Se benzer

José Horta Manzano

A sabedoria popular ensina que ‘cão que ladra não morde’. Com variantes regionais, esse ditado ecoa em todas a línguas. ‘Os cães ladram e a caravana passa’ é uma variante.

Isso dito, tenho observado a atitude de Donald Trump com relação ao Irã. Já faz dias que ele ameaça sem morder. Abandonou a reunião do G7 antes do fim, dizendo que tinha decisão iminente a tomar. A “decisão” não passou de um ultimátum lançado ao Irã ordenando que se rendessem imediatamente e sem condições. Em resposta, os aiatolás deram-lhe uma banana.

Trump voltou a ameaçar lembrando que está cogitando destruir o sítio onde os iranianos enriquecem urânio. Acontece que essas instalações estão enterradas longe do alcance de bombas tradicionais. Trump, por enquanto, continua ladrando sem morder. Por que será?

Há quem diga que está aplicando nos iranianos a estratégia do pavor. Procura atormentar os habitantes com a iminência dos ataques, lembrados diariamente. Pode ser, mas não é o que me parece. A meu ver, o que está emperrando um ataque fulminante é outra coisa.

O Irã é supermontanhoso. Sua orografia acidentada, que percorre praticamente o território inteiro, conta com elevações que ultrapassam 4.000 metros. Ao construir suas instalações subterrâneas, os iranianos sabiam que os EUA possuem esse tipo de bomba perfurante, que pode atravessar 60m de terra, rocha ou até concreto antes de explodir.

Assim sendo, com tanta montanha à disposição, não me parece que tenham optado por cavar uma cova rasa para colocar as centrífugas. É mais simples abrir um túnel no flanco de uma montanha bem alta e, lá no fundo, alargar a galeria e instalar a maquinaria. Dado que a bomba perfurante fura na vertical (e não na horizontal), as instalações estão protegidas pela própria montanha. Quero crer que tenham escolhido esta última solução.

Isso explicaria a longa hesitação de Trump em lançar um ataque. Sacou, tem de atirar – olhaí outra expressão conhecida. Se a tal bomba perfurante for lançada sem sucesso, isto é, se não destruir completamente o sítio nuclear, como é que fica? Trump não pode dar de ombros, virar as costas e tirar o pé fora. Terá de dar continuidade ao ataque. Terá de se meter numa guerra, sem esperança de vencê-la rapidamente.

Entre as promessas de campanha, Trump garantiu que, como adepto da paz, não envolveria mais os EUA em guerras. Uma nova guerra no Oriente Médio desmoralizaria o personagem. Ele perderia o apoio de muitos de seus fãs. Portanto, ele só interviria no Irã se tivesse certeza de vencer em poucos dias e, sobretudo, sem que nenhum soldado americano tenha de pisar o solo persa.

Outro fator pode ajudar a explicar a hesitação trumpiana. Faz muito tempo que o Irã deixou de permitir a entrada de inspetores da Agência Internacional de Energia Atômica. Ninguém é capaz de dizer com exatidão a quantas anda, neste momento, o enriquecimento de urânio. Na última inspeção estava a 60%, mas como estará agora? Sabe-se que, para o fabrico da bomba, o urânio tem de estar enriquecido a 90%.

Assim sendo, supondo que o urânio enriquecido esteja próximo do teor necessário para explosão atômica, quais seriam as consequências de uma bomba perfurante explodindo no recinto em que o urânio enriquecido está estocado? Fica por isso mesmo? Quem garante que a poeira contaminada não vai escapar e se espalhar pela atmosfera? Tendo em mente que o Irã tem uma população de 90 milhões, quem vai assumir a responsabilidade de ter contaminado, pelo ar e pela água, toda uma nação?

Aí estão, a meu ver, as razões da demora de Trump. Em conclusão:

    • Se simplesmente abandonar, ele será visto como pusilânime.
    • Se atirar a bomba perfurante e não conseguir atingir o alvo, será ridicularizado, ele e seu exército.
    • Se lançar a bomba e contaminar milhões, será considerado um genocida de galocha.
    • Se entrar em guerra tradicional, com desembarque de tropas e de tanques, estará abrindo conflito para uma década, com milhares de americanos mortos, sem garantia de vitória.

É um drama em que todas as saídas são ruins. A sinuca é de bico. De bico entortado, com penas pretas por cima. Trump precisa se benzer.

Zambelli e os Bolsonaros: sempre juntos

Alfândega italiana

José Horta Manzano

Parlamentares da oposição italiana estão furiosos. Acusam o governo de Giorgia Meloni — ela mesma de extrema direita — de hipocrisia ao permitir a entrada de Carla Zambelli no país. A ex-deputada brasileira, foragida da Justiça, chegou recentemente à Itália via Estados Unidos. A revolta do grupo de oposição ecoou no Parlamento.

O deputado Angelo Bonelli, do Partido Verde Esquerda, numa interpelação ao Ministério do Interior, exigiu explicações sobre pontos obscuros referentes à chegada de Zambelli ao aeroporto de Roma. Segundo ele, sua vinda à Itália era amplamente conhecida — inclusive anunciada por ela mesma dias antes. Ela parecia acreditar que, como cidadã italiana, estivesse protegida de extradição, o que tornaria o país um porto seguro. Bonelli questiona: como é possível que a Justiça italiana não tenha se antecipado? Ainda que a ordem de prisão da Interpol não tivesse sido recebida, o mínimo seria monitorar discretamente seus passos.

“O que não pode acontecer é a Itália virar refúgio de criminosos”, disse Bonelli. “Com ou sem cidadania italiana, um fugitivo é um fugitivo.” Ele também levantou a suspeita de que Zambelli esteja sendo protegida por ordem do alto escalão do governo italiano — que, segundo ele, sabe muito bem onde ela está, mas guarda o segredo.

No mesmo discurso, Bonelli trouxe outro nome à tona: Jair Bolsonaro. Perguntou se o ex-presidente brasileiro também é cidadão italiano. A resposta do Ministério foi evasiva: até o momento, Bolsonaro não solicitou o reconhecimento de sua cidadania. Seus filhos, no entanto, sim — e já foram oficialmente reconhecidos como cidadãos italianos. Flávio, Eduardo e Carlos estão devidamente documentados.


É curioso como, apesar das rusgas, Zambelli e os Bolsonarinhos insistem em subir juntos aos palcos – no presente caso, no Parlamento Italiano…


Mas a informação mais intrigante veio da subsecretária do ministério, que afirmou com naturalidade que os filhos de Bolsonaro têm cidadania italiana, mas não o pai. Como assim? De onde, então, herdaram essa nacionalidade? Se não veio do pai, de onde terá vindo? Acharam na rua?

Pela lei do sangue (ius sanguinis), a cidadania italiana é transmitida por ascendência. Para que os filhos a obtenham, é necessário comprovar a linhagem desde o último antepassado nascido na Itália até o requerente. Isso passa obrigatoriamente pelo pai. Portanto, ele está necessariamente inscrito nos devidos registros italianos. Assim sendo, Jair pode solicitar o passaporte a qualquer hora.

Quem sabe, como italiano de papel passado, Bolsonaro não acaba se juntando a Zambelli para trilharem juntos as espinhosas veredas da fuga e do exílio…

Donald Trump e os limites do poder

José Horta Manzano

by Darío Castillejos (1974-), desenhista mexicano

Nos últimos anos, psiquiatras e psicólogos americanos vêm observando com preocupação um aumento na frequência de episódios que sugerem sinais de confusão cognitiva por parte de Donald Trump. Durante seus discursos, que hoje se estendem por cerca de 82 minutos – quase o dobro da média de 45 minutos registrada na campanha de 2016 –, o ex-presidente muitas vezes demonstra dificuldades de articulação. Há casos em que palavras são pronunciadas pela metade, frases ficam incompletas ou se encerram com terminações inventadas, o que torna suas falas, em vários momentos, desconexas e de difícil compreensão até mesmo para seus apoiadores mais fiéis.

Mais do que simples lapsos verbais, essas manifestações vêm acompanhadas de um padrão preocupante: decisões impulsivas, tomadas sem planejamento estratégico, que muitas vezes são revertidas pouco tempo depois. Esse comportamento errático tem gerado instabilidade tanto na política externa quanto na condução da economia americana. A volatilidade das posições presidenciais cria um ambiente de expectativa constante, em que aliados e adversários se veem obrigados a reagir a movimentos inesperados, dificultando qualquer esforço de governabilidade a longo prazo.

Diante desse cenário, até mesmo figuras influentes do Partido Republicano passaram a se perguntar à boca pequena se Trump estaria fisica e mentalmente apto a exercer a função de chefe de Estado. Embora tais dúvidas ainda sejam tabu em parte do eleitorado, o desconforto é palpável entre especialistas em saúde mental, analistas políticos e líderes institucionais.

Esse ambiente de incerteza, com contornos de pré-catástrofe, tem levado muitos americanos a refletir sobre os limites do poder presidencial. Afinal, será que o modelo criado no final dos anos 1700, com o objetivo de substituir a figura do rei da Inglaterra por um presidente forte e autônomo, ainda é compatível com a complexidade dos tempos atuais?

O sistema presidencialista dos Estados Unidos foi, à sua época, uma inovação. Mas os desafios do século XXI exigem nível mais elevado de equilíbrio entre autoridade e responsabilidade. A atual configuração concentra um volume extraordinário de poder numa única pessoa. Num mundo interconectado e repleto de tensões geopolíticas, um único erro de cálculo – e Trump já cometeu vários – pode ser suficiente para desencadear um enfrentamento bélico de proporções calamitosas.

Talvez seja chegada a hora de um debate nacional mais amplo, não apenas sobre a saúde e a aptidão dos candidatos à Presidência, mas sobre a própria estrutura de comando da maior potência do planeta. Rever as atribuições e os limites do cargo pode ser um passo essencial para proteger a democracia americana de seus próprios excessos – e dos riscos representados por lideranças instáveis.

Crioulo

Árvore genealógica

José Horta Manzano

O mundo parece gostar de se surpreender com o novo papa. A cada dia, surge nova informação, nova faceta de sua vida e de sua trajetória, incitando à curiosidade por seu passado. Como nos velhos tempos, cada um parece estar correndo atrás de um pequeno retalho de batina, de fáscia ou de peregrineta para fazer uma relíquia. Esse fascínio pelo chefe da Igreja já se registrava nos primeiros papados mas, com a visibilidade das redes sociais, está se tornando mais intenso e globalizado.

Já se disse que o Papa Leão XIV nasceu nos Estados Unidos e passou cerca de 20 anos no Peru, o que torna sua trajetória ainda mais interessante. Não foi alguém que permaneceu na retaguarda, longe da ação; pelo contrário, ele se envolveu ativamente como missionário e percorreu diversas regiões, espalhando sua fé e vivenciando culturas distintas. Esse papel de missionário é um reflexo do dinamismo que caracteriza sua personalidade, sempre buscando se conectar o mundo que o circunda, um traço que tem sobressaído desde que ascendeu ao papado.

Uma questão particularmente interessante diz respeito à análise das suas origens, um fator carregado de sensibilidade, especialmente em sua terra natal, um país cuja história está entrelaçada com questões de raça e identidade. As origens de Leão XIV, longe de serem meramente um detalhe biográfico, oferecem uma chave de leitura para a compreensão da história contemporânea, na qual o Papa surge como uma figura que atravessa fronteiras culturais e étnicas.

Em artigo publicado há dias no The Conversation, Chelsea Stieber, historiadora e pesquisadora, traça um retrato mais detalhado das descobertas feitas por uma genealogista a respeito de Robert Francis Prevost, nome de batismo do novo papa. De acordo com Stieber, do lado materno, o Sumo Pontífice tem origens ‘creoles’, um termo que, na língua inglesa, pode gerar confusão, dada sua ambiguidade. Tradicionalmente, a palavra “creole” é usada para se referir a indivíduos de ascendência europeia, descendentes dos primeiros colonizadores franceses ou espanhóis nas Américas. No entanto, esse termo também pode se referir a indivíduos mestiços, fruto da união entre colonizadores e negros, particularmente nas vizinhanças da antiga América Francesa, a atual Luisiana.

O artigo de Stieber, no entanto, não esclarece com precisão de que categoria de ‘creole’ Leão XIV descende. Numa possível interpretação, ele poderia descender de “gens de couleur libres” – expressão histórica utilizada para descrever escravos alforriados, que viviam à margem da sociedade colonial. Documentos de pesquisa indicam que o avô materno do papa, Joseph Norval Martínez, nasceu no Haiti, o que adiciona uma camada fascinante à genealogia do pontífice.

O papado de Leão XIV, que acaba de começar, abre um vasto campo para investigações. Genealogistas e estudiosos têm diante de si boa oportunidade de desenterrar documentos, consultar cartórios, registros de paróquias e arquivos esquecidos. No entanto, é importante destacar que essas descobertas, ainda que interessantes, não passam de curiosidade. No fundo ninguém é responsável por seu passado longínquo.

O que realmente importa, e o que permanecerá para a história, são os fatos e gestos de Leão XIV. O que virá a partir de agora é mais importante do que qualquer descoberta genealógica ou fofoca de rede social.

Quem viver, verá.

As derrotas de Trump

Tambores rufando

José Horta Manzano

Apesar de ter descido à arena com passos duros e rufar de tambores, Donald Trump, personagem grandioso e teatral, está murchando estas últimas semanas.

Prometeu expulsar 11 milhões de imigrantes clandestinos. Fiz as contas: com aviões de 200 lugares, seriam necessários 55 mil voos. Suponhamos uma frota de 10 aeronaves dedicadas exclusivamente à missão, cada uma fazendo um voo de ida e volta por dia, de domingo a domingo, feriados e dias santos incluídos. Seriam necessários 5.500 dias – cerca de 15 mandatos presidenciais. Mesmo os menos afeitos à matemática (como este escriba) percebem que a meta é uma miragem. Uma promessa de palanque que não resistiu à aritmética. Derrota, portanto.

Depois veio o plano mirabolante de quebrar a espinha dorsal da economia chinesa com pesados impostos de importação, como se a China fosse uma loja de esquina em crise. Imaginou que o “Império do Meio” se ajoelharia. Não se ajoelhou. Em um país de governo centralizado, acostumado a ordens verticais, a população seguiu em silêncio. Quem cedeu foi Trump, que engoliu em seco e aceitou a mediação suíça. O leão rugiu, mas acabou se afinando. Mais derrota, portanto.

A bufonaria de entregar pastas de governo a Elon Musk, um parvenu com aspirações a Messias digital, teve vida breve. O corte em instituições, o descontentamento geral e a gritaria nas redes dissolveram rapidamente a “grande aliança”. Musk está fora – ou quase. Mais uma derrota para o currículo.

Há outras, menores, internas, administrativas, que se acumulam como entulho. Mas o quadro geral é claro: por trás do gestual arrogante e da retórica grandiloquente, o messianismo de Trump está em processo de derretimento. A cada bravata, nova fissura. A cada promessa não cumprida, fiasco mais evidente.

A verdade é que o presidente, que se pinta como salvador do mundo, parece hoje mais um personagem trágico de ópera bufa: ruidoso, solitário e, sobretudo, declinante.

Prevost

Hábitos clericais na Idade Média

José Horta Manzano

Prevost, sobrenome do papa recém-eleito, é palavra de origem francesa. O significado variou com o tempo, como também variou a grafia. Ao longo dos séculos, o termo já se escreveu provost, prevoz, prevost e de outras formas pitorescas até chegar a prévôt, grafia atual.

Etimologicamente, é palavra descendente do latim, especificamente do verbo praeponere, onde prae = antes/à frente, ponere = pôr/colocar, ou seja, colocar à frente. Prévôt é aquele que, num grupo, ocupa a posição de chefia. Prévôt tem similaridade semântica com nosso preposto. Ambos indicam alguém que exerce funções de chefia ou direção.

Na Idade Média, prévôt podia ser, por exemplo, o oficial com poder jurisdicional sobre um determinado território, o chefe de uma companhia de arqueiros (atiradores de flecha), o magistrado encarregado de instruir processos de marinheiros acusados de crime. E outras tantas possibilidades.

Leão XIV certamente teve um prévôt em sua árvore genealógica, personagem longínquo mas importante por ter transmitido o nome à descendência.

Pelo que a mídia noticiou, o novo papa tem origem francesa e italiana, nasceu nos EUA, adquiriu a nacionalidade peruana. Sua língua materna é inglês e, além disso, fala também italiano e espanhol muito bem. Fiquei sabendo que fala também francês, mas não posso julgar porque não o ouvi nessa língua.

O domínio do italiano é condição indispensável para ser eleito papa. Afinal ele será o dirigente absoluto (chefe dos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário) do Vaticano, Estado cuja língua oficial é o italiano. Alguém imaginou eleger um presidente do Brasil que não falasse português?

Por causa dessa ascendência multinational, no dia seguinte de sua eleição, genealogistas puseram mãos à obra para desvendar os passos dos antepassados do papa. Não sei como conseguiram ir tão rápido, mas o fato é que, tanto nos EUA quanto na França, logo surgiram informações.

Na terra natal de Leão XIV (onde Leão se escreve “Leo” e se pronuncia “Lío”), logo encontraram os irmãos do papa, todos com idade regulando com ele. Fotos de família e declarações ao vivo de irmãos enfeitaram os programas do horário nobre da televisão.

Já na França, genealogistas seguiram a linha dos antepassados e descobriram que a avó do novo papa era filha de confeiteiros da Normandia, nascida na cidade do Havre em 1894 e falecida nos EUA em 1979. Todos os antepassados dessa senhora eram normandos – é verdade que mudanças de uma região a outra eram raras naqueles tempos.

Um jornal da região de Grenoble chegou a descobrir, em poucas horas, que os antepassados do papa teriam raízes naquela região. Vasculharam longe pra chegar a essa descoberta. Afirmam que a tetravó (avó do bisavô) de Leão XVI, uma certa Marie-Thérèse Rancurel, poderia até ter origens nobres(!).

É certamente uma linda história para contar para os sobrinhos-netos. Mas o que importa realmente não são tanto as origens de Leão XIV, mas como ele orientará seu trabalho. O papa não tem exército, não é pela força bruta que ele poderá ajudar a humanidade. De todo modo, força bruta nunca serviu pra ajudar ninguém.

Na minha recatada opinião, o chefe da Igreja Católica deveria ter a coragem de enfrentar as questões que, na atualidade, empacam a instituição. Não acredito que a ordenação de mulheres seja a questão primeira. Há outros assuntos que não adianta varrer para debaixo do tapete, como se não existissem.

Aborto voluntário e casamento entre pessoas do mesmo sexo são temas do nosso tempo. Ambos já estão regulados em dezenas de países – muitos deles, católicos –, enquadrados por leis ou por decisões de justiça. A Igreja não pode fugir a debates que a sociedade civil já resolveu e sacramentou.

Resta esperar que Leão XIV queira e consiga extirpar a Igreja do torpor timorato em que está mergulhada. Que o apego ao passado se limite aos hábitos medievais do clero.

Caiu do céu

José Horta Manzano

Durante milênios, o céu foi apenas o lar dos astros, das nuvens e dos sonhos humanos. Hoje, ele é também o depósito de um perigoso quebra-cabeça metálico. Desde que o primeiro satélite artificial foi lançado em 1957, uma silenciosa e crescente multidão de objetos passou a orbitar a Terra. No começo, eram poucos e gloriosos marcos da corrida espacial. Depois, viraram dezenas, centenas e, com o tempo, milhares de artefatos — satélites ativos, lixo espacial, partes de foguetes, painéis solares desativados, parafusos soltos. Tudo isso formando uma espécie de anel invisível ao olho nu, mas cada vez mais denso, caótico e ameaçador.

Nosso céu, antes limpo e infinito, virou um carrossel de lixo.

E como já sabiam os antigos – e como confirma a física – tudo o que sobe acaba caindo. A gravidade, paciente e constante, cobra seu tributo com o tempo. E foi assim que, recentemente, veio a notícia de que um pedaço de 495 kg de uma nave lançada em 1972 – uma missão fracassada com destino a Vênus – deve reentrar na atmosfera terrestre nos próximos dias. Essa peça em particular é o estágio superior de um foguete soviético, vagando feito alma penada há mais de meio século, agora prestes a voltar para casa. Mas onde, exatamente, vai cair? Ninguém sabe.

O risco de atingir área habitada é pequeno. Estimativas apontam para uma probabilidade ínfima – mas não nula. E esse é o ponto que deveria nos preocupar. Porque, se não for esse específico destroço, amanhã pode ser outro. Existe uma classe crescente de zumbis espaciais – objetos não-funcionais que continuam em órbita – esperando sua vez de despencar sobre a Terra. Em geral, se desintegram ao reentrar, mas pedaços maiores, como esse, podem resistir e chegar ao solo.

A questão não é mais “se” algo vai cair em local povoado, mas “quando”. E o que temos feito para evitar isso? Ainda muito pouco. Existem planos, estudos e promessas de futuros satélites com sistemas de reentrada segura ou mecanismos de autodestruição. Há empresas e agências espaciais estudando “aspiradores” espaciais para recolher o lixo orbital. Mas são iniciativas pontuais, caras e lentas.

Enquanto isso, o número de satélites só aumenta. Com projetos como o Starlink e outros similares, a expectativa é que dezenas de milhares de novos objetos sejam lançados nos próximos anos. Multiplicam-se as conexões, mas também os riscos.

É hora de levar a sério o que vem do céu. Precisamos de regras internacionais mais firmes, de fiscalização real e de planos concretos para lidar com os resíduos espaciais. Porque esperar a desgraça para agir depois é a receita certa para ela acontecer.

Afinal, quando alguma coisa cai do céu, nem sempre é uma bênção.

Putin quer mesmo o fim da guerra?

José Horta Manzano

Dizer que Vladimir Putin deseja o fim da guerra é uma falácia, uma ideia que não resiste à menor análise. Desde o início da invasão da Ucrânia, em fevereiro de 2022, o objetivo do Kremlin foi muito além de uma mera operação militar. Para Putin, a guerra não é um acidente de percurso, mas um instrumento essencial de sua estratégia de enfraquecer a Europa e impor-se num novo equilíbrio de forças no continente, quiçá no mundo.

Interessa ao líder russo que o conflito se prolongue indefinidamente – ou pelo menos até que os Estados Unidos se cansem de financiar e apoiar Kiev. Em sua lógica, trata-se de um jogo de paciência: enquanto a Rússia, acostumada a resistir a longos períodos de privações e adversidades, segura o terreno, ele aposta que o Ocidente, sujeito a pressões internas e a ciclos políticos curtos, acabará desistindo.

O cálculo é cínico, mas não desprovido de realismo: sem o respaldo militar, financeiro e diplomático dos EUA e da União Europeia, a Ucrânia se verá sozinha diante do colosso russo. A partir daí, Putin acredita que a resistência ucraniana acabará por desmoronar e que Kiev, isolada e exaurida, terá de se render – ou aceitar a paz nos termos impostos por Moscou.

by Patrick Chappatte (1966-), desenhista suíço

Cada trégua aparente, cada discurso em favor da paz vindo do Kremlin deve ser entendido como parte de uma estratégia maior: ganhar tempo, dividir o Ocidente, sem nunca perder de vista o objetivo final. Para Putin, a guerra não é algo a ser encerrado; é uma ferramenta a ser utilizada até a exaustão do adversário.

Enquanto houver esperança de ver o apoio ocidental à Ucrânia enfraquecer, a paz naquela região continuará sendo apenas o que é: uma linda palavra, útil para discursos diplomáticos e “tréguas” de ocasião, mas distante da realidade.

E agora, para onde vai a Igreja?

José Horta Manzano

Conduzir a Igreja Católica não é tarefa para amadores – nem mesmo para santos. Desde que Pedro trocou as redes de pesca pelo governo das almas, o sucessor de Cristo na Terra tem vivido o angustiante dilema de apascentar um rebanho que, com o passar das décadas, vem mostrando tendência a afastar-se dos preceitos. Com o papa Francisco, esse drama atingiu novos e intricados capítulos.

Desde o início de seu pontificado, Jorge Bergoglio deixou claro que não seria apenas o “papa simpático” das selfies e dos discursos emocionantes. Ele tinha convicções firmes: uma Igreja pobre para os pobres, aberta ao diálogo com o mundo contemporâneo e mais preocupada em acolher almas do que em policiar comportamentos. Mas querer é uma coisa; fazer, especialmente no Vaticano, é outra bem diferente.

Francisco viu-se sitiado entre duas frentes surdas: de um lado, a ala conservadora, sempre pronta a acionar o freio de mão dogmático a cada aceno de mudança; de outro, o progressismo ansioso, que muitas vezes lhe cobra avanços com a impaciência típica de quem desconhece a lentidão peculiar do tempo eclesiástico – um “sim” pode levar décadas e um “não” pode durar séculos.

Os conservadores escrutaram com desconfiança cada gesto pastoral do papa: se ele visitava uma prisão, era “populismo”; se falava em mudança climática, era “desvio de missão”. Já os progressistas, que sonham com reformas profundas – ordenação de mulheres, revisão do celibato, reconhecimento de novos modelos de família –, frequentemente se frustraram com a cautela e as meias palavras do pontífice argentino. Entre uns e outros, Francisco governou o barco como pôde, entre escolhos e sargaços.

Para impor uma visão de Igreja, é preciso mais do que carisma: é necessário ser uma força da natureza. Desde João XXIII – aquele que, com candura e astúcia, abriu as janelas do Vaticano ao mundo – não se viu outro papa com perfil verdadeiramente transformador. Paulo VI teve a intenção, mas não o apoio. João Paulo II, o vigor, mas o apego a velhas práticas. Bento XVI, o intelecto, mas não o pulso. E Francisco? Teve o sonho, mas faltou-lhe o exército.

No fundo, a Igreja continua esperando aquele homem providencial capaz de, com mão firme e sorriso sereno, romper o imobilismo e trazer a barca de Pedro a nossos tempos. Desta vez, ainda não foi possível. Mas resta a todos a esperança: essa, sim, uma virtude teologal.

Guarda Pontifical

José Horta Manzano

O território suíço é pouco propício à agricultura. No fim da Idade Média, conforme a população aumentava, as magras colheitas foram se tornando cada vez mais insuficientes para alimentar a todos.

Essa é a razão principal para o êxodo de homens suíços em idade de portar uma arma. Iam trabalhar como soldados mercenários ao serviço de reis e príncipes por toda a Europa. Eram excelentes militares, sérios e dedicados, daí nunca lhes faltarem propostas.

A contratação de soldados suíços para garantir a proteção dos palácios papais data dessa época. Foi papa Júlio II que contratou, em 1505, um batalhão de mercenários suíços para proteger o Vaticano.

De lá pra cá, a Suíça venceu a miséria e seus cidadãos não foram mais obrigados a deixar o país para lutar em guerra alheia. Pouco a pouco, todos os batalhões helvéticos foram desaparecendo. A Guarda Suíça do Vaticano é a derradeira unidade de soldados que ainda lembra aqueles tempos antigos.

A quantidade de guardas suíços a serviço do papa variou através dos séculos. Atualmente, são 135 militares. Uns dizem que é o menor exército do mundo, enquanto outros rebatem afirmando que a Guarda Suíça é apenas um batalhão de polícia. São questões semânticas.

Os guardas têm por missão securizar as entradas do palácio apostólico, da secretaria de Estado e dos apartamentos privados do papa. A segurança privada do papa é o ponto que concentra todas as atenções.

Para se candidatar às funções de guarda, o pretendente precisa ser cidadão suíço, de sexo masculino, solteiro no momento da admissão, de confissão católica; precisa ter reputação imaculada, medir 1,74m ou mais de altura, ter entre 19 e 30 anos de idade. Precisa ainda ter completado a escolaridade obrigatória e ter feito o serviço militar suíço.

A seleção é rigorosa. O pároco do lugar de habitação do candidato será interrogado e deverá confirmar por escrito que o jovem é bom praticante e goza de reputação sem mancha. As primeiras entrevistas são realizadas na Suíça e podem durar mais de 5 horas. O postulante tem de conhecer bem o alemão, que é a língua oficial da Guarda; o conhecimento de outras línguas conta pontos.

O jovem é contratado por dois anos. O trabalho inclui casa, comida, roupa lavada e mais um salário mensal de 1.200 euros (R$ 7.700). Quem vê o uniforme característico, que aparece atualmente em todas as imagens, pode até pensar que é o desenho original, aquele de 1505. Não é bem assim. A vestimenta atual foi criada um século atrás.

As longas lanças (piques) e as alabardas com que os militares desfilam são objeto decorativo para turista fotografar. Em matéria de arma, eles não estacionaram na Idade Média. Estão treinados a utilizar pistolas Glock 19, fuzis de assalto SIG-550 e metralhadoras HK MP7, assim como spray de pimenta. Além disso, todos têm treinamento de esportes de combate.

Ocaso dos populistas

José Horta Manzano

Lula anda se comportando feito barata acuada. Corre pra um lado e pra outro, hesita em trocar ministros, tira da cartola um programinha populista aqui, outro ali, tudo de circunstância, sem consistência. Mostra, a cada dia, não ter programa de governo. Na sua cabeça, que parece ter estacionado no tempo de seus mandatos anteriores, imaginou que pudesse se comportar como Midas moderno, resolvendo todos os problemas com um toque. Não está dando certo.

Bolsonaro é outro que anda deslizando, cada vez mais enrolado. Nos bons tempos em que lhe serviam café quente, vencia todas e agredia sem medo todas as autoridades da república. Pairava, inatingível, acima da ralé e da grã-finada. Hoje o vento mudou. Não entra mais em palácio. Seus comparsas estão presos ou à beira de o ser. Desconcertado, agarra-se a qualquer miragem que lhe pareça poder livrá-lo da cadeia com a qual já tem encontro marcado.

Trump está decepcionando os que dele esperavam um poderoso “abre-te sésamo” que projetasse os EUA num futuro brilhante de riqueza e prosperidade. Suas promessas de campanha andam mal das pernas. A expulsão de 11 milhões de trabalhadores clandestinos está se verificando meta inatingível, fora de qualquer cogitação. O conflito ucraniano, que seria resolvido em 24 horas, foi posto de molho. Bombas continuam explodindo na capital ucraniana. O vaivém dos impostos de importação mostrou, depois de perturbar as finanças do planeta, que não tinha vindo pra ficar, que era só uma ameaça. Caiu mal.

Putin continua lá no seu canto, jururu, sem conseguir vencer a guerra que declarou contra um vizinho bem menor e menos poderoso que ele. Ele também há de estar perdendo a confiança em Trump, aquele que prometia acabar com a guerra em um dia.

Milei, dizem, também anda inconformado. Seu sonho teria sido que a Argentina, e não o Canadá, tivesse sido convidada a se tornar o 51° estado americano.

Marine Le Pen é deputada francesa da extrema direita populista. A cada eleição para a presidência da república, seu nome na urna é tão infalível quanto brigadeiro em festa de criança: está sempre lá. E já faz umas duas ou três vezes que passou para o segundo turno. Pois Madame acaba de receber uma pena de prisão e de cinco anos de inelegibilidade. Em vez de prisão, terá de andar com tornozeleira eletrônica, mas a inelegibilidade é pra valer: não poderá disputar a próxima eleição.

Os que mencionei não são os únicos, há muitos outros líderes populistas no mundo. Falei dos que estão mais próximos de nosso universo. A julgar por eles, este ano da graça de 2025 parece assinalar o fim – ou pelo menos uma pausa – na pestilenta vaga de populismo que nos circunda.

Tomara que a pausa dure bastante tempo. Tomara que as próximas presidenciais brasileiras não tragam nenhum candidato populista na urna. Uma eleição sem Lula e sem Bolsonaro será uma bênção.

São Benedito é santo forte. Não sei se seus braços alcançam Le Pen, Milei, Putin e Trump. Mas sei que têm poder em Brasília.

Sem Lula e sem Bolsonaro(s), por favor, meu Santo!

Made in P.R.C.

José Horta Manzano

Até o começo deste século, os chineses eram mais que discretos ao etiquetar seus manufaturados para exportação. Se a legislação do país de destino fosse liberal, nem mencionavam a origem da mercadoria. Caso fosse absolutamente necessário, marcavam «Made in P.R.C.». A estranha e quase desconhecida sigla significava ‘feito na República Popular da China’.

De lá pra cá, as coisas evoluíram. Produtos daquele país hoje ostentam um desinibido «Made in China». Não dá pra dizer que o que vem da China se tenha tornado chique, que seria um exagero. Mas a desconfiança nos produtos chineses vem se amenizando ano a ano.

Tendo-se transformado em fábrica do mundo, a China tornou-se incontornável. Pouco a pouco, a indústria básica dos demais países tem dismilinguido em favor da China. Na França, grande país produtor de pianos, ninguém mais fabrica esse instrumento. O Brasil que, em meados do século XX contava com imensa população infantil, tinha grandes fábricas de brinquedo; fecharam-se uma após a outra, não sei se terá sobrado alguma. A indústria têxtil suíça, que já teve fama mundial, desapareceu. E assim por diante.

Até muito poucos anos atrás, não se viam automóveis chineses na Europa. Com bom marketing e, sobretudo, com preços imbatíveis, os carros elétricos chineses estão fincando pé no continente. Com a antipatia que Mr Musk tem espalhado pelo mundo, a venda dos carros de sua marca Tesla tem escorregado ladeira abaixo deixando campo livre para os chineses.

Nome, marca, origem da mercadoria podem ser prestigiosos. Em matéria de carnaval, praia, capoeira, caipirinha, chinelo de dedo, essas coisas, o nome de nosso País está por cima da carne seca. Deixa qualquer concorrente comendo poeira. Já em outros campos, a situação é menos dourada.

Para salvar a face, restam os aviões da firma Embraer, florão da indústria nacional, que irradia uma imagem pra lá de positiva de nosso castigado país. Por sorte, ainda não foi nacionalizada. Já imaginaram nossa maior indústria de excelência tornar-se um cabide de empregos, “feudo” do Centrão & associados? Cruz-credo!

Boicote

José Horta Manzano

Gosto de comer apimentado. Para os dias em que a comida não está picante o suficiente, tenho sempre à mão um vidrinho do molho de pimenta Tabasco, feito justamente pra servir à mesa. Duas gotinhas e pronto: um prato sem graça vira uma iguaria.

Outro dia, passeando os olhos pela mesa da cozinha e lendo etiquetas de embalagem, um de meus passatempos preferidos, me dou conta de que o Tabasco é feito no país de Trump! De fato, é importado direto da Luisiana.

Me senti meio aborrecido. Com a agressividade comercial de Donald Trump fazendo o mundo inteiro temer pelo amanhã, não é confortável descobrir que estou agindo contra a corrente – em vez de me abster, continuo comprando produtos americanos.

Não é tanto por vingança, que não tenho nada contra eles, mas é questão de solidariedade para com os países que neste momento se sentem esmagados e banidos do comércio mundial.

Já que o assunto era Tabasco, tive curiosidade de saber um pouco mais sobre o produto. Descobri que já faz século e meio que é produzido na Ilha Avery, situada nos alagados do estuário do Rio Mississipi. Quem deu nome ao lugar foi a família Avery, franceses originários da Normandia, que por lá se estabeleceram nos anos 1830 e foram proprietários daquelas terras. Era o tempo em que a Nova Orléans era a porta de entrada da América francesa.

Imaginei vasculhar a lojinha do indiano aqui perto de casa. (Digo indiano, mas talvez seja paquistanês, não sei, o fato é que não fala língua nenhuma além da sua, fato que dificulta a compreensão.) A loja é minúscula, mas tem uma imensa quantidade de produtos espremidos nas prateleiras cambaleantes. Há centenas de produtos indianos, paquistaneses e de outras lonjuras do Extremo Oriente, além de artigos do mundo todo, incluindo latino-americanos e até brasileiros. Um bazar sortido.

Mesmo antes de ir ao indiano, já considerei que não vai ser fácil encontrar substituto para o Tabasco. Com todas aquelas embalagens escritas em caracteres extremo-orientais e com o balconista que não entende nada, estamos bem arranjados. Melhor não trocar o certo pelo duvidoso.

Está resolvido, fico com o Tabasco. Mas tomo uma resolução: em vez de duas gotas, vamos pingar uma gota só em cada prato.

Tenho certeza de que essa prova de desprendimento patriótico vai ajudar a cortar pela metade o PIB americano. Trump que se prepare, que comigo a conversa é apimentada.

Não vai acabar bem

José Horta Manzano


• Suprema Corte repreende Trump após governo ignorar decisão e pedir impeachment de juiz

• Juiz aponta inconstitucionalidade e ordena que Musk desfaça desmonte da USAID

• Justiça dos EUA bloqueia política que expulsaria militares transexuais das Forças Armadas

• Justiça questiona Casa Branca por rejeitar ordem que barrou deportação e causa tensão

• ‘Trump usa cargo para que Justiça aceite suas mentiras e põe EUA em labirinto constitucional’


Essas cinco chamadas estavam no Estadão online na manhã deste 19 de março. Aos 79, que completará daqui a alguns meses, Donald Trump deve estar se dando conta de que não terá tempo útil para encetar uma carreira de ditador.

Para chegar a um perfeito Putin, a um azeitado Fidel ou a um experiente Salazar, tinha que ter começado aos 40 ou 50. É nessa idade que se constroem as brilhantes carreiras autocráticas. Aos poucos, vai-se tecendo a teia de amizades, de cumplicidades, de cooptações. Só os anos podem alicerçar forte rede de apoios, eliminando duvidosos e interesseiros, e guardando somente fiéis e leais.

Veja o caso de Elon Musk, por exemplo. Como diz o outro, o salão oval não é grande o suficiente para dois egos daquele tamanho. Mais dia, menos dia, a própria eletricidade estática, fenômeno natural provocado pelo atrito entre duas massas, vai acabar expulsando um dos dois pela janela. Imagina-se que Trump, favorecido pelo peso do cargo e do corpo, continue atarrachado à poltrona presidencial. Portanto, sai o outro.

Com seu relógio pessoal encostando nos 80, fica muito complicado, para Trump, encetar o espinhoso caminho de ditador de carreira. Tendo interiorizado essa realidade, o presidente americano decidiu agir com rapidez. Acostumado ao papel de brutamontes nos negócios, está tratando os assuntos exteriores de seu país com ares de quem está com a faca e o queijo na mâo.

Desde a Alta Antiguidade, o mundo está interligado pelas trocas comerciais. Desde então, produtos são levados de cá e trazidos de lá, num movimento circular e constante. Dele participam todos os países. Pode chamar a isso globalização, mundo multipolar, mundo unipolar, mundo bipolar, tanto faz. Sempre houve essas trocas e não é hoje que vão parar.

Trump parece ignorar fatos que são maiores que ele. Ao aumentar impostos de importação, provoca represálias geralmente representadas pelo aumento de impostos de importação em países parceiros comerciais, que vão atingir produtos americanos. Qualquer ginasiano entende esse mecanismo, mas Donald Trump não parece acompanhar o giro da engrenagem.

Além de reações externas, Trump começa a sentir o peso de bloqueios internos. Em princípio, a Justiça não tem medo de cara feia. E o judiciário americano está começando a mostrar que se encaixa nesse modelo: brutamontes não assustam. É o que dizem as chamadas que recolhi hoje do Estadão e que estão na entrada deste artigo.

Se a Justiça americana continuar alerta – e aposto que continuará – o caminho de Trump vai se tornar pedregoso. Talvez ele logo se dê conta de que, apesar do estilo rolo compressor, não vai dar tempo de destruir tudo o que imaginava poder destruir.

O mundo agradece.

Pró-natalista

José Horta Manzano

Nos tempos de antigamente, quando se costumava guerrear à força dos braços, o lado que dispusesse de mais braços tinha vantagem considerável sobre o adversário, pois podia contar com mais combatentes. Maior exército significava mais gente para segurar baioneta, para sitiar uma cidade, para manipular arbaletas, canhões ou minidrones.

Essa lógica funcionou até pouco tempo atrás. Desde que foram inventados artefatos que, lançados de longe, podem causar tremendo estrago, tornou-se relativa a necessidade de contar com exército mais numeroso que o do inimigo.

Na guerra da Ucrânia, por exemplo, a Rússia, país invasor, conta com população três vezes superior à do país invadido. Em teoria, poderia fazer mingau da Ucrânia. Mas faz três anos que está pelejando, sem sucesso.

Ao término de um período de conflitos, Estados guerreiros – como a França de Napoleão, por exemplo – instauravam políticas natalistas. A intenção era incentivar a população a ter mais filhos, de maneira a fornecer “carne de canhão” para servir às guerras pátrias.

Nestes últimos 80 anos, desde que terminou a Segunda Guerra Mundial, políticas de natalidade deixaram de fazer sentido na bacia atlântica (Europa e Américas). Se as famílias latino-americanas continuaram a fabricar muitos filhos por algumas décadas ainda, foi por falta de instrução adequada, nada a ver com política natalista.

A informação que reproduzi na entrada é de deixar surpreso. É realmente curioso ver aparecerem, na seita dos seguidores de Trump, grupos que veriam com bons olhos a instauração de uma política de natalidade. Para quê mesmo?

Me ocorre que esses grupos enxergam a chegada de clandestinos latino-americanos como ameaça existencial ao equilíbrio racial da sociedade dos EUA. É certamente essa a razão de tais grupos simpatizarem com uma política que promova o aumento da população branca. Na ideia deles, isso pode neutralizar a contaminação da sociedade americana por “latinos” pobres, de pele bronzeada e de baixa estatura.

Agora, um tanto incrédulos quanto à inclinação das jovens damas americanas para gerar mais pequerruchos, vamos endireitar a redação do anúncio da Folha, que está meio torto.

A expressão “Impulso a grupos pró-natalista” parece estranha. Para melhorar, há pelo menos três opções:

“Impulso a grupos pró-natalistas
(natalista pede s no final para concordar com grupos, que está no plural)

“Impulso a grupos pró-natalidade”
(é outra opção para substituir o deselegante “pró-natalistas”

“Impulso a grupos natalistas”
(é a opção mais simples e direta, eliminando o “pró”)

Massacre de Selma

Massacre de Selma
7 março 1965

José Horta Manzano

Faz 60 anos hoje. No âmbito da demorada luta que os pretos norte-americanos tiveram de enfrentar para conseguir a abolição do segregacionismo e o reconhecimento de seus direitos civis, um episódio importante aconteceu.

Em 7 de março de 1965, uma marcha de mais de 500 manifestantes, quase todos de pessoas “de cor”, como se dizia então, foi violentamente interrompida numa ponte chamada Edmund Pettus Bridge, em Selma, Alabama.

Policiais estaduais acompanhados por um bando de xerifes da região dispararam gás lacrimogêneo e espancaram violentamente os manifestantes com cassetetes. O episódio ficou conhecido como “Bloody Sunday” (domingo sangrento).

Post Scriptum
É de se perguntar se a “Festa da Selma”, senha combinada pelos depredadores da Praça dos Três Poderes, foi escolhida por mera coincidência ou se era alusão ao violento episódio americano de 60 anos atrás.

Se era uma referência ao espancamento dos negros de 1965, a escolha foi de mau gosto. A luta pelos direitos civis, uma batalha pelo avanço civilizatório, não se confunde com baderna pra tentar manter no poder, à força, um candidato derrotado.

Eskindô x Se acabô

José Horta Manzano

Enquanto uns vão de eskindô, outros amargam um se acabô. Tirando um ou outro acometido de amnésia etílica, todos ficaram sabendo do constrangedor espetáculo oferecido este fim de semana ao mundo por Donald Trump, no papel de “quem manda aqui sou eu”.

Esquecido de que Zelenski não havia entrado de penetra, mas a convite, Trump desancou o visitante e humilhou-o diante de câmeras e microfones. Puseram-se em dois – o dono da casa e seu vice – para descer a lenha no ucraniano. Para coroar, puseram o visitante pra correr, expulsando-o antes que fizesse o pronunciamento final.

Todas as análises que li desde então foram unânimes em expressar espanto e mal-estar. De memória de jornalista acreditado junto à Presidência americana, nunca se viu (nem se imaginou) cena desse tipo. Por detrás de portas cerradas, ninguém garante que já não tenha havido murros na mesa, brados de protesto, gestos de ameaça. Diante de câmeras e microfones, no entanto, jamais se tinha visto algo parecido.

Apesar de a cena parecer ter sido espontânea, gerada pelo calor da hora, tenho palpite de que não foi exatamente assim. A meu ver, houve preparação minuciosa, combinação prévia, verdadeira emboscada. Vejamos.

Não é todo dia que se vê o presidente americano discutir política externa com um colega estrangeiro diante de um batalhão de jornalistas munidos de gravadores, holofotes e câmeras. O que se costuma ver são cinco minutos de sorrisos para permitir fotos que vão estampar as reportagens. Discussões, nunca.

Assim sendo, o assunto não era para ser discutido naquele momento. Se o foi, é porque o desmonte da imagem do ucraniano Zelenski tinha sido minuciosamente preparado. A certa altura, Trump deu a primeira paulada, sinal de que a encenação podia começar. Logo em cima, seu vice, sem que lhe fosse solicitado, entrou no meio da conversa para sentar a pua no infeliz visitante que, com conhecimentos insuficientes de inglês, titubeou, dançou e rolou.

Estamos diante de um caso estranho. Numa guerra que já dura três anos, causada por uma potência que despachou suas forças armadas para invadir o país vizinho, a maior potência bélica do planeta apoia abertamente o agressor e não o agredido. Trump, no fundo, está rebaixando seu próprio país a um nível que imaginávamos reservado a dirigentes periféricos, como Lula, que também destratou o presidente ucraniano e deu apoio a Putin, o invasor.

Trump não sabe ainda, mas atitudes como a que ele tomou no Salão Oval diante do presidente Zelenski vão na contramão de seu desejo de fazer que os EUA voltem a ser grandes (Make America Great Again). No dia seguinte ao do bate-boca, os países que, confiantes, tinham se abrigado desde 1945 sob o guarda-chuva nuclear americano entenderam que a aliança estava morta.

A Europa entendeu que, sem o apoio militar dos Estados Unidos, corre perigo existencial. A Rússia, por seu lado, também entendeu que, com um Trump indiferente, é chegada a hora de recompor a Grande Rússia, como nos tempos da URSS. Quem sabe qual será a primeira das novas vítimas? Um país báltico? A Romênia? A Finlândia? É bem capaz de acontecer antes do que imaginamos.

Rearmar-se leva tempo, mas a Europa já está no bom caminho. O Reino Unido e a França são países dotados da arma atômica. A Alemanha acaba de pedir à França que estenda sua proteção nuclear ao território alemão. As coisas estão se mexendo com rapidez.

Como vão ficar os que confiaram na proteção dos EUA? Taiwan, cobiçado pela China continental? O Japão, desarmado há 80 anos e confiante na proteção americana? A América Latina que, fascinada pela Florida e pelos EUA, rejeita ser colonizada pela Rússia ou pela China?

Ninguém garante que Trump pendure as chuteiras no encerrar deste mandato. Pode ser que ouse entortar a Constituição e propor-se para mais quatro anos. Pode ser também que o próximo presidente seja o atual vice, J.D.Vance, que tem comportamento ainda mais ignorantão e agressivo que o chefe. Portanto, não é possível cravar, neste momento, que daqui a 4 anos estaremos livres desse pesadelo.

Trump pode até tirar algum proveito de sua guerra de tarifas de importação. Mas periga ver uma debandada de bons e antigos aliados. Ninguém quer ter aliado não confiável.

As preocupações do mundo

O Globo, 27 fevereiro 2025

José Horta Manzano

O Ipsos, conhecido instituto francês de pesquisa de opinião, leva a cabo um estudo permanente em 29 diferentes países (entre os quais o Brasil) para aferir as inquietações dos respectivos habitantes.

Ao entrevistado, é apresentada uma lista de 18 tópicos de sociedade. Pede-se que ele selecione os três que lhe parecem os mais preocupantes. Os resultados são frequentemente evidentes, às vezes curiosos, sempre interessantes.

A edição mais recente acaba de ser publicada, com os dados de fevereiro de 2025. Sem surpresa, a maior preocupação do brasileiro (38%) são o crime e a violência, tópico que incomoda muito pouco os habitantes de Singapura, onde foram citados por somente 7% da população.

Na Argentina, desde que a inflação desenfreada dos últimos anos arrefeceu, na esteira das reformas de Milei, a população parece ter recuperado o sorriso. A confiança na economia subiu 28 pontos com relação ao mesmo período do ano passado. O castigo da hiperinflação dos anos recentes foi tão pesado, que hoje estão todos se sentindo aliviados, apesar de a situação ainda estar bastante complicada.

Já a perocupação dos brasileiros quanto à inflação, está crescendo no sentido contrário ao dos argentinos: mais confiança lá, maior preocupação aqui. Até o ano passado, no Brasil, o dragão da inflação parecia adormecido. Este ano, a população está sentindo que o dragão acordou.

A pobreza e a desigualdade social, como era de se esperar, empata com a criminalidade na preocupação dos brasileiros. Mesmo os cidadãos cuja posição social está distante dessa categoria, sentem que aí reside um dos maiores males nacionais. Uma curiosidade: no Japão, uma porcentagem elevada de cidadãos (33%) mostra preocupação com o aumento da desigualdade social no país. Visto de fora, não imaginaríamos que fosse essa uma das inquietudes japonesas.

O desemprego não parece estar entre as preocupações nacionais do momento. O Brasil é o 21° (em 29) na lista dos que receiam o desemprego. Já a Argentina aparece em 3° lugar na mesma lista. O contraste entre as duas maiores economias da América do Sul é grande.

Quanto à preocupação com a corrupção política e financeira, o Brasil aparece no meio da lista, próximo da média mundial. Não é que o brasileiro não perceba a corrupção que rói as entranhas da nação; eu diria que nossa indiferença é reflexo do desalento e da certeza de que, por mais que façamos, a classe política continuará a negar-se a servir ao povo para poder servir-se do dinheiro do povo.

O tópico que mais me impressionou foi o das mudanças climáticas. Entre os países que se preocupam com as mudanças no clima da Terra, o Brasil está em 18° lugar (entre 29 países). Ou seja, estamos longe de nos preocupar com o estado do planeta que vamos deixar para nossos filhos e para os que virão depois.

Nossas catástrofes climáticas dos últimos tempos (entre as quais, enchentes diluvianas no Rio Grande, labaredas espontâneas a lamber o Pantanal e a Amazônia, seca saariana no Rio de Janeiro) parecem não ser suficientes para sacudir a percepção do brasileiro e alertá-lo para o cataclisma em que já pusemos o pé. E que nos obriga a entrar na roda, queiramos ou não.

Há fenômenos naturais que não podemos combater por serem mais fortes que nós. Assim mesmo, temos meios humanos à nossa disposição para mitigar os efeitos de catástrofes. Cabe às nossas autoridades (federais, estaduais e municipais) investir em campanhas de esclarecimento da população. Cada um pode (e deve) fazer a sua parte. Tudo se aprende, que ninguém nasceu sabendo.

Placa de automóvel na Suíça

placa-23José Horta Manzano

Você sabia?

A Suíça é um dos poucos países onde placa de automóvel não pertence ao veículo mas ao proprietário do veículo. E como é que funciona?

Suponhamos que o cidadão compre seu primeiro carro, novinho em folha, direto da concessionária. A própria loja se encarregará de cumprir as formalidades junto às autoridades. O feliz proprietário já receberá seu carro emplacado e pode sair por aí.

No dia em que quiser revender o carro, vai entregar os documentos ao comprador mas não a placa. Deve tirá-la do carro e guardá-la. Se tiver intenção de utilizar a placa em outro veículo (novo ou de segunda mão), basta avisar o Departamento de Tráfego, completar a papelada, pagar eventuais taxas e pronto: pode instalar sua placa no novo carro.

Caso tenha aderido à filosofia do ecologicamente correto e tiver desistido de possuir veículo próprio, basta devolver as placas ao Serviço dos Automóveis e não se fala mais nisso. Vai receber reembolso da taxa de circulação e do seguro pro rata temporis.

Se tiver intenção de dar um tempo antes de comprar novo veículo, o melhor será entregá-la ao Departamento de Tráfego para armazenagem. Por módica taxa, ela será conservada por até um ano, à disposição do proprietário a qualquer momento. A vantagem dessa devolução temporária é que, durante o período de armazenagem, o proprietário não terá de pagar taxa de circulação nem seguro. Passado um ano, o direito ao uso da placa prescreverá. Caso o cidadão compre novo veículo no futuro, receberá nova placa.

Nenhum veículo pode circular sem placa ‒ é o que diz a lei. Então como é que fica no caso do comprador de carro de segunda mão? Se o proprietário antigo retém a placa, o novo dono sai por aí sem placa? Não pode. Pra remediar, a administração já pensou nesse problema. Antes de concluir a transação, o comprador terá de passar pelo Departamento de Tráfego e solicitar uma autorização provisória de circulação. O papel lhe dá direito a deslocar-se ‒ uma vez só ‒ do lugar onde está o veículo até o posto de emplacamento mais próximo. Se for parado no meio do caminho, o documento o protegerá contra toda sanção.

A grande vantagem desse sistema é evitar que, depois de haver vendido um carro, o antigo proprietário continue a receber multas cujo culpado é um novo dono que, distraída ou dolosamente, se «esqueceu» de transferir a posse. No Brasil, isso já aconteceu comigo. Dá uma dor de cabeça dos diabos, porque nem sempre é fácil localizar o novo possuidor.

Tem mais uma particularidade suíça: a placa intercambiável. Suponhamos que o indivíduo tenha dois veículos que nunca são utilizados ao mesmo tempo. Digamos que usa um deles para o trabalho, durante a semana, reservando o outro para passear no fim de semana. É possível ter uma placa só, intercambiável entre os dois carros.

As condições são duas. Por um lado, os dois automóveis nunca poderão circular ao mesmo tempo. Por outro, aquele que estiver sem placa não pode ser estacionado em via pública ‒ terá de ser guardado em lugar particular, que seja garagem, jardim, terreno ou assemelhado.

A vantagem de ter uma placa só para dois veículos é que uma só taxa de circulação e um só seguro valem para os dois. São 50% de economia.

Gulf of Mexico

José Horta Manzano

Até certo ponto, denominações geográficas se parecem com logradouros de cidades brasileiras: volta e meia, um vereador vem com a ideia de alterar este ou aquele nome. Por exemplo, propõe que a tradicional Rua da Igreja seja rebatizada como Rua Professor João Hipólito da Luz e Alvarenga Fernandes de Oliveira. Por falta de sensibilidade, os edis acabam aprovando. E adeus, Rua da Igreja!

Enquanto alterações descabidas se concentram dentro de limites municipais, o mal não é tão grande. Quando a mudança atinge a nomenclatura geográfica planetária, o problema muda de escala. Especialmente quando a alteração é imposta por meio de força bruta, censura ou pressão.

No Ginásio me ensinaram que o Golfo Pérsico se chamava assim mesmo: Golfo Pérsico. As águas do golfo banhavam então um único grande país: o Irã, a antiga Pérsia. Nos anos 1970, a rápida ascensão dos estados petroleiros mudou o panorama e o Irã deixou de ser o único país importante da região. As novas potências passaram então a pressionar para que o mundo chamasse aquelas águas de Golfo Arábico. Bem ou mal, todos adaptaram o nome, cada um à sua maneira. Alguns anotam Golfo Pérsico (Golfo Arábico). Outros fazem o contrário: Golfo Arábico (Golfo Pérsico). Os franceses, por fim, decidiram-se por Golfo Árabo-Pérsico.

Até a Guerra das Malvinas (1982), ninguém, fora da Argentina, estava realmente preocupado com o nome daquele arquipélago perdido no extremo sul do Atlântico. Cada um o chamava pelo nome que lhe parecia correto. Os países de fala castelhana diziam Islas Malvinas. Os demais preferiam Ilhas Falkland. Os franceses, sempre originais, diziam acertadamente Ilhas Malouines. É que, depois de receberem diferentes nomes, as ilhas foram finalmente chamadas Malouines em homenagem aos primeiros habitantes permanentes, marinheiros oriundos de Saint-Malo (França). Malvinas é adaptação espanhola de Malouines.

Depois da guerra anglo-argentina de 1982, o mundo passou a ter cuidado na hora de inscrever nos mapas o nome do arquipélago. Todos anotam agora o nome espanhol e o nome inglês. Os franceses continuam se referindo às Ilhas Malouines (Falkland).

O desastrado mapa-múndi lançado ano passado pelo IBGE para uso escolar deslocava o Meridiano de Greenwich e, em consequência, desregulava o relógio planetário, que se baseia naquele que é o meridiano zero, escolhido como ponto de partida da contagem da hora. Um péssimo exemplo de como não agir, visto que esse tipo de capricho só serve para confundir os alunos que terão dificuldade em entender a divisão do globo em 24 fusos horários partindo de Greenwich.

Contrariando o uso estabelecido pelos demais países, o mapa-múndi do IBGE não atribui nome bilíngue às Malvinas. Chama o arquipélago unicamente pelo nome espanhol. E anota que as ilhas são argentinas, o que não corresponde à realidade. História e Geografia reescritas.

Desconhecido na Europa até os anos 1600, o peru assustou quem o viu pela primeira vez. Ao observarem (de longe) a ave das Américas, cada um imaginou que pudesse vir de algum lugar longínquo. Os ingleses acreditaram que vinha da Turquia, país então muito distante no imaginário de todos. E o bicho acabou sendo chamado pelo próprio nome do suposto país de origem: turkey.

Meio milênio correu tranquilo. Até o dia, faz poucos anos, em que o líder turco se encrespou. Reclamou que na ONU, onde a língua de trabalho mais utilizada é o inglês, seu país estava sendo chamado pelo mesmo nome da ave, ou seja: Turkey. Pediu que o nome de seu país passasse a receber a grafia original turca: Türkiye. E assim foi feito. Foi-se a Turkey, boas-vindas à Türkiye. Poucos notaram a diferença, visto que em inglês as duas formas têm a mesma pronúncia.

Entre as fanfarronadas de Donald Trump estas últimas semanas, está sua ordem de que seja alterado o nome do Golfo do México. Apesar de a denominação estar em vigor há séculos, o moço decidiu que Golfo da América fica melhor. Preocupados em não desagradar ao potentado, todos responderam “Sim, senhor”. E, da noite para o dia, as “aguas calientes” da imensa superfície marítima se tornaram Golfo da América. A aplicação Google Maps esteve entre os primeiros a efetivar o novo nome.

A nós, habitantes de antigas colônias portuguesa e espanholas, não nos faz quente nem frio. Fica até simpático, Golfo da América. Parece que o continente inteiro foi contemplado com a homenagem.

Engano, senhores! Nós estamos entre os únicos a considerar que o termo América vale para o conjunto de países das Américas. Nos EUA, não é bem assim. Para se referirem ao continente que começa no Canadá e termina na Terra do Fogo, eles usam o termo no plural: Americas, The Americas. No singular, é outra coisa.

America, no singular, é o nome que os americanos atribuem ao país deles, à exclusão de todos os demais países. Quando Trump determinou que o nome seja Gulf of America, assim no singular, referiu-se aos Estados Unidos. Aos ouvidos deles, soa Golfo dos Estados Unidos.

De repente, fica menos ingênuo.