STF e mensalão

José Horta Manzano

Finalmente, a presidente desvelou o nome de seu preferido para ocupar a 11a. cadeira do Supremo Tribunal Federal. Cabe agora ao Congresso nacional referendar a concessão da toga ao ungido. Nossos representantes podem até, numa remotíssima hipótese, desautorizar a indicação presidencial e negar assento no STF ao postulante. Com o Congresso que temos, porém, essa conjectura está mais para delírio do que para realidade.

Até pouco tempo atrás, raros brasileiros acompanhavam as atividades do STF. Acredito até que a maioria nem sequer soubesse para que servia esse tribunal, nem quem eram seus componentes. O cidadão comum se interessava pela composição do colegiado do STF tanto quanto se importava com a diretoria do IBGE ou da Embrapa.

Mas… o mensalão perpassou pelo cenário nacional. E o palco para o qual se orientaram todos os holofotes foi justamente o Supremo. Como por acaso, o Brasil descobriu que o regime dispõe de um terceiro (ou seria apenas segundo?) poder, independente e autossuficiente. No ideário do brasileiro médio, o STF passou a exercer o papel que antes cabia à oposição. É a única instância que ousa enfrentar o governo. Aliás, muitos chegam a enxergar em seu atual presidente um sério concorrente a ocupar o Palácio do Planalto.Boi

No Brasil deste século XXI, um Executivo hipertrofiado mascara um Legislativo encolhido, afônico e submisso. O Planalto não se limita a orientar sua maioria no Congresso, mas frequentemente se susbtitui a ela. Sob forma de medidas provisórias, leis importantes são costuradas diretamente no seio do Executivo, passando ao largo de deputados, de senadores e de debate público. Os congressistas têm-se tornado meros referendadores de pacotes já decididos e embrulhados sabe-se lá por quais obscuras camarilhas. Pacotes que já vêm prontos, acabados e com laço de fita.

O 11° ministro do STF começou bem. Constitucionalista de formação, não parece apreciar a atual confusão de papeis. Fiel a Montesquieu, continua achando que decisões políticas devem ser tomadas pelos que foram eleitos para isso. Em resumo, cabe aos legisladores legislar, aos governantes governar, aos magistrados dirimir conflitos. É uma questão de bom-senso, mercadoria assaz escassa no País ultimamente.

Todos se perguntam como se comportará Luís Roberto Barroso com relação ao epílogo do julgamento do mensalão. Tanto pode declarar-se incompetente para interferir num processo que já vai adiantado quanto pode considerar-se apto a apanhar o bonde andando e participar das decisões que estão por vir. O tempo dirá.

Quanto ao mensalão, uma eventual confirmação das condenações não deverá alterar o estado atual das coisas. Muito pelo contrário. Após meses de processo público e ultramidiatizado, o Brasil pensante já formou sua convicção.

Conquanto alguns medalhões petistas tenham sido condenados por crimes vários, num acachapante revés para o principal partido situacionista, a popularidade da presidente não parece ter sofrido. É curioso, mas assim é.

Uma eventual confirmação da condenação, portanto, não deverá alterar o quadro. Já uma atenuação das penas pronunciadas ou ― pior ― a absolvição de condenados pode envenenar a situação e gerar uma onda de indignação, descrédito e revolta. Não seria bom para a atual maioria.

Paradoxalmente, os que se sentem contentes com a maneira pela qual o Brasil vem sendo dirigido nos últimos dez anos devem torcer para que a entronização do novo ministro no STF faça pender a balança no sentido da confirmação das penas.

Se assim acontecer, os condenados terão representado o papel de boi de piranha: sacrifica-se uma meia dúzia para permitir que o grosso da tropa de companheiros atinja incólume a outra margem do rio. Tanto a presidente quanto seu partido conservarão todas as chances de continuar no topo por mais alguns anos.

É melhor entregar os aneis para não perder os dedos.

Cobranças e pedidos

José Horta Manzano

Papa Francisco foi entronizado. Uma situação bizarra, em que dois pontífices coexistem, um já aposentado e outro na ativa. Quem tem menos de 500 anos de vida ― e acredito que seja o caso de todos nós ― nunca viveu uma situação semelhante.

A História já registrou momentos confusos, quando dois homens reivindicavam o mesmo trono, ambos convictos de representar a autoridade suprema da Igreja. Cada um considerava o outro um antipapa. O cristianismo chegou até a conhecer três papas ao mesmo tempo. Mas isso já faz muito tempo, muito mesmo. O último capítulo desse cisma desenrolou-se há 600 anos.

Cada país, cada povo, cada religião, cada confraria, cada clube tem suas regras. Ainda que nenhum caso parecido tenha ocorrido nos últimos séculos, a doutrina da Igreja não impede o Sumo Pontífice de renunciar a seu cargo. As regras, portanto, não foram infringidas.

A cada função correspondem rituais que lhe são inerentes. Representar um grupo é encargo cerceado por normas explícitas. Até reis e dirigentes absolutistas costumavam respeitar uma certa liturgia. Caso algum detalhe do cerimonial não esteja escrito em papel quadriculado, vale o bom senso. Certas quebras de protocolo podem até ser divertidas e inócuas. Em geral, são aceitas de bom grado. Já outras transgressões pegam mal.Dilma e Cristina

Centenas de chefes de Estado, primeiros-ministros, presidentes e outras personalidades viajaram a Roma estes dias. Foram todos marcar presença. Coube a cada um deles levar a homenagem de seu país ao novo chefe do Estado do Vaticano. Cerca de 150 países enviaram representantes para a entronização do papa.

Não deveria passar de uma visita protocolar, algo como dar bom-dia ao vizinho. Muitas vezes, preocupados com nossos problemas quotidianos, não temos a menor vontade de saudar vizinho no elevador. Mas faz parte do jogo. Todo jogo tem suas regras.

Espantosamente, alguns dos visitantes ultrapassaram os limites fixados pelo protocolo. Por sorte, não foram muitos. Mas dois deles extrapolaram. São justamente pessoas importantes em seus respectivos países.

Cristina Fernández de Kirchner, presidente da vizinha República Argentina, foi uma delas. Com uma das mãos, ofereceu ao homenageado uma cuia de chimarrão. Sem cerimônia, aproveitou para estender a outra mão com um pedido ao Papa Francisco: solicitou seu apoio no diferendo que a opõe ao Reino Unido a propósito das Ilhas Falkland/Malvinas. Por sorte (ou por pudor), os fotógrafos não registraram nenhum tapinha nas costas.

Foi como se a senhora Fernández de Kirchner dissesse: «Olhe aqui, Santidade, o senhor pode até ser papa, mas não deixa de ser argentino. Portanto, fique com esta cuia e me ajude a agregar aquele arquipélago ao nosso território. Meu futuro político depende disso». Que falta de classe! Pior ainda quando se sabe, pela imprensa do país hermano, que a convivência entre a “presidenta” e o então cardeal foi áspera.

Dilma Rousseff, presidente da República Federativa do Brasil, foi ainda mais longe. Não ousou dizer na cara do Papa Francisco o que queria, mas fez chegar-lhe um recado pelos jornalistas. Antes mesmo que o novo chefe da Igreja assumisse o cargo oficialmente, Dilma deu-lhe, por caminhos tortuosos, uma lição (não solicitada) sobre como conduzir o rebanho. Instou o novo pontífice a procurar compreender as «opções diferenciadas das pessoas»(sic).

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Dizem que o poder inebria e que, às vezes, chega a cegar. Quando é exercido por pessoas pouco preparadas, a coisa é ainda pior. De um convidado para uma homenagem, espera-se que venha com os braços cheios de presentes e que se retire com as mãos vazias. Choradeira tem hora. Onde já se viu fazer pedidos públicos ao homenageado do dia? Tem cabimento dar-lhe lições de bem governar? O comportamento das duas senhoras foi ousado e grotesco. Deram, mais uma vez, mostra de absoluta falta de tacto. Há hora e lugar para tudo, mas elas não leram o manual.

A língua portuguesa tem muitas palavras em vias de extinção, por mera falta de uso. A atitude da chefe do Executivo de nosso País comprovou a obsolescência de um desses termos: recato. Faz muita falta a nossos mandachuvas.

Em castelhano, por acaso, a palavra é a mesma.

Frustração

José Horta Manzano

Um pouco por seus próprios méritos, um pouco por ajuda de interesseiros, o Lula conseguiu, em sua quarta tentativa, ser eleito presidente do Brasil.

Um pouco por interesse dos que o tinham ajudado a guindar-se à presidência, um pouco por sua própria vontade, o Lula ansiava ficar na História. História mundial, se possível.Boina

Sob o conselho de assessores mais bem informados e sintonizados com a realidade, seu governo manteve, em suas grandes linhas, a mecânica de funcionamento que já havia destravado o País antes de sua eleição. Não transtornar a gestão da economia foi fundamental. O sol desanuviado que inundou as finanças planetárias até a crise de 2008 ajudou também. E muito.

Nosso presidente, embriagado pelo sucesso que ― para espanto de cidadãos mais antenados ― não hesitou em atribuir exclusivamente a seus méritos pessoais, queria mais. As fronteiras nacionais, embora extensas, tornaram-se estreitas para seu anseio de glória planetária.

Seus assessores ― acertada ou ingenuamente, só o tempo dirá ― sopraram-lhe que o caminho mais direto seria alçar contra os Estados Unidos, potência  dominante, uma bandeira de discordância explícita e sistemática.

O presidente anuiu e acumpliciou-se com os que lhe indicavam a senda exótica. Nossos dirigentes decidiram, então, entregar nossos anéis, de mão beijada, à China. Em sua ingenuidade, convenceram-se de que o país oriental, pobre e atrasado como o nosso, se tornaria nosso melhor aliado. Mais que isso: nossa melhor garantia de conquistar uma cadeira cativa no Conselho de Segurança da ONU, obsessão do Planalto já faz 10 anos. Na garupa, viria, naturalmente, a glória eterna de nosso taumaturgo.

Doce ilusão. Esqueceram-se de Drummond. (Talvez jamais tenham ouvido falar dele.)

No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.

PedraÉ. A pedra se chamava Hugo Chávez. Com esse, ninguém contava. Até pouco tempo antes, a Venezuela era apenas conhecida como saco de pancada da seleção nacional de futebol. Cinco a zero, seis a zero, oito a zero, era tudo o que esperávamos dos hermanos do norte.

Acontece que Hugo Chávez também tinha acólitos que o aconselhavam. E seus auxiliares lhe haviam soprado a mesma recomendação que recebera nosso presidente: afrontar os Estados Unidos.

O inconveniente é que Chávez foi mais rápido, mais midiático e mais contundente. Terá sido por sua boina caída de lado, por sua camisa vermelha, por seu descaramento, por sua falta de compostura. Terá sido porque seu único produto de exportação era mais estratégico que todos os nossos reunidos. É difícil dizer.

O fato é que o presidente vizinho fez mais barulho que o nosso, projetou-se mais que o nosso, amedrontou mais que o nosso. Em uma palavra: enevoou a imagem que nosso Lula nacional gostaria de ter projetado no planeta.

Nosso guia teve de abandonar a ideia de tornar-se líder da rebeldia sulamericana. Foi obrigado a contentar-se com o papel de coadjuvante. Há de ter sido uma das maiores frustrações de sua carreira.

O destino, que é inexorável, decidiu e obrou. Enquanto nosso Lula era número um inconteste no Brasil e brilhava dentro das fronteiras, quem resplandecia no panorama global era Chávez. Ofuscava nosso presidente. Incomodava.

Agora acabou. Ao bolivariano, restam as homenagens dos irredutíveis, as obséquias nacionais, a comoção do bom povo, o culto póstumo. A nosso guia tupiniquim, resta a amargura do que poderia ter sido mas não foi.

Se nosso Lula guarda ― entre outros ― um desgosto particular, é certamente este: seu caminho ao estrelato foi sombreado por um concorrente com as mesmas ambições. Que fazer? Nada é perfeito.

Agora é tarde. Para ambos.

A visitante

José Horta Manzano
Artigo publicado pelo Correio Braziliense em 2 março 2013

Pelos anos 70, no auge de sua produtividade, a dupla formada por João Bosco ― mineiro de ascendência libanesa ― e Aldir Blanc ― carioca de nome francês ― lançou o samba Incompatibilidade de gênios. Clementina de Jesus, com sua inimitável voz andrógina, deu-lhe o empurrão definitivo para a celebridade.

Muitos se lembrarão do trecho que dizia «se eu tô devendo um dinheiro e vem um me cobrar, a peste abre a porta e ainda manda sentar». A genialidade reside, muita vez, na simplicidade. Essa frase é resumo dos princípios de polidez que nossa civilização levou séculos para destilar.

Quando se recebe alguém, antes de tratar de negócios, antes mesmo de oferecer um cafezinho, propõe-se ao convidado que se sente. Todos já ouvimos um comentário do tipo «imagine que nem me mandou sentar!», percebido como afronta.

Sentar-se antes dos outros, pôr-se à cabeceira da mesa, ficar num cantinho, ser guindado a um lugar de honra são variantes do mesmo tema, cada qual com sua simbologia. E não é de hoje: faz dois milênios, assembleias romanas já mediam o prestígio ou a irrelevância de cada participante pelo lugar que ocupava.

Era prerrogativa do chefe do parlamento sentar-se à frente dos demais. Daí o termo præsidentem, formado pelo prefixo præ (=antes) e pelo particípio presente do verbo sideo (=sentar-se). A palavra assim formada designava aquele que dirigia os trabalhos. Por caminhos tortuosos, acabou desembocando em presidente, que entre nós qualifica, por extensão de sentido, aquele que manda. Quando a função é temporariamente exercida por uma mulher, há quem prefira «presidenta», forma exótica e pouco natural para um descendente direto de particípio presente. Mas não nos percamos, continuemos em Roma.

Se todos os homens fossem iguais e pensassem da mesma forma, o mundo seria muito sem graça. Ainda bem que não é assim. No Senado e em outras assembleias romanas, alguns participantes podiam não compactuar com o chefe. Podiam até discordar da maioria. Concedo que, no Brasil de hoje, tal atitude tornou-se inusitada, mas, acreditem, não é incomum em outras paragens. Aqueles cujas ideias se chocavam com as do chefe e da maioria sentavam-se a certa distância dos outros. Cada um deles era um dissidentem, termo formado pelo prefixo dis (=separado) e pelo particípio presente do mesmo verbo sideo (=sentar-se). É fácil deduzir que a palavra latina equivale ao que hoje chamamos dissidente.Visitante 1

Brasília recebe visitas frequentes de dirigentes estrangeiros, chefes de Estado, primeiros-ministros, presidentes de assembleia e outros graduados. Acolhe também figurões que não estão necessariamente de acordo com as diretivas políticas de seus respectivos países: candidatos a cargos eletivos, por exemplo. Generosos, nossos dirigentes geralmente dão um jeito de homenagear todos os visitantes, estejam eles ou não de acordo com a maioria governante em seus respectivos países.

Um fato pra lá de curioso, no entanto, envolve a palavra dissidente. Ela é hoje usada exclusivamente para designar indivíduos que militam contra regimes autoritários. Já reparou? Ninguém qualificaria de dissidente uma figura contrária ao presidente Hollande, ao presidente Obama, ao primeiro-ministro Cameron. Nem o Lula, que só se tornou conhecido quando o autoritarismo agonizava, jamais foi chamado de dissidente. Designar alguém por esse termo implica qualificar de autoritário ― se não despótico ― o governo de seu país. É um quase ato falho de que nem todos se dão conta.

Faz alguns dias, recebemos uma visita insólita. Como nunca antes na história deste país, uma blogueira foi recebida no Congresso Nacional, com toda a pompa e circunstância devidas a um visitante notável. Veio de Cuba e chegou ao cabo de mil peripécias que não vale a pena repetir aqui.

Não é todos os dias que um visitante estrangeiro é, ao mesmo tempo, alvo de manifestações hostis e centro das atenções de congressistas. Parece que, passado o choque das primeiras carantonhas que a receberam no Recife, a moça guardou a impressão de um Brasil menos agressivo. Chegou até a dizer que levaria a recordação da pluralidade de opiniões. Melhor assim.

Um fato, porém, vale ser lembrado. Em junho de 2011, nossa atual presidente recusou-se a receber Shirin Ebadi, dissidente iraniana, já então detentora de um Nobel da Paz(!).Visitante 2

O cartão de visita de Yoani Sánchez não menciona nenhum Nobel. Ainda. É apenas blogueira e dissidente, mas isso já lhe valeu visto de entrada e homenagem do Congresso brasileiro. É um progresso.

Vai arco aí, doutor?

José Horta Manzano

A partir do começo dos anos 70, justamente quando a briga entre árabes e judeus começou a esquentar, os países produtores de petróleo se deram conta de que tinham nas mãos um fabuloso instrumento de pressão.

De repente, o planeta ficou sabendo que havia um organismo chamado Opep, fundado já em 1960. Até então, pouco se ouvia falar desse clube que reunia os grandes fornecedores do ouro negro.

O Brasil, cuja produção era pouco significante, passou a sofrer com a súbita elevação de preço do óleo bruto. O governo federal teve então um (raro) rasgo visionário. O país não podia continuar a depender de desentendimentos que se passavam do outro lado do planeta, desavenças que escapavam a seu controle. Era mais que urgente encontrar um substituto nacional para o produto importado.

Foi essa a agulhada que impulsionou a pesquisa acelerada e que, em pouco tempo, elevou a produção brasileira de álcool combustível a níveis comercialmente viáveis.

O novo líquido não tinha a mesma eficiência da gasolina, mas, de certa forma, liberava o País da dependência total dos grandes produtores. A importação continuou ― continua até hoje ― mas em escala bem mais modesta.

Foram logo lançados os primeiros automóveis com motor apto a digerir o novo carburante. O nome químico é algo pomposo: álcool anidro ou álcool etílico. Mas o povo tratou logo de acabar com essa reverência toda. Desde o primeiro dia, todos chamaram a novidade simplesmente de álcool. Quando o cidadão encostava seu veículo junto à bomba, o frentista costumava perguntar: «álcool ou gasolina?».

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Alcool 3

 

No dia 8 de março de 2007 ― está para fazer 6 anos justamente estes dias ― o presidente dos Estados Unidos, um certo George Bush (o filho), já no apagar das luzes de um mandato pra lá de criticado, fez uma rápida visita ao Brasil. Quem quiser rememorar a ocasião, que releia a reportagem da Folha de São Paulo daquele dia.  Nota: a releitura não é obrigatória.

Dizem as más línguas que George W., quando jovem, tinha uma certa quedazinha pelo álcool. Nunca me encontrei com o figurão pessoalmente, portanto não tive ocasião de fazer-lhe a pergunta diretamente. Fico-lhes devendo a  confirmação.

Não sei se terá sido para poupar más recordações ao visitante ou se alguma outra absconsa razão terá influído. O fato é que, a partir daquele exato dia, nosso álcool combustível mudou de nome. Passou a chamar-se etanol.

A etimologia e a história das línguas me atraem muito. Em tudo o que li até hoje, nunca ouvi falar de uma palavra que tenha sido espontaneamente banida e substituída por outra em 24 horas. E de maneira peremptória. Merecia até entrar para o Livro Guinness de Recordes.

Se alguém tiver alguma ideia, que se manifeste, por favor.

Ah, se Bolivar soubesse…

José Horta Manzano

«Brasil pede que Venezuela realize eleições se Chávez morrer», proclamou a Folha de SP.

O Jornal do Brasil foi mais incisivo: «Brasil quer (sic) novas eleições em caso de morte de Chávez».

A Agência Reuters seguiu na mesma linha: «Exclusivo: Brasil quer (sic de novo) eleição na Venezuela se Chávez morrer».

Nenhum deles mencionou claramente suas fontes. Mas, pela convergência das afirmações, é de acreditar que a «vontade» do Brasil emane de esferas pra lá de elevadas. O desejo terá sido expresso por gabinetes estreitamente ligados ao Planalto. Talvez a ânsia venha dos mesmos aposentos que abrigam os sombrios personagens que já vêm se manifestando há alguns dias.

Mas que história é essa de «o Brasil quer»? A Venezuela não é um protetorado brasileiro. Ao que se saiba, não pediu a opinião ― e muito menos solicitou a intervenção ― de Brasília.

Fico curioso tentando adivinhar qual seria a reação de nossos mandachuvas se a situação fosse inversa. Imaginemos por um instante ― é somente um exercício hipotético, que não me atribuam votos nefastos! ― que o inquilino do nosso Planalto estivesse nos estertores, a um pé da cova, como diz o povo.

Suponhamos ainda ― continuo no campo da teoria, que ninguém me atire pedras ― que um governo estrangeiro se atrevesse a declarar abertamente como quer (sic) que a transição se passe em nossas plagas.

Dá para imaginar a indignação e o fuzuê que isso causaria por aqui?

Brasil e Venezuela 1

Tanto a sofrida Venezuela quanto o sofrido Brasil são, até segunda ordem, Estados (em teoria) civilizados, soberanos, organizados, reconhecidos internacionalmente e, acima de tudo, regidos por uma Constituição. A Venezuela, como todo país de direito, conta com uma Lei Maior que indica o caminho a seguir em caso de impedimento, ausência ou falecimento do primeiro mandatário. Não cabe a outros dar-lhe lições para enfrentar situações políticas particulares.

As regras geralmente aceitas de convivência pacífica entre nações não preveem, em hipótese alguma, que uma potência estrangeira intervenha com tal descaramento no destino de outro país. Pelo menos, não de maneira tão desabrida. Pelo menos, não em tempo de paz.

Troca de notas diplomáticas sigilosas sempre houve e sempre haverá. Faz parte do jogo. O que não tem cabimento é a publicidade que se tem dado a autoridades que, ao exprimir anseios pessoais, embaraçam e comprometem uma nação inteira.

Como dizem os ingleses, se cada um varresse diante de sua própria porta, o mundo inteiro seria mais limpo.

Mais um

Àqueles que acham que me excedi ao criticar a intromissão da diplomacia brasileira no caso da vizinha Venezuela ― cujo presidente eleito está impedido de tomar posse do cargo por problemas de saúde ―  recomendo dar uma espiada no artigo de Elio Gáspari publicado pela Folha desta quarta-feira. Ultraexperiente em política, o jornalista não só vai direto ao ponto, como também faz um paralelo com situações já vividas pelo Brasil no tempo dos militares. Vale a pena conferir.

Identidade de análise

José Horta Manzano

Publiquei ontem um post que chamei  De quoi je me mêle. No escrito, eu me insurgia contra o fato de o governo brasileiro interferir desabridamente em problemas internos de um país vizinho.

Vejo hoje, reconfortado, que um dos editoriais do Estadão vai exatamente pela mesma linha e com os mesmos argumentos. É bom a gente sentir que não está só. Confira.

De quoi je me mêle?

José Horta Manzano

Caso você cometa a indelicadeza de se meter em assuntos alheios, caso se intrometa onde não foi chamado, os franceses têm uma receita pronta para exprimir irritação. «De quoi je me mêle?» ― lançam eles de bate-pronto. É sempre difícil traduzir expressões ao pé da letra. Mas o sentido da repreensão é claro: o que é que você tem a ver com isso?

Conhecemos todos várias expressões que vão pelo mesmo caminho. Sabemos que, em briga de marido e mulher, não se deve meter a colher. Ninguém ignora tampouco que cada um deve saber onde lhe aperta o sapato. E até criança sabe que sapo de fora não chia. Todos sabemos disso. Eu disse todos? Engano meu, caro leitor, engano meu.

Tem gente por aí que deve ter perdido algumas aulas de bem viver. Enquanto opiniões indevidas se restringem ao âmbito privado, permanecemos no nível de desavenças familiares, de discussões de cortiço, de palpites de vizinho. O resultado pode ser, no máximo, uma cara-fechada.

O poder executivo brasileiro tem a felicidade de poder contar com os préstimos de diversos assessores. Em outros lugares do mundo, seriam chamados conselheiros. Um desses personagens ― que serviu ao presidente anterior e continua, firme e forte, aconselhando a presidente atual ― especializou-se em dar seus palpites em matéria de política estrangeira.

É um tanto inadequado, dado que temos um Ministério especificamente dedicado às relações com países estrangeiros. O assessor ao qual me refiro situa-se numa espécie de limbo, uma peça solta no organograma. Sua função parece ser a de corroborar, sempre que necessário se faça, que nosso País persiste em seu apoio a governos autoritários.

Esse senhor declarou estes dias que o Brasil apoia o adiamento da tomada de posse do mandatário da vizinha Venezuela. Confira aqui e aqui. Cada um é livre de ter sua opinião. Por enquanto, pelo menos. Mas aqui fomos mais longe. O assessor não disse que essa era sua opinião, mas exprimiu-se em nome de 200 milhões de compatriotas. É surpreendente que um simples conselheiro da República, que nem ministro é, esteja imbuído de poder tão excelso.Blabla 2

Alguns imaginaram que a malograda intromissão em assuntos internos de Honduras tivesse servido de lição a nossa diplomacia errática. Enganaram-se. Mais improvisação ainda estava por vir.

Outros acharam que a traiçoeira suspensão do Paraguai do Mercosul ― aprovada pelo Brasil ― era o vexame máximo, impossível de ser suplantado. Enganaram-se de novo. Os três sócios se irmanaram numa malandragem ainda mais audaciosa: valeram-se da ausência do parceiro privado de voz para determinar a entrada da Venezuela no clube.

Trágico é o destino de um País cujo governo não aprende com seus próprios erros. A reincidência está aí. Nosso sublime assessor especial alevantou um imenso auto de fé, lançou nele todos os manuais de recato e de prudência, e cedeu à soberba. Interferiu mais uma vez na política interna de um vizinho. Em nome de todos nós, frise-se.

Já dizia Tom Jobim que o Brasil não é um país para principiantes. Nem para amadores, completaria eu. Até prova em contrário, a Venezuela é um país de direito, adulto e vacinado. Rege-se por uma constituição. Se houver controvérsias, elas hão de ser resolvidas pelos próprios venezuelanos. Cabe a eles a decisão, e não a um assessor do governo brasileiro. Nem que esse assessor seja «especial».