Estalactite

Estalactite 2José Horta Manzano

Você sabia?

Estalactite, sabemos todos o que é. Damos esse nome àquelas curiosas formações encontradas principalmente no interior de grotas úmidas. São como colunas, como cones invertidos ― de cabeça para baixo, com a base presa no teto.

O nome, que soa tão científico, entrou na língua pela via erudita. Começou a ser mencionado cerca de 200 anos atrás, mas só foi dicionarizado bem mais tarde. Provém de uma raiz grega ― stalaktos ― que significa gotejante, aquilo que escorre gota a gota.

No dia a dia, usamos palavras descendentes dessa mesma família. Entre outras, instilar e destilar. Ambas trazem embutida a ideia de gota a gota, pouco a pouco.

Nas grutas, as estalactites são formadas por precipitação de matéria calcária. Muito lentamente, gotículas de água escorrem pelas colunas. Com o passar do tempo, a água evapora e o cálcio solidifica. Resultam imagens um tanto fantasmagóricas, mas, ainda assim, belíssimas. Daquelas que nos remetem a antigos desenhos animados.

Nestes tempos em que crianças não hesitam em trucidar criaturas monstruosas em jogos de computador, uma floresta de estalactites não deve mais assustar ninguém. Mas garanto-lhes que esses cones invertidos já cumpriram seu papel atemorizante na mente de muitos dos adultos em que nos convertemos.Estalactite 4

Não é só em grutas e cavernas que se encontram formações desse tipo. No inverno, caprichos climáticos de latitudes mais frias proporcionam às vezes espetáculos impressionantes.

Após uma boa nevada, às vezes o sol aparece. Seus raios, embora tênues, podem ser suficientes para derreter uma parte da neve acumulada. O resultado é um filete d’água que goteja de telhados, de amuretas, de rochedos. Quando não há vento, as gotículas vão-se congelando à medida que escorrem. Formam-se então estalactites de gelo, de muita beleza.

Não resistem muito tempo, mas encantam os olhos. O que é bom dura pouco.Estalactite 5

Curso de inglês grátis

José Horta Manzano

Você sabia?

Na França, há uma estação de rádio de informação contínua, que irradia durante 24h por dia. Difunde um jornal completo a cada meia hora e repete as manchetes a cada quinze minutos.

No meio dessa enxurrada de notícias, sobram alguns minutinhos aqui e ali, que são recheados com entrevistas curtas e outras amenidades. Aos sábados, quando o perfil dos ouvintes se modifica, até receitas culinárias são apresentadas.

Todas as manhãs, dois minutos são reservados a Jean-Pierre Gauffre, que tece uma crônica sobre algum acontecimento do momento. O homem é humorista fino. Sua arte está a milhas de distância do humor escrachado e escatológico que costuma dominar os espetáculos destinados a provocar o riso. Enfim, a cada artista, seu público. E vice-versa.

O tema de hoje girou em torno das aulas grátis de inglês e de espanhol que o Senac de Belo Horizonte está oferecendo. Trata-se de um curso básico dirigido especificamente às prostitutas da cidade. A intenção é prepará-las para acolher os clientes que a Copa-14 certamente trará.

Crédito noticias.r7.com

Crédito noticias.r7.com

A notícia é verdadeira, não foi invenção do cronista. Confira no site R7 de notícias. Monsieur Gauffre trata o tema com a necessária delicadeza. Pela seriedade da elocução, parece até estar lendo uma notícia qualquer. Mas lá no fundo se percebe uma fina ironia. Ele chega a propor ao presidente da França que se inspire nesse exemplo para enriquecer programas de formação profissional contínua já existentes no país.

Se alguém se dispuser a gastar dois minutos ouvindo a crônica de hoje, o endereço está aqui. O site de France-info funciona mais ou menos como um caraoquê: o texto e voz aparecem na tela ao mesmo tempo. É prático para desempoeirar velhos conhecimentos de língua francesa.

E a gente fica aqui a matutar por que cargas d’água certas iniciativas úteis ― não falo apenas de cursos de línguas para profissionais do sexo ― são tomadas somente na iminência de eventos considerados importantes, tais como eleições, copas do mundo, visita de estrangeiros ilustres.

Um ditado resume bem a situação: limpa-se somente por onde passa a procissão. É aforismo antigo, mas continua firme e forte. Valia ontem e continua valendo hoje.

Polícia cartorial

Credito: Lego & Ricardo.ch

Credito: Lego & Ricardo.ch

José Horta Manzano

Acabo de voltar de férias no planeta Marte, onde passei estes dias que ligam o ano velho ao ano-novo.(*) Devo estar ainda com a cabeça nevoada ― a viagem é longa e cansativa.

Li hoje que o governo paulista proíbe sua polícia de socorrer vítimas de crimes graves, tais como tentativa de homicídio. Levei um susto. Achei que fosse algum delírio resultante da viagem interplanetária. Reli. Não, não havia engano. O relato do jornalista era esse mesmo.

Parece que a intervenção de policiais periga alterar a cena do crime. Se entendi bem, socorristas e urgentistas estão mais bem treinados que o corpo policial para intervir em caso de ocorrência violenta sem perverter o cenário.

Pervertido está o bom senso. Se a ajuda sanitária está capacitada para intervir sem alterar cenas de crime, com maior razão a polícia também deveria estar. O que não faz sentido é deixar que um cidadão agonize na sarjeta, que se esvazie de seu próprio sangue, sem que nenhum auxílio lhe seja prodigado.

Em vez de serem proibidos de socorrer feridos, os policiais deveriam, isso sim, ser treinados a desempenhar corretamente seu papel sem desfigurar o cenário de um suposto crime. É inconcebível que essa competência não faça parte de sua formação.

Não se pretende transformar as forças da ordem em urgentistas diplomados, mas noções básicas de primeiros socorros não fazem mal a ninguém. São ainda mais necessárias e úteis a profissionais cujo ofício os leva a defrontar quotidianamente acidentes, crimes e mortes.

(*) Não se assustem, que não é pilhéria. Ano velho se escreve assim, separado. Ano-novo pede hífen. Sabe Deus por quê. São caprichos de nossa grafia, que a reforma manquitola de 1990 não ousou enfrentar.

O remendo

O remendo 1José Horta Manzano
Artigo publicado pelo Correio Braziliense em 6 janeiro 2013

A língua portuguesa escrita não está longe de completar um milênio. Nos primeiros séculos, escrever não estava ao alcance de qualquer um. Só os eclesiásticos e os bem-nascidos eram letrados. Naquele contexto, a grafia das palavras dependia do gosto do freguês. Cada escriba manejava sua pluma da forma que melhor lhe aprouvesse.

Hoje e oj eram equivalentes; ver e veer também; coraçon e corazon eram aceitos indistintamente. A escrita não estava codificada, nem muito menos normatizada. Era o paraíso dos escritores, que, livres e soltos, não precisavam consultar dicionários, nem gramáticas. O distinto público leitor era, de qualquer modo, minguado. E dicionários e gramáticas ainda não haviam surgido.

O tempo passou, Gutenberg redefiniu a arte de imprimir, a escrita pôde enfim se popularizar. A estagnação medieval foi perdendo sua característica de imutabilidade das gentes e das coisas. Copérnico e Galileu movimentaram planetas, e o universo deixou de ser estático.

O uso de nossa língua também se acelerou. Num movimento espontâneo, a grafia foi-se fixando. Na ausência de normas, a escrita se propagou por imitação. Oj, veer e corazon foram rareando, suplantados pelos modernos hoje, ver e coração.

O 7 de setembro nos separou da metrópole, mas não influenciou a língua. Durante os 50 anos seguintes, famílias abastadas continuavam a mandar seus rebentos a Coimbra. Mesmo assim, a distância linguística entre Portugal e o Brasil foi aos poucos se alargando.

No limiar do século 20, tanto lá quanto cá, muita coisa havia mudado. A produção literária se avolumava. A instrução pública havia dado alguns passos tímidos na difusão da alfabetização. A população brasileira crescia a taxas elevadas e já havia superado a de Portugal. Nossa imprensa, refletindo o falar nacional, já tomava certas liberdades com relação ao rigor da escrita lusa.

Parecia importante que a escrita dos dois países seguisse o mesmo diapasão. No entanto, entre reformas e acordos, o que se viu foi uma inacreditável sequência de contrarreformas e desacordos. De 1907 para cá, a história registra desencontros tais como: reformas impostas aos brasileiros mas não aos portugueses (1971), reformas impostas aos portugueses mas não aos brasileiros (1973), acordos cumpridos pelo Brasil mas não por Portugal (1943), acordos cumpridos por Portugal mas não pelo Brasil (1945), acordos ignorados por ambos (1931). Uma verdadeira casa de mãe joana.

Em 1990, foi costurado um enésimo «acordo», surpreendentemente tímido, confuso e ambíguo. As aberrações se exacerbam quando se chega ao capítulo dos hífens. Sabia o caro leitor que maria-sem-vergonha deve ser escrita assim, com hífen, enquanto maria vai com as outras não admite o tracinho? Sabia que para-choque se escreve separado, enquanto paraquedas se escreve de uma tacada só?

O governo brasileiro, no apagar das luzes de 2012, adiou por 3 anos a obrigatoriedade da nova escrita. A meu ver, fez muito bem. Poderia fazer melhor ainda: deixar o dito pelo não dito e simplesmente revogar esse famigerado «acordo».O remendo 2

Já tivemos reformas suficientes estes últimos 70 anos : 1943, 1971, 1990. Um cidadão de 80 anos está enfrentando seu quarto aprendizado de escrita. Quem tem mais de 50 anos está aprendendo a escrever pela terceira vez. É muita coisa.

O inglês da Inglaterra difere consideravelmente do inglês americano. Há diferenças lexicais, sintáticas, prosódicas e, last but not least, gráficas. Isso não impede que o inglês seja, de facto, a língua universal.

A argumentação dos que alinhavaram nossa nova reforma era de unificar a escrita dos dois lados do Atlântico. No entanto, o volume de exceções é tão grande que a justificativa inicial perde a força. Com ou sem acordo, a escrita de lá será sempre diferente da de cá.

Outra alegação era de que a unificação nos facilitaria a obtenção de cadeira cativa no Conselho de Segurança da ONU. Balela. Nem que a escrita fosse idêntica ― o que não está previsto no acordo ― nosso País estaria em condições de ser aceito naquela confraria. Há outras condições que, infelizmente, não preenchemos.

Quando o remédio parece pior que o mal, como é o caso do AO90, é melhor deixar como está para ver como fica. Se nunca nos pusemos de acordo antes, por que nos poríamos agora? Com acordo ou sem ele, teremos sempre diferenças gráficas entre as duas variantes de nossa língua.

Deixemos que o tempo faça seu trabalho. O que não tem remédio remediado está. No próximo século, voltamos ao assunto.

Provérbios

José Horta Manzano

Todas as línguas têm seus provérbios, seus ditos populares. São o resultado destilado da sabedoria secular. Aqui abaixo vai um breve florilégio de ditados ingleses, italianos, espanhóis e franceses, cada um com seu correspondente em nossa língua. A correlação nem sempre é ao pé da letra, mas dá uma ideia do sentido da frase original.

Roll in money
Nadar em dinheiro

All’uomo elemosiniero Iddio è tesoriero
Quem dá aos pobres empresta a Deus

A donde te quieren mucho no vengas a menudo
Visita é como peixe: depois de três dias, fede

Sagesse est dans la tête et non dans la barbe
O hábito não faz o monge

Curiosity killed the cat
A curiosidade mata

Nel monastero altrui non si va con le proprie leggi
Cada terra com seu uso, cada roca com seu fuso

En las malas se conocen a los amigos
Nas horas difíceis se conhecem os amigos

Ma belle est celle que j’aime
Quem ama o feio, bonito lhe parece

Alambique

Alambique

Divide and rule
Dividir para reinar

Il silenzio è assenso
Quem cala consente

Hay ropa tendida
As paredes têm ouvidos

Cela ne sert à rien de devenir un jour l’homme le plus riche du cimetière
O caixão não tem gavetas

Measure thrice before you cut once
Um homem prevenido vale por dois

Gran pericolo, gran guadagno
Quem não arrisca não petisca

La distancia es el olvido
Longe dos olhos, longe do coração

Celui qui dort dans un lit d’argent fait des rêves d’or
A avidez é insaciável

Misfortunes never come singly
Desgraça pouca é bobagem

L’occhio del padrone ingrassa il cavallo
O olho do dono engorda as reses

Muerto el perro, se acabó la rabia
Deve-se cortar o mal pela raiz

Fais ce que tu dois, advienne que pourra
Fazer o bem sem olhar a quem

Revenge is a dish best eaten cold
A vingança é prato que se come frio

Chi scherza coi pericoli, cerca lodi e trova dolori
Quem brinca com fogo acaba se queimando

Más sabe el diablo por viejo que por diablo
Macaco velho não mete a mão em cumbuca

Pain coupé n’a point de maître
Achado não é roubado

To be in a pretty pickle
Estar em maus lençóis

Lunfardo

Você sabia?

José Horta Manzano

Lunfardo é a gíria que nasceu e cresceu em Buenos Aires, na malavita portenha, no submundo dos fora da lei. Com o passar das décadas, um número cada vez maior de expressões foi caindo, digamos assim, no “domínio público”. Palavras e expressões antes reservadas a bandidos são hoje utilizadas no dia a dia por pessoas comuns.

Surpreendentemente, muitos desses termos de argot argentino passaram ao português brasileiro. Não se sabe direito se atravessaram a fronteira ou se vieram de contrabando embutidos na letra de velhos tangos. Talvez um pouco de cada. O fato é que usamos, sem saber, gíria importada. Para os ultranacionalistas, pode até parecer um escândalo. No fundo, é simplesmente um aporte a mais, uma contribuição para a riqueza de nossa fala.

by Oskar Weiss (1944-), artista suíço

Aqui está uma pequena coletânea de expressões lunfardas e suas correspondentes brasileiras

Lunfardo       Brasileiro
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Machete          Macete (ajuda-memória)
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Malandro         Malandro
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Pirao                 Pirado
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Mamado            Mamado (bêbado)
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Campana         Campana (ajudante de ladrão que vigia)
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Mancar             Se mancar (compreender)
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Cana                 Cana (prisão)
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Matina              Matina (manhã cedo)
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Mortadela         Presunto (cadáver)
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Patota               Patota (bando)
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Punga              Punguista (batedor de carteira)
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Vivo                  Vivo (astuto)
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Bacanazo         Bacana (refinado)
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Bancar               Bancar (pagar)
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Dar bola           Dar bola (prestar atenção)
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Bronca             Bronca (raiva)
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Chupado         Chupado (bêbado)
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Burro                Burro (ignorante) (1)
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Tira                   Tira (investigador de polícia)
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Labia                 Lábia
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Mina                 Mina (moça)
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Llenar               Encher (aborrecer)
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Lleno                Cheio (mal-humorado)
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Cabrero            Cabreiro (furioso)
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Mangos            Reais (dinheiro)
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Caradura          Caradura
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Catinga             Catinga (mau cheiro corporal)
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Manyado           Manjado (conhecido)
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Chumbo            Chumbo (bala de revólver)
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Pechar               Peitar
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Coco                  Coco (cabeça)
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Gozar                 Gozar (zombar) (2)
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Grupo                Grupo (mentira, história inventada)
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Gurí                    Guri (criança) (3)
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(1) Normalmente, burro é usado para qualificar alguém cabeçudo
(2) Os espanhóis usam gozar com o sentido de passar um bom momento. Para dizer zombar, preferem mofarse
(3) Alguns etimólogos atribuem a essa palavra origem tupi, o que explicaria que se encontre no castelhano platino e também no português do Brasil

Un chat est un chat

José Horta Manzano

Uma conjectura atormenta filósofos desde a Grécia antiga: mudando o símbolo muda-se a coisa? Em palavrório mais chique: a coisa e seu símbolo são convergentes ou inapelavelmente antinômicos?

Os franceses, com sua longa experiência em matéria de conflitos, afrontamentos, revoluções e guerras, ensinam a «appeler un chat un chat» ― se for um gato, há que dizer que é um gato. Esse dito popular exorta o bom povo a não ter medo de dizer as coisas como elas são. Dar nome aos bois, diríamos nós outros. Diríamos? Dizíamos, caro leitor, dizíamos.

Até alguns anos atrás, os contorcionismos verbais se restringiam a suavizar tabus geralmente de ordem sexual. Todas as palavras que pudessem, de perto ou de longe, remeter ao sexo eram evitadas. Até fenômenos fisiológicamente naturais como a trivial menstruação tinham seus nomes eludidos. Dizia-se que a moça estava «naqueles dias».

Costumes mudam com o passar do tempo. Não há que ser empacado nem caprichoso, que o mundo é assim mesmo. A sociedade evolui e, com ela, as modas, as palavras, as expressões. De uns tempos para cá, essa guinada tem-se acelerado em nosso País. É fenômeno importado, mas pegou forte, alastrou-se como fogo em palha seca.

Uma lista de nomes e expressões a banir foi instituída. E esse rol tende a se avolumar a cada dia. Não se fala mais assim, não se diz mais isso, nem pensar em pronunciar aquilo. Fica a desagradável impressão de que mentores mal-intencionados se concertaram para agir conscientemente a fim de acirrar ânimos, aprofundar fossos entre extratos sociais, separar o povo em campos distintos e antagônicos.

Elizete Cardoso

Palavras estranhas ― e nem sempre bem escolhidas ― nos vêm sendo impostas. Mulato, por exemplo, palavra a execrar hoje em dia, deve ser substituída por afrodescendente. Ora, há que ter em mente que todos os mulatos são também eurodescendentes, se não, não seriam mulatos. Por que, raios, o afro- teria precedência sobre o euro-? Devemos enxergar aí uma nova discriminação?

O Brasil já foi um país muito mais livre. O que digo pode soar estapafúrdio para os mais jovens, mas é o que ressinto. Éramos pobres, sim, mas podíamos sair à rua sem medo de ser assaltados, não precisávamos viver enjaulados como bichos no zoológico, a porta de casa dispensava tranca. E era natural dar nomes aos bois.

Hoje os brasileiros são mais ricos (ou menos pobres, conforme o critério estatístico adotado), mas vivem na apreensão permanente do assalto, da violência, da bala perdida, do sequestro relâmpago. São obrigados a cercar-se de jaulas, câmeras de controle, porteiros, vigias. E, para coroar tudo, como morango em cima de bolo de aniversário, já não se pode falar como antes. Temos de filtrar nossas palavras, pesar nossas expressões, policiar nosso discurso.

Será que, de uns dez anos para cá, teremos sido capazes de resolver a conjectura secular dos filósofos? Será que, mudando o nome da coisa, mudamos também a essência dela? Será que o mulato transfigurado em euro-afrodescendente será mais respeitado, mais valorizado, mais favorecido, mais feliz?

Se assim for, chegou a hora de enfiar o grande Ataulfo Alves no mesmo balaio ao qual já foram condenados Monteiro Lobato e o Saci-Pererê. Seu samba Mulata Assanhada, de 1956, tem de ser banido do cancioneiro nacional.

E é bom que preparem um balaio de bom tamanho. Muita gente fina vai ter de se acomodar lá dentro. Gente do quilate de Ary Barroso, Chico Buarque, Noel Rosa, isso só para começar. Pelas regras de hoje, estão todos em pecado mortal.

Paralimpismo

José Horta Manzano

Artigo publicado pelo Correio Braziliense em 1° setembro 2012

Enganam-se o gentil leitor e a distinta leitora se imaginarem que estou aqui, a mando de sabe-se lá que multinacional, cumprindo a nobre missão de apresentar-lhes novo produto de limpeza. O que parece nem sempre é, como sabem todos os que, um dia, já passaram pela experiência de levar gato por lebre. Comecemos pelo começo, que dá mais certo.

Sentindo os ventos fétidos que prenunciavam as atrocidades da Segunda Guerra Mundial, um certo Dr. Ludwig Guttman, cirurgião do Hospital Judeu de Breslau (hoje Wroclaw), deixou a Alemanha em 1939 e se refugiou na Inglaterra, onde continuou a exercer seu ofício.

Os Jogos Olímpicos previstos para 1940 e para 1944 não se realizaram, por razão de conflito mundial. Mas Londres fez questão de sediar os de 1948. Quis mostrar ao mundo que, apesar das perdas, dos bombardeios, das privações, o velho leão ainda estava de pé, alerta, pronto para mostrar-se sob seu perfil mais favorável.

Os combates haviam deixado um rastro de mutilados e estropiados. Dr. Guttman teve a brilhante ideia de valer-se dos holofotes dos Jogos Olímpicos para promover uma manifestação paralela, exclusivamente dedicada a atletas cadeirantes. Diga-se logo que a ideia não despertou no público nenhum entusiasmo delirante. A vista daqueles amputados reavivava feridas dolorosas e ainda não cicatrizadas. Aquilo trazia lembrança do que todos queriam justamente esquecer. Apesar de o bom doutor ter tentado oficializar sua iniciativa, o sucesso foi tênue. Ainda não era a hora.

A ideia cochilou. Foi preciso que uma geração inteira se passasse para que a humanidade estivesse pronta a aceitar a novidade. Veio aos poucos. Já em 1960, nos Jogos de Roma, houve um embrião de competições para atletas diminuídos por defeitos físicos. Pouco a pouco, a nova prática foi ganhando os espíritos, e diretórios nacionais foram-se formando. Logo veio a necessidade de criar um comitê internacional para coordenar os diretórios nacionais da nova modalidade esportiva. Em 1989, fundou-se em Düsseldorf o organismo tutelar. Faltava dar-lhe o nome.

by Fernando de Castro Lopes, desenhista carioca

by Fernando de Castro Lopes, desenhista carioca

Não houve grandes discussões. Tomou-se o prefixo grego παρα (para), que evoca a semelhança, a proximidade, e juntou-se-lhe o nome tradicional das competições. Nasceram assim os Jogos Paraolímpicos. As duas raízes gregas compuseram um adjetivo novo, claro, explícito. Ingleses, alemães, franceses, castelhanos decidiram amputar a primeira letra do nome principal. Para nós, soa estranho. Resultaram formas como Paralympic Games, Paralympische Spiele, Jeux Paralympiques, Juegos Paralímpicos. Parece produto de limpeza.

Pelo menos desta vez — é tão raro, daí nosso orgulho — foi-nos permitido desdenhar com certa superioridade da falta de cultura dos falantes dessas línguas. Nós, com nossos Jogos Paraolímpicos, havíamos tido a sabedoria de manter o aspecto, o som e a ideia, tudo sem deturpar nenhuma palavra! Foi envaidecedor, digo sinceramente. No tempo em que ainda era permitido se exprimir assim, cheguei a pensar: «eles, que são brancos, que se entendam».

Mas não há mal que sempre dure nem bem que nunca se acabe. Ao contrário do que cantava Eduardo das Neves na marchinha que compôs em 1902 em homenagem a Santos Dumont — «a Europa curvou-se ante o Brasil» —, desta vez fomos nós que sucumbimos. O Brasil acabou dobrando-se diante da Europa.

Não sei quem teve a fabulosa ideia, nem quando esse espantoso estalo terá ocorrido. O fato é que a palavra tradicional foi atirada à lata de lixo da história. Atropelamos o espírito de nossa língua. Foram ignorados os usos e costumes de nossa norma culta que, tradicionalmente, impelem o prefixo a adaptar-se ao nome. Mil anos de formação de nosso falar foram alegremente desconsiderados. Se era para encurtar, que se oficializasse ‘parolímpicos’. Seria uma forma intermerdiária, nem lá nem cá, que talvez satisfizesse a gregos e a troianos.

Mas, não. O braço brasileiro da organização traz o exótico (e mui oficial) nome de… Comitê Paralímpico (sic) Brasileiro. Com site e tutti quanti. O nome de origem foi transfigurado através de uma verdadeira política de faroeste, daquelas que primeiro executam o suspeito, para impossibilitar o devido julgamento. Não se julgam cadáveres.

A adulteração foi heresia perpetrada ao arrepio da forma sacramentada pelo Vocabulário Ortográfico da ABL, guardião da língua! Que aqueles que patrocinaram esse ‘malfeito’ levantem os braços ao céu e agradeçam por não se queimarem mais hereges em fogueiras.

Se alguém pensou em colonização cultural, não há de estar longe da verdade.