessa terça-feira histórica.

Para não dizer que tudo aqui é cinzento e sem esperança, registro que podemos ver o terno e o vestido que o presidente e sua mulher usaram na posse, em 2019. Eles estão expostos, a entrada é grátis, e foram inaugurados com pompa, discursos sobre estilo e Jesus Cristo, ou como definir as medidas de um enviado dos céus.

Indiferente a tudo, o vírus avança. Nada mais fácil do que enlouquecer um país antes de destruí-lo.

O governo vai amarrar ao máximo o processo de vacinação, simplesmente porque não acredita nele. Em 1904 houve uma revolta contra a vacina. Será preciso uma outra revolta, desta vez para que as vacinas sejam usadas o mais rápido possível.

Será preciso lutar não só para a retomada econômica, mas para que nossas vidas sentimentais sejam reatadas como antes. Isso é até secundário, se considerarmos o número de doentes e mortos que o atraso produz.

Contamos com alguns governadores, o Congresso e o Supremo Tribunal Federal. Não se pode dizer que sejam rápidos ou solícitos para entrar nessa luta. Mas é o que temos. Se for necessário, que se faça uma pressão sobre todos. Pode chegar o momento em que fique claro que não só o vírus, mas a elite burocrática e política brasileira, é um obstáculo de vida ou morte.

Se no combate contra um vírus há tanta hesitação, imagino em casos mais graves como numa guerra. O Exército, que na origem era aliado da ciência, produz um general obscurantista como Pazuello, o presidente que foi escolhido por milhões dedica-se a expor numa vitrine iluminada um terno escuro e o vestido que a mulher usou na posse.

Nem todos os que se sentem mumificados podem entrar num museu. Há critérios: é preciso tempo e história, até para um lugar no museu de horrores.

(*) Fernando Gabeira é jornalista. O artigo reproduzido foi publicado no jornal O Globo de 14 dez° 2020.

Coisas de Pindorama

Elio Gaspari (*)

Um marciano passou pelo Brasil em 1821 e gostou das gazetas que defendiam a independência da Colônia. Voltou em 1823 e soube que ela fora proclamada, com o filho do rei de Portugal coroado imperador.

Imortal, o marciano foi aos comícios das Diretas de 1982 e encantou-se. Voltou em 1985 e soube que a campanha havia resultado na eleição indireta de Tancredo Neves, mas quem estava na Presidência era José Sarney, presidente do partido do governo em 1982.

O marciano resolveu nunca mais voltar ao Brasil. Ele vive em Washington e soube que o doutor Sergio Moro é novo sócio-diretor da firma em cujo portfólio de clientes está a Odebrecht com seu processo de recuperação judicial.

(*) Elio Gaspari é jornalista. O texto é parte de artigo publicado em 6 dez° 2020.

Trump, Bolsonaro e a reeleição

José Horta Manzano

A não-reeleição de Donald Trump, confirmada oficialmente ontem, há de estar acendendo luz vermelha no Planalto. De um vermelho vivíssimo.

Trump – todo-poderoso, carisma irresistível, voz de trovão, teatralidade convincente – é capaz do melhor e do pior. É daquele tipo de mascate capaz de vender gato por lebre e arrancar aplauso do comprador agradecido. Mas em meados deste ano ousou passar a mão num carregamento de respiradores que o ‘amigo’ Bolsonaro havia comprado na China e que transitavam pelos EUA.

Se esse homem – dono de todos esses atributos, dono da caneta mais poderosa do planeta, senhor da guerra e da paz, responsável pelo maior orçamento do globo – conseguiu a façanha de ser derrotado, como é que se pode enxergar o futuro do pequeno Bolsonaro? Antigamente, se dizia que estava preto. Na era do ‘politicamente correto’, convém dizer que está ruço.

O atual inquilino do Planalto não tem os atributos do ídolo, nem seu poder, sua força, sua riqueza. Não tem um corpo de assessores de alto nível. Não está apoiado num partido tradicional e organizado como Trump estava. Como então imaginar que, desprovido das armas necessárias, possa vencer a batalha da reeleição? (Posto que se segure na Presidência até lá, naturalmente.)

by Kleber Sales, ilustrador.

Bola de cristal, não tenho. Além do que, faltam dois anos para a eleição presidencial. Assim mesmo, sob reserva de acontecimento excepcional, a reeleição de nosso doutor parece causa perdida.

Sua personalidade pontuda, excludente e clivante não lhe valeu nenhum simpatizante além dos que tinha ao ser eleito. Pelo contrário, aqueles que votaram nele unicamente para se livrarem do PT devem estar dobrando a língua e se autoflagelando em penitência: nunca mais darão seu voto ao capitão.

Aos poucos, vai-se delineando um quadro semelhante ao de 2018. O eleitorado vai se fraturar em dois campos bem nítidos. No primeiro, estarão os bolsonaristas, que votarão no doutor porque gostam dele e estão felizes com seu desempenho. Do outro, estarão os demais, os eleitores dispostos a votar em quem quer que seja, desde que Bolsonaro seja derrotado.

Num primeiro turno, o voto antibolsonarista ainda pode se dispersar, mas no segundo, não tem perdão. São só dois candidatos. Não vejo como o doutor poderá ser reeleito, seja quem for o adversário. Ou será que Bolsonaro é mais talentoso que Trump?

O conselho

José Horta Manzano

O aprendizado
O caso se passou no tempo em que eu era funcionário de uma firma. Meu chefe um dia me encomendou um trabalho qualquer. Não me lembro exatamente o que fosse, mas era coisa pouca, um relatório ou algo assim. Eu não estava lá muito disposto a fazer o que ele pedia, então reclamei, disse que tinha muito pra fazer, que o serviço andava acumulado, que aquela semana não ia dar, enfim, enchi de dificuldade.

A essas alturas, benevolente mas sério, ele me fez um sermão: «Olhe aqui, se você não tem vontade de cumprir essa tarefa, está se comportando exatamente como não devia. Com essa insistência em pôr dificuldade, você acaba chamando a atenção para o fato. O resultado é que, amanhã, eu vou me lembrar desta nossa conversa de hoje, e vou cobrar o serviço. E depois de amanhã também. E assim por diante, até que esteja feito. De outra vez que você não quiser fazer algum trabalho, seja esperto: não diga nada, não chame a atenção para o caso. Diga simplesmente que sim, e pronto. Em seguida, se você não executar a tarefa, não tem importância, que eu vou acabar esquecendo.»

O sábio conselho me foi muito útil. Serve tanto para relacionamento entre chefe e subordinado quanto para situações do dia a dia.

Covid na Europa
Tenho acompanhado a evolução da pandemia nos países da Europa. Na maioria deles, o governo tem agido com bom senso. Espertos e bem assessorados, os dirigentes perceberam que o covid era uma excelente ocasião para promover a união nacional. Não deixaram escapar porque, na vida de uma nação, raros são os momentos em que essa união é possível. Acontece quando há ameaça de guerra. Para enfrentar o inimigo externo, o dirigente perspicaz convoca o povo – que passa por cima de diferenças internas e se une no combate ao perigo.

Pois assim foi feito: uma retórica inteligente apresentou a pandemia como poderoso inimigo externo a ser vencido. Os dirigentes que agiram assim cresceram politicamente. Neste momento em que o Reino Unido começa a campanha de vacinação, os habitantes dos demais países europeus, embora ansiosos para estender o braço e receber a picada que salva, não estão em pânico. São gratos a um governo que soube enfrentar a pandemia com transparência e honestidade, e sabem que a vacina virá quando tiver de vir. Têm confiança no governo.

“É tudo histeria e complô!!!”
Charge publicada no jornal alemão Stuttgarter Zeitung

Covid no Brasil
Já em nosso maltratado Brasil, tivemos a desgraça de ter covid e Bolsonaro ao mesmo tempo. É dose cavalar. Desde o início da pandemia, o dirigente-mor não escondeu seus sentimentos: negou a doença, desdenhou dos cuidados básicos de prevenção, tratou o povo de maricas, disse que não era coveiro, incitou os brasileiros à desobediência civil. Para coroar, fez propaganda contra a vacina, pôs medo na cabeça das pessoas, instilou a dúvida.

O resultado é que se vai firmando a impressão de termos na Presidência um homem que não gosta do próprio povo. As pessoas se sentem desamparadas. A estúpida guerrinha da vacina, patrocinada por ele e por seu ministro da Saúde, só faz reforçar o sentimento difuso de abandono. Só o clamor popular é que tem feito o presidente retroceder. Ele vai de recuo em recuo, gerando uma situação constrangedora para ele e angustiante para nós outros. Todos nos demos conta de que, caso esperemos sentados, essa vacina só virá no dia de São Nunca.

De estardalhaço em estardalhaço, nosso dirigente-mor deixou o povo convencido de que não se pode contar com ele. Essa situação criou pânico geral. Governadores, prefeitos, autoridades sanitárias e até o STF se metem no assunto da vacina. Se Bolsonaro tivesse sabido congregar a população num esforço coletivo de combate ao vírus, estaria hoje com aprovação nas alturas. E o povo estaria esperando confiante, certo de que a vacina virá quando tiver de vir. Mas – ai de nós! – ele não quis ou não soube fazer isso.

Vê-se que nosso doutor nunca teve um chefe como o que eu tive, nem recebeu conselho que valha. Ou talvez tenha recebido, mas não entendeu. Dá no mesmo.

Teimosia

Eduardo Affonso (*)

Ali pelos 15, 16 anos, era mais difícil disfarçar a timidez e/ou a falta de traquejo no convívio social. As cantadas, então, estavam totalmente fora de cogitação. O jeito era deixar que outros dissessem por mim – e nisso a música romântica era imbatível.

Havia bailes; dançava-se de rosto colado; a respiração junto à orelha, a mão dedilhando a alça do sutiã ou descendo pelos quadris, a coxa roçando a coxa – tudo isso ajudava a verbalizar o que a voz não ousava.

E, se houvesse que haver uma voz, que fosse a do Paul McCartney dizendo “uô uô uô uô uô uô uô uô, my love does it good”, a do Elton John pedindo “fly away, skyline pigeon, fly” (eu jurava que era Skylab pigeon, mas isso é assunto para outro texto), ou Junior confessando que ”when you’re near, reality loses its hold and loneliness’ tears wet my soul”. Mas, tirando o uô uô uô uô uô uô uô do Paul, eu não entendia patavina. O que ajudava bastante.

O problema era quando as letras eram em português.

Em princípio, isso era um facilitador. Bastava cantar junto (ou fingir que cantava, tipo segunda voz de dupla sertaneja) e o recado estava dado. Se colasse, colou. Se não colasse, eu estaria só cantando a música, sem quaisquer décimas oitavas intenções.

Uma das minhas favoritas – para o bem e para o mal – era “Minha teimosia, uma arma pra te conquistar”, do Jorge Ben (ainda não era Benjor).

Era uma cantada perfeita. Direta. Para dançar com direito a olhares de promessa e um arremedo de gingado que podia ajudar na conquista pelo caminho da comiseração – mas, naquela idade, quem liga?

O problema era o meu apego à gramática. Eu tentava cantar corrigindo a letra, o que me tirava totalmente o foco. E, claro, ferrava com a métrica.

“A minha teimosia é uma arma
pra te (2º do singular) conquistar.
Eu vou vencer pelo cansaço
Até você (3º do singular)
gostar de mim, mulher, mulher.
Mulher graciosa, alcança a honra.
Você (3º do singular) alcançou, mulher.
Minha amada, minha querida, minha formosa
Vem (2º do singular) e me fala (2º do singular)
que eu sou o seu (3º do singular) lírio
e você (3º do singular) é minha rosa.
Mostra-me (2º do singular) teu (2º do singular) rosto
Fazei-me (2º do plural!!) ouvir a tua (2º do singular) voz
Põe (2º do singular) estrelas em meus olhos
Músicas em meus ouvidos
Põe (2º do singular) alegria em meu corpo
Junto com amor de você (3º do singular)
Mulher, mulher
Lá, lá, lá, lá
Mulher, mulher.”

Eu tentava pôr tudo na segunda pessoa do singular – e não funcionava. Tudo na terceira pessoa do singular – e não dava certo. E (vejam o nível de desespero) até mesmo tudo na segunda do plural. Em vão.

A minha teimosia com as pessoas gramaticais acabou se tornando uma arma para não conquistar ninguém. O jeito era vencer pelo cansaço – e ir com força no lá lá lá lá do final para tentar apagar a má impressão do gingado.

(*) Eduardo Affonso é arquiteto, colunista do jornal O Globo e blogueiro.