No mesmo barco

Laboratório Labor Spiez, Suíça

José Horta Manzano

A pandemia desencadeada pelo atual coronavírus é um divisor de águas entre um passado em que cada um se virava sozinho e um futuro em que o combate a esse tipo de praga será obrigatoriamente coordenado em nível mundial.

O que vemos atualmente é um pandemônio dentro da pandemia. Em outras palavras, a ausência de gerenciamento global deu origem a um Deus nos acuda, em que todos saíram chamuscados – grandes e pequenos, ricos e pobres, previdentes e descuidados. O fruto da desorganização é amargo para todos.

Países que, ao surgir da pandemia, se encontravam sob governo populista acabaram sofrendo ainda mais que os outros – é o caso dos EUA e do Brasil, que pagaram preço altíssimo em vidas humanas. Mas até nações com tradição de disciplina tiveram problemas graves, como foi o caso da Bélgica e do Reino Unido.

O Uruguai, que é talvez o país mais civilizado da América do Sul, está, neste momento, na pior classificação entre os vizinhos. A atual onda epidêmica está comendo feio por lá. No mesmo balaio está o Japão, com ameaça cada dia mais presente de anulação dos Jogos Olímpicos.

Portanto, já se vê que governo democrático (não populista), disciplina e riqueza não são garantia suficiente de bons resultados no enfrentamento de pandemias. Quando cada um esperneia no próprio ritmo, sem se coordenar com os demais, joga-se esforço pelo ralo.

Nessa óptica, está na ordem do dia a criação de um tratado contra pandemias. A discussão está germinando na União Europeia e visa a que todos estejam mais bem preparados para a próxima praga. Que virá, isso é certeza.

A ideia é confiar a organização à OMS (Organização Mundial da Saúde), que, com seus 194 membros, congrega praticamente todos os países do planeta. Fabrico, atribuição e destino de doses excedentes de vacina, por exemplo, deveriam ser coordenadas por um organismo central em vez de ficar a cargo de cada nação individualmente.

A Suíça já se comprometeu solenemente a dar sua contribuição. Vai utilizar um laboratório ultrassofisticado e ultraprotegido já existente, instalado na cidade de Spiez (Cantão de Berna), especializado em manipular substâncias de alto risco. Nova ala será erguida para acolher um depósito mundial do coronavírus e de outros agentes patogênicos. E tudo pago com dinheiro dos contribuintes suíços, sem financiamento internacional. A OMS aplaudiu a iniciativa.

De qualquer maneira, enquanto a população do último país não estiver imunizada, o resto do planeta não estará protegido. Quanto mais tempo o vírus correr solto num determinado país, maior será o risco de surgirem variantes resistentes às vacinas. Pessoas circulam o tempo todo. Vírus não têm passaporte, zombam de fronteiras e não costumam abrir as malas na alfândega. Estamos todos no mesmo barco. É dar as mãos ou dar as mãos.

Rápido como um raio

José Horta Manzano

No dia 23 de maio de 2021, participou da macabra “motociata”(*) promovida pelo Presidente da República em algumas cidades do país para comemorar os cerca de 500 mil mortos vítimas da covid. O ato – inspirado no passeio de moto promovido pelo líder fascista Benito Mussolini em 1933 para impressionar a população – ajudou a causar aglomerações por onde passou e a disseminar a doença entre mais brasileiros. A foto de Tarcísio na garupa da moto do Presidente foi destaque no jornal britânico The Guardian, que classificou o evento como “obsceno”.

O parágrafo acima não saiu da minha fábrica. Foi acrescentado às pressas, de ontem para hoje, na biografia de doutor Tarcísio Gomes de Freitas na Wikipédia. Carioca de 1975, o biografado é ministro da Infraestrutura do governo Bolsonaro. Sua carreira política começou quando foi nomeado diretor executivo do DNIT, no governo Dilma Rousseff. Militar da reserva, aderiu ao governo Bolsonaro e agora é apresentado como possível candidato do capitão ao governo de São Paulo. Como se vê, notícia ruim corre o mundo rápido como um raio.

Neologismos
(*)Motociata é termo ultrarrecente. Até outro dia, para fazer contraponto a “carreata”, usava-se “motociclata”. São todos neologismos. A palavra carreata já está dicionarizada; as outras duas, ainda não.

Carreata me parece termo simpático e de formação legítima (carro + [e]ata). Já motociata, além de lembrar negociata, é de formação esquisita.

Para seguir o modelo de carreata (carro + [e]ata), precisava ser moteata (moto + [e]ata), palavra que também soa mal.

Assim, melhor mesmo é conservar motociclata (motociclo + ata). Soa bem e diz o que quer dizer.

Mas isso é só minha opinião. Se o povo consagrar motociata, vamos de motociata. É gaiata, mas… que remédio?

Beijo planetário

Eduardo Affonso (*)

Volta e meia alguém olha atravessado quando escrevo “leiaute”, “becape” ou “apigreide” – possivelmente uma pessoa que não se avexa de escrever “futebol”, “nocaute” e “sanduíche”.

Deve se achar um craque no idioma, me esnobando sem saber que “craque” se escrevia “crack” no tempo em que “gol” era “goal”, “beque” era “back” e “pênalti” era “penalty”. E possivelmente ignorando que esnobar venha de “snob”.

Quem é contra a invasão das palavras estrangeiras (ou do seu aportuguesamento) parece desconsiderar que todas as línguas do mundo se tocam, como se falar fosse um enorme beijo planetário.

As palavras saltam de uma língua para outra, gotículas de saliva circulando em beijos mais ou menos ardentes, dependendo da afinidade entre os falantes. E o português é uma língua que beija bem.

Quando falamos “azul”, estamos falando árabe. E quando folheamos um almanaque, procuramos um alfaiate, subimos uma alvenaria, colocamos um fio de azeite, espetamos um alfinete na almofada, anotamos um algarismo.

Falamos francês quando vamos ao balé, usamos casaco marrom, fazemos uma maquete com vidro fumê, quando comemos um croquete ou pedimos uma omelete ao garçom; quando acendemos o abajur pra tomar um champanhe reclinados no divã ou quando um sutiã provoca um frisson.

Falamos tupi ao pedir um açaí, um suco de abacaxi ou de pitanga; quando vemos um urubu ou um sabiá, ficamos de tocaia, votamos no Tiririca, botamos o braço na tipoia, armamos um sururu, comemos mandioca (ou aipim), regamos uma samambaia, deixamos a peteca cair. Quando comemos moqueca capixaba, tocamos cuíca, cantamos a Garota de Ipanema.

Dá pra imaginar a Bahia sem a capoeira, o acarajé, o dendê, o vatapá, o axé, o afoxé, os orixás, o agogô, os atabaques, os abadás, os babalorixás, as mandingas, os balangandãs? Tudo isso veio no coração dos infames “navios negreiros”.

As palavras estrangeiras sempre entraram sem pedir licença, feito um tsunami. E muitas vezes nos pegando de surpresa, como numa blitz.

Posso estar falando grego, e estou mesmo. Sou ateu, apoio a eutanásia, gosto de metáforas, adoro bibliotecas, detesto conversar ao telefone, já passei por várias cirurgias. E não consigo imaginar que palavras usaríamos para a pizza, a lasanha, o risoto, se a máfia da língua italiana não tivesse contrabandeado esse vocabulário junto com a sua culinária.

Há, claro, os exageros. Ninguém precisa de um “delivery” se pode fazer uma “entrega”, ou anunciar uma “sale” se se trata de uma “liquidação”. Pra quê sair pra night de bike, se dava tranquilamente pra sair pra noite de bicicleta?

Mas a língua portuguesa também se insinua dentro das bocas falantes de outros idiomas. Os japoneses chamam capitão de “kapitan”, copo de “koppu”, pão de “pan”, sabão de “shabon”. Tudo culpa nossa. Como o café, que deixou de ser apenas o grão e a bebida, para ser também o lugar onde é bebido. E a banana, tão fácil de pronunciar quanto de descascar, e que por isso foi incorporada tal e qual a um sem-fim de idiomas. E o caju, que virou “cashew” em inglês (eles nunca iam acertar a pronúncia mesmo).

“Fetish” vem do nosso fetiche, e não o contrário. “Mandarim”, seja o idioma, seja o funcionário que manda, vem do portuguesíssimo verbo “mandar”. O americano chama melaço de “molasses”, mosquito de “mosquito” e piranha, de “piranha” – não chega a ser a conquista da América, mas é um começo.

Tudo isso é a propósito do 5 de maio, Dia da Língua Portuguesa(1), cada vez mais inculta e nem por isso menos bela. Uma língua viva, vibrante, maleável, promíscua – vai de boca em boca, bebendo de todas as fontes, lambendo o que vê pela frente.

Mais de oitocentos anos, e com um tesão de vinte e poucos.

(1) Texto preparado para um 5 de maio.

(*) Eduardo Affonso é arquiteto, colunista do jornal O Globo e blogueiro.

Na semana que passou

Carlos Brickmann (*)

Frente a frente
Seria ótimo promover uma acareação entre três membros do Governo: o publicitário Fábio Wajngarten, que disse que Bolsonaro ignorou ofertas de vacinas; o diplomata Ernesto Araújo, que confirmou a ordem do presidente de negociar a importação de cloroquina; e Pazuello. É provável que a tal “síndrome vasovagal”, que dizem que teve e levou à interrupção da sessão da CPI, acabe sendo chamada pelo nome mais popular.

Dilmismo bolsonarista
O então deputado Jair Bolsonaro disse que, para o país tomar jeito, era preciso que morressem umas 30 mil pessoas. Donde se conclui que o general Pazuello atingiu a meta, dobrou a meta e dobrou-a de novo até ser afastado.

(*) Carlos Brickmann é jornalista, consultor de comunicação e colunista.

Imorrível

Ascânio Seleme (*)

Nosso presidente é tão extra ordinário que chegou ao ponto de dizer uma barbaridade diante de câmeras e microfones sem ruborizar. Ele disse ser “imorrível, imbroxável e incomível”. A declaração, abusada e grosseira, prova mais uma vez que Bolsonaro é mesmo um mentiroso.

(*) Ascânio Seleme é jornalista. Trecho de artigo publicado no jornal O Globo de 22 maio 2021.

De conversa em conversa

José Horta Manzano

FHC e o Lula almoçaram juntos. E posaram para foto. E todos os veículos deram a notícia na primeira página. Assim que fiquei sabendo do encontro, minha primeira reação foi de perplexidade. “Como é que pode?”, pensei. “Parece que os dois perderam a cabeça! Com a idade, estão ficando de miolo mole.”

Dando uma vista d’olhos na imprensa, encontrei análises e reflexões sobre o almoço dos idosos. Analistas políticos reprovam. A reação generalizada é de rejeição. Cada um expõe as razões à sua maneira, mas todos torcem o nariz.

Parei pra pensar. E me lembrei de um episódio ocorrido muito tempo atrás, no final dos anos 1970, quando eu trabalhava na filial brasileira de uma indústria americana. Um belo dia, recebemos a visita de um figurão, um americano vindo direto da matriz. Dois dias depois, em reunião informal com os gerentes brasileiros, ele pediu informação sobre nosso principal concorrente, uma outra fábrica também situada em São Paulo, que produzia artigos semelhantes aos nossos.

Demos as informações. Ele então lança: “Quero ir visitá-los”. Estupor geral. Como assim? Visitar a concorrência? “E por que não?”, pergunta o estrangeiro. “Eu tomo um táxi, vou até lá, me apresento, digo em que firma trabalho, e peço pra encontrar o diretor”. Não foi fácil convencê-lo de que, no Brasil, as coisas não funcionavam daquela maneira. Não me lembro mais se ele acabou indo ou se ficou só na intenção.

Seria temerário generalizar a partir de um único caso. Mas ficou visível, no peculiar episódio da visita do americano, que o brasileiro tende a erguer barreiras que nem sempre têm razão de ser. Sem saber exatamente por que, a gente inventa que isto não pode, que aquilo não se faz, que aquiloutro não convém. São bloqueios que a gente faz por automatismo, sem pensar e sem medir.

No fundo, qual seria o motivo a nos proibir de ter uma conversa com um concorrente? Transpondo o raciocínio para o campo político, qual seria o motivo para FHC e o Lula se darem as costas e fazerem biquinho?

Volta e meia, soltamos o adágio “É conversando que a gente se entende”. Todos concordam com ele. No entanto, na hora agá, quando dois ex-presidentes que são vistos como adversários, se dispõem a trocar ideias, vem aquela torrente de protestos indignados. Não dá pra entender.

Pensando bem, acho que os dois fizeram muito bem de se encontrar, pouco importando as reclamações dos devotos deste ou daquele campo. O Brasil anda muito compartimentado. Vivemos num regime rigoroso que determina: ou você é deste lado, ou então só pode ser do outro; os daqui não podem conversar com os de lá; e vice-versa. Por que essa rijeza?

No encontro entre dois líderes políticos de correntes diferentes, realmente não vejo ameaça à democracia nem às instituições. Nem à moral, nem aos bons costumes. Tampouco vejo traição ou declaração de fidelidade. Acho que não se deve dar aos fatos mais importância do que eles têm. Não há motivo para dramatizar.

Que todos continuem a se encontrar e a conversar! É bem mais sadio do que ficar encastelado na própria bolha. Se, em vez de insultar inimigos imaginários, o capitão se dispusesse a bater um papo com eles, o Brasil estaria hoje menos crispado, e nós todos teríamos muito a ganhar. Afinal, é conversando que a gente se entende.

Inocular

José Horta Manzano

Assisti com estes olhos que a terra há de comer. Sou testemunha ocular da história!

Todo o mundo sabe que ocular tem a ver com olho. Pra confirmar, estão aí o oculista, o binóculo e os óculos. Ah! Já que falamos de óculos, atenção, juventude! É bom lembrar que óculos é substantivo plural. Assim, o artigo vai sempre para o plural: os óculos. O óculo (no singular) existe, mas é outra coisa: uma luneta de alcance, que serve para observar com um olho só. Mas vamos voltar ao assunto do dia.

Nesta hora em que todos procuram se vacinar, circula também outro termo aparentado: inocular. Que se saiba, ninguém jamais tomou vacina no olho. Qual é, então, a relação entre a inoculação e os olhos?

De origem antiga, a palavra descende de um latim tardio inoculare. Descreve uma técnica de enxerto de roseira, em que um broto é seccionado da planta-mãe e atado ao caule que vai receber o transplante. A operação serve para desenvolver novas variedades de rosas. O broto, que tem forma arredondada, lembra um olho, daí o nome da técnica.

No início dos anos 1800, começou a popularizar-se o princípio da vacina, novidade para a época. Consistia em injetar pequena quantidade do vírus da varíola para imunizar as pessoas. Para dar nome à nova técnica, a medicina tomou emprestado o verbo latino. Os ingleses, pioneiros nesse campo, passaram a utilizar o verbo to inoculate (= inocular), seguindo a imagem de introduzir um corpo estranho, exatamente como os jardineiros fazem com as roseiras. As outras línguas acompanharam o raciocício.

Fui inoculado? Não! O que é inoculado é a vacina, não a pessoa.

Fica assim:
O enfermeiro inocula a vacina e imuniza o paciente.
A vacina foi inoculada e o paciente ficou imunizado.

O general e a gravata

José Horta Manzano

Curioso para conhecer Pazuello, o ex-ministro que eu nunca tinha tido oportunidade de ver nem de ouvir, fui dar uma espiada em seu depoimento de ontem na CPI. Devo admitir que fiquei um tanto decepcionado. Depois de tudo o que já li sobre ele, imaginava dar de cara com um General Trovão, um Figueiredo dos tempos atuais, um líder do tipo “deixa comigo, que eu mato e arrebento”. Em vez disso, o homem está mais pra Zangado, um dos anões que rodeavam a Branca de Neve, aquele que nunca sorria. Parece um Zangado falante, mas sempre de maus bofes.

Na foto tirada durante o depoimento, o general aparece de olhos fortemente avermelhados. Fica a nítida impressão de ele não ter dormido na noite anterior – o que poderia explicar o quase-desmaio que sofreu à tarde. É difícil imaginar que ele tenha passado a noite se agitando num baile funk, mas é concebível que tenha ficado acordado até altas horas recapitulando as respostas que lhe tinham sido aconselhadas pelos media trainers contratados pelo Planalto. Pode ser também que, nervoso, tenha simplesmente perdido o sono.

Fiquei surpreso com a inabilidade dos senadores para conduzir o interrogatório. O próprio interrogado parecia mais bem preparado que eles, quando deveria ser exatamente o contrário. Os inquiridores é que tinham de surpreender o convocado com perguntas inesperadas, incisivas e inescapáveis. Em vez disso, notei certa displicência entre os parlamentares, como se estivessem surpresos pelo fato de o general dar respostas firmes sem tropeçar. É verdade que senador não está necessariamente formado para a função de promotor público, mas a CPI tem como se fazer assessorar por especialistas trabalhando em tempo real. Se não o fez, foi porque não quis.

Fiquei encantado com a gravata do general. Não me esqueço de quando esse modelo foi apresentado ao mundo. Foi em Copenhague (Dinamarca), em outubro de 2009, no dia em que o Comitê Olímpico Internacional anunciou que atribuía ao Rio de Janeiro a organização das Olimpíadas 2016. Representando o Brasil, um grupo eufórico estava presente. Quando souberam do resultado, soltaram gritos e deram pulos de contentamento. Na época, a gente imaginou que fosse por patriotismo. Usavam todos esse modelo de gravata.

Como modelo, até que ela não é feia, com as cores da bandeira. Só que os primeiros usuários, além de não serem modelos de desfile de moda, tampouco eram o que se pode chamar de modelo de virtude. Os figurões mais proeminentes estão na foto acima, todos devidamente engravatados com o mesmo modelito do general. Vamos ver quem são. Da esquerda para a direita.

Eduardo Paes
Atual prefeito do Rio, é o único em atividade neste momento. Não chegou a ser preso, mas a lista das acusações de corrupção que o perseguem é longa como um dia sem comer.

Sergio Cabral
Foi governador do Rio. Condenado por corrupção e outros crimes, não só passou pela casa prisão, como ainda está lá. Condenado a mais de 200 anos de privação de liberdade, ainda deve permanecer encarcerado por algum tempo.

Carlos Arthur Nuzman
Era o presidente do Comitê Olímpico Brasileiro à época. Acusado de corrupção, passou pela casa prisão em 2017.

Lula da Silva
Foi presidente do Brasil. Condenado por corrupção e outros crimes, passou pela casa prisão, onde purgou mais de ano e meio.

Orlando Silva
Dos retratados, este parece ser o mais maneiro. Foi ministro do Esporte. Teve problemas com a justiça por ter comido uma tapioca de R$ 8,30 e posto na conta da Viúva. Visto que é arraia miúda demais, não passou pela casa prisão.

Não conheço o sexto cavalheiro.

Tendo em vista a folha corrida dos primeiros portadores da gravata verde-amarela, vale indagar que motivo levou o general a enrolar essa gravata de corruptos em torno do pescoço ontem. Algumas suposições:

• Ele não assistiu à cerimônia de 2009, portanto não sabe que os que lançaram a moda são personagens pouco recomendáveis, pra dizer o mínimo.

• Imaginando que ia acabar preso, já veio paramentado para seguir os passos dos que o precederam.

• A coisa é o que parece: sabe-se lá por que, vestiu a gravata em homenagem à bandidagem.

• Distraído, saiu de casa de camisa aberta, como quem se prepara para um passeio num shopping de Manaus. Foi Bolsonaro que, ao vê-lo descamisado, emprestou sua gravata de estimação.

Pode ser alguma dessas razões. Ou nenhuma das anteriores. O distinto leitor o que acha?

O felino de nome estropiado

José Horta Manzano

George-Louis Leclerc, conde de Buffon (1707-1788) foi um naturalista, biólogo, cosmólogo, matemático, filósofo e escritor francês. Brilhante intelectual, viveu numa época estimulante em que quase tudo estava ainda por descobrir e inventar. Era um tempo em que o conhecimento não estava à disposição de todos, como hoje. Sem internet e sem Wikipedia, quem buscasse o saber tinha de suar camisa.

A obra do conde sugere que ele tenha sido grande viajante, daqueles que deram a volta ao mundo. É impressão. Tirando o país natal, só viajou à Inglaterra e à Itália. Estudo, observação e talento fizeram o resto.

Buffon conseguiu a proeza de descrever espécimes exóticos da fauna mundial sem ter nunca saído da Europa. Assim foi com a onça-parda, espécie difusa em todo o continente americano, do Canadá à Patagônia. Conforme a língua, o nome do felino varia. O termo espanhol – puma – foi adotado pela maioria das línguas. Já o francês e o inglês seguiram caminho diferente. E é esse caminho que tem a ver com nosso conde francês.

A história marca que os primeiros europeus a terem contacto com a onça-parda foram os portugueses. Como é o caso de muitos animais da nova terra, os europeus recolheram e adotaram o nome indígena, que era suçuarana. Foi com esse nome que o felino chegou ao conhecimento de Buffon. Só que, nesse ponto, houve um probleminha de grafia.

Diferentemente de quase todas as outras, a língua portuguesa tem cê cedilha. Por falta de familiaridade, a cedilha é muitas vezes esquecida pelo caminho. Assim como os Gonçalves, quando deixam a terra natal, costumam virar Goncalves, o nome da onça foi mutilado. Naqueles longínquos anos 1500, o nome suçuarana (mais provavelmente çuçuarana) chegou à França como cuguacuarana, devido à perda da cedilha e à confusão das consoantes s, c e g.

À medida que os séculos passaram, o comprido nome do bicho foi sendo podado e corroído até desembocar no couguar do francês atual. Em algum ponto do caminho, os britânicos tomaram a forma emprestada e ainda reduziram um bocadinho mais. Ficou cougar, palavra utilizada até hoje em inglês pra dar nome ao bicho. Até que ficou elegante e, principalmente, mais fácil de pronunciar do que o original tupi. O termo soa tão bem que já foi usado até pra nome de modelo de automóvel (Mercury Cougar); aliás, um carro com certa presença.

Trata-se de um dos numerosos casos em que uma palavra exótica, transportada pelo português, veio enriquecer outras línguas europeias.

Eu somos?

Chamada Estadão

José Horta Manzano

À primeira vista, a frase parece correta. Na releitura, dá pra perceber que algo está fora de lugar. E está.

O verbo tem de concordar com o sujeito. Sujeito no singular exige verbo também no singular. E vice-versa.

O sujeito da frase é desinformação, que está no singular; portanto, o verbo também tem de estar.

Retificando:
Desinformação nas redes sociais inflama conflito israelense-palestino.

A pátria amada e a macacada

José Horta Manzano

Por ocasião do depoimento do general Pazuello(*), que deve ser dado daqui a dois dias (se, até lá, ninguém levantar alguma questão de embargos infringentes), me vem à mente uma traquinagem de meu tempo de estudante.

Lá se vão muitas décadas, quando os generais ainda nem haviam instalado a ditadura, a gente se sentia livre de fazer troça com todo o mundo, inclusive com os militares. Ainda bem que deu tempo, porque, logo em seguida, os tanques sairiam às ruas e brincadeiras desse tipo seriam tiradas de circulação por 20 anos.

Talvez o distinto leitor conheça a Canção do Exército – no youtube aqui. É aquela que começa assim: “Nós somos da pátria a guarda, fiéis soldados por ela amados”. Pois é, uma das características do adolescente é a irreverência. Minha geração não escapou, como nenhuma escapa.

Aprendemos a cantar esse hino, não me lembro por que razão. Terá sido dado pelo professor Caldeira, de Canto Orfeônico. O que sei é que fizemos uma paródia e estropiamos a letra. No pedaço em que diz:

Porém se a pátria amada
for um dia ultrajada,
lutaremos sem temor.

A gente cantava:

Porém se a pátria amada
precisar da macacada,
ó meu Deus, que maçada!

Bom, essa era a letra light, cantada quando havia crianças na sala. Na (nossa) versão original heavy, as palavras eram um pouco mais encorpadas:

Porém se a pátria amada
precisar da macacada,
puxa a cerda, que caçada!

No último verso, escrevi sons que lembram as palavras originais; cada um que use a imaginação pra descobrir o que está por trás da tarja preta.

Na época, cantar assim era uma ousadia; hoje, principalmente depois que o bolsonarismo espalhou pelo país seus modos rasteiros, ninguém mais se choca por tão pouco. No entanto, por mais que nosso presidente baixe o nível, não consigo acompanhar. Continuo me comportando como se houvesse permanentemente senhoras na sala. Não é na minha idade que vou começar a soltar palavrão por aí. Talquei?

Como eu dizia lá no começo, o comportamento do general Pazuello me fez lembrar a paródia dos ginasianos dos anos 1960. Ao tentar se esconder pra não ter de revelar seus “malfeitos”, o ex-ministro prova ter no ombro muita estrela pra pouca valentia. Sua conduta combina com nossos versinhos:

Porém se a pátria amada
precisar da macacada,
puxa a cerda, que caçada!

Se Pazuello estivesse no lugar do general Eisenhower, aquele que comandou o exército americano na Europa durante a Segunda Guerra, teria se escondido, e hoje estaríamos todos falando alemão. (Que é, sem dúvida, uma bela língua, mas o problema não é esse.)

(*) Para conhecer a origem e o significado do sobrenome do general, leia o artigo que escrevi em março último.

Clubes se proliferam?

José Horta Manzano

Quem escreveu a chamada bobeou. Proliferar não é verbo pronominal. É intransitivo, ou seja, não admite objeto. Portanto, alguma coisa simplesmente prolifera. Além disso, no trecho “ganham mais leitores”, o “mais” sobra.

Retificando:
Clubes de assinatura de livros ganham leitores e proliferam na pandemia.

Vagabundo

El vagabundo
by Mónica Caruncho Fontela, artista espanhola

José Horta Manzano

No andar de cima, os convivas – todos copiosamente sustentados com nosso dinheiro – continuam a encenação. A incessante troca de casais é de rigor. Inimigos de anteontem, que tinham justamente feito as pazes ontem, tornam a apontar-se mutuamente os estilingues. Amigos desde a infância, duas excelências hoje se viram a cara. Outras duas, que não se falavam havia anos, hoje surgem de braço dado. E o povão vibra sem se dar conta de que a intenção era justamente esta: divertir a galeria, nada mais.

Tem a CPI da Covid (ou “da Cloroquina”, como receiam os devotos do capitão). Lá também, o alvoroço segue firme. Talvez eu não devesse dizer “lá também”, mas “lá principalmente”. Ora, é a vitrine maior, o horário nobre daquele palco de hipocrisia! Excelência que se preze tem o dever de se agitar na hora e no lugar certo.

Entre as encenações da semana, um distinto parlamentar botou pedra um pouco maior no estilingue, apontou para um colega e mandou: “Vagabundo!”. Ao que o atingido, com impressionante presença de espírito, respondeu de pronto: “Vagabundo é você!”. Diálogo edificante, foi uma finura que só.

É inadequado duas excelências usarem pedras tão grandes para lapidar-se mutuamente. Acho até que o calibre das pedrinhas devia ser fixado por lei. A partir de tal e tal diâmetro, não pode, porque fica feio e baixa o nível.

Vagus e bundus
Deixando de lado as ironias, vamos aos fatos. Vagabundo – de onde vem esse bicho? Pois a palavra já existia em latim (vagabundus). É composta de vagus (errante, sem destino) e de bundus (que tem propensão a).

A raiz do primeiro elemento aparece em numerosas palavras nossas: vagar e vaguear (ir sem destino), divagar (soltar o pensamento), vagante, extravagante, vago (impreciso), noctívago (que passeia à noite sem destino preciso).

O segundo elemento (bundo) também reaparece em palavras como nauseabundo, meditabundo, moribundo. Há muitas outras, mas, no Brasil, tendemos a evitar essa terminação por sua semelhança com bunda, palavra que, no meu tempo, convinha evitar quando havia senhoras na sala.

Por último, é interessante notar que o termo vagabundo, se está presente nas demais línguas latinas, não tem o mesmo peso em cada uma delas. Em português, chamar alguém de vagabundo é ofensa na certa. Significa que esse alguém é desocupado, gandaieiro, preguiçoso, vadio. A palavra tem sentido fortemente pejorativo.

Em italiano, embora não seja propriamente um elogio, vagabondo também não é ofensa pesada. Para ofender mesmo, precisaria dizer: “vagabondaccio”. Tirando essa variante pejorativa, a palavra é muito usada no sentido figurado: “pensieri vagabondi” = pensamentos vagabundos (ou seja, que vagueiam).

Em francês, a palavra vagabond não faz parte das pedradas que se possam dar em alguém. O verbo vagabonder (=vagabundear) é até simpático; pode servir para descrever, por exemplo, um fim de semana que alguém passou sem fazer nada, só passeando.

Até alguns anos atrás, a rádio suíça tinha um programa chamado “L’humeur vagabonde” = O humor vagabundo. Era um programa interessante, de uma hora de duração. Como o título indica, não havia um tema fixo. A cada semana, falava-se de um assunto diferente, a biografia de alguém, uma viagem a um lugar interessante, um acontecimento histórico.

Se fossem passar essa emissão no Brasil, teriam de modificar o título. Vagabundo, francamente, não dá. É expressão privativa de certas excelências.

Resenha da semana

Ascânio Seleme (*)

Vagabundo
Alertado pela pesquisa Datafolha que perde feio para Lula no Nordeste, Bolsonaro viajou para Alagoas e chamou para ciceroneá-lo o prefeito de Maceió, o famoso JHS, o presidente da Câmara, o ilibado Arthur Lira, e o ex-presidente de triste memória Fernando Collor de Mello. O presidente é mesmo um político de visão.

Quem dá mais
Os desvios do Mensalão do governo Lula chegaram a R$ 101 milhões, de acordo com contabilidade da Polícia Federal e de peritos do Tribunal de Contas da União. A operação, que consistia em comprar apoio político com dinheiro público, durou cerca de um ano. O Tratoraço de Bolsonaro, que tem a mesmíssima finalidade, irrigou o apoio político com R$ 3 bilhões. O senador Fernando Bezerra, da tropa de choque do governo na CPI da Covid, levou sozinho R$ 125 milhões, 25% a mais do que o Mensalão inteiro.

Além de ser 30 vezes maior do que o cala-boca petista, o caraminguá bolsonarista foi despejado em parcela única. O Mensalão foi o grande escândalo da gestão de Lula. O Tratoraço é só mais um dos diversos crimes cometidos pelo governo Bolsonaro.

(*) Ascânio Seleme é jornalista. Trecho de artigo publicado no jornal O Globo de 15 maio 2021.

Tuíte – 20

José Horta Manzano
Nos círculos bolsonaristas, a CPI atualmente em cartaz no Senado Federal é chamada de CPI da Cloroquina.

Bobinhos. O Brasil inteiro já sabia que o que se busca saber é o número de mortos provocados pelo empenho do Capitão Cloriquina, do General Cloroquina e de todos os Cloroquininhas. Ninguém ousava dizer em voz alta, mas os ingênuos estão abrindo o jogo.

Como se costuma dizer, “quem não tem competência não se estabelece”. Esse pessoal não conhecia o ditado.

O rasgado e o esgarçado

by Anne ‘Adene’ Derenne (1983-), desenhista francesa

 

José Horta Manzano

Parece maldição. Faz 20 anos que, na hora da eleição presidencial, a gente é obrigado a votar contra. Já vai longe o tempo em que cada um saía de casa, votava no candidato de sua preferência e voltava tranquilamente pra esperar a apuração, sempre torcendo pra seu preferido. Mesmo sabendo que ele tinha pouca chance, votava-se nele assim mesmo. Se outro ganhasse, a gente não gostava, mas acabava se conformando. Que remédio?

Desde que o lulopetismo se agarrou ao poder, muitos de nós deixaram de escolher candidato e passaram a votar contra. São já cinco eleições presidenciais em que não se dá mais o voto ao candidato preferido, mas vota-se contra. Contra quem? Contra aquele que não se quer de jeito nenhum. No meu caso, contra o lulopetismo, nos últimos anos.

Dois anos atrás, quando houve a troca da guarda e entrou esse que está aí, muita gente pensou que, doravante, tudo passasse a ser melhor. Que horror, minha gente!

Este governo não governa. Passa metade do tempo assaltando o erário e roubando nosso dinheiro para comprar parlamentares, militares, magistrados e emissoras de tevê. E passa a outra metade do tempo estudando como se esquivar das escabrosas revelações quotidianas e das acusações diárias de crimes.

Do jeito que vão as coisas – e a pesquisa Datafolha confirma – no ano que vem teremos um problemão. A menos que surja um candidato forte e crie uma terceira via, a final será entre o genocida e o cachaceiro.

Pra escolher entre um e outro nem precisava eleição – cara ou coroa era a mesma coisa.