A assombração da Rússia

Artigo publicado no Correio Braziliense de 29 outubro 2025

José Horta Manzano

Todo país com pretensões ao status de potência global tem de seguir o receituário tradicional, do qual não é possível escapar.

Em primeiro lugar, é preciso ter uma superfície que lhe garanta massa crítica. Se, ao longo da história, países de território pouco imponente chegaram a se impor em campanhas bélicas, a série de vitórias não sobreviveu à escassez de alimentos e matérias primas decorrente da falta de châo.

Em seguida, o candidato a potência tem de investir na indústria bélica. É o que sempre fizeram países tradicionalmente poderosos, e é o que tentam fazer candidatos prejudicados pela pouca extensão territorial, como a Coreia do Norte e o Irã.

Em terceiro lugar, toda potência mundial que se preze tem de contar com população importante. Veja-se o caso da China, cuja população, após décadas de “política do filho único”, decidiu adotar política natalista. Países que miram ao status de potência global não podem se permitir conviver com decréscimo populacional.

A Rússia de Vladimir Putin, herdeira da grande, forte e temida União Soviética, vem empenhando todas as forças na recuperação do prestígio de antanho. De fato, o desmonte da URSS, no início da década de 1990, deu lugar a anos conturbados, durante os quais saltaram à vista as enormes dificuldades que a competição forçada com o Ocidente havia provocado no país.

Em seu reinado, que já dura um quarto de século, Putin se propôs dois objetivos primordiais: 1) permanecer no poder e 2) restabelecer a grandeza do antigo império russo. O boné MAGA de Trump, uma vez transliterado, cairia bem como mote putiniano para a Rússia de hoje, algo como Make Russia Great Again.

Se tivesse vislumbrado o desastre que a campanha da Ucrânia estava por ocasionar, Putin talvez tivesse deixado a ideia de molho para momento mais propício. Na luta para recobrar o status de potência global, perdido há 35 anos, o ditador russo conta com dois aliados fiéis: a imensa superfície e o potencial bélico de seu país. Da área, não se discute, visto que se trata do maior país do mundo. Da indústria bélica, tampouco, visto o poder de dissuasão de seu arsenal nuclear.

Mas essa conta não fecha. Para complementá-la, um forte contingente populacional está faltando. Se a Rússia já assistia a um declínio de seu número de habitantes estas últimas décadas, a agressão contra a Ucrânia e a guerra que daí decorreu vêm agravando a crise. Um levantamento vazado do ministério russo da Defesa no começo do mês informa que, entre os combatentes, 280 mil perdas teriam sido registradas só nos primeiros nove meses deste ano. Note-se que os mortos são em geral homens jovens, na faixa dos 25 a 39 anos, idade em que se entra de pé firme na vida ativa de trabalho.

Sangria adicional está ocorrendo em outra camada da população, na classe média superior. Os homens em idade de ser recrutados fogem do país e emigram para países da vizinhança ou até para o sul da Ásia ou para a Europa. Algumas projeções estimam essa emigração a um milhão de cidadãos só nos primeiros dois anos da guerra.

Um cruel círculo vicioso está formado. Quanto mais tempo dura a guerra, maior será o fluxo emigratório e mais dramáticas serão as perdas humanas. Uma guerra de trincheiras, como essa, precisa de carne de canhão, o que tende a causar maior morticínio entre os conscritos e a encorajar a emigração. A seguirem as coisas como estão, não é tão já que Putin porá fim ao espectro do despovoamento de seu país.

A voluntariosa entrada de tanques de guerra russos em direção a Kiev nos primeiros dias da invasão botou medo em muita gente. Muitos imaginaram rever o grande exército vermelho, aquele que tinha fincado a bandeira da URSS no topo do Reichstag, em Berlim, em 1945. No entanto, contrariando todos os prognósticos, os corajosos ucranianos conseguiram a proeza de repelir os tanques e salvar a capital de seu país.

A força bélica da Rússia reside em seu arsenal de mísseis e de ogivas. A imagem que se tem das tropas de solo saiu meio arranhada depois da campanha (e da retirada) de Kiev.

O melhor impulso que Putin poderia dar a seus sonhos de grandeza seria decretar já o fim das hostilidades, equipar e treinar melhor seus soldados e adotar uma política de abertura do país à imigração. Sem essas medidas, sua quimera de reaver a grande Rússia estará cada dia mais distante da realidade.

Operação especial

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José Horta Manzano

Ninguém manda centenas de policiais bem (ou mal) treinados para a frente de batalha sem razão. Se os chefes militares que organizam e coordenam as ações do BOPE (Batalhão de operações policiais especiais) conceberam uma “operação policial especial” da magnitude da que ocorreu ontem no Rio de Janeiro, é porque tinham antes pesado os prós e os contras, medido riscos, avaliado ganhos e perdas, e considerado que a ação fazia sentido e valia a pena.

O balanço oficial – notem bem: oficial, estampilhado pelo governador do Rio – era, até a manhã desta quarta-feira 29, de 64 mortos. Acontece que moradores da região da batalha campal se deram as mãos, foram à mata que faz limite com a zona, e lá recuperaram mais de 50 mortos extras. Um por um, trouxeram os cadáveres até um descampado em meio às ruas estreitas e alinharam todos ao rés do chão.

Esses populares relatam que bom número de mortos apresentavam uma única ferida: um tiro na nuca, prova de que não tinham tombado na luta, mas tinham sido vítimas de execução sumária à moda chinesa. De fato, ao observar várias fotos dos corpos alinhados de costas para o chão, não notei nenhuma marca de ferida. Ou morreram com bala pelas costas, coronhadas ou foi tiro na nuca mesmo.

Até o meio-dia de quarta-feira, apesar da descoberta dessas dezenas de cadáveres que tinham sido abandonados na mata, o balanço oficial continuava inalterado, marcando o mesmo número de vítimas da véspera. Parece que as autoridades, agora constrangidas, não tinham previsto que os corpos largados na mata seriam encontrados tão cedo.

Numa elegante declaração, o governador do Rio elogiou a ação e foi taxativo: “De vítimas lá, só tivemos os policiais”. Em poucas palavras, pôs à mesa um concentrado de seu modo de pensar, que é o mesmo de muitos brasileiros, em especial os fãs de um certo ex-presidente, agora presidiário.

A “operação especial” conseguiu quebrar um sinistro recorde que se mantinha havia 33 anos. Foi, de fato, em outubro de 1992 que uma expedição policial exterminou 111 presidiários na Penitenciária do Carandiru, São Paulo. A carnificina de ontem acaba de provocar mortandade ainda maior.

Supondo que os policiais não fizeram essa incursão à toa, vem a pergunta inevitável: qual era mesmo o objetivo da operação?

Esse objetivo seria:

  • Provocar dezenas, centenas de mortos e dizer que eram todos bandidos?
  • Impor-lhes uma pena capital vetada pelas leis do país?
  • Diminuir o número de integrantes das facções cariocas?
  • Dar um susto nessa “gente morena” e tirar-lhes a vontade de traficar?
  • Mostrar à população que as autoridades estão vigilantes?

Se alguma alma bem-intencionada tiver uma ideia, mande cartinha para a Redação.

PS: Enquanto houver demanda de entorpecentes por parte da população, haverá sempre quem os forneça. Atrás dos eventuais traficantes trucidados, virão outros. E mais outros. E muitos mais.

O extremista caolho

José Horta Manzano

Não sei por onde andavam os extremistas de direita quando os de esquerda explodiam estações de estrada de ferro, sequestravam artesãos e matavam indiscriminadamente nos anos 70 e 80. Isso foi na Europa, mas até no Brasil, num tempo em que a vida andava muito vigiada e reprimida por aqui, esquerdistas extremados empreenderam ações ousadas e mataram gente.

Calada naqueles anos, a extrema direita só deu o ar de sua graça a partir dos anos 2010, coincidindo com a subida ao poder de Trump, Bolsonaro, Orbán e outros colegas europeus. Veio tarde, mas veio com força. Como prova disso, vejam o estrago que tem provocado no Brasil e no mundo. Bem tudo isso mostra que, independentemente da ideologia, a violência pode estar presente, basta cutucá-la com vara curta.

Direitistas extremos têm traços comuns com seus contrapontos da extrema esquerda. O desinteresse pelas grandes causas do país é um deles. O tarifaço de Trump dá mostra interessante. Para efeito de argumentação, vamos passar por cima dos capítulos iniciais da novela. Vamos direto ao capítulo mais recente, o encontro entre Lula e Trump.

O sucesso das tratativas, pelo menos até o momento atual, trouxe um alívio a inúmeros brasileiros. Muitos de nós estávamos assustados e apreensivos com o que estava acontecendo, cada um por um motivo. Uns temiam que sua pequena empresa exportadora fosse à falência, outros receavam perder o emprego, outros ainda se sentiam profundamente incomodados com o ataque intolerável à soberania nacional. Todos se sentiram aliviados de saber que as negociações iam no bom sentido.

Todos, não! A reação de bolsonaristas e de outros integrantes da direita extrema foi esquisita. Calaram-se e submergiram. Pior: tentaram (e continuam tentando) menosprezar e minimizar o que aconteceu na Malásia, que não lhes parece importante.

Ora, esse comportamento demonstra que certas pessoas não têm capacidade de enxergar além da ponta do nariz. Este escriba, que não é petista nem nunca foi, percebe que as tratativas entre EUA e Brasil estão indo no bom sentido. E festeja, porque, do jeito que as coisas vão, o final deve ser bom para brasileiros e americanos.

Não vejo por que razão eu deixaria de aplaudir iniciativas tomadas por políticos com quem nem sempre concordo, mas cuja ação me parece boa para todos. Infelizmente, parece que os extremistas, engessados por uma visão caolha, não têm capacidade de vislumbrar a grandeza de uma visão alargada do mundo. É pena.

O fim do dólar

by Gilmar Fraga (1968-), desenhista gaúcho

José Horta Manzano

O que Luiz Inácio já deu de declarações estapafúrdias não está escrito – como se diria em linguagem coloquial. Por ignorância, por excesso de autoconfiança, por entusiasmo momentâneo incontrolado, ou seja lá qual for a razão, já foram dúzias e dúzias de falas machistas, fora de contexto, ofensivas, errôneas, incompreensíveis.

Uma delas, que certamente deixou o interlocutor sem jeito. Foi em 2007, quando George Bush (filho) estava de visita por aqui. Desinibido, Lula quis dizer que as conversações entre Bush e ele estavam avançando bem. Usou os termos seguintes: “Estamos andando com muita solidez para encontrar o chamado ponto G e para fazermos alguma coisa”. Acompanhou as palavras de uma risadinha maliciosa. Bush esboçou um vago sorriso e ninguém ficou sabendo se ele entendeu a pesada alusão. O público americano certamente não entendeu, mesmo porque o locutor da transmissão omitiu esse trechinho.

Estes dias, em Djacarta, às vésperas de um possível encontro em tête-à-tête com Donald Trump previsto para ocorrer em Kuala Lumpur (Malásia), Luiz Inácio fazia um discurso ao lado de seu anfitrião, o presidente da Indonésia. Entre os afagos e as flores, Lula voltou a bater na tecla do abandono do dólar nas transações externas do Brasil, um de seus cavalos de batalha.

Não era o momento e nada exigia botar o assunto sobre a mesa, mesmo porque não consta que a aposentadoria do dólar esteja entre as prioridades indonésias. Mas Lula fez questão de levantar o tema, resoluto como de costume.

Nas redes, não sei se houve eco, mas os analistas que li e ouvi estavam contrariados. Reclamaram todos que não era hora de falar nisso, especialmente a poucos dias do encontro com Trump. O presidente americano é frontalmente contrário a toda tentativa de contornar o dólar e uma vez alertou os incautos que, se insistissem, perigavam receber tarifas de 100%.

Sei que Luiz Inácio é impulsivo. Sei também que o funcionamento do mundo não é exatamente sua especialidade. Assim mesmo, sei que não é tonto. Aliás, neste particular, se distingue do ex-presidente Bolsonaro. Assim, acredito que, se introduziu em seu discurso considerações aparentemente fora de contexto, não foi por descuido, mas com intenção.

Acrescentar mais uma camada aos diferendos entre o Brasil e os EUA bem às vésperas de encontrar o “ogro” pode ser uma estratégia. Ousada, sim, temerária até, mas calculada. Funciona assim.

Em toda negociação, como a que vai haver, há sempre trocas tipo toma lá dá cá. A abolição do dólar como moeda das trocas internacionais é muito mais uma birra pessoal do Lula do que um objetivo do comércio exterior brasileiro. Dado que não é moeda conversível, o real não pode ser usado como moeda internacional. Portanto, que seja o dólar, o yuan, o euro ou o franco suíço, será sempre necessário adquirir moeda estrangeira para comerciar.

Na hora do toma lá da cá, é interessante ter na pauta alguns itens que atrapalham nosso interlocutor, mas que não são realmente importantes para nós. Assim, poderemos sempre nos comprometer a não mais reclamar o fim do dólar em troca desta ou daquela concessão da parte adversa. Por exemplo, podemos prometer tirar de pauta nossa birra contra o dólar em troca do abandono, por parte de Trump, de sanções contra autoridades brasileiras.

Se a inclusão da fala sobre dólar no discurso de Djacarta tiver seguido essa estratégia – e espero que assim tenha sido –, foi boa ideia. Mostra que há esperança sempre, e que o governante de espírito empedernido sempre acaba aprendendo.

Os imigrantes e o pilantra

Donald Trump by Donkey Hotey

José Horta Manzano

Já antes de assumir o mandato, Donald Trump tinha prometido limpar os Estados Unidos de todos os imigrantes ilegais. Muitos imaginaram que não passasse de bravata, que o sistema funcionaria em rotação contínua: cada ilegal expulso seria rapidamente substituído por novo imigrante.

No entanto, as investidas do governo contra comunidades ibero-americanas têm sido tão incisivas, que o fluxo de clandestinos rapidamente diminuiu; hoje não se ouve mais falar em “invasão” de gente morena e pobre.

Na época em que se declarou hostil a todos os imigrantes pobres, Trump argumentou que eram todos assassinos, ladrões e estupradores. Quando alguém chamou sua atenção para o fato de nem todos serem fora da lei, Trump teria respondido que alguns eram, e que, ao expulsar todos, os bandidos também seriam expulsos.

Algum tempo atrás, um Brasil meio constrangido ficou sabendo das estrepolias de um aventureiro, filho de brasileiros mas nascido nos EUA, que se içou ao posto de deputado federal por Nova York. George Santos é o nome do rapaz, hoje com 37 anos. Já eleito, os podres de seu passado começaram a aparecer.

No Brasil, mentiras, declarações falsas e malversações com dinheiro de campanha eleitoral podem parecer de menor gravidade, mas, nos EUA, são imperdoáveis. Além de perder o mandato, o moço foi julgado e ganhou uma sentença de sete anos de cadeia.

Quinze meses se tinham passado desde seu encarceramento quando Mr. Santos, espertalhão escolado, decidiu escrever carta aberta ao presidente Trump. O texto, escrito em linguagem melosa e bajuladora, pedia clemência ao chefe do Estado. Parece mimimi de brasileiro, mas, comportamento raro nos EUA, impressionou o presidente. E acabou dando certo.

Donald Trump escreveu uma mensagem na sua rede social Truth Social com o texto seguinte:


“Ele era meio pilantra, mas há muitos pilantras em todo este país que não são condenados a cumprir sete anos de prisão. Pelo menos, Santos teve a Coragem, a Convicção e a Inteligência de SEMPRE VOTAR NOS REPUBLICANOS! Na prisão, George esteve no isolamento por longos períodos e, segundo todos os relatos, foi terrivelmente maltratado. Portanto, acabei de assinar um indulto, libertando George Santos da prisão IMEDIATAMENTE. Boa sorte, George, tenha uma linda vida!”


Desta vez, Trump inverteu o raciocínio que havia utilizado com relação aos imigrantes clandestinos. Para os imigrantes, ainda que a grande maioria fosse de gente boa e bem intencionada, expulsavam-se todos, assim os bandidos iam embora também. Já no caso de George Santos, é o contrário. Já que não dá pra mandar todos os pilantras para a cadeia, solta-se o pilantra preso, pois é injusto manter um preso e deixar tantos soltos.

Raciocínio esquisito? Também acho. Mas vamos em frente, que atrás vem um montão de gente.

Ocidente

Ocidente

José Horta Manzano

No curto espaço de tempo que durou a passagem de Lula por Roma, alguns dias atrás, jornalistas do milanês Corriere della Sera solicitaram e obtiveram entrevista exclusiva com o presidente.

Como costuma se comportar diante de questionadores estrangeiros, Luiz Inácio se mostrou escandalizado. A razão foi exposta numa comparação numérica que, apesar dos ares de tirada ex abrupto, já veio preparadinha e decorada. Lula explicou que o dinheiro que o mundo gastou com armamentos em 2024 foi US$ 2,7 trilhões, sendo que, ao mesmo tempo, 673 milhões de seres humanos padecem com a fome.

Ao menos, essa verdade precisava ser dita por alguém. E dá até um pouco de orgulho que seja o presidente de nosso país que cuida de contar isso ao mundo. Talvez não dê em nada, talvez o mundo continue gastando trilhões em armas enquanto pobres morrem de fome. Mas ninguém poderá dizer que não tinha sido avisado.

Prefiro um presidente pronunciando esse tipo de frase, em vez de um ex-presidente que, quando de uma viagem à mesma Itália alguns anos atrás, teve de bater papo com um garçom, dado que nenhum dirigente queria conversa com ele.

Mais adiante na entrevista, o jornalista abordou a aproximação entre Lula e Donald Trump. Nosso presidente mostrou-se otimista quando à evolução dos contactos e argumentou que lhe parece natural “as duas maiores democracias do Ocidente” manterem relações amistosas.

Quem não concorda? Se alguém tem sido contra essa aproximação, é justamente o próprio Lula, com seu antiamericanismo ginasiano. As sanções trumpianas só vieram dar a estocada final nos “200 anos de amizade cordial”. Agora, passada a tempestade, parece que nos encaminhamos para nova fase de bonança.

Não sei quais são os países que Luiz Inácio inclui em sua noção de Ocidente. O Brasil e os EUA, isso é certo. Quais outros? Inclui a Europa? O Japão? As antigas colônias britânicas da Oceania? Não ficou claro.

Acredito que certas correntes de nossa diplomacia entendam o termo Ocidente como indicação rigorosamente geográfica. Pertencem ao Ocidente todos os países situados a oeste do Meridiano de Greenwich, ou seja, basicamente as Américas. E pronto.

O problema é que esse entendimento excluiria a Europa inteirinha do mundo ocidental. E excluiria também, deixando transparecer certa dose de má fé, uma dezena de países africanos situados totalmente no hemisfério ocidental.

Na Europa, a abrangência desse termo é diferente. Por Ocidente, subentende-se a Europa inteira (excluindo Rússia, Bielo-Rússia e Ucrânia), o Japão, a Austrália, a Nova Zelândia, os EUA e o Canadá. Mais ninguém. Estou de acordo que é um entendimento meio torto, que junta doze frutas diversas e chama o conjunto de “uma dúzia de laranjas”. Mas é com esse significado que se usa o termo Ocidente, quando se refere ao conjunto de países mais desenvolvidos.

Talvez os digníssimos assessores de nosso presidente concordem que é o momento de fazer uma ligeira correção no discurso do presidente. Em vez de “as duas maiores democracias do Ocidente”, que ele diga “as duas maiores democracias do Hemisfério Ocidental. Não muda quase nada, mas muda tudo.

Quem matou Odete Roitman?

José Horta Manzano

Em 1988, de férias no Brasil, devo ter assistido a algum capítulo da novela Vale Tudo (edição original). Me lembro da forte atração que o folhetim exercia sobre a população. Ninguém falava mais de Plano Cruzado, caçar boi gordo no pasto, ser fiscal do Sarney, essas fixações da época. A empolgação provocada pela novela abafava todo o resto.

Espertos, os autores faziam circular as notícias antes que acontecessem na tela, que era pra dar um spoiler chamativo. De antemão, o Brasil inteiro sabia que a protagonista ia ser assassinada com três tiros em tal capítulo. Apesar disso (ou talvez por isso mesmo), ninguém perdia o tal capítulo. O mesmo estratagema funcionava para desvendar o nome do homicida. O país parou para saber quem tinha sido.

E olhe que os tempos eram difíceis. O ano de 1988 registrou 1.000% de inflação (mil por cento!), valor inimaginável nos dias de hoje. O cidadão que não tivesse grandes posses pererecava para chegar ao fim do mês. Os preços aumentavam diariamente. Salários eram reajustados todos os meses. Lá pelo dia 20, ainda ninguém sabia quanto ia receber no contracheque. Era um verdadeiro sufoco.

Logo, uma novela que tenha impactado a ponto de fazer parar o país era… de se tirar o chapéu. É verdade que, num tempo pré-diluviano em que internet ainda não existia, os divertimentos se resumiam ao domingo no parque e à novela diária.

Quase quarenta anos se passaram. Na política, o Brasil levou uns trancos feios, mas o que mudou mesmo, de lá pra cá, foi a popularização da internet, com telefones celulares e redes sociais. O panorama hoje é bem diferente.

Longe do Brasil, eu imaginava que não fosse mais possível uma novela se tornar popular a ponto de sobrepor-se a assuntos bem mais sérios. E não é que uma Vale Tudo requentada tem provocado os mesmos efeitos da dos anos 1980? Fiquei pasmo. Agora, que o folhetim se aproxima do fim e que a heroína já levou seus três tiros, estão todos em efervescência querendo saber quem é o homicida. Os autores prometem escolher um outro assassino, nem que seja pra variar um pouco e pra manter o suspense.

Soube de um pároco que repreendeu energicamente um fiel que, impregnado da dor que lhe oprimia o coração, pediu ao sacerdote que rezasse uma missa pela alma da defunta Odete. Não sei se a reação do padre foi adequada. Diante de um cristão que navega entre o mundo real e a fantasia, trazê-lo bruscamente à realidade é como revelar a uma criança de 4 anos que Papai Noel não existe. Me parece um ato de violência gratuita.

Soube também que investigadores e delegados de polícia se reuniram numa espécie de competição visando a considerar comos e porquês e, ao final, designar o mais provável assassino. Uma loucura!

E eu que imaginava o brasileiro atual distante desse fervor arcaico. Pensava que a realidade propagada por influenciadores que vendem dicas para maquiagem tivesse curto-circuitado o antigo gosto do brasileiro por peças de ficção. Imaginei que a insistência de discurseiros que debitam loas a este ou àquele político tivesse afastado o público de seu antigo compromisso com a novela das nove.

Aliviado, constato que, apesar das enormes mudanças, no fundo, tudo continua igual. Talvez a diferença maior (e que pouco se nota) é que assistíamos ao folhetim de 1988 dentro de casa, olhos fixos numa telinha de 21 polegadas, janelas abertas para a rua. Já à edição 2025, assistimos sempre em casa, numa telona de 65 polegadas(!), mas com portas e janelas bem trancadas. Vosmecê sabe por quê.

Glanage

José Horta Manzano

Cada terra com seu uso, cada roca com seu fuso – assim reza antiquíssimo provérbio português. É verdade. O youtube está cheio de vídeos filmados, às vezes, por marinheiros de poucas águas, mostrando particularidades e curiosidades daqui e dali. Hoje vou falar de uma prática comum na França, sobre a qual ainda não assisti a nenhum vídeo. Talvez a prática esteja em vigor também em outros países, não tenho certeza. Vou falar do que sei.

Como já sabem meus atentos leitores, os franceses têm palavra para tudo. E usam. Já nós somos menos rigorosos nesse particular. Portanto, na ausência de “similar nacional”, vou usar a palavra francesa e explicar o significado. Vai aqui um glossário dos substantivos (todos masculinos em francês):

Glanage: ato de catar restos que a colheita deixou para trás
Maraudage: ato de furtar antes da colheita
Grappillage: ato de colher no pé ou na planta alheia
Râtelage: ato de colher em terra alheia com uso de ferramenta

Não sei quando começou a ser regulamentado o glanage, mas é prática antiquíssima. Acredito que estivesse codificado já na Idade Média. Trata-se da prática de catar restos da colheita, deixados para trás. As colhedeiras modernas são eficazes, mas sempre deixam cerca de 1% de restos não colhidos. Num plantio de batatas, por exemplo, numa gleba que produz 100 toneladas, ainda restará na terra uma tonelada de tubérculos não colhidos. Vale a pena procurar.

Num belo domingo ensolarado de fim de outubro, quando a colheita da batata já terminou, vale a pena gastar algumas horas com a família (especialmente com as crianças, que vão adorar) remexendo a terra à cata de batata. Quem tiver paciência volta para casa com um saco cheio. Para famílias de poucas posses, é uma economia e tanto.

Condições para o glanage legal

Para ser legal, o glanage tem de respeitar os seguintes pontos:

  •  Após a colheita: Só é permitido “glanear” os produtos que tenham caído ao solo (ou ficado enterrados no solo) ao fim da colheita principal.
  •  À mão: O uso de ferramentas (p.ex: rastelo) é proibido, pois transforma o glanage em râtelage, uma prática não permitida.
  •  Durante o dia: O glanage deve ser realizado durante o dia, à vista de todos.
  •  Em terreno não cercado: É proibido “glanear” em campos fechados com cerca, pois trata-se de propriedade privada.
  •  Respeitar os decretos municipais: Verificar com a prefeitura se algum decreto proíbe o glanage no município.

O que é proibido:

  • Maraudage/grappillage: Colher frutas ou legumes diretamente do pé ou da planta não é glanage, é furto.
  • Uso de ferramentas: O râtelage é proibido.
  • Glanage à noite: É proibido.
  • Terrenos cercados: É proibido entrar em propriedades privadas cercadas.

Recomendações importantes:

  • Peça autorização: Embora a lei permita sob certas condições, é sempre bom solicitar a autorização do proprietário ou do responsável pela terra antes de começar a “glanear”, para evitar mal-entendidos ou conflitos.
  • Respeite as quantidades: O espírito do glanage é recolher o que foi deixado para trás em quantidades correspondentes ao consumo familiar, nunca para comercialização.

Pronto, vosmecê já sabe como funciona na França. Mas não recomendo tentar “glanear” no Brasil. Garruchas, trabucos e carabinas correm soltas por aí. Prudência!

Tanta água!

José Horta Manzano

David Ben Gurion, figura central na história do Estado de Israel e reconhecido como pai-fundador do país, visitou o Brasil em 1963. A viagem, que representou uma importante oportunidade para estreitar laços entre os dois países, passou a ser marcada por um episódio curioso, que até hoje é lembrado em relatos históricos sobre o líder israelense.

Ao voltar para Israel, Ben Gurion, contemplando, pela janela do avião, a vasta e verdejante paisagem brasileira, teria se virado para a esposa e, com semblante pensativo, teria comentado: “Não dá para entender como é possível que um país com tanta água tenha tantos problemas!”. Esse comentário, aparentemente simples, convida a uma reflexão profunda sobre as disparidades entre a abundância natural e os desafios econômicos e sociais que o Brasil enfrentava à época.

A frase de Ben Gurion pode ser lida como metáfora sobre a complexa relação entre os recursos naturais e o desenvolvimento de um país. O Brasil, com suas vastas reservas hídricas — que incluem a Amazônia e as serras brasileiras, com rios que encerram o maior potencial hídrico do planeta — revelam cobiçado tesouro em recursos naturais.

No entanto, ao longo das décadas, nosso país tem-se mostrado incapaz de resolver o desafio da distribuição iníqua da riqueza, a maior barreira ao pleno desenvolvimento da sociedade. A gestão aleatória dos recursos naturais e as distorções na representação parlamentar completam o círculo de correntes que agrilhoam o país e não lhe permitem deixar para trás uma estrutura social que vem dos tempos coloniais.

Em 1963, o Brasil atravessava um período conturbado de instabilidade política, que, aliás, culminaria no golpe militar do ano seguinte. A observação de Ben Gurion, ao admirar as vastas florestas e rios, terá sido uma reflexão sobre como a abundância de recursos naturais não garante, por si só, a prosperidade de um país. A forma como esses recursos são geridos e distribuídos é que é o fator fundamental para o desenvolvimento.

O comentário também levanta questões ambientais, hoje mais relevantes que sessenta anos atrás. De fato, vivemos numa época em que a humanidade aos poucos desperta para o fato de que a natureza depende das pessoas assim como as pessoas dependem dela. É uma via de mão dupla, que assume importância primordial num país como o nosso, cujo imenso território abriga diversidade de frágeis ecossistemas.

O Brasil, com sua sortida biodiversidade e seus vastos reservatórios de água doce, tem papel crucial no equilíbrio ecológico global. No entanto, a exploração desses recursos, muitas vezes sem a devida consideração ambiental, tem gerado problemas sérios de desmatamento, poluição e mudanças climáticas.

A observação de Ben Gurion, feita há mais de seis décadas, permanece relevante até hoje, oferecendo uma reflexão sobre a complexa interdependência entre recursos naturais, gestão política e o bem-estar de uma nação.

O Brasil, apesar de ser um dos países com maior potencial natural do planeta, continua enfrentando desafios significativos para transformar essa abundância em qualidade de vida para todos os seus cidadãos.

Um manda, outro obedece

Pazuello e Bolsonaro

José Horta Manzano

Alguém se lembra dele? É Pazuello, aquele general do Exército do Brasil, que Bolsonaro tratava por “meu gordinho”? É exatamente aquele que explicou um dia, ao estender-se como capacho assumido de Bolsonaro: “É simples assim, um manda, outro obedece. Mas a gente tem muito carinho, viu?”.

“Meu gordinho”, militar sem a menor experiência em assuntos políticos, conseguiu o milagre de ser eleito deputado federal por seu estado, o Rio de Janeiro, de primeira, na onda do bolsonarismo triunfante. Não tenho notícias de sua atuação como parlamentar, mas, para o bem do povo fluminense, espero que o personagem esteja se desempenhando melhor do que quando cuidou do Ministério da Saúde, durante a pandemia. Naquele sinistro período, muitos morreram sufocados, sem balão de oxigênio, em consequência das trapalhadas do ministério que ele comandava.

Uma declaração dada estes dias por Mr. Pete Hegseth, ministro da Guerra dos EUA, me fez irresistivelmente pensar no general Pazuello. O maioral americano, um tanto exaltado no palco, diante de uma plateia de fardados das Forças Armadas norte-americanas, declarou enfaticamente estar cansado de ver “soldados gordos” e “até generais e almirantes gordos” Acrescentou que tal situação é inaceitável porque depõe contra a imagem de força e virilidade que o país e o mundo esperam do exército americano.

É verdade que conquistadores, generais e almirantes têm sido representados, em pinturas e estátuas equestres, como homens viris, longilíneos, de feições angulosas e, sobretudo, magros. Isso vale para figuras nossas, como Deodoro, Caxias e o Almirante Tamandaré. Vale também para personagens internacionais, como o general De Gaulle, Simón Bolívar e Francisco Pizarro, aquele que dizimou os incas.

Civis acima do peso, como Churchill e Getúlio, ainda vá lá. Mas militar gordo e vitorioso? É raro. Se acontecer, a história se encarregará de emagrecê-lo.

Em 2020, o TCU contabilizou quase 6.200 militares lotados no Palácio do Planalto, ocupando cargos civis. Bolsonaro, então presidente, se orgulhava de haver “militarizado” o governo. Hoje, olhando com a perspectiva do tempo que passou, é possível entender por que seu governo rodava aos trancos. Botar milhares de militares a ocupar cargos para os quais não haviam sido formados é chamar o desastre.

O levantamento do TCU não estratificou os militares por faixa de peso. Assim sendo, só nos resta conjecturar. Batalhão que luta na linha de frente de uma guerra não tem tempo nem condições de comer leitão pururuca, nem chips com páprica, nem brigadeiro. Tem de se contentar com o rancho que, em princípio, não inclui delikatessen. Já batalhões que trabalham – todos fantasiados de civis, cada um diante de seu computador, com máquina de café à disposição, com pausas e fins de semana livres – esses, sim, tendem a “amolecer”.

Quem amolece se aborrece e… come mais. Bastam poucos anos nessa dieta para formar o pequeno candidato à obesidade. É impossível saber quantos dos militares próximos de Bolsonaro entravam nesse quadro. Também é impossível conhecer o IMC (Índice de Massa Corporal) de cada um.

O que é certo é que milhares de militares foram alocados, contra a natureza, a um trabalho de escritório. Homens treinados para o trabalho físico, ao ar livre, em contacto com a natureza e a selva foram enfurnados em ambientes climatizados e cercados de janelões de vidro. Certamente não era o caminho que esperavam seguir ao se alistarem nas Forças Armadas.

Agora vem a conjectura. E se tiver sido essa espécie de amolecimento forçado uma das principais causas do malogro do tentado golpe de Estado? Boa parte da força armada com a qual Bolsonaro contava estava amolecida e engordada pelo bem-bom de anos de sedentarismo e climatização. Com militar gordo e mole, não se faz guerra. Nem se dá golpe.