China ou Portugal?

José Horta Manzano

Você sabia?

Quatro ou cinco milênios atrás, os chineses já plantavam laranja. Supõe-se que as variedades doces e comestíveis não tenham surgido espontaneamente. São resultado de sucessivos enxertos e cruzamentos entre diferentes cítricos. Espécies híbridas continuam sendo desenvolvidas.

Com o passar dos milênios, o território de cultivo da fruta foi se expandindo. Da China, passou pelo sul da Ásia e chegou à Europa. Na Roma antiga, a laranja já era conhecida e consumida. Sem ser propriamente árvore delicada, a laranjeira detesta frio. Climas tropicais e semitropicais são os mais favoráveis. Nas regiões temperadas, o cultivo é complicado e pouco produtivo.

Conhecida e difundida na Europa do sul e na orla mediterrânea, a fruta era, na Idade Média, praticamente desconhecida no norte do continente. De fato, na Alemanha, no norte da França, na Inglaterra, nos países eslavos do norte, o clima não permite o cultivo.

Aliás, não precisa voltar muito no tempo para chegar à época em que laranja era artigo raro, precioso e distribuído com parcimônia. Lá pelos anos 50, quando produtos importados eram raros e caros, as escolas primárias suíças distribuíam a cada aluninho, como presente de fim de ano… uma laranja. Era uma festa. Para muitos deles, era a única ocasião do ano em que saboreavam a fruta.

O maior produtor mundial é, de longe, o Brasil, cuja safra é maior que a dos três países seguintes somados (EUA, China e Índia). Clima favorável e grandes áreas de terra disponíveis são responsáveis pelo fenômeno. Nos Estados Unidos e na China, o cultivo se restringe à faixa meridional do território, úmida, chuvosa e livre dos gelos do inverno. Na Índia, apesar do clima propício e do território vasto, a impressionante massa de habitantes não pode viver só de suco de fruta. A terra tem de ser utilizada para outras culturas, o que reduz o espaço dos laranjais.

O nome da fruta vem de longe ‒ tanto no tempo quanto no espaço. Grande parte dos estudiosos apontam que o nome da fruta, em nossa língua, tem longínqua origem tâmil, língua falada no sul da Índia e na ilha de Ceilão, onde soa algo como «naram». O termo passou pelo sânscrito e pelo persa. Na atualidade, o nome da fruta se prende a três ramos principais.

Os fiéis
Numerosas línguas se mantiveram fiéis às origens. Pequenas variações ou adaptações à fonética são naturais, embora o cerne permaneça. Entre elas, estão:

● Português: Laranja
● Húngaro: Narancs (=narantch)
● Espanhol: Naranja
● Croata: Naranča (=narantcha)
● Italiano: Arancia
● Francês: Orange
● Inglês: Orange
● Persa: پرتقال (=narang)
● Japonês: オレンジ (=orendji)
● Tcheco: Pomeranč (=pomerantch)
● Esloveno: Pomaranča (=pomarantcha)

Os «chineses»
Sabe-se lá por que, alguns povos decidiram dar à fruta o nome de «maçã da China». Entre eles, estão:

● Dinamarquês: Appelsin
● Estoniano: Apelsin
● Alemão: Apfelsine, (também Orange)
● Norueguês: Appelsin
● Russo: апельсин (Apelsin)
● Sueco: Apelsin
● Holandês: Sinaasappel

Os «portugueses»
Talvez por influência de comerciantes portugueses, (é uma hipótese), certos povos dão à laranja o nome da velha Lusitânia:

● Búlgaro: портокал (=portokal)
● Grego: πορτοκαλής (=portocalís)
● Árabe: بُرْتُقال (=burtukála)
● Romeno: Portocală
● Turco: Portakal

Maçã da China, de Portugal ou do Ceilão, a laranja faz bem à saúde. Quem não quiser apanhar escorbuto, que chupe laranja.

Curiosidade
Para o europeu, a cor da casca da laranja tem de ser… cor de laranja. No Brasil, estamos acostumados a consumir certas variedades de casca verde. Na Europa, já se fizeram tentativas infrutíferas. Se a casca do produto não for cor de laranja, ninguém compra: todos pensam que está verde.

Em consequência, boa parte das laranjas passa por (mais) um processo químico que lhes confere artificialmente a cor típica. Mas não se assuste, parece que assim mesmo continua protegendo contra escorbuto.

Que um muro alto proibia…

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José Horta Manzano

Especialista em arquitetura penitenciária é que não sou. Aliás, acho que não há muitos em nosso país. Se houver, parece que o governo esqueceu de consultá-los quando implantou a penitenciária de segurança máxima de Mossoró.

Ao pensar em uma prisão, a imagem que vem à mente de qualquer cidadão é um edifício de aspecto severo cercado por um muro alto encimado de rolos de arame farpado. A fotografia das instalações penitenciárias de Mossoró que sai na mídia todos os dias mostra um conjunto de edifícios baixos, emoldurados de um verde aprazível, rodeados apenas por um alambrado, sem sombra de muro. Um espanto!

Quer dizer que prisioneiros comuns são encarcerados em estabelecimentos que parecem fortificação medieval, enquanto condenados de altíssima periculosidade cumprem pena como se estivessem em vilegiatura, em meio ao verde repousante, sem muros que lhes tolham a visão. Um assombro!

É possível que teorias modernas de construção de prisão proponham que estabelecimentos de alta segurança sejam cercados apenas de alambrado. Leigo no assunto, tenho dificuldade em conceber essa escolha. Não é por nada não, mas será que a verba para construção do muro alto não teria sido – por engano, naturalmente – desviada para compra de tratores ou de bois?

Que tenha sido erro ou traquinagem, o resultado está aí. São atualmente 500 profissionais destacados para a “caçada” aos fugitivos. Quem diz meio milheiro de policiais, subentende tudo o que acompanha: locomoção, alimentação, alojamento, logística (quem lava e passa as fardas?), helicópteros à disposição, visita de ministro direto de Brasília. Tudo isso por dois homens. E por falta de muro.

Se duvidar, é capaz de esse verdadeiro movimento de tropas estar saindo mais caro do que a contrução de um muro alto com arame farpado em cima.

Cria vergonha!

José Horta Manzano

Cria vergonha! – a expressão é do tempo de meu pai. Uma notícia de hoje me fez lembrar dela, mas fazia um tempo que andava sumida. É compreensível que tenha desaparecido. Usava-se falar assim no tempo em que “ter vergonha na cara” significava alguma coisa.

Hoje, acredito que o assunto já não comova. Chamar alguém de “sem vergonha” não faz efeito, acho que nem xingamento é mais.

Por ser muito branda, a expressão não faz mais parte da escala de ofensas. Hoje em dia, insulto bom já começa em “Ladrão!”. E daí pra cima, passando por “Nazista!”, “Comunista!” e companhia bela.

É indiscutível que o nível de tolerância de comportamentos violentos anda um bocado maleável, deixando a velha “vergonha na cara” em posição de primo pobre e fraquinho. Mas não é a única razão por trás do sumiço da antiga expressão. O problema maior é que já não se dá à “vergonha na cara” o mesmo valor de antes.

Atualmente, acho que a vergonha já não aparece entre as qualidades exigidas do perfeito cidadão. Em personagens políticos, então, é virtude praticamente inexistente. Sem nenhuma vergonha, eles insultam, roubam, corrompem, deixam-se corromper, esbanjam nosso dinheiro, beneficiam parentes.

Quando a Federal apanha um deles com a mão na carteira alheia, o danado nem se mostra envergonhado. Logo alega que o culpado não é ele, é outro. E, em geral, fica por isso mesmo. Vergonha na cara, ninguém exibe.

Como eu dizia, hoje, de repente, me reapareceu diante dos olhos a velha expressão. E veio da boca do presidente da República. Numa entrevista, indagado sobre o caso Robinho, Lula foi direto: ”Todas as pessoas que cometerem crimes de estupro têm que ser presas”. E emendou:


“Um homem, jovem que tem dinheiro, um jovem rico, famoso, praticar estupro? E coletivo? E acha que não cometeu crime! Acha que estava bêbado? Ah, cria vergonha! Estupro é um crime imperdoável!”


Não sei se todo o mundo pensa igual, quanto a mim, aplaudi de pé a fala presidencial. E olhe que não é todos os dias que isso acontece…

Estupro é crime covarde, em que um indivíduo forte submete um mais fraco. No assalto à mão armada, o forte (que aponta a arma) também submete o frágil (desarmado), só que, no estupro, além da arma apontada, há a humilhação e a dor da violação do corpo desonrado. Estupro coletivo, então, é covardia ao cubo. Em outras latitudes, dá perpétua.

Está terminando a época em que nosso país acolhia o refugo da criminalidade internacional. Durante décadas, mafiosos, nazistas, assassinos, assaltantes de trem pagador & alia encontraram abrigo nestas terras tropicais. Hoje rareiam. E não está longe o dia em que não virão mais.

O Brasil não pode ser covil de criminosos. O Lula tem toda razão: lugar de estuprador é na cadeia. Vamos ver que decisão tomam os magistrados encarregados do caso desse “jovem, rico, famoso” – nas palavras do presidente.

Vai aqui uma ideia para evitar que a índole honesta do brasileiro continue a se esgarçar. No finalzinho do Hino Nacional, onde se canta “Pátria amada, Brasil!”, que se passe a cantar “Cria vergonha, Brasil!”.

Cagões em silêncio

Ruy Castro (*)

O presidente Lula afirmou que não irá ficar remoendo o passado a respeito de 1964, porque os atuais generais eram crianças quando o golpe militar aconteceu e não tiveram nada a ver com ele. Tem razão. Como esses generais estão hoje entre os 60 e os 70 anos, tinham então menos de 10, idade em que, segundo Nelson Rodrigues, deviam estar raspando perna de passarinho a canivete. Ou passando mais tempo no banheiro do que estudando.

Por não serem responsáveis por 1964, os generais hoje na ativa não deveriam se sentir herdeiros do golpe e obrigados a defendê-lo das acusações de tortura, execução e desaparecimento de seus adversários. Ao contrário – sem envolvimento emocional com os algozes e vítimas, seu maior interesse deveria ser ilibar as Forças Armadas dessa nódoa, admitindo que foram tais e quais oficiais que cometeram os crimes, e não as Forças em conjunto. O “esprit de corps” de que não se livram só serve para explicar por que, culpado ou inocente, nenhum milico saía fardado às ruas das grandes cidades brasileiras durante a ditadura.

Os generais de hoje têm agora também a oportunidade de impedir que o espírito golpista e criminoso de alguns de seus colegas contamine a opinião de quem, daqui a 60 anos, se debruçar sobre outro golpe ou tentativa de – o de 2022.

Para isso, deveriam contar tudo o que sabem nos depoimentos a que forem intimados, em vez de ficarem mudos como fizeram há pouco nove cagões, entre os quais os generais Augusto Heleno, Braga Netto e Paulo Sérgio Nogueira e o comandante Almir Garnier. O silêncio só lhes serviu para, além de se autoincriminarem, exibirem sua covardia. Sim, Bolsonaro também ficou mudo, mas este sempre foi um valente de palanque – e, agora, nem isso.

Pelo retrospecto, Heleno, Braga, Paulo Sérgio e Garnier, crianças em 1964, deviam ser das que, diante do perigo, corriam para as saias da mãe. Continuam.

(*) Ruy Castro (1948-) é escritor, biógrafo, jornalista e colunista. Este texto foi publicano n’O Globo.

Vox populi

José Horta Manzano

A pluma do jornalista Lauro Jardim nos informa que convocar a manifestação na Avenida Paulista duas semanas atrás foi um grande erro que Bolsonaro cometeu. Não se trata de opinião de uma pessoa, mas de resultado de pesquisa do Ipec, instituto que, entre os dias 1° e 5 de março, consultou dois mil eleitores sobre o assunto.

A uma questão direta, a resposta tem de ser direta. A pergunta era: “Na sua opinião, está certo ou errado o ex-Presidente Jair Bolsonaro convocar um ato em seu apoio após se tornar alvo de investigação da Polícia Federal pela suspeita de ter planejado um golpe de Estado?”. E a resposta só podia ser “certo” ou “errado”, sem mais nuances.

Pasmem: 61% dos entrevistados julgam que Bolsonaro errou ao organizar o comício. O resultado é surpreendente, visto que, pouco mais de um ano atrás, o país saiu das eleições dividido em dois campos de tamanho praticamente igual.

A pesquisa mostra que não só os que votaram no Lula acham que Bolsonaro fez uma grande besteira. Até entre os que têm simpatia pelo capitão e nele votaram, um eleitor em cada três acredita que ele errou.

Ao longo de seu mandato, Bolsonaro especializou-se em convocar reuniões, entrevistas e comícios que, sendo erros políticos, desabaram sobre sua cabeça.

* Vamos lembrar das desastrosas reuniões ministeriais em que a enxurrada de palavrões não encobriu a estupidez e a maldade do que foi dito. A última delas está até servindo de prova nos processos movidos contra o ex-presidente.

* Vamos recordar também o calamitoso “brienfing” com Suas Excelências, os embaixadores de países amigos. Esse meeting absurdo cobrou custo pesado: provocou a inelegibilidade do capitão.

* E não nos esqueçamos do trio elétrico montado nas comemorações de 7 de setembro, alguns anos atrás, peça importante entre as acusações que pesam sobre o ex-presidente.

Lula tem cometido erros primários, que embaçaram o brilho que envolvia sua personalidade. No entanto, verdade seja dita, até agora se absteve de convocar “brienfings” e manifestações em causa própria.

Que continue assim, pra não arriscar ficar cada dia mais parecido com seu predecessor.

Portugal: Lula na cadeia

José Horta Manzano

Neste domingo os eleitores portugueses votam para renovar o Parlamento. Dependendo do resultado, o deputado André Ventura, líder do “Chega” (partido de ultradireita), ficará bem posicionado para ocupar o cargo de primeiro-ministro. Seu partido exibe, com orgulho, o apoio de Jair Bolsonaro.

Quinta-feira última, Ventura fez um discurso de campanha. Apesar do ar irônico, foi veemente ao afirmar (com todas as letras que o falar lusitano lhe permite):

“O senhor presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, não vai entrar em Portugal. Nós não vamos deixar que entre em Portugal.”

(Neste ponto, pausa para uma chuva de aplausos e coro de “Ventura, Ventura”, que o deputado incentiva, regendo a cadência com a mão direita)

Mais adiante, animado pelos aplausos, adota palavreado sarcástico. Adverte “todos os que estão pra vir neste 25 d’abril” (cinquentenário da Revolução dos Cravos, que enterrou a ditadura em Portugal em 1974), que sejam “prudentes na compra da passagem”. E cita de novo “senhor Lula da Silva” ao repetir que, se ele aparecer, “ficará no aeroporto de Lisboa”. E martela: “Se insistir, vai pra uma cadeia, mas ele já sabe o que é isso, portanto também não será uma grande novidade pra ele”.

O discurso foi blablá de bravateiro, visto que o Lula já pagou pelo que fez, seu processo foi encerrado e ele não tem por que temer fanfarronices. Já é diferente o caso do Bolsonaro, mentor do deputado português. Com as investigações que carrega às costas, inclusive na Corte Internacional de Justiça, é o capitão quem arrisca ser preso assim que puser os pés fora do país.

Uma lição se pode extrair da fala do deputado, um ensinamento que o Lula deveria reter. Vai aqui abaixo.

Tirando dirigentes do nível de Bolsonaro, que felizmente são poucos, não é comum ouvir insultos pesados e gratuitos dirigidos contra mandatários estrangeiros. Se o deputado português sentiu-se à vontade para zombar tão violentamente do presidente de nossa República, não é somente por ser ele da extrema direita. Tem mais.

Com seus malditos palpites dados em público em assuntos dos quais não entende patavina, o Lula tem aberto o flanco. Ao posicionar-se ao lado de Putin e contra a Ucrânia, ao condenar Israel e aliviar a barra do Hamás, ao defender Maduro e denunciar a oposição, Lula põe-se do lado sombrio da História. Ao dizer “sombrio” refiro-me realmente à falta de luz. Lula prefere seguir o caminho das sombras, cercado de gente ao lado de quem um ser bem informado jamais tomaria uma cervejinha.

Aberto o flanco, Lula se expõe e vira alvo fácil dessa malta cuja violência começa nas palavras e vai sabe-se lá até onde. Vamos partir da hipótese que, em vésperas de eleição, o deputado esteja tentando granjear uns votos a mais. Portanto, ele não havia de estar discursando unicamente para seus fiéis eleitores. Tinha na mira também eleitores de outras correntes políticas. O que ele disse foi dirigido a todos, não somente aos seus. Se disse o que disse, é porque se sentiu convicto de que suas palavras não escandalizariam ninguém.

Tivéssemos nós um presidente “normal”, um homem que mostrasse equilíbrio e escrutínio, um ataque como esse do deputado dificilmente ocorreria. Se ataque houve, é porque o eleitor português, seja de direita, centro ou esquerda, não é bobo: está a par das trapalhadas internacionais de nosso presidente. Tripudiar sobre o Lula parece estar se tornando algo como jogar cocô na Geni, um ato corriqueiro.

Lula que se cuide. A insistir no caminho pantanoso em que está metido, quem vai acabar no brejo é sua reputação.

Assistir no youtube a fala do deputado (2 min).

O avental inglês

José Horta Manzano

Você sabia?

Houve tempos em que o homem comia com as mãos, sentado no chão. Não devia ser confortável nem prático. Se um pedaço da comida escapasse da mão, imaginem: rolava direto pra poeira. Disgusting…

Assim que suas faculdades lhe permitiram, a humanidade tratou de fabricar um suporte que separasse o alimento do chão. Degrau por degrau, a ideia evoluiu até que surgiu a mesa. O objeto nos é hoje tão familiar que fica difícil imaginar que um dia possa não ter existido.

Mas ninguém segura o progresso. Na Idade Média, famílias abastadas sentiram necessidade de acrescentar uma camada entre a mesa e a comida. A toalha foi a solução. Sua maciez dava um quê de sofisticação.

No entanto, ainda que aumentasse o conforto, a toalha se sujava muito rapidamente. Depois de uma refeição, já guardava marcas de gordura. Naqueles tempos sem máquina de lavar roupa e sem água corrente, a lavagem de roupa dava muito trabalho. Não é qualquer um que aguentava caminhar até o rio no inverno e lá passar o dia inteiro esfregando com água fria. O problema tinha de ser atenuado.

A grande ideia – em vigor até hoje – foi acrescentar uma segunda peça de tecido sobre a toalha a fim de protegê-la. Essa peça, de dimensões mais modestas e de qualidade inferior, era mais fácil de lavar.

Foi na França que a novidade apareceu. A toalha de mesa era (e ainda é) chamada nappe. Dizem que o termo, de origem fenícia, já tinha sido usado pelos romanos com a forma mappa. Temos um resquício em nossa língua: é o guardanapo, palavra que descende da mesma raíz.

A peça de tecido de proteção da toalha foi vista como toalhinha. Onde nós usamos inho e zinho para indicar diminutivo, a língua francesa prefere os finais ette ou on. A toalhinha passou a ser conhecida como un napperon, substantivo masculino, forma diminutiva do substantivo feminino nappe.

Faz mil anos, quando a cultura francesa encharcou as ilhas britânicas, a toalha e a toalhinha foram junto. Espertos, os ingleses encontraram nova utilidade para a toalhinha. Perceberam que, se protegia a toalha, também era excelente para proteger a roupa de quem servia à mesa. E adotaram o costume de amarrar uma toalha à cintura.

Que nome dar à novidade? Ouviam os castelães dizerem «un napperon», que soa «anaprôn». Acharam de bom-tom usar o mesmo nome. Pouco familiarizados com a gramática francesa, adaptaram a novidade à fonética inglesa.

Conservaram o artigo indefinido «an», mas não se deram conta de que napperon também começava com n. É por isso que dizem «an apron». Sem o artigo, é simplesmente «apron», palavra em uso até os dias atuais.

O objeto perdeu uma letra, mas fique o distinto leitor tranquilo: avental inglês protege tão bem quanto o original francês.

O golpinho de Bolsonaro

Elio Gaspari (*)

O golpe de 1937 de Getúlio Vargas guarda uma diferença essencial com o golpinho de 2022 de Jair Bolsonaro.

Ambos queriam o golpe para permanecer no poder, mas, enquanto num caso a eleição só ocorreria em 1938, no outro ela já havia ocorrido, e Bolsonaro perdera. Bota diferença nisso.

Querer fazer em dezembro de 2022 o que Vargas fez em 1937 seria transformar uma tartaruga em girafa.

(*) Elio Gaspari é jornalista. O texto é trecho de artigo publicado n’O Globo.

Mortos compram armas

José Horta Manzano

Repórteres do Estadão tiveram a pachorra de esmiuçar um relatório do Tribunal de Contas da União focado na venda de armas e munições a particulares durante os quatro anos bolsonáricos (2019 – 2022). O que se descobriu ali é de assustar até bicho-preguiça.

* 94 pessoas já falecidas compraram cerca de 17 mil munições para arma de fogo

* Quase 12 mil indivíduos falecidos entre 2019 e 2022 possuíam mais de 21 mil armas registradas em seus nomes

* 2.690 foragidos da polícia possuem armais legais

* 5.235 cidadãos em cumprimento de pena conseguiram obter, renovar ou manter seus certificados de registro de arma de fogo (CRs)

* Indivíduos condenados por crimes graves, com mandado de prisão em aberto, conseguiram obter carteirinha de CACs e são suspeitos de estarem sendo usados pelo crime organizado como “laranjas”.

É de assustar ou não é?

Numa primeira análise, se poderiam pôr essas aberrações na conta de erros cometidos por zelosos funcionários ao cumprir as determinações de Jair Bolsonaro com relação ao afrouxamento de regras de compra e venda de armamento. Um lamentável efeito colateral do programa de rearmamento, digamos.

Uma reflexão mais profunda, porém, faz virem à tona eflúvios pestilentos do passado do capitão, homem que emergiu de um caldo de violentos milicianos e de desonestos militares de baixa patente.

De alguém habituado a tratar com indivíduos que fazem da violência seu modus operandi de todos os dias, é lícito imaginar que pretendesse contar com o precioso apoio armado dessa malta quando chegasse o momento do almejado golpe de Estado.

Nessa linha de pensamento, as aberrações reveladas pelo relatório do TCU deixam de ser “efeito colateral” para tornar-se “efeito desejado” do programa de disseminação de armas.

Quanto mais braços para erguer o salvador da pátria, melhor seria. Além dos habituais sectários verde-amarelos, seriam também bem-vindos: milicianos, foragidos da polícia, cidadãos em cumprimento de pena, indivíduos com mandado de prisão em aberto. Todos armados, bem entendido. Até mortos podiam comparecer, desde que entrassem para a seita.

Foi por um triz. Para nosso alívio, a canoa furou.

Peito estufado

Chamada do G1
2 março 2024

José Horta Manzano

Sensação de pertencer à nação brasileira só costuma aparecer em ocasiões que não nos dizem respeito pessoalmente. Me explico. Quando o Congresso aprova uma lei que beneficia sua categoria, o cidadão não costuma sentir orgulho dos parlamentares. Afinal, estão lá exatamente pra isso, ou não?

Esse orgulho que some nos momentos em que somos beneficiários aparece nas horas em que somos meros espectadores. Brasil, campeão do mundo? É de sair de verde-amarelo buzinando pelas ruas e abraçando desconhecidos. Brasil, maior exportador de soja ou de suco de laranja? É de sentir uma pontinha de orgulho.

Essa “pontinha de orgulho” ressurge sempre em momentos que não nos trazem nenhum benefício além da satisfação. Hoje vi manchetes por toda parte, todas de peito estufado, apregoando que “o Brasil volta ao grupo das maiores economias do mundo”.

No meu tempo, se perguntava “O que é que Maria leva?”, que significava “Quanto é que eu ganho nisso?”. Analisando bem, ninguém ganha. Fica só no orgulho mesmo.

Manchete boa para todos seria “Subida espetacular do PIB brasileiro per capita”. Que nossa economia ultrapasse Canadá e Rússia, como se ufana a manchete acima, me parece algo natural. Afinal, são países com população inferior à nossa. Seria vergonhoso ficar atrás deles.

O que conta é o que ajeita a vida de todos: que a repartição do bolo acabe dando uma fatia maior a cada habitante.

A lista dos países por ordem de PIB total é enganosa. A China aparece lá em cima, à frente de quase todos, junto aos Estados Unidos. No entanto, os bens e serviços à disposição do cidadão chinês médio são infinitamente inferiores ao que ocorre nos EUA. Países cujos cidadãos têm qualidade de vida superior são aqueles onde o PIB per capita é mais elevado.

No levantamento de PIB per capita feito pelo Banco Mundial para o ano 2022, os EUA aparecem em 9° lugar, com PIB per capita de 64.700 dólares. A China só vem em 73° lugar, com 18.200 dólares por habitante. O Brasil, em 84° lugar, engatinha atrás da China e do Irã, com magros 15.100 dólares.

Isso significa que a China, apesar do poderio comercial que lhe confere seu PIB total impressionante, está longe de dar a seus cidadãos a qualidade de vida dos 83 países e territórios que têm PIB per capita mais elevado que o dela.

Quanto ao Brasil, vale o que foi dito para a China, só que alguns degraus mais abaixo.

Ainda não é hora de estufar o peito pra falar em “pibão”. Por enquanto, o que chega ao bolso de todos nós não passa de pibúnculo. E assim vai continuar por muito tempo.

A cada 29 anos

José Horta Manzano

Neste 29 de fevereiro, o mundo se agita em torno de explicações do como e do porquê esse dia surge no calendário, quase como um penetra. Apesar das aparências, este post não fala do dia bissexto. O assunto é outro.

Pode ser coincidência; pode até ser superstição; quem sabe são elucubrações de quem não tem muito que fazer. Ou vai ver que é um pouco de cada uma das anteriores. O fato é que, a cada 29 anos, uma pedra aparece no destino do Brasil. Uma pedra, disse eu? Uma pedrada, isso sim! Vamos ver.

A inquietante série começou em 1961. Em 31 de jan° daquele ano, a Presidência do Brasil foi assumida por Jânio da Silva Quadros. Homem esquisito, populista da gema, era daquele tipo de gente que não se sabia bem de onde tinha saído. Tinha uma fala cheia de mesóclises e outros preciosismos. Solitário e arisco, acabou tragado pelo ermo da Brasília daqueles tempos sem internet. Notícias do Planalto chegavam aos grandes centros com 24 horas de atraso, já diluídas pelo diz-que-diz. Um dia, Jânio demitiu a si mesmo antes que um Congresso assaz hostil o fizesse. E acabou ligando a incubadora do golpe militar que viria dois anos e meio mais tarde.

Passaram-se 29 anos. Em 1° de março de 1990, assumiu a Presidência Collor de Mello, o “caçador de marajás”. Era um aprendiz de populista, fabricado em laboratório, desprovido da legitimidade que a poeira das estradas confere aos viajantes persistentes e calejados. Depois de belas escorregadelas, descobriu-se que o “marajá”… era o próprio presidente. Um Congresso assaz hostil tratou de expelir da Presidência aquele que se tinha apresentado como “antissistema”.

Passaram-se mais 29 anos. Dia 1° de jan° de 2019, quem subiu a rampa foi Jair Bolsonaro. Abduzido pela extrema direita e imbuído de ideias estranhas, o capitão tratou de utilizar métodos populistas para firmar-se no trono. O problema é que, incapaz de controlar sua mente confusa, acabou mais afugentando que agregando em torno de si. Para aplacar a rejeição de um Parlamento descontente, abriu as burras do Estado e permitiu que Suas Excelências se lambuzassem à farta. Foi a única forma que ele encontrou de se aguentar na corda bamba até o fim do mandato.

Adicionando 29 anos a 2019, chegamos ao ano da graça de 2048. Para quem já está entrado em anos, como este escriba, trata-se de um futuro inalcançável. Mas, para quem ainda tem sola de sapato pra gastar, é amanhã. Que anotem num caderninho a previsão deste Nostradamus de segunda. Um elemento novo deve entrar na vida de nossa República em 2048. Que será? Quando vai estourar o rojão? Difícil dizer. Minha bola de cristal anda meio embaçada.

De qualquer maneira, ainda que minha previsão esteja errada, não corro risco nenhum. Em geral, passado um ano, ninguém mais se lembra das previsões do ano anterior – imagine daqui a um quarto de século…

Ainda falta muito. Vamos ver se os incêndios, as secas e as inundações não acabam com nosso país antes.

O pequeno El Salvador visto por seu próprio presidente

José Horta Manzano

Ganhar uma eleição para presidente da República com 85% dos votos no primeiro (e único) turno – sabe lá o que é isso? Pois a façanha foi conseguida pelo jovem Nayib Bukele (42 anos), presidente de El Salvador, pequeno país da América Central. Aliás, não é de simples eleição que se trata, mas de reeleição. Bukele entra em seu segundo mandato.

Ele teve carreira meteórica, indo em sete anos de prefeito de cidadezinha até a Presidência. Analisando seu score soviético de reeleição, depreende-se que seu primeiro mandato deve ter agradado muito à população de El Salvador.

Nayib Bukele (que, fosse brasileiro, teria o prenome de Nagib) é de origem palestina. Teve um dia da semana passada em que ultrapassou 10 milhões de visualizações no Tweeter (atual X), com um vídeo em que aparece dando lições de história e democracia “à moda salvadorenha” a um compadecido jornalista da BBC.

O moço tem seis milhões de seguidores nessa mesma rede, multidão igual à população de seu país. Conclui-se que sua fama já atravessou as fronteiras.

Neste segundo mandato, o “ditador mais cool do mundo” (como se autodefine) continuará a governar à sua particular maneira. Com a força de seu partido Nuevas Ideas, que ocupa 54 dos 60 assentos do Parlamento, pulverizou a oposição. O país vive um estado de emergência agora permanente, que lhe dá amplos poderes, tudo com a clara aprovação da maioria de seus compatriotas.

Aqui estão alguns trechos de sua entrevista à BBC.

«Você não vive mais no El Salvador que foi, no passado, o campeão do mundo dos assassinatos. De país mais perigoso do mundo, passamos a ser o país mais seguro do Hemisfério Ocidental e a única maneira de chegar a isso foi prender todos os 70.000 assassinos.

Não havia outro jeito. O que você queria? Que prendêssemos uma centena de pessoas deixando 69.900 pandilleros (membros de gangues criminosas) nas ruas e que, por arte ou magia, os assassinatos diminuíssem? Ou você acha que nós, como salvadorenhos – uma espécie de cidadãos de segunda classe – merecemos morrer, deixar matar nossas famílias e nossos filhos porque vossa concepção de democracia precisa ser respeitada?

Devemos continuar a sangrar por mais 50 anos por causa das políticas importadas de vossos países? Na década de 1980, vocês financiaram uma guerra entre nós, salvadorenhos, uma guerra entre irmãos. Naquela ocasião, 85.000 salvadorenhos morreram. Depois, um milhão de deslocados foram para os EUA, para guetos, criaram gangues. Esses membros de gangues acabaram deportados de volta para El Salvador: os pandilleros.

Vocês nos impuseram outra de vossas receitas: “Não prendam menores”. Mas naquela época todos os membros de gangues eram menores. Assim, as pandillas cresceram e terrorizaram o país. Tentamos a receita da ONU, a receita da União Europeia, a receita dos EUA. Nenhuma delas funcionou.

Tínhamos que fazer alguma coisa para salvar nossa gente. Agora somos o país mais seguro do Hemisfério Ocidental, mas de repente parece que alguma coisa desagrada a vocês. Saiba que não apenas temos o direito de fazer o que achamos certo e o que o povo de El Salvador decide por meio de eleições livres, mas provamos que isso funciona.

Se eu pusesse o melhor governo da União Europeia para governar o Afeganistão, ele não duraria uma semana. Pare de nos pedir para usar suas receitas porque aqui elas não funcionam.»

Observação
Por diferentes razões, tanto Lula quanto Bolsonaro devem estar babando de inveja do jovem ditador.

Lula simplesmente adoraria poder controlar 90% do Parlamento. Todas as suas vontades e seus caprichos passariam fácil, sem reclamação e sem demora, sonho de todo candidato a autocrata. Governar sem oposição, já pensou?

Bolsonaro há de vibrar com a ideia de poder prender gente assim, à vontade, a torto e a direito, por um sim ou por um não. Proporcionalmente, os 75 mil salvadorenhos presos corresponderiam a 2,5 milhões de brasileiros atrás das grades. Nessa cifra, dá pra incluir todos os bandidos do país e ainda sobra bastante espaço para prender parlamentares, juízes, governadores, oponentes, rivais, adversários e inimigos.

¡Extranjeros, no!

José Horta Manzano

O misterioso título do artigo da Folha me chamou a atenção:


“Argentina aperta cerco contra estudantes brasileiros sem visto e falsos turistas”.


Sei que os brasileiros têm o direito de permanecer na Argentina até 3 meses sem visto. Sei também que o período é prorrogável por 3 meses. Cogitei: “Onde estarão esses ‘falsos turistas’ e por que razão um cerco se aperta contra eles?” Intrigado pela enigmática chamada, li o artigo.

O drama, creio eu, tem a ver com má circulação da informção no emaranhado de funcionários burocráticos argentinos que fixam diferentes taxas. Há jovens brasileiros que optam por estudar numa faculdade argentina, o que pode ser uma ideia interessante. Em princípio, para eles, o roteiro deveria ser: primeiro, matrícula no estabelecimento; segundo, obtenção de um visto de estudante; terceiro, viagem rumo à Argentina e entrada no país.

Só que aí tem um problema – burocrático, acredito. O visto de residência para estudar na Argentina (normalmente solicitado antes de entrar no país) custa 550 dólares (R$ 2.700). No entanto, o mesmo visto solicitado por um estrangeiro que já se encontra no país sai bem mais barato: 14 mil pesos (R$ 80).

Essa disparidade explica que muito candidato a estudar num estabelecimento argentino de ensino superior tente burlar a regra fazendo o caminho inverso. Em vez de solicitar o visto antes de entrar na Argentina, o indivíduo entra como turista, sem pagar nada, e só então faz a solicitação do visto de residência para estudante. Sai por R$ 80.

A diferença de custo entre os dois vistos é tão brutal que dá margem a esse tipo de “caminho alternativo”. Pecadinho que, convenhamos, não é tão grave assim.

Agora, com a subida de Javier Milei à Presidência, ficou mais difícil escapar da taxa de 2.700 reais. Controles têm sido feitos para desmascarar e expulsar do país os “falsos turistas”, ou seja, os estrangeiros que os agentes de imigração julgam ser futuros estudantes. Há muito de adivinhação nesse procedimento, e a consequência são injustiças aos montes.

Para corrigir o problema na raiz, bastaria que a burocracia argentina acertasse os ponteiros com referência às taxas. Basta igualar as duas e o nó será desfeito. Todos entrarão no país já com o visto no bolso e os “falsos turistas” serão coisa do passado.

O que surpreende nesse drama é o fato de o governo argentino dificultar a vinda de estudantes estrangeiros que buscam as universidades do país. Os alunos não argentinos acabam se sentindo “personae non gratae”, expressão que anda por todas as bocas. Não atino a razão por detrás dessa prática de estigmatizar alunos estrangeiros.

Em princípio, todo país, principalmente os que já são (ou gostariam de ser) potências importantes, trabalham para difundir sua cultura e seu modo de vida. Foi assim que a cultura dos EUA e seu “American way of life” marcaram e continuam marcando o globo. Países importantes mantêm escolas e institutos no estrangeiro para espalhar sua influência. Todos querem ser sede de encontros importantes: G7, G20, Brics, Olimpíadas, Copa do Mundo.

O estudante que passa quatro ou cinco num país como a Argentina chega ao fim do curso com uma bagagem cultural que conservará por toda a vida. E essa bagagem inclui a língua e os costumes do país no qual passou esses anos todos.

Parece-me que a Argentina, ao tratar estudantes estrangeiros como penetras, está na direção errada. O aluno rejeitado encontrará de qualquer maneira outro país que o acolha. A continuarem as coisas desse jeito, quem sai perdendo é a Argentina.

Baile da saudade

José Horta Manzano

A charge
Achei genial a charge que saiu na Folha de hoje, obra do jovem desenhista João Montanaro (27 anos). É a imagem reproduzida acima.

A seita
Os obstinados que se mobilizam a um simples aceno de Bolsonaro estão mais para sectários (fiéis de uma seita) do que para partidários (companheiros de partido). A obediência absoluta demonstra isso. Partidos, especialmente no Brasil, não exigem fidelidade total de seus membros. Já uma seita só sobrevive da lealdade de seus adeptos.

Sem faixas
Me parece simples. Com receio de ser levado em cana por incitação à sedição, Bolsonaro pediu a seus fiéis que não trouxessem faixas. Resultado: ninguém veio com faixas. Isso expõe a devoção do distinto público a Seu Mestre, ou seja, ao super-homem que lhes dá ordens.

O Brasil já conheceu populistas que, a seu tempo, magnetizavam os fiéis. Getúlio Vargas talvez tenha sido o mais significativo deles. Assim mesmo, assisti a conversas animadas entre getulistas e ademaristas (de Adhemar de Barros) que não terminavam em tiro nem morto estendido no meio-fio.

A diferença é o que eu dizia antes: num caso, temos simpatizantes de um partido; no outro, são fiéis obedientes a um guru. Essa é a diferença entre os de antigamente e os de hoje. Daí a dificuldade de lidar com os ditos “bolsonaristas”.

No espírito de um “bolsonarista”, o chefe tem sempre razão. Não há discussão possível. Se mandou levar faixa, levo; se não mandou, não levo. Se ele diz que é um inocente perseguido por pessoas más, acredito.

Como argumentar? Não adianta nem tentar. Seria como tentar convencer um eleitor argentino de que o “peronismo” já faleceu faz meio século. Ele não concordará.

Resumindo
Isso foi o que mais me impressionou no ajuntamento de ontem: a ausência de faixas. Da meia dúzia de discursos, já se imaginava que não insultariam magistrados, mas do público era mais difícil. No final, vê-se que foi mais fácil adestrar os assistentes do que conter um dos ‘pastores’ discursantes, que chegou a cutucar autoridades superiores a ele.

Trocando em miúdos, temos uma continha de soma zero. Os ‘bolsonaristas’ deram mostras de quem são e do apreço que devotam ao guru. Continuam a apreciar o chefe. Quanto aos ‘não bolsonaristas’, continuam no seu canto, sem precisarem de chefe que lhes diga de que cor têm de se vestir. Os de lá não votam nos de cá e vice-versa. O desfile não fez ninguém mudar de campo. Zero a zero.

Quanto à Justiça, ah, são outros quinhentos! O tempo judicial é mais longo que o tempo do trio elétrico ex-presidencial. Daqui a uma semana, a algazarra suscitada pelo ajuntamento da Avenida Paulista terá sossegado. Mas os processos, implacáveis, continuarão a correr nos escaninhos do Supremo.

Não acredito que choro de Madame amoleça coração de magistrados.

PS
Esperemos que os juízes que vão julgar Bolsonaro não tenham interpretado essa movimentação como demonstração de força ou, pior, como afronta ou provocação. Juiz irritado tem a mão pesada.

A ilusão política das grandes manifestações populares

Fernando Pessoa (*)

Nisto de manifestações populares, o mais difícil é interpretá-las. Em geral, quem a elas assiste, ou sabe delas, ingenuamente as interpreta pelos fatos como se deram. Ora, nada se pode interpretar pelos fatos como se deram. Nada é como se dá. Temos que alterar os fatos, tais como se deram, para poder perceber o que realmente se deu. É costume dizer-se que contra fatos não há argumentos. Ora, só contra fatos é que há argumentos. Os argumentos são, quase sempre, mais verdadeiros do que os fatos. A lógica é o nosso critério de verdade, e é nos argumentos, e não nos fatos, que pode haver lógica.

Nisto de manifestações – ia eu dizendo – o difícil é interpretá-las. Porque, por exemplo, uma manifestação conservadora é sempre feita por mais gente do que toma parte nela. Com as manifestações liberais sucede o contrário. A razão é simples. O temperamento conservador é naturalmente avesso a manifestar-se, a associar-se com grande facilidade; por isso, a uma manifestação conservadora vai só um reduzido número da gente que poderia, ou mesmo quereria, ir. O feitio psíquico dos liberais é, ao contrário, expansivo e associador; as manifestações dos “avançados” englobam, por isso, os próprios indiferentes de saúde, a quem toda a vitalidade acena.

Isto, porém, é o menos. O melhor é que, para quem pensa, o único sentido duma manifestação importante é demonstrar que a corrente de opinião contrária é muito forte. Ninguém arranja manifestações em favor de princípios indiscutíveis. Tão pouco se aglomeram vivas em torno a um homem a quem é feita uma oposição sem relevo ou importância. Não há manifestações a favor de alguém; todas elas são contra os que estão contra esse alguém. É por isso este, não o “homenageado”, quem fica posto em relevo. Quanto maior a manifestação, mais fraco está o visado, maior se sente a força que se lhe opõe. Toda a manifestação é um corro-a-salvar-te de quem não pensa contribuir para a salvação senão com palmas e vivas.

É este o ensinamento que toda a criatura lúcida tira das manifestações populares.

Quando a uma criatura, que está em evidência ou regência, se faz uma manifestação que resulta pequeníssima, conte tal criatura com o apoio dum país inteiro. Se a manifestação fosse grande, tremesse então. É que os seus partidários teriam sentido, por uma intuição irritada, a grandeza da oposição a ele, e isso os chamaria em peso para a rua, para, com suas muitas palmas e vivas, aumentar a ele e a si próprio a ilusão duma confiança que enfraquece.

(*) Fernando Pessoa (1888-1935), poeta, escritor e literato português.

Manda embora o assessor, Lula!

José Horta Manzano

Lula, prezado presidente!

É curioso notar que tens o costume, desde teu primeiro mandato, de nomear uma dupla para cuidar as Relações Exteriores. Talvez isso te dê maior segurança numa área em que tu, vez por outra, deslizas na maionese.

Nos primeiros mandatos, além do ministro de Relações Exteriores, mantiveste um “assessor” (aquele do top-top, lembras?), que parecia ter mais influência nas tuas decisões do que o próprio ministro. Neste Lula 3, continuas a manter o esquema. Um diplomata de carreira, bom conhecedor das minúcias da profissão, está no posto de ministro. A par disso, de novo, um “assessor” avulso.

Só que, desta vez, escolheste um assessor problemático, Lula. O temperamento belicoso dele tem te dado dores de cabeça. Parece que te apoias demais nos conselhos do personagem.

Por exemplo, a terrível comparação que fizeste, em discurso pronunciado em Adis-Abeba, que deu que falar no mundo todo, foi improviso teu, não há que se diga. Já a emenda do soneto leva as impressões digitais de teu assessor, aquele que tem esperança de que o “bloco dos pobres”, o desengonçado Sul Global, possa ser levado a sério.

Lula, há que ser razoável: toda troca de ofensas e ameaças tem hora pra acabar. É como jogo de futebol – pra usar metáforas que te são familiares. Tem tempo pra jogar e tem tempo pra acabar. Quando o árbitro apita o fim da partida, não é mais hora de tentar acertar o gol.

O auê que a tua fala provocou em Israel e no mundo já se estava acalmando. Eis senão quando, na tua alocução de sexta-feira passada, tornaste a martelar o prego da discórdia:


“Se isso não é genocídio, nâo sei o que é genocídio”.


Pois não sabes, velho Lula, não sabes de fato o que é genocídio. E pensar que já te ensinei mais de uma vez, mas não pareces ter boa memória. Ou quiçá nem lês o blogue. Ou (desconfio que seja a resposta correta) isso é obra de teu “assessor” marrudinho. É ele quem te está ‘fazendo a cabeça’.

O martírio imposto aos gazeus pelo exército israelense, podes chamá-lo como quiseres: massacre, matança, morticínio, castigo coletivo, carnificina perpetrada por agressores desapiadados. Mas genocídio, certamente não é. Se em mim não acreditas, pergunta a teu ministro, o verdadeiro. Ele parece ser pessoa arrazoada. Terá estudado o assunto e deve saber que a definição de genocídio é rigorosa, estabelecida há 75 anos pela ONU.

Mas um conselho te dou e repito, Lula: livra-te rápido de teu empacado “assessor”. Se não tens coragem de dispensá-lo de chofre, oferece a ele um prêmio de consolação: uma embaixada em Paris, por exemplo. Ele não há de recusar. Assim tu te livras de uma fonte de dor de cabeça.

Está na hora de nossa diplomacia olhar pra frente em vez de ficar aí andando de banda feito caranguejo.

O insulto de Lula

José Horta Manzano

Artigo publicado no Correio Braziliense de 21 fevereiro 2024

Fico imaginando a cena. Vejo um Lula que, apesar do incentivo de seus áulicos, hesita em puxar o gatilho. E a torcida: “Vai firme, Lula, não tem perigo, que o gatilho está travado!”. Depois de muita hesitação, Luiz Inácio por fim aperta o dedo com força. Desastre! O gatilho não estava travado, e o tiro sai, mortal.

Não sei até que ponto Lula se deixa influenciar por seu séquito empoeirado, de gente enrijecida e ideologizada mas orgulhosa da própria sapiência. Tanto faz, porque o autor do tiro é aquele que aperta o gatilho. Luiz Inácio será sempre pessoalmente responsabilizado pelo que diz.

Lula não é um caso único. O fenômeno é recorrente: homem público em viagem ao exterior faz às vezes declarações estranhas, contrastantes com a doutrina que deveria estar defendendo. Já assisti a episódios envolvendo diferentes líderes. Até Papa Francisco, no enlevo de ares estrangeiros, já deslizou.

Fato é que Lula já disse coisas de arrepiar o cabelo, pronunciou frases que contrastam com a neutralidade e a equidistância que a diplomacia brasileira tradicionalmente exibe diante de conflitos externos. Ele já se posicionou ostensivamente simpático a Putin e avesso à causa ucraniana. Já estendeu tapete vermelho para o ditador Maduro enquanto os demais líderes sul-americanos pisaram chão nu. As enormidades pronunciadas por Lula – especialmente quando em viagem ao exterior – são muitas. Não vale a pena elencá-las todas.

Holocausto é termo dos tempos bíblicos, de etimologia controversa, que nos chegou através do grego antigo. Na sequência dos malfeitos da Alemanha nazista, a palavra deixou o contexto da História da Antiguidade, ganhou H maiúsculo e passou a designar o massacre sistemático de judeus perpetrado nos campos de concentração da Segunda Guerra.

A política de genocídio nazista foi tão cruel e violenta que marcou os espíritos. Ninguém quer ver repetir-se o horror daqueles tempos. Tudo foi feito para banir a ideologia nazi-fascista da face da Terra. Na Europa, que assistiu de mais perto às atrocidades daqueles tempos, a legislação de numerosos países proíbe gestos, sinais e palavras que lembrem a barbárie: é proibido macaquear saudações nazistas ou exibir insígnias daqueles tempos.

Todo negacionismo da exterminação dos judeus nas câmaras de gás é ilegal. Um discurso feito em público, como o que Lula pronunciou, é passível de processo, quiçá de encarceramento. Nenhum dirigente no mundo, nem mesmo os aiatolás do Irã, piores inimigos de Israel, ousaram até hoje fazer a comparação que Lula fez – entre o exército israelense e as hordas nazistas.

O resultado da fala desastrada é a humilhação em dose múltipla. Lula é declarado “persona non grata” em Israel, sinônimo de “impedido de visitar”. Mais ainda: nosso presidente é instado a pedir desculpa por suas palavras. Nosso embaixador é tratado de ignorante e levado ao Memorial do Holocausto “para aprender o que os nazistas fizeram com os judeus nos anos 1940”.

Luiz Inácio teve direito a mais espinafradas. Israel Katz, ministro do Exterior de Israel, cuja família foi dizimada pelos nazistas: “A fala de Lula da Silva profana a memória daqueles que morreram no Holocausto”.

Benjamin Netanyahu, primeiro-ministro de Israel: “Lula cruzou a linha vermelha. Suas palavras são vergonhosas e alarmantes. Trata-se de banalização do Holocausto e uma tentativa de prejudicar o povo judeu e o direito de Israel de se defender”.

Dani Dayan, presidente do Memorial do Holocausto: “Os comentários de Lula representam um antissemitismo flagrante e uma combinação ultrajante de ódio e ignorância”.

Yoav Gallant, ministro da Defesa: “Acusar Israel de perpetrar um Holocausto é um ultraje abominável”.

Até Yair Lapid, líder da oposição, se manifestou: “Os comentários de Lula demonstram ignorância e antissemitismo”.

Registre-se que, nessa derrapada fenomenal, dizer que a fala “foi tirada de contexto” não vai funcionar. Essa desculpa, comum no Brasil, não vale lá fora.

Lula da Silva parece ter incorporado a ‘síndrome de ser pária’ de Bolsonaro. É curioso como sempre escolhe o lado errado da História. Fica com Putin e despreza a Europa; apoia ditadores e desdenha a democracia; apoia o povo palestino e odeia o povo israelense.

É extremamente preocupante. Um Lula em perceptível processo de envelhecimento, que se aplica a tornar públicas suas convicções pessoais, é um risco na cerzidura de nossa esgarçada democracia, tarefa para a qual foi eleito.

Do jeito que vai, ele está-se tornando o melhor cabo eleitoral de nossa estridente e folclórica extrema-direita.

O avesso do avesso

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Na medicina antroposófica há algumas práticas curiosas que muitas vezes beiram o nonsense, mas que, em última instância, se revelam bastante eficazes para promover transformações importantes no bem-estar físico, psíquico e anímico dos que se atrevem a segui-las. Uma delas, que sempre me encantou, é a proposição de um “Dia do Contrário”, que deve acontecer ao menos uma vez por mês – ainda que não haja uma frequência imposta nem datas específicas a serem observadas. É muito mais a autoavaliação de necessidade que dita como e quando ele vai acontecer.

Ao longo desse dia, a pessoa é instada a fazer absolutamente tudo de uma forma diferente da habitual. Cada um decide quais novas medidas serão testadas e eventualmente incorporadas. Ao tomar banho, por exemplo, pode-se ensaboar o corpo com a mão “errada” e/ou inverter a ordem da higienização: ao invés de começar pela lavagem do rosto, por exemplo, começa-se pela lavagem dos pés. Abrir portas com a mão trocada; alterar toda a rotina de horários (de acordar, tomar banho, arrumar a casa, comer e dormir); alterar o cardápio (com carne/sem carne) e/ou inverter a ordem dos pratos nas refeições; trocar o papel tradicional atribuído a cada membro da família, permitindo, por exemplo, que as crianças determinem quem vai fazer o quê, quem manda e quem obedece, etc. são outras formas comuns de autoexperimentação.

Não só isso, porém. Nos dias de hoje esse período de desconstrução de manias poderia abranger coisas como abolição do uso de telas de qualquer espécie por 24 horas e substituí-lo por rituais de meditação e introspecção; envolver-se com experiências táteis, auditivas e gustativas, de olhos fechados; abandonar uma reunião de trabalho para levar o filho para um passeio no parque; envolver-se num debate respeitoso com familiares, vizinhos ou desafetos ideológicos sobre os principais lances da política nacional e internacional – e tantos outros desafios que só a imaginação de cada um pode indicar.

O propósito? Simplesmente conscientizar-se a respeito da tirania dos hábitos do cotidiano, quebrar estruturas de autoridade encarquilhadas, ressignificar visões de mundo e crenças pessoais, abrir mão da zona de conforto de forma a destravar o potencial criativo e promover mudanças que nunca se ousou fazer antes por medo de perder a própria identidade. Os mesmos objetivos são perseguidos pela arquitetura antroposófica: na construção de residências e prédios comerciais busca-se eliminar ao máximo paredes com ângulo de 90 graus, de modo a evitar que as pessoas se tornem “quadradas” ao interagirem no ambiente.

Tive a oportunidade de colocar em prática várias vezes essa proposição e me impressionei com os resultados. A sensação de leveza e de liberdade, o alívio das tensões normais do dia a dia, a oportunidade de assumir-se imperfeito/desajeitado e principalmente a injeção de coragem para experimentar novas formas de estar no mundo são resultados inegáveis.

Semana passada, assistindo a flashes dos desfiles das escolas de samba, me dei conta de que o dia do contrário e o carnaval têm algo em comum. Percebi com mais nitidez o que esteve por trás da necessidade de instituição de um modelo de ‘carnaval à brasileira’. Inventado com base nas mesmas premissas do dia do contrário, a proposta original da nossa folia era a de inverter totalmente a hierarquia social – incluindo os papéis tradicionais de gênero.

Mistura sincrética de diferentes manifestações culturais, como as danças de salão europeias, bailes de máscara, ritmos indígenas e danças africanas, nossa forma única de conceber os festejos carnavalescos permitia que trabalhadores domésticos, garis, manicures, babás, cozinheiras e outros membros das camadas populares assumissem o centro do palco, transmutados em reis e rainhas. Era a consagração da insubmissão às normas hipócritas de compostura de uma sociedade escravagista, da autodeterminação, da alegria despudorada e da resistência pacífica.

Infelizmente, boa parte da espontaneidade da festa foi se perdendo ao longo das décadas. Da “bagunça organizada” dos pequenos blocos carnavalescos comunitários, o carnaval brasileiro passou a obedecer aos interesses comerciais de radiodifusão, com regras rígidas de coreografia, divisão em blocos temáticos com fantasias específicas, tempo de evolução na passarela e inclusão de figuras de destaque não-pertencentes às comunidades de origem.

Seja como for, a alegria transgressora e o caráter catártico da nossa festa maior continuam encontrando abrigo nas frestas e franjas dos festejos oficiais através da multiplicação de blocos amadores e nas diferentes versões regionais da folia. A brasilidade continua se reconhecendo como negra e indígena, nortista e nordestina, feminina e periférica, inventiva e improvisadora, inclusiva e avessa ao moralismo de ocasião. Em resumo, o inverso do perfil que a extrema direita tentou nos impingir nos últimos quatro anos (uma brasilidade branca, masculina, sulista e sudestina, heteronormativa, segregadora, conservadora, militarizada e teocrática).

Sendo uma das raríssimas manifestações culturais brasileiras que empresta igual importância ao processo e ao resultado e tem um caráter cooperativo, sem direção central, nosso carnaval tem tudo para continuar simbolizando a alma dionisíaca do povo brasileiro. Embora ainda rechaçado por muitos como sinal de alienação, devassidão moral e preguiça/aversão ao trabalho, ele se coloca em agudo contraste com as manifestações raivosas do bolsonarismo e do neopentecostalismo. Para quem aprecia o valor da igualdade democrática, pode ser mil vezes mais fácil tolerar o barulho ensurdecedor, o lixo nas ruas e os transtornos no tráfego dos eventos carnavalescos do que as intimidadoras motociatas, os desfiles fumacentos de tanques e muito provavelmente as manifestações de rua previstas para o dia 25 de fevereiro próximo.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.