Pesadelo voltou

José Horta Manzano


Algumas considerações sobre Trump e sua nova eleição (que alguns chamam equivocadamente de “reeleição”)


Nem as preces, promessas, novenas, oferendas e despachos de meio mundo foram suficientes. Os americanos, os verdadeiros donos da bola, votaram como bem entenderam. E mais uma vez elegeram Donald Trump para a Casa Branca. Como é que pode? Para mim e para muitos, aquela mulher simpática, sorridente e diplomada transmite mais confiança que aquele velho pretensioso, grosseiro e ameaçador.

Acredito firmemente que as tradições daquele país – ligadas à força física, à violência, à lei do mais forte, à crença de que vence o que atira primeiro ou o que bate mais forte – falaram mais alto. Não é tão já que entregarão as rédeas do país a uma mulher. E, ainda por cima, de pele escura.

Muitos povos têm fixação em tempos gloriosos que ficaram no passado. Franceses e ingleses vivem a nostalgia da época das colônias, em que viviam num país rico e poderoso.

Em Portugal, esse sentimento é especialmente presente. Fala-se sempre, com certa saudade, do tempo em que o pequenino país tinha importância mundial por ter colônias ultramarinas. Muitos anos atrás. tive um colega de serviço português, que suspirou um dia, balançando a cabeça e, com ar acabrunhado, me confessou sua tristeza: “Ah, e perdemos o Brasil…”.

A partir de 1945 e pelas três décadas seguintes, os EUA viveram seu apogeu. Eram os maiores em todos os pontos: os mais poderosos, os mais ricos, os mais influentes. Todo o mundo respeitava aquele país e gostaria de viver lá. O cinema nos trazia imagens de uma civilização avançada.

Quando Trump insinua que vai fazer com que seu país volte a ser importante (Make America Great Again), está aludindo àquele período. Quem é que não gostaria, não digo de voltar ao passado, mas de reviver uma época dourada, de crescimento, sem desemprego, sem concorrência comercial à altura do país? Um período de dólar forte, que permitia à população viajar à Europa ou ao México com dinheiro farto no bolso.

Pois é esse argumento de dar água na boca que aflora no imaginário do americano comum quando Trump brande seu MAGA (Make America Great Again). Seria difícil perder a eleição.

Cantinho da Candinha
Será que é impressão minha? Pela foto do início deste artigo, parece que Donald Trump abandonou a perturbadora coloração laranja do cocuruto e permitiu a seus cabelos viver uma velhice normal?

Como meus cultos leitores sabem, dona Melania Trump é originária da Eslovênia, pequeno país de dois milhões de habitantes, resultado do despedaçamento da antiga Iugoslávia. Estive hoje dando uma vista d’olhos aos jornais de lá. Como se pode imaginar, estão exultantes com a perspectiva de voltar a ter, por quatro anos, uma conterrânea no posto de First Lady dos EUA.

Por um desses veículos, fiquei sabendo que Barrow Trump, aquele garoto meio desengonçado que aparecia nas fotos durante a primeira presidência do pai, está hoje com 18 anos. Cresceu, cresceu, passou mãe e pai, está com 2,06m. Um assombro! Além do inglês, fala esloveno fluentemente. Fora de casa, só inglês. Da porta pra dentro, só esloveno. Se o pai não estiver, naturalmente.

Você fala esloveno?

Questão de apreciação

José Horta Manzano

Em visita a Valencia, o rei da Espanha, Felipe VI, foi vaiado pela multidão que se aproximou aos gritos de “Assassino!” e atirou punhados de lama. O rei e a rainha saíram enlameados do episódio.

O jornal informa que o casal foi “quase agredido”.

Pelo que se vê, o jornal julga que o que foi feito contra os monarcas não foi bem uma “agressão”. Eu me pergunto o que faltou para o casal ser considerado de fato agredido. Socos na cara? Rajada de metralhadora? Linchamento?

Codinome

José Horta Manzano

Quando alguém ou algo é chamado por um nome que não é o seu, há várias maneiras para dar nome ao nome – se é que ouso me exprimir assim.

Entre nós, a forma mais usada é apelido.
Ex: O nome dele é Antônio mas o apelido é Tonico.

Em Portugal, preferem utilizar alcunha.
Ex: Este é o tão falado Rayovaque, cuja alcunha é “Rei”.

Cognome é palavra mais rara. Substitui apelido e alcunha.
Ex: No soldado mais valente, puseram o cognome de “Ludovico”.

Na linguagem da geração Z, está em voga o termo americano nick.
Ex: Ei, galera! A influenciadora é a Kriseldina. O nick dela é Kris.

Foi na ditadura militar que o termo codinome apareceu. É de uso restrito. Costumava ser atribuído aos que pegavam em armas para combater o regime. A ditadura acabou, mas tem gente que usa o termo até hoje.
Ex: O guerrilheiro mais ousado do grupo leva o codinome de “Ludovico”.

No exemplo acima, convém substituir codinome por “nome de código”. O melhor é deixar a expressão codinome morrer de morte morrida. Que se use uma palavra que não evoque período tão obscuro.

Unrwa

Unrwa – países doadores

José Horta Manzano

A resolução da ONU que repartiu o território palestino entre judeus e árabes criando o Estado de Israel (1948) foi o ponto de partida da desavença que dura até hoje na região. A questão é muito delicada e de difícil solução, por envolver dois povos que reivindicam o mesmo território.

No dia seguinte à criação de Israel, a ONU criou a Unrwa – Agência das Nações Unidas de Assistência aos Refugiados da Palestina no Oriente-Médio. Nestes 75 anos, essa agência vem garantindo assistência e proteção aos refugiados palestinos.

Estabelecidos em Gaza, em Israel (Cisjordânia ocupada), no Líbano, na Síria e na Jordânia, os postos da agência oferecem escolas, cuidados de saúde, ajuda alimentar, microfinanciamento, apoio legal à população desvalida, ou seja, a praticamente todos os árabes da região.

Com o pretexto de que haveria funcionários da Unrwa entre os terroristas do Hamas que atravessaram a fronteira e massacraram civis israelenses em outubro do ano passado, o parlamento de Israel acaba de aprovar o banimento da agência de todo o território do país.

Essa expulsão vale para a Cisjordânia (territórios ocupados) e para toda a Faixa de Gaza (ocupada de facto por Israel). Esses territórios abrigam justamente a população que mais carece de ajuda para sobreviver. Sem o amparo da Unrwa, o que significa sem remédios, sem escolas, sem alimentos, sem proteção contra agressões, há que temer pelo futuro desse povo infeliz.

A Unrwa se apoia numa grande organização de cerca de 27 mil funcionários. São financiados por dezenas de países ao redor do mundo; até o Brasil aparece entre os doadores (veja mapa que encabeça este artigo). No entanto, nem uma agência como esta, sustentada pelos EUA, pela China, pela Rússia, pela Índia e até pelo Brasil, poderá levar um prato de comida a quem tem fome naquele pedaço de mundo se Israel não deixar entrar.

Temos visto a ferocidade com que o exército israelense cuida da destruição de Gaza, prédio por prédio, quarteirão por quarteirão. Temos visto a desumanidade com que atacam escolas, hospitais e campos de civis refugiados. Temos visto a pontaria com que mandam pelos ares ambulâncias e civis que se locomovem em lombo de burro. Temos agora o banimento do único canal de ajuda de que dispunham os palestinos.

Fica um nó na garganta e uma insuportável impressão de estar assistindo a um meticuloso, planejado e organizado genocídio.

Nota
Uma das condições estabelecidas na Convenção de 1948 em que a ONU definiu o crime de genocídio é o item 3°:

“Submissão intencional do grupo [cujo extermínio esteja sendo executado] a condições de existência que lhe ocasionem a destruição física total ou parcial”.

É o caso.

Telefone de parede

José Horta Manzano

Minha avó contava que, lá pelos anos 1930, o povo desconfiava de telefone. Desconfiar não é o termo exato – ninguém via utilidade naquele aparelho esquisito, preto, de baquelite(*), com fios saindo daqui e dali. Pra ser instalado, a parede tinha de ser furada e estragada. E depois… pra falar com quem? Ninguém tinha telefone. E, mesmo que tivesse, era esquisito conversar sem ver a cara do interlocutor. O único caso que se assemelhava era quando a gente ia contar os pecados, ajoelhado no confessionário, situação em que o penitente não enxerga a cara do padre. Mas aí já é outra coisa, um preceito religioso. Não se compara.

Naquele tempo, operadora se chamava companhia telefônica. Havia várias, muito mais do que hoje. Algumas delas praticavam marketing agressivo. Propunham-se a instalar gratuitamente um aparelho na casa do freguês e lá deixá-lo por um período de experiência de uns três meses, absolutamente de graça. Caso o cliente desejasse, podia, ao final do período, tornar-se assinante. Se não quisesse, a companhia vinha recolher o aparelho. O buraco na parede ficava.

Com o passar das décadas, o telefone cresceu em importância. Popularizou-se. Vulgarizou-se. Vinte anos atrás, dispensou o fio e começou a entrar no bolso do cidadão. Ainda assim, continuava a funcionar como aparelho destinado a assegurar conversa vocal entre duas pessoas.

De uns dez anos pra cá, o progresso tecnológico despejou maravilhas sobre o telefone de bolso. Hoje, ele ainda fala, mas também escreve, faz contas, dá a previsão do tempo, permite a leitura do jornal, paga compra no supermercado. Deixa recado sonoro – sem incomodar a vizinha, como era antigamente! Serve para envio de bilhetes escritos em estilo telegráfico, dispensando o uso do velho telegrama! E ainda tira fotos descartáveis, daquelas que a gente vê uma vez e depois esquece. Exerce até as funções de diário íntimo. É o cofre-forte que encerra os tim-tins e os porquês da vida do cidadão. Um espanto!

Só que, diferentemente do antigo telefone de parede, o telefoninho de bolso é perigoso. Com o antigo, o único risco era que se desprendesse da parede e caísse no pé de alguém, probabilidade bastante remota. Nunca ouvi falar de acidente assim. Com o telefone atual, são outros quinhentos.

Já li revelações sobre um sistema de piratagem fabuloso, caro mas ideal para quem está interessado em espionar adversários, inimigos ou desafetos. Instala-se a arapongagem à distância, sem necessidade de mandar um email envenenado. Esse é o sistema sofisticado, mas há outros, mais baratos, mais difíceis de instalar, mas tão eficientes quanto. Tome cuidado, que ninguém está ao abrigo de uma violação de privacidade.

Razão tinha minha avó, de desconfiar do telefone.

(*) A baquelite, inventada no fim do século 19, é a primeira matéria plástica que apareceu no comércio. É o ancestral de todos os plásticos que povoam (e contaminam) nosso mundo atual.

Observe que, até os anos 1950, a gente ainda se referia a esse produto com o cerimonioso nome de «matéria plástica». Foi com o passar dos anos que a convivência diária e a proliferação de novos produtos favoreceram a intimidade e permitiram o encurtamento da expressão. A ‘matéria’ se perdeu e só sobrou a ‘plástica’. Que, aliás, mudou de gênero – virou ‘plástico’. Plástico pode, portanto, ser considerado palavra transgênero. Será?

Brios

by Caio Gomez (1984-), desenhista brasiliense

José Horta Manzano

Artigo publicado no Correio Braziliense de 30 outubro 2024

A palavra brio é de origem pré-românica, descendente de uma raiz já implantada na Europa ocidental antes da expansão do Império Romano. Entrou no vocabulário de todas as falas latinas e há muitos séculos está presente em nossa língua. Textos da Idade Média já revelam a existência desse termo – e do conceito que o acompanha.

A frequência com que cada palavra aparece na mídia impressa corresponde a seu uso na linguagem do dia a dia. Por minha conta, fiz um levantamento utilizando o acervo de um jornal centenário para conhecer a evolução do uso do termo “brios”, no plural, que é a forma mais comum. O resultado confirmou minha intuição: a palavra aparece cada vez menos. De 6.000 menções anuais nos anos 1990, baixamos hoje a apenas 500 menções anuais. O termo está se tornando arcaismo.

No tabuleiro político, estas duas últimas décadas vêm sendo marcadas por um embate entre as correntes de extrema direita e os demais cidadãos, os não extremistas. Chamam a isso polarização, termo inadequado. É um embate de que participam, de um lado, militantes agressivos e barulhentos, e, do outro lado, gente mais próxima do modelo tradicional da militância civilizada. A tal polarização se dá entre cidadãos grosseiros e malcriados e cidadãos que ainda conservam a capacidade de se indignar diante de comportamento selvagem.

Venceslau Brás (1868-1966) foi presidente do Brasil durante a Primeira Guerra Mundial, de 1914 a 1918. Discreto como convinha à sua época, deixou a política assim que terminou o mandato de presidente. Foi pescar, tranquilo, em sua propriedade das Minas Gerais. A discrição e o afastamento devem ter-lhe feito bem, pois chegou à idade de 98 anos, tendo sobrevivido meio século depois de ter sido presidente – um recorde! Era uma época em que convinha a uma personalidade política ser homem de brios, qualidade muito apreciada.

Décadas depois, a política nacional deu os primeiros sinais de que os brios já não eram qualidades essenciais no homem público. Jânio Quadros (1917-1992) foi presidente do Brasil por 7 meses em 1961. Inopidanamente, renunciou ao cargo, como todos sabem. Dizem que sua intenção era ser trazido de volta nos braços do povo e tornar-se ditador. Não saberemos nunca. O que se sabe, porém, é que, anos após ter deixado a Presidência, Quadros foi eleito prefeito de São Paulo. Diz o bom senso que, uma vez chegado ao ponto alto da carreira, o homem político não deveria buscar um posto de menor importância. Não cai bem. Os brios começavam a periclitar.

Depois disso, tivemos ainda um Collor presidente que, destituído, voltou como senador. Uma Dilma presidente que, igualmente destituída, tentou voltar como senadora, sem sucesso. Lava a Jato e outros processos retumbantes mostraram que, em dezenas de acusados, quase nenhum admitiu os “malfeitos”. A mentira descarada vai-se firmando como esconderijo óbvio de homens e mulheres sem brios.

Antiga prefeita que agora se candidata à vice, e foragidos da Justiça que se candidatam a prefeito são outras facetas do mesmo fenômeno. Estivéssemos em outros tempos, todos os elencados destes últimos parágrafos seriam rotulados como pessoas às quais falta vergonha na cara, qualidade em desuso.

Faz poucos dias, uma notícia calamitosa sacudiu os brasileiros decentes. Um descaso inominável permitiu que órgãos contaminados por HIV fossem enviados para transplante, o que ocasionou criminosa e imediata transmissão da doença aos frágeis pacientes transplantados. Os infelizes buscavam a salvação mas encontraram a condenação. Um horror indescritível. Apesar da repercussão, os diretores da Fundação Saúde, órgão responsável pelo controle e supervisão dos transplantes, fizeram cara de paisagem e continuaram pendurados no cabide, impérvios, sem mostrar vergonha. Foi preciso o governador do Rio tomar a iniciativa e exonerar a turma toda.

A falta de brios tem-se alastrado para fora do picadeiro político. Outro dia, uma aluna de conhecida faculdade paulista foi expulsa do estabelecimento por ter insultado uma colega chamando-a de macaca. Inconformada com a expulsão, a agressora recorreu à Justiça e obteve decisão liminar em seu favor, permitindo-lhe reintegrar os cursos. Fosse em outros tempos, ela não só não voltaria às aulas, como também nunca mais passaria diante da escola. De vergonha.

Logo logo, os brios desaparecerão da linguagem comum e se restringirão ao jargão da pecuária: “Eia, Briosa!”.

Eutanásia

José Horta Manzano

O caso de Antônio Cícero, homem de letras e acadêmico que atravessou o Atlântico para um encontro com hora marcada com a morte, deixou amigos e conhecidos consternados quando tomaram conhecimento do caminho escolhido por ele.

Morte é matéria sempre desagradável. Quando vem acompanhada da expressão “com hora marcada” (hoje: agendada), choca ainda mais. Apanhada de surpresa, a mídia tratou de compor o obituário. Ao mesmo tempo, soltou manchetes com uma palavra inusitada: eutanásia.

Estamos todos habituados a ouvir falar em eutanasiar bicho, principalmente animais de estimação, mas… eutanasiar gente? Como é que funciona? Talvez eutanásia não seja a melhor opção para descrever o caso aqui tratado.

Do vago significado original de “boa morte”, o termo eutanásia especializou-se em descrever o caso de alguém, geralmente o médico, dar a morte ao paciente por motivo misericordioso, para abreviar-lhe a agonia. Trata-se de gesto que, por ser irreversível, definitivo e passível de questionamento, é rigorosamente enquadrado, nos países que o admitem oficialmente.

Na Europa, região do mundo em que gestos ligados à morte em ambiente clínico e hospitalar estão sendo discutidos há muito tempo, há consenso na classificação das diferentes formas de “eutanásia”, se assim podemos nos exprimir. Vamos à nomenclatura.

 


Eutanásia ativa
É o fato de pôr fim deliberadamente ao sofrimento de uma pessoa. Um médico ou um terceiro, por exemplo, injetará uma substância que causará diretamente a morte do paciente.

Em toda a Europa, somente cinco países (Bélgica, Países Baixos, Luxemburgo, Espanha e Portugal) autorizam a eutanásia humana ativa. É uma prática que tem de ser muito bem enquadrada, para evitar deslizes e desvios de função.


Eutanásia passiva ou indireta
Ocorre quando a equipe médica responsável pelo paciente decide não tomar medidas para prolongar a vida. A morte pode ocorrer por meio da administração de drogas analgésicas ou após a desconexão do respirador.

Uma dúzia de países europeus autorizam a eutanásia passiva, que tende a evitar tentativas obstinadas de manter o moribundo em vida, quando seu mal é incurável e seu estágio, terminal.


Suicídio assistido ou suicídio assistido por médico
Refere-se ao ato de tirar a própria vida com a ajuda de uma pessoa que fornece os meios para isso. No entanto, o gesto final deve imperiosamente ser feito pelo próprio paciente, caso contrário, a prática constituiria eutanásia ativa.

O único país europeu a ter reconhecido e regulamentado o direito ao suicídio assistido é a Suíça, onde a prática é plenamente autorizada. Para seguir esse caminho, três condições dever ser preenchidas: 1) o paciente deve estar plenamente capaz de discernir, 2) é ele quem deve administrar a dose letal sozinho, 3) o médico que assiste não deve estar movido por motivos egoístas (ser um dos herdeiros, por exemplo). Na prática, para ter acesso ao suicídio assistido, é preciso inscrever-se numa das associações que se dedicam a essa matéria.


O arguto leitor e a inteligente leitora já devem ter entendido que Antônio Cícero não foi “eutanasiado”. Na verdade, optou pelo suicídio assistido, ou seja, ele mesmo deu-se a morte. Escolheu dia, hora e lugar. Veio à Suíça porque é o único país europeu em que essa prática é depenalizada.

Requiescat in pace.

Brasil e o Brics

José Horta Manzano

No início deste século, um dirigente do Banco Goldman Sachs se inspirou na primeira letra do nome dos países à época emergentes, que eram Brasil, Rússia, Índia e China. Como num quebra-cabeça, o economista organizou essas quatro letrinhas iniciais e formou o acrônimo Bric. O nome foi publicado pela primeira vez num relatório de 2001.

Com o passar dos anos, a sigla, que representava o que mais tarde seria batizado de “Sul Global”, foi sendo cada vez mais citada. Oito anos depois da invenção do economista, os quatro países emergentes decidiram se reunir. O que não passava de acrônimo abstrato começou a tomar vida.

Naqueles anos, antes da invasão russa à Ucrânia, ainda não pesava um mandado de prisão sobre a cabeça do ditador Putin, e ele viajava livremente ao redor do mundo e comparecia às reuniões anuais do grupo. Hoje deixou de fazê-lo, receoso de ser detido e despachado para a Haia, nos Países Baixos, onde está o Tribunal Penal Internacional.

Nosso Lula nacional, que não desdenha uma viagenzinha ao exterior, sobretudo se for para discursar perante seleta plateia, foi entusiasta do novo grupo desde o início. Sem refletir sobre as implicações que isso poderia ocasionar, chegou até a aplaudir a ideia, lançada pelos chineses, de alargar o clube, permitindo a entrada de outros sócios. Por um momento, a ideia de brilhar diante de plateia mais ampla deve ter lhe parecido inebriante.

A ressaca vem sempre no dia seguinte. Talvez sacudido por assessores, Luiz Inácio deu-se conta de que, quanto mais países integrassem o grupo, menos importante ia se tornando o papel do Brasil. Num hipotético universo de dezenas de países membros, a presença de nosso país se diluiria. Expansão desenfreada só interessa a quem detém o poder real : a China.

Desde que se deu conta do problema, o Brasil entrou num dilema cabeludo entre ficar no grupo ou deixá-lo.

Continuar membro significa transformar-se em coroinha da China, que é quem diz a missa. Os chineses esperam que todos os que ali estão digam amém a seus ditames, exatamente como fazem os russos atualmente. A permanência no bloco é vista pelo mundo como sujeição aos desígnios de Pequim, que não é exatamente o caminho que o Brasil tencionava seguir.

Virar as costas e sair do clube é também problemático. A China é nosso principal comprador, a Rússia nos vende fertilizantes. O Planalto, que gostaria de ficar bem com todos, teria nessa retirada um grave problema.

Há ainda o fato de Lula e seu assessor Amorim serem antiamericanos de carteirinha. Se saísse do clube, o Brasil ajudaria a marcar pontos para os EUA, fato que deve deixar nosso presidente horrorizado.

Que fazer? Não há meias verdades. Para o Brasil de Lula, é complicado passar o tempo atacando os EUA e os países ocidentais e, ao mesmo tempo, esperar ser por eles apreciado e bem tratado. Por seu lado, Brasília não pode brincar de amigo-amigo com Moscou e Pequim sem ser visto como aliado da China.

Diferentemente do que Lula e sua diplomacia podem imaginar, o planeta não está se tornando “multipolar”. Tudo caminha para a bipolaridade, que é o caminho traçado e seguido nas últimas décadas. De um lado, estão os EUA e as democracias ocidentais, do outro lado está a China acompanhada por ditaduras e autocracias.

Será difícil equilibrar-se entre os dois.

Hamburgueria

José Horta Manzano

Não faz muito tempo, Donald Trump ficou sabendo que um dos bolsonarinhos tinha fritado hambúrguer nos EUA, tinha incluído esse emprego em seu currículo e que tem usado isso como propaganda eleitoral.

Bem recentemente, Trump soube ainda que Kamala Harris, sua adversária nas eleições, também trabalhou numa hamburgueria.

Furioso, não quis ficar atrás. Entrou no primeiro McDonald’s que encontrou, requisitou um avental e mandou chamar a imprensa.

Tentou passar por um gentil atendente da rede, mas esqueceu de tirar as abotoaduras de ouro. Pegou supermal.

Compliance & bullying

José Horta Manzano

Com curiosidade, tenho notado um fenômeno interessante na importação de palavras. Antigamente, palavras estrangeiras que aportavam na língua eram o mais das vezes traduzidas ou adaptadas. Se a tradução ao pé da letra fosse impossível, criava-se expressão equivalente. De meio século pra cá, essa prática feneceu. Termos forasteiros são enfiados em nosso léxico tal e qual, com casca e tudo.

Um exemplo de como se fazia antigamente é aeromoça ‒ quer termo mais poético? Foi criação genial, que deixa no chinelo hospedeira e comissária de bordo. A expressão soa bem, é fácil de pronunciar e dá o recado direitinho.

Bem depois das primeiras aeromoças, quando grandes centros de compras apareceram no Brasil, a preguiça já estava instalada. O primeiro shopping center foi chamado de… shopping center. Em outras terras menos resignadas, a expressão inglesa foi adaptada. Poderíamos, nós também, ter firmado centro comercial, expressão simples, fácil de pronunciar e de sentido evidente. Preferimos guardar o original. Deve parecer mais chique.

Em nossa língua, os adjetivos costumam vir depois do substantivo. Dizemos homem rico e não rico homem, assim como criança inteligente e não inteligente criança. Poucas línguas no mundo seguem esse padrão. Entre as línguas europeias, só conheço as línguas latinas e o polonês.

Assim, nossa tendência é tomar a primeira palavra de uma expressão como a mais importante. Quando expressões inglesas são introduzidas tal e qual em nosso falar, dão origem a reduções curiosas.

Para encurtar shopping center, por exemplo, dizemos shopping. “Vou passear no shopping” (ou no xópi, conforme o gosto). Só que, no original, a palavra importante é center e não shopping. Dizer “Vou passear no shopping” é como se, para abreviar centro de compras, disséssemos “Vou passear no compras”. Peculiar, não? O fenômeno atinge outras expressões importadas com casca e caroço.

Há palavras que chegaram recentemente à língua. Seguindo a tendência atual, não foram traduzidas. O original soa tão chique, não é mesmo? Dependesse de mim, compliance viraria conformidade, que é sua tradução perfeita. Bullying, esse fenômeno que sempre existiu apesar de antes não ter nome específico, dispõe de duas expressões capazes de traduzi-lo: pode-se tanto usar assédio escolar, quanto acosso escolar.

Mas é verdade que expressão vernácula é meio chué. Que vivam os estrangeirismos puros e legítimos!

Oximoro

José Horta Manzano

Foi certamente um descuido, mas o título do artigo acabou formando uma elegante figura de estilo que leva o pomposo nome de oximoro (pronúncia: oximóro).

Trata-se da figura que aproxima dois termos que, por terem significação contrária, não deveriam aparecer na mesma frase. Exemplos típicos são “obscura claridade” ou ainda “luz negra”.

O apagão que joga luz é um brilhante exemplo, se me permitem a forçada de barra.

Macaca

Estadão, 15 out° 2024

José Horta Manzano

Imagine só. Um dia, na escola, você comete uma enormidade. Não digo uma besteirinha, não, você lança uma tremenda ofensa verbal a uma colega. Se, em outros tempos, tal “deslize” poderia passar batido, hoje não é mais assim: é ato criminoso.

Pois aconteceu. Não foi no Parquinho Infantil da Dona Mariquinhas, mas num conhecido instituto de ensino superior. Uma aluna, dotada de espírito refinado, chamou uma colega de macaca.

Imagino o rebuliço causado pela injúria racial. Orientação, diretoria, conselho de disciplina se concertaram e deram o veredicto: expulsão da aluna raivosa.

O auê deveria terminar aqui, mas estamos no Brasil, o que é que há? Sem vergonha do ridículo, a expulsada recorreu à justiça, obteve uma decisão liminar favorável e… retornou às aulas na faculdade. Tremenda cara de pau!

O primeiro pensamento que me ocorreu foi que o comportamento arrogante da expulsanda decorria, em linha direta, do ambiente que se instalou em nosso país desde que Bolsonaro assumiu a Presidência. É um incômodo caso em que ignorância e prepotência se mesclam numa espetacular carteirada.

Presume-se que a formação educacional da expulsanda esteja sendo financiada por sua família, o que significa que, além de apoiar a jovem em sua atitude, ainda cobrem o custo do advogado e as custas do processo. Sinal evidente de que concordam com a atitude da herdeira.

Em seguida, num segundo momento, me pareceu que unicamente o apoio da família não seria suficiente para fazer a jovem voltar aos cursos na cara dura. Se, entre os colegas de classe, prevalecesse um sentimento de indignação, a expulsanda com certeza não cometeria o despeito de voltar às aulas, com receio de ser massacrada pelas demonstrações de repulsa da classe inteira.

E concluí que o afago da família não é o único esteio do espírito soberbo da aluna. Tudo indica que parte significativa dos colegas de classe estão com ela e concordam com seu xingamento.

O mundo mudou, minha gente. As porteiras estão abertas. Sinais inquietantes pipocam aqui e ali, a todo momento. Preparem-se porque no futuro vem mais.

Prefeitos, vereadores e bandeiras

 

José Horta Manzano

Há vereadores e prefeitos de municípios pequeninos, há vereadores e prefeitos de megalópoles, mas um traço é (ou deveria ser) comum a todos: a busca do bem comum. É para isso que foram eleitos.

Nos pequenos municípios, o prefeito é como o chefe da banda que toca no coreto. Nas grandes cidades, ele é o dirigente da orquestra sinfônica. A quantidade de secretários e assessores varia, mas o objetivo é sempre de fazer que todos os auxiliares formem um conjunto de trabalho harmonioso a serviço dos administrados.

Essa é a teoria. Sabemos que o funcionamento nem sempre é o de uma máquina bem azeitada.

O vereador é uma engrenagem dessa máquina maior. Seu objetivo deveria ser o mesmo do prefeito, em ponto pequeno. Sua mente deve ter abertura suficiente, que lhe permita inteirar-se dos grandes problemas do município que o elegeu. Um vereador não pode deixar-se absorver por um tema único, como um monomaníaco incapaz de enxergar o mundo à sua volta.

Me dá muita preocupação ver que, como a ilustração deste artigo comprova, uma geração de jovens candidatos escapa a essa visão abrangente e acaba vendo seu município como quem observasse pelo lado contrário do telescópio. Os verdadeiros problemas municipais somem só deixando transparecer algum detalhe de somenos.

Todos os municípios brasileiros sofrem de graves problemas. Saneamento básico, escolarização, saúde pública, transporte, tráfego urbano, tráfico de entorpecentes, criminalidade, vandalismo, violência gratuita são alguns deles.

Assim mesmo, vemos jovens de seus vinte e poucos anos, bem vestidos e bem alimentados, que se candidatam a vereador abraçando bandeiras como o “uso de banheiro por pessoas trans” como se residisse aí a redenção do município.

Sabe-se que pessoas chegadas à extrema direita são obcecadas por temas ligados ao sexo. Falou em sexo, começam a se apoquentar. Mas abraçar esse tipo de tema como única bandeira de campanha já é demais.

O pior da história é que, apesar de seu deserto de propostas, acabam eleitos! E com votação surpreendente! Dá tristeza ver que os jovens nascidos este século não mostram nenhum avanço de percepção política com relação às gerações que os precederam. Antes, parece que regrediram.

Não sei se a visão encruada da atual geração de políticos se deve à radicalização fomentada por Donald Trump ou se, ao contrário, a radicalização é que é fruto da visão encruada dos jovens políticos. O ovo ou a galinha?

Seja como for, o futuro não é risonho.

2002: Serra x Lula

Folha de S. Paulo, 11 out 2024

José Horta Manzano

Estávamos lá por setembro de 2002 e o Brasil estava fervendo na reta final da campanha presidencial. Tirando os candidatos folclóricos, os dois que contavam mesmo eram Lula da Silva e José Serra. Naquele tempo, acho que residentes no exterior não o tinham direito de votar. Se tinham, eu é que não sabia. Assim sendo, não me apresentei e, naturalmente, não votei.

Mas isso não me impedia de ter minhas simpatias e preferências. Meu candidato natural era Serra. Do PT, sempre desconfiei. Imaginei que acabassem instalando uma república sindical, em moldes assemelhados aos do fascismo italiano.

Na época, não havia internet como a conhecemos hoje. Redes sociais não funcionavam como hoje. Assistir à tevê por internet era uma aventura, com recepção pixelizada, tremida, entrecortada. Notícia mesmo vinha por jornal online.

Um dia, fiquei sabendo que José Serra era de opinião que o Mercosul não servia para nada e que melhor seria acabar com ele. Enquanto isso, o candidato Lula se mostrava todo favorável, considerando que era um bloco útil e importante.

Sempre fui de opinião que nós, a humanidade inteira, vivemos num mesmo planeta. Não havendo planeta bis, estamos condenados a viver todos em cima desta bola que gira sem parar. Desse modo, é melhor tratar de nos entender, que não há outro jeito. Não há para onde fugir nem escapar. Melhor conversar e resolver disputas sem sacar a arma. Instituições como a União Europeia e o Mercosul promovem uma abertura na boa direção.

Quando vi a posição de Serra e de Lula, mudei de posição. Olhei para aquele barbudinho de língua presa, a vista não me agradou. O homem falava demais, com ar de quem estava sempre enervado, chutando pé de mesa. Mas sua visão do Mercosul me pareceu mais judiciosa do que a do adversário. Disse para mim mesmo: “É com esse que eu vou”.

“É com esse que eu vou” é modo de dizer, que eu não podia (ou achava que não podia) votar daqui do exterior. Mas torci e, acho que pela primeira vez, “ganhei” uma eleição.

Passaram-se mais de duas décadas. Tratado a bofetadas, exposto aos caprichos do governante de turno, o Mercosul deu passos de bolero: dois pra lá, dois pra cá, dois pra frente, dois pra trás. Sem nunca alcançar o status de instrumento de Estado, a pobre organização continua sob a bota do governante de turno. Cada um considera o bloco um instrumento à disposição de seus caprichos. Os interesses permanentes dos Estados passam ao largo.

Hoje, ao ler a chamada de jornal que encabeça este escrito, entendo que José Serra tinha razão. Ele, que entende do riscado, já tinha se dado conta de que o Mercosul mais tem atrapalhado do que ajudado, e que teria sido melhor se nunca tivesse sido inventado.

Um Lula à época inexperiente talvez não tivesse percebido essa realidade. Ou quem sabe tinha entendido, mas já se preparava para encampar a instituição e usá-la para a promoção de interesses seus e de seu entourage.

Está aí uma pergunta cuja resposta talvez não venhamos a conhecer nunca.

Como discutir com uma criança bêbada

Ricardo Araújo Pereira (*)

O que gera maior perplexidade, no discurso de Donald Trump, é que tem elementos de infantilidade e de embriaguez. Parece que estamos ouvindo uma criança bêbada – uma ideia muito perturbadora.

Tudo é tremendo: “Os maiores comícios de sempre”, “eles cometeram a maior fraude de todos os tempos”, “nunca ninguém viu nada assim”.

Há também o recurso de argumentos de autoridade pueris: “Todo o mundo sabe que eles são mentirosos”, “muita gente tem me dito que eu sou mesmo bom”.

E por fim temos os argumentos do mundo da fantasia: “Eles matam bebês recém-nascidos”, “os imigrantes estão comendo cães em Springfield, Ohio”.

Em ambos os casos, os jornalistas intervieram dizendo que não há um único Estado americano em que seja legal matar bebês recém-nascidos” e que as autoridades de Springfield afirmam não haver qualquer relato fidedigno de rapto e ingestão de animais de estimação por imigrantes naquela cidade. O problema é que desmentir uma criança bêbada é uma tarefa complexa.

Contrapor fatos a fantasias não funciona. Fatos e fantasias são unidades monetárias de países diferentes – ou, talvez melhor, de planetas diferentes. Quando uma criança nos pergunta por que é que o Papai Noel ainda não chegou, nós não avançamos com fatos sobre a inexistência do Papai Noel. Compomos uma história em que o Papai Noel, aos comandos do seu trenó voador, tem de fazer paradas em várias casas de outras crianças antes de chegar à nossa.

O ideal, por isso, não é apresentar depoimentos oficiais que negam a ideia de que os imigrantes se dedicam a comer os animais de estimação dos residentes em Springfield. O que há a fazer é mostrar um documento segundo o qual os imigrantes têm, de fato, cozinhado animais de estimação, mas apenas no caso em que esse animal é um dragão. E juntar algumas receitas de arroz de dragão, moqueca de dragão etc.

A criança fica estupefata por duas razões: por verificar que a nossa capacidade de fabulação é superior à dela; por ser obrigada a reconhecer que aquilo de que se queixava é, afinal, uma coisa boa.

Matar dragões é geralmente entendido como positivo. É a atividade mais heróica de sempre. Nunca ninguém viu nada assim.

(*) O português Ricardo Araújo Pereira é jornalista e escritor.

Alívio e preocupação

José Horta Manzano

Alívio

Não há motivo pra reclamar: pelo menos nos dois municípios mais populosos do Brasil, Rio e São Paulo, evitou-se a catástrofe. No Rio, berço político de Bolsonaro, um assessor e amigo íntimo do antigo presidente se candidatou à Prefeitura e acabou derrotado por ampla margem.

Em São Paulo, um salafrário surgido das trevas se valeu de comportamento pérfido a fim de desmerecer os demais candidatos, seus adversários. Em metódica sanha de destruição de reputações, o indivíduo não hesitou em cometer crime de falsidade ideológica, denúncia de falso crime, criação e divulgação de notícia falsa, injúria, calúnia e difamação.

Apesar do auê que provocou, e que se levantou como ola agitando os caminhos ingênuos das redes, não chegou aonde queria. Ficou em terceiro lugar e acabou fora do segundo turno.

Além da derrota, vai ter de enfrentar processos na Justiça – na mais recente contagem já eram 130 ações. Algumas delas têm potencial de condená-lo a uma inelegibilidade de 8 anos, o que o alijaria das próximas duas presidenciais.

Esse foi o alívio, agora vem a preocupação.

Preocupação

Os paulistanos foram às urnas sabendo quem era o forasteiro arruaceiro. Ninguém pode alegar ignorância. Nas últimas semanas, o personagem deu exaustiva mostra de especial talento para a destruição, sem mostrar ter, em contrapeso, boas ideias para o bem comum. Todo o mundo viu isso, portanto, ninguém pode dizer que votou enganado.

Assim, os 28,15% de votos dados ao cavalheiro Marçal foram votos refletidos, pesados e decididos. Trocando em miúdos, essa porcentagem de ar inofensivo informa que 2 em cada 7 eleitores votaram nesse senhor. Dois em cada sete!

Imagine estar numa rodinha de conversa, acompanhado de outras 6 pessoas. Pois acredite: as estatísticas indicam que dois participantes da roda escolheram votar nesse pilantra. É muita gente!

Dizem que o brasileiro comum não se informa mais pelos canais tradicionais (jornal, rádio, tevê), mas só consulta redes sociais e só nelas bota fé. Não há como negar. Mas devo pôr as coisas no lugar. Se o simples fato de se informar pelas redes fosse suficiente para decidir votar no candidato de boné, todos os paulistanos comuns teriam votado nele. Não foi o que aconteceu.

Se algo vai mal, é a cabecinha dos que cometeram esse voto temerário. Uma coisa é votar num rinoceronte para vereador (São Paulo, 1959), num palhaço ou num estilista para deputado. Outra coisa, bem mais grave, é escolher um paraquedista torpe e perigoso para governar a maior cidade do país. Nesse estágio, o jogo não admite brincadeiras.

O estrago não se chama Pablo Marçal, que esse passou. O dano maior preexistia à chegada de Marçal e permanece após sua saída de cena. A verdadeira distorção está na personalidade dos cidadãos que deram seu voto a ele. A preocupação continua viva.

O próximo aventureiro que proporcionar um show de horrores – com agressões verbais e físicas, insultos e golpes abaixo da cintura, shows para otário ver (conforme disse Marçal) – tem boas chances de obter excelente votação. Quiçá de ser eleito.

Se essa perspectiva não for inquietante, o que será?

Com o parlamento que temos

José Horta Manzano

Artigo publicado no Correio Braziliense de 3 outubro 2024

O sistema político francês, que o general Charles De Gaulle arquitetou e fez assentar na Constituição de 1958 (que vigora até hoje), é tido como ‘semipresidencial’. O presidente da República é chefe do Estado, com atribuições executivas em princípio limitadas. Como em todo regime parlamentarista, um primeiro-ministro desempenha as funções de chefe do governo, secundado por ministros.

Um detalhe de capital importância, que confere ao sistema características diferentes dos regimes parlamentares tradicionais, é que a eleição do presidente se faz pelo voto popular direto. Essa particularidade contribui para que esse presidente, longe de exercer apenas funções protocolares, se torne a figura número um da política nacional, um personagem central e vistoso, que acaba relegando o primeiro-ministro a segundo plano.

Essa força presidencial está na raiz da atual crise política do país. Desde que o presidente decidiu dissolver o parlamento, três meses atrás, o país ficou sem governo. Primeiro-ministro e demais ministros permaneceram provisoriamente só para tratar os assuntos do dia a dia, deixando temas de peso em banho-maria.

Se a escolha do chefe de governo (primeiro-ministro) fosse atribuição dos parlamentares, provavelmente teriam chegado a um acordo aceitável por todas as correntes politicas. No entanto, dado que cabe ao presidente da República nomear o governo – e que o presidente é forte e poderoso – ele acabou escolhendo os ministros segundo seu gosto pessoal, sem levar em conta as correntes políticas representadas na Assembleia. E demorou três meses para fazê-lo.

O novo governo já foi nomeado e já arregaçou as mangas. No entanto, dado que a escolha dos ministros foi feita segundo a vontade presidencial, tem-se atualmente uma situação emaranhada, difícil de destrinchar. Qualquer solução, ainda que agrade a uns, será execrada por outros.

O mundo mudou nestes 70 anos, e a Constituição francesa envelheceu. Feita para um panorama político em que apenas dois partidos dominavam a cena, tornou-se difícil de aplicar num universo em que três forças políticas praticamente se equivalem.

No Brasil, de tempos em tempos, quando o caldo engrossa nos altos círculos de Brasília, volta à baila a ideia de um semipresidencialismo. Esse sistema, que tem boas chances de vicejar num terreno bipartidário, seria, entre nós, fator de instabilidade paralisante. A miríade de partidos representados em nosso Congresso não permite que se pense num regime parlamentar acoplado a um presidente eleito pelo voto universal. A figura presidencial tende a sugar e puxar para si a aura que deveria pairar sobre o parlamento.

Nossos congressistas estão mal-acostumados. Cacoetes preexistentes foram potencializados nos tempos de Jair Bolsonaro, quando um governo acuado se tornou refém do Congresso. Generosas emendas personalizadas floresceram e criaram raiz. O governo Lula não tem mostrado habilidade para mitigar a avidez de Suas Excelências.

Nossa pulverização partidária dificulta a formação de maiorias estáveis, fenômeno que leva a um ambiente efervescente e a um confronto permanente entre Executivo e Legislativo. Essa tensão desprovida de sentido não deveria existir. Ela não leva benefício a ninguém.

Se um dia vingar a ideia de introduzir-se um regime parlamentar, a figura presidencial terá de ser inteiramente repensada. Poderes e atribuições do cargo serão drasticamente limitados. O presidente não será mais que chefe do Estado, escolhido pelo Congresso entre os notáveis do país, uma figura simbólica com visibilidade mas sem poder.

Neste momento, temos um presidente com convicções de esquerda e um Congresso que tende nitidamente à direita. Esse antagonismo entra em choque com frequência e atravanca o avanço do país. Nossa política externa, com forte dependência da ideologia presidencial, tem seguido rumos pedregosos e estéreis. Pouco a pouco, o Brasil tem perdido importância, limitando-se hoje a discursar na ONU para criticar a ONU.

Alguém dirá: “Mas como! Um regime parlamentar com o parlamento que temos?” Por minha parte, acredito que o ser humano pode se emendar. Nossos parlamentares se comportam hoje com a irresponsabilidade de adolescentes birrentos. Fazem isso porque sabem que o Executivo tem meios de aparar os exageros vindos do Congresso. No dia em que o poder executivo for exercido pelo próprio Parlamento, o quadro se transformará.