O vaivém da hora

José Horta Manzano

Num raro exemplo de constância e rigor legal, a Casa Civil editou decreto em 2008 fixando regras para a hora de verão. Ficou combinado que o início seria no terceiro domingo de outubro enquanto a volta à hora normal se daria no terceiro domingo de fevereiro. Uma exceção foi aberta para o caso de o Carnaval cair justamente no dia da mudança de hora. Quando isso ocorre, a volta à hora normal fica adiada para o domingo seguinte. Pronto: simples e claro.

O sistema funcionou direitinho por nove anos ‒ longevidade excepcional para um dispositivo legal no país! Mas… ai de nós, o que é bom dura pouco! Já no fim do ano passado, a Justiça Eleitoral pediu que a Casa Civil desse um jeitinho de alterar a data de início da hora de verão 2018-2019. É que a mudança no relógio estava estorvando o calendário das eleições.

Pra começo de conversa, a coisa parece surreal: por que diabos o TSE não adaptou o calendário eleitoral à hora de verão? Por que será que é a tradicional e pré-fixada hora de verão que tem de ser mexida? Pra fim de conversa, a coisa parece mais surreal ainda: o presidente da República acatou o pedido e ousou mexer na hora de verão!

Desgraça pouca é bobagem. Eis que ‒ desta vez sob pressão dos organizadores do Enem ‒ a Presidência acaba de deslocar de novo a data de entrada em vigor da hora de verão. Foi retardada mais uma vez porque «estava atrapalhando os exames». Volta a pergunta: dado que o calendário da hora de verão já está fixado há 10 anos, por que diabos não marcaram o Enem para outra data?

A mudança anual de hora não é um berloque inventado pra animar a monotonia do calendário. Tem finalidade específica e influencia todas as atividades humanas. Sistemas informáticos têm de ser ajustados, coisa que se costuma fazer com antecedência. Horários de aviação são afetados pela mudança ‒ um deslocamento da data de início mexe com os horários de todas as companhias que servem o Brasil. Milhares de passageiros vão ser prejudicados. O horário de trabalho de todos os que vão ao batente à noite é afetado. Esses vaivéns perturbam a vida de muita gente.

Essas mudanças atabalhoadas ‒ e, pra piorar, feitas na última hora ‒ não fazem senão botar lenha na fogueira da insegurança institucional do país. Em matéria de hora de verão, a melhor iniciativa seria aboli-la. Mais atrapalha do que ajuda.

O fator humano ‒ 5

Myrthes Suplicy Vieira (*)

A cena aconteceu dentro de um hospital psiquiátrico, no qual eu realizava um estágio obrigatório de formação em psicologia clínica.

O psiquiatra-chefe do hospital, que também era nosso professor na faculdade, distribuía os prontuários aleatoriamente entre os estudantes. A mim coube uma paciente esquizofrênica, internada havia já muitos anos, sem sinal de remissão. Nos últimos meses ela estava sendo submetida a diversas sessões de eletrochoque, aparentemente como última tentativa de trazê-la de volta à realidade.

Acontece que, durante as aulas, meu professor havia feito menção ao fato de que essa forma de terapia não era recomendada por longo tempo, dado o risco de o paciente demenciar. Intrigada, fui ter com ele para conhecer os motivos da contradição entre teoria e prática.

Ao verificar a ficha, ele pareceu ficar extremamente contrariado. Acreditei por alguns segundos que alguém da equipe de enfermagem houvesse desrespeitado suas instruções. Não era isso. A orientação havia partido dele mesmo. Indignada, confrontei-o de forma agressiva. Olhando bem no fundo dos meus olhos, ele explodiu, dizendo: “O que você queria que eu fizesse? Tenho que me sustentar, pagar os estudos de meus filhos e ainda pagar minha análise…. O que você esperava? Que eu fosse vender banana na feira?”

Com a inconsequência típica dos jovens que ainda podem contar com o respaldo dos pais para sobreviver e cheia de fúria pseudomoralista, respondi de pronto: “Me desculpe, mas se eu estivesse no seu lugar, preferiria vender banana na feira! Pelo menos, não teria de pagar terapia para minimizar a consciência de culpa…”

Quando terminei de vomitar tudo o que tinha a dizer, percebi que havia ultrapassado todos os limites da boa educação, do respeito a um mestre e até os de civilidade. Mas já era tarde. Sem dizer uma só palavra, ele permaneceu de pé, com o prontuário na mão, olhando para mim como se se perguntasse como poderia retrucar. Não disse nada.

Alguns dias depois, cruzei com ele nos corredores da faculdade. Ele estava saindo da sala da congregação. Tinha os olhos vermelhos e fungava baixinho. Assustada, perguntei: “Você está resfriado ou está chorando?”

Ele respondeu com aparente naturalidade: “Não, não estou resfriado. Estou chorando mesmo”. Fui inundada por uma sensação de culpa e de vergonha. Imaginei que alguém levara à direção da faculdade a informação sobre o que havia ocorrido com minha paciente e que, consequentemente, ele havia sido punido. Angustiada, pedi desculpas por meu comportamento agressivo na semana anterior e perguntei o que poderia fazer para corrigir a situação. Sabia que ele era um profissional respeitável, sério e sensível.

Sem nem mesmo parar de andar, ele respondeu com um meio sorriso: “Não se preocupe. Acabo de saber que fui contratado em período integral pela faculdade”. Foi minha vez de me emocionar. Era uma mistura de alívio e de orgulho por não ter tido medo de lhe dizer a verdade. Sem saber, havia sido responsável por muita reflexão por parte dele e por sua feliz mudança de rumos de carreira.

Por que conto essa história? Simples, estou sem trabalho há vários meses e extremamente ansiosa para descobrir como fazer frente a despesas extras no final do mês. Uma vozinha lá no fundo da minha consciência avisa que o melhor a fazer daqui para a frente seria começar a me preparar para armar minha barraca na feira e identificar logo fornecedores confiáveis desse fruto tão saboroso que é a banana…

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Cantar de galo?

José Horta Manzano

Orgulho, em si, não é sentimento totalmente negativo. Ter orgulho dos filhos, da pátria ou de ter tirado nota dez é sentimento natural, humano, legítimo e compreensível. O problema começa quando o orgulho gera arrogância ‒ o que acontece com frequência. Aí começa a encrenca.

Quando o PT subiu ao topo da glória e se tornou o maior partido do Brasil, afiliados e eleitos se orgulharam. Era natural, afinal de contas. No entanto, a ingenuidade imprudente de quem nunca tinha comido melado fez que o orgulho descambasse para a arrogância, o comportamento daqueles que imaginam ser definitivamente melhores que os demais e estarem parafusados ao pedestal da glória. Erro tremendo.

Como já disse o poeta, as coisas só são eternas enquanto duram. Nada como um dia atrás do outro, que o passar do tempo é implacável. Aos anos abençoados, seguiram-se anos adversos. Podres apareceram, processos se multiplicaram, dirigentes foram enjaulados, a glória minguou.

Aquele que foi, um dia, o partido mais importante do Brasil deu ensejo ao aparecimento de um partido maior que ele: o antipetismo ‒ maior partido brasileiro da atualidade. Só tem um detalhe: esse antipetismo não é partido organizado, registrado em cartório, com sede oficial e placa na porta. Congrega uma enormidade de gente em busca de um líder.

Nenhum político carismático teve o tino necessário pra agarrar a oportunidade de encarnar esse sentimento. Mesmo iniciada a campanha oficial para estas eleições, nenhum dos candidatos se deu conta do momentum. Num curioso movimento espontâneo, o povo, aos poucos, designou o paladino do antipetismo na pessoa de doutor Bolsonaro. Nem o interessado tinha percebido que sua chance maior estava lá. Acabou assumindo o papel, assim, meio empurrado.

Nada é garantido, é verdade, mas convenhamos: com esse cacife, seria espantoso que o doutor não fosse eleito. Mas, agora, tem outra coisa. Se eu pudesse dar a ele um conselho, diria que tome extremo cuidado pra não deixar que o orgulho de ter vencido descambe para o pecado de arrogância. O doutor tem de guardar em mente que os votos com que terá sido eleito, no duro, não são seus. Foram-lhe emprestados pra afastar o perigo petista. Se o doutor quiser afugentar o espectro de um impeachment, melhor fará se mantiver a crista baixinha. Que trabalhe sem arrotar importância.

A imagem do Quixote

José Horta Manzano

Estes últimos tempos, em razão das eleições, a mídia estrangeira tem falado um bocado do Brasil. Nosso país, embora seja um anão político e diplomático, está entre as dez maiores economias do planeta. Ainda que haja desigualdades abissais entre os cidadãos, a massa de consumidores torna o país economicamente atraente.

Na tevê, tenho assistido a debates, mesas redondas e entrevistas. Nos jornais, leem-se longas análises. Parecem sinceramente preocupados com o que as pesquisas indicam, mas devo constatar que, via de regra, erram no diagnóstico. É interessante notar que, para um observador não iniciado, o momento político brasileiro é impenetrável.

O europeu está formatado para enxergar um mundo político dual. Na sua visão, o que não é de direita, é de esquerda. E vice-versa. Fala-se em política de esquerda, deputado de direita, atitude de extrema esquerda, visão de extrema direita. E assim por diante, tudo encaixadinho nos moldes. Acontece que, no Brasil, sabemos que não é bem assim.

Em nossa terra, o nome do homem sempre contou mais do que filiação partidária. Há deputados que já mudaram sete vezes de partido ‒ e tudo bem, que ninguém está nem aí. Lula da Silva, por exemplo, está aliado ao mesmo tempo ao Partido Comunista e a Paulo Maluf. E ninguém vê nada de errado nisso. Pra cabeça de um europeu, é noite sem lua.

Vai daí, na Europa, todos tendem a etiquetar o PT de Lula da Silva como partido de esquerda, enquanto encaixam Bolsonaro como político de extrema direita. É compreensível que, partindo dessas premissas equivocadas, não cheguem a lugar nenhum. Simplesmente não entendem como é possível que respeitável parcela de eleitores brasileiros se estejam preparando a votar num homem de extrema-direita.

Nós sabemos que a verdadeira razão da enxurrada de votos que o deputado campineiro está pra receber vem do fato de ele haver cristalizado a imagem do Quixote que nos há de livrar do mal lulista. Podia chamar-se Bolsonaro ou Eufrázio Bartolomeu, tanto faz. Podia ser do norte, do sul ou do meio, tanto faz. Podia ser boa-pinta ou caspento, tanto faz. Podia ser um ás da oratória ou um tartamudo, tanto faz. O está valendo é que foi visto como o mais bem posicionado para botar pra correr Lula e os maus e males que o acompanham.

Por aqui, comparam Bolsonaro a Trump, numa analogia estapafúrdia. Comparam-no ainda à francesa Le Pen ou ao italiano Matteo Salvini, ultradireitistas puros, cujo pensamento pouco tem a ver com o de nosso candidato. Não adianta. Enquanto não chegarem a perceber a verdadeira razão da ascensão de Bolsonaro ‒ e vai ser difícil que o consigam ‒ hão de perder-se em conjecturas e continuar patinando sem atinar com a lógica do movimento.

Para ver navios

José Horta Manzano

No último quartel do século XIX, as fronteiras entre os países sul-americanos ainda não estavam totalmente consolidadas. A região desértica que constitui a tríplice fronteira entre Chile, Peru e Bolívia fazia parte dessa nebulosa. Por ali, quem gritasse mais alto, levava.

Por um punhado de motivos ‒ ambições territoriais, interesses comerciais, diferendos fiscais ‒ estourou uma guerra em 1879. De um lado, estava o Chile; de outro, os aliados Bolívia e Peru. Quatro anos e várias batalhas depois, o Chile saiu grande vencedor. Como troféu de guerra, apoderou-se de bom pedaço de território antes reivindicado pelos adversários.

Em 1883, um tratado foi assinado entre Chile e Peru. No ano seguinte, outro acordo pôs fim à disputa entre Chile e Bolívia. O Peru se resignou com a perda de terras que, afinal, não eram habitadas por peruanos nem eram estratégicas. Já o caso da Bolívia foi mais crucial. O território perdido era justamente sua saída para o mar. Terminada a guerra e firmados os tratados, o país tornou-se encravado no continente, rodeado de terra, obrigado a pedir licença aos vizinhos ao importar ou exportar mercadoria. Uma dependência incômoda e irritante.

Nestes quase 150 anos, governos bolivianos tentaram esporadicamente convencer o Chile a abrir mão de um naco de seu território a fim de conceder à Bolívia um acesso ao mar. Amparado pelos tratados firmados, o Chile sempre permaneceu inflexível. A situação continuou morna até que chegou Evo Morales, primeiro presidente indígena do país.

Corte Internacional de Justiça, Haia

Há mais de doze anos no poder, señor Morales está no terceiro mandato. A Constituição lhe proíbe candidatar-se a um quarto. Mas ele bem que gostaria de modificar a Constituição pra poder continuar no poder. Como fazer? O jeito é conseguir uma aura de pai da pátria, o que lhe granjearia apoio unânime. Veio-lhe a ideia de obter para a Bolívia uma saída para o mar, velho anseio nacional. Faz 5 anos, numa jogada que mirava ao futuro, Morales decidiu agir.

Entrou com interpelação junto à Corte Internacional de Justiça, sediada em Haia (Holanda), pedindo que obrigasse Santiago a negociar com La Paz novo acordo outorgando à Bolívia «um acesso pleno e soberano ao Oceano Pacífico». Depois de deliberar por cinco anos, o tribunal informou que a decisão seria anunciada neste 1° de outubro. Señor Morales se abalou até Haia para assistir, sentado na primeira fila, ao bafejo da glória.

Na hora da sentença, veio a ducha de água gelada: o tribunal considera que nada obriga o Chile a sentar-se à mesa para negociar novo tratado. Desenxabido, señor Morales ficou a ver navios. “Ver navios” é, naturalmente, força de expressão. Na dura verdade, a Bolívia vai continuar, por muitíssimos anos, sem saída para o mar, vendo navios só em pintura.

Alô, mãe!

José Horta Manzano

Tenho um conhecido, pessoa inteligente e agradável, que gosta muito de falar. Tem, contudo, um defeito: adora falar de si. Enquanto está falando dele mesmo, não se cansa, e a conversa pode varar a noite. No entanto, a partir do instante em que o bate-papo passa a tratar de outra pessoa, meu amigo começa a bocejar e a olhar pro relógio. Faz décadas que nos conhecemos, mas ele não muda.

Lembrei desse conhecido quando li o incrível relato de que a defesa de Lula da Silva havia pedido às autoridades que deixassem o detento conceder entrevista a jornalistas. Como é que é? Presidiário dando entrevista? Estivéssemos em abril, eu acreditaria que era mentira ‒ perdão! ‒ fake news. Sabemos todos que o presidiário fala pelos cotovelos, mas… dar entrevista? Como ator de novela? Aí já estamos exagerando.

Inacreditavelmente, o pedido foi acolhido por um dos ministros do STF. Ato contínuo, um segundo ministro cassou a licença e voltou a proibir o preso de dar declarações a repórteres.

Simpatizantes de Lula da Silva se alevantam: «Como é possível que neguem ao ex-presidente o que já foi concedido a Fernandinho Beira-Mar?» Senhor do céu! E eu, ignorante, que não sabia que o traficante tinha dado entrevista. Vasto mundo.

A meu ver, a coisa está sendo analisada pelo avesso. O problema não está em negar a Lula da Silva o que já foi autorizado ao Fernandinho da coca. O que está errado é conceder esse tipo de regalia a preso. A qualquer preso. Não faz sentido.

Quando um indivíduo é condenado à cadeia, o objetivo é múltiplo. Além de aplicar-lhe castigo e buscar ressocializá-lo, a temporada na prisão protege a sociedade contra um elemento nocivo, que transgrediu regras de convivência. Se ele tem direito a se exprimir, a sociedade inteira tem direito a não ter de suportá-lo. O direito do apenado não pode primar sobre o dos demais cidadãos.

Preso não deve ser autorizado a dar entrevista, nem a fazer pronunciamento ou comício. A sociedade tem direito a viver em paz, sem esse ruído na linha. O fato de autorizações terem sido concedidas no passado não deveria ser razão para perserverar. Quando uma prática se revela perniciosa, há que mudá-la.

Repito. Se condenados têm seus direitos, a sociedade, com mais razão, terá os seus. Os direitos de quem está atrás das grades, condenado a passar uma temporada afastado do grupo, não podem atropelar os direitos dos concidadãos. Os cidadãos têm, sobretudo, direito a viver sem serem incomodados pelo condenado. Cada qual com seu cada qual, ué.