Aviso aos agrotrogloditas

As redes gigantes suíças de supermercados

José Horta Manzano

Aqui na Suíça, deu hoje no rádio, na tevê e nos jornais. Greenpeace, a poderosa e respeitada ong internacional, publicou o resultado categórico de uma investigação sobre a origem de certos produtos à base de carne vendidos pelas duas redes de supermercado que dominam o mercado suíço.

A ong fez uma acusação pesada às redes Coop e Migros, que, juntas, respondem por 70% do comércio de alimentos no país. As redes estão sendo acusadas de vender derivados de carne brasileira, como ‘corned beef’ por exemplo, proveniente de zonas desmatadas na Amazônia. Isso faz o efeito de uma pancada na moleira.

Faz tempo que os dois gigantes tinham se comprometido a não comercializar produtos provindos de áreas desmatadas. A investigação, bastante aprofundada, segue o caminho dos produtos incriminados, desde o pasto até as prateleiras dos supermercados. Assim, a acusação é plausível.

As redes de supermercados reagiram imediatamente. Por meio de porta-vozes, produziram explicações um pouco remendadas, dizendo que, veja bem, não é bem assim, há uma inexatidão de contexto, blá, blá.

Exatamente quatro anos atrás, em meados da gestão bolsonárica, eu já tinha escrito um artigo sobre esse fenômeno. Naquele momento, dei como exemplo o caso do azeite de dendê importado da Indonésia, produto acusado por muitos de resultar de uma política de intenso desmate.

O distinto público passou a procurar nas etiquetas se cada produto continha ou não o tal “óleo de palma”. Resultado: os fabricantes que conseguiram reformular seus produtos para deixar de conter esse ingrediente passaram a anotar na embalagem, bem visível: “No palm oil” – Sem óleo de palma.

Está mais que na hora de os agrotrogloditas, como bem os descreve Elio Gaspari, desistam de desmatar para plantio ou criação de gado. Tem gente de olho, acompanhando o abate de cada árvore, para poder botar a boca no megafone e balançar o coreto do lado dos eventuais compradores.

Não vai ser possível plantar e criar gado como se estivéssemos ainda nos séculos de antigamente. O cliente final de hoje quer ter mais informação sobre o que vai pôr no prato. Não se deixa mais engabelar assim tão fácil. Em breve, a legislação vai endurecer e o controle da origem das mercadorias deixará de ser feito na base da boa vontade. Vai ser enquadrado pela lei.

É aí que a porca vai torcer o rabinho.  (Toda alusão à salsicha de porco terá sido mera e fortuita coincidência.)

Bets

JOGO DO BICHO
by Laerte Coutinho (1951-), desenhista paulista
via Folha de São Paulo

José Horta Manzano

De ontem para hoje, li artigos de analistas que se indignaram ao saber que os beneficiários do Bolsa Família gastam parte do que recebem em apostas online – ou bets, como convém dizer hoje em dia. São bilhões que escorrem do bolso dos pobres para engordar mansões e festas orgiásticas dos milionários que dominam esse mercado.

Segundo apuraram as autoridades, uns 3 bilhões de reais constituem esse peculiar modelo de transferência de renda pelo avesso: em vez de ir de cá pra lá, vem de lá pra cá. “Pra cá” é força de expressão, naturalmente. O distinto leitor e a graciosa leitora é que não lucram nada com isso.

Me incomoda o fato de esses comentaristas mostrarem indignação em público, com ares de quem bota as mãos na cabeça e aponta um escândalo na sociedade. O tom das críticas não tem um pingo de condescendência pelos que se deixam embalar pelas sereias do marketing das bets. Me lembra antigamente, quando se dava uma esmola e se acompanhava de um: “Mas olha lá, rapaz, não é pra beber, hein!”.

Se escândalo há, é permitirem que figuras populares apreciadas pelo povo surjam na tevê conclamando as gentes a fazerem uma fezinha new style.

Não acho justo condenar o infeliz que, além de pobre, é ingênuo a ponto de sucumbir ao apelo dos peritos de marketing que, ao final, conseguem surrupiar-lhe uns trocados com a promessa de um mundo de sonhos. A concessão da Bolsa Família já é um ato de cunho paternalístico; não convém acentuar esse paternalismo ao estipular o que deve e o que não deve ser feito dessa esmola.

Acredito que todo dinheiro que se recebe – que venha do trabalho, da aposentadoria, da invalidez ou do Bolsa Família – pertence exclusivamente ao cidadão que o recebe. Desse modo, dito cidadão é livre de despender seu dinheirinho como bem lhe aprouver. Uma vez que o dinheiro esteja sendo gasto em atividades lícitas, não cabe a ninguém reclamar nem criticar.

Se quiserem cortar esse mal pela raiz, a receita é evidente: basta proibir a jogatina. A Paratodos continuará girando e contemplando os que tiverem sorte ao fazer uma fezinha.

Além disso, essa simpática contravenção, que vem do tempo em que os bichos falavam, nunca levou nenhum jogador à ruína.

Ladeira abaixo

José Horta Manzano

Entre os candidatos à Prefeitura paulistana, está um arruaceiro. Ele tem sido responsável por comportamentos de garoto de quinta série. Numa demonstração de que não está lá para debater ideia nenhuma, já criou alcunhas para cada adversário, como se numa “stand-up comedy” estivesse. Já provocou, já agrediu, já foi agredido.

Não parece condoído da triste sorte do típico eleitor paulistano, pobre e periférico, que rala o mês inteiro por algumas notas de cem. Sua proposta mais vistosa é a construção de um arranha-céu, como se isso resolvesse os dramas da população. Acostumado a sair à rua rodeado de meia dúzia de seguranças, não consegue entender a tragédia dos paulistanos que, em matéria de segurança, só contam com o anjo da guarda – que às vezes se distrai.

Muita gente acha uma graça aquele rapaz de sotaque forasteiro que entra soltando fogo pelas ventas, bravio como os animais mitológicos do Brasil Central. Tem gente que perde hora de sono só pra assistir a um “debate” entre candidatos à Prefeitura de São Paulo. Ninguém está muito interessado no que ali se diz; estão mais é esperando a hora de o pau comer.

Quando o ambiente esquenta, começam as apostas. Que é que vamos ter hoje? Insulto à mãe alheia? Cadeira voando? Soco de tirar sangue? Senhoras e senhores, façam suas apostas! Rien ne va plus!

Fica a impressão de que, tirando os demais candidatos, que temem perder votos para o exótico adversário, ninguém está se dando realmente conta da periculosidade do candidato semostrador.

O mais preocupante nessa história não é tanto que vença a eleição paulista. Embora já seja impressionante que 20% do eleitorado declarem ter intenção de votar nesse personagem, dificilmente alguém, como ele, com rejeição perto de 50%, conseguirá ganhar uma eleição majoritária.

O que preocupa mesmo é que o candidato Marçal vem arrebentando, uma a uma, as amarras que, até ontem, balizavam e davam ares de seriedade a nosso debate eleitoral. Até aqui, os debates de alta temperatura que envolveram Bolsonaro e Lula nem chegaram perto da carga deletéria de um debate em que esteja presente esse senhor.

Nós outros, que assistimos a esse espetáculo constrangedor, não temos o poder de pôr as coisas no lugar. Aliás, não vejo outro meio de dar um basta a essa descida aos infernos que não seja a proibição da entrada de Marçal nos debates que ainda restam. Só que nós, aqui do outro lado da câmera, estamos de pés e mãos atadas. Não podemos fazer grande coisa. Quem pode tomar essas decisões é quem organiza os confrontos. Alô, canais de tevê e plataformas internet!

Uma vez rompidas as amarras que configuravam debates civilizados, estará criado o precedente. Nas próximas eleições, ninguém vai poder segurar a baixaria que certamente virá. Daí para a frente, vai piorar. Rolando pela escada abaixo, nossos debates perderão o pouco de civilidade que ainda tinham.

Por causo que

José Horta Manzano

Nos tempos em que escola ensinava e aluno aprendia, aulas começavam pontualmente. Se um aluno chegasse atrasado, tinha de bater à porta e pedir licença ao professor. O mais das vezes, o mestre consentia em deixar entrar o aluno. Logo em seguida, pedia justificativa para o atraso.

«Desculpa, professora, eu cheguei atrasado por causo que…»

Nesse ponto, o discurso era interrompido de chofre.

«Não se diz ‘por causo que’, menino! O certo é ‘por causa de’».

Meu distinto leitor já há de ter percebido que, nos dias atuais, esse diálogo está fora de moda . De fato, a expressão ‘por causa de’, em via de extinção, foi substituída pela estranha ‘por conta de’.

Não sei quem terá sido o primeiro a abandonar a locução tradicional. Suponho que o modismo tenha logo sido integrado às novelas, que são o meio mais rápido e eficaz de esparramar cacoetes (não só linguísticos) no Brasil.

Na língua falada, é difícil escapar a modismos. Dado que a rapidez da elocução não deixa tempo para refletir, as palavras se encadeiam num semiautomatismo. Na língua escrita, a história é outra. O ritmo mais lento da redação permite ao escriba ser mais cuidadoso na escolha de vocábulos e expressões.

No entanto, mesmo na mídia escrita, ‘por conta de’ tem suplantado a locução tradicional por ampla margem. É surpreendente que locutores e articulistas não se preocupem em apurar o vocabulário, que é, no fundo, seu instrumento de trabalho.

Casos em que ‘por conta de’ se encaixa perfeitamente:

Aos trinta anos, ainda vive por conta dos pais.

Patrão, quero pedir um vale por conta do salário do mês.

Ela assa os bolos. A venda fica por conta do marido.

Expressões que, conforme o contexto, podem substituir ‘por causa de’ e evitar o uso do modismo ‘por conta de’:

em virtude de
por efeito de
visto que
por obra de
uma vez que
graças a
dado que
em consequência de
devido a
já que
em razão de
porque
por motivo de
pois que
por ação de
por mérito de
em função de

Viram como língua é rica? Falar bem custa a mesma coisa e rende mais.

Por que os gringos odeiam farofa?

Marcos Nogueira (*)

Se houvesse uma Copa do Mundo da comida, que prato representaria o Brasil?

O Japão chegaria forte com o sushi. Os Estados Unidos escalariam o hambúrguer. A Itália, grande potência nesse esporte, levaria a pizza.

Aqui na América do Sul, o Peru seria bastante competitivo com o ceviche. E nós? Que comida é a cara do Brasil para o resto do mundo? Já tentamos muitas vezes emplacar a feijoada como prato nacional, mas há de se admitir que ela é um péssimo produto de exportação.

Vários de seus ingredientes só existem no Brasil. O negócio, convenhamos, não tem uma aparência assaz atraente. As partes menos populares do porco criam rejeição automática numa parcela considerável da humanidade.

O que realmente pegou no estrangeiro foi o rodízio de churrasco. Tem rodízio brasileiro em qualquer cidade grande dos EUA e da Europa. Aí surgem alguns complicadores. Primeiro, churrasco não é um prato: é um método de preparar comida, existente em toda sociedade que conheça o fogo. Segundo, rodízio é somente um sistema de serviço.

Por último, mas não menos importante, a churrascaria rodízio só faz sucesso no exterior. Aqui, onde foram enormes nos anos 1990, já estão em declínio há bastante tempo. O rodízio não representa o Brasil destes dias.

O que sobra? Pão de queijo? Não é prato, é merenda para comer com café. Açaí? Poupe-me.

A farofa merece exame mais detalhado. Está presente no Brasil todinho, com um sem-número de variações possíveis. A farinha de mandioca tem seus trocentos subtipos: grossa, fina, finíssima, flocada, farinha d’água, farinha crua, farinha torrada. Mas também dá para fazer farofa de milho ou de pão velho.

Da banana ao ovo, da uva-passa aos miúdos de frango, a farofa aceita qualquer complemento.

A farofa é genuinamente nacional. Isso pode ser encarado como uma vantagem – a identidade única – ou como um empecilho para transcender a brasilidade.

Não conheço nenhum gringo que goste de farofa. Todos a acham seca, não veem sentido naquele montinho de farelos áridos. A farofa nasceu da necessidade de preservar alimentos no calor lazarento que faz no Brasil. Menos água significa um ambiente hostil para bactérias.

Fica seco, mas a gente mistura com feijão, com vinagrete, pega líquido de outra comida qualquer. E a gente adora a textura crocante. Enfim, a farofa não teria chance na hipotética Copa das comidas. Mas ainda bem que comida não é competição.

Se os gringos não querem farofa, o azar é deles.

(*) O jornalista Marcos Nogueira é colunista da Folha de São Paulo.

Espaço de liderança

José Horta Manzano

Ao ler a chamada que estampo acima, fiquei pensativo. Quem lê essas palavras pode até ficar com a impressão de que o “espaço de liderança” do Brasil – seja lá o que isso possa significar – está sendo atacado e que necessita ser defendido. Esse raciocínio nos leva direto à doutrina Lulamorim, que divide o mundo em dois enormes grupos de países.

De um lado, estão os EUA e seus aliados, malvados que querem dominar o mundo à custa dos países atrasados. De outro, está o resto do mundo, um amálgama de países díspares, que vão da enorme China ao minúsculo Timor Leste, da rica Arábia Saudita ao paupérrimo Haiti.

Se a chamada do jornal tivesse sido fabricada na gráfica do Planalto, sairia nos mesmos termos. A filosofia do coitadismo está aí, resumida em uma dúzia de palavras: atacado, coitado, o Brasil precisa de um líder (no caso, Lula) para defendê-lo.

Essa dúzia de palavras toma o problema pelo avesso. O espaço de liderança de um país não se decide com discursos na ONU, ainda que pronunciados à frente daqueles belíssimos blocos de granito verde. Aquele recinto não foi feito para esse tipo de pleito. Dos que sobem àquele púlpito, esperam-se palavras que evoquem e encoragem a boa convivência entre os povos. Eventuais boas notícias sobre avanço sanitário e educacional de cada um também são bem-vindas.

Não faz sentido subir àquele pódio para defender o Brasil de ataques que fraudam nossa hipotética liderança onde quer que seja. Liderança não é medalha concedida pela ONU. A conquista da liderança é fruto de uma sequência de ações que vão firmando o Brasil como país estável, confiável e líder em algum tema ou em alguma região: aquele que segura as rédeas e dá as cartas.

Essas ações não estão sendo empreendidas. Olhando para trás no tempo, faz quase sete anos que o governo brasileiro “pedala pra trás” em política externa – tanto regional quanto internacional. Com o capitão, foram quatro anos de esforço continuado para nos levar à condição de pária internacional, status que quase alcançamos.

Desde que o imobilismo lulopetista, sincronizado com a doutrina de Celso Amorim, voltou ao poder, temos nadado de braçada para alcançar a outra margem, aquela que não é a nossa, e onde nos sentimos estrangeiros. Temos tentado, a todo custo, nos afastar do Atlântico, berço civilizatório de onde provêm os povos que constituem nossa nação, para tentar nos ancorar na margem das ditaduras e dos regimes ferozes. Que não combinam com nossos ideais de democracia.

Aproximação com Putin, desprezo da agredida Ucrânia, apoio envergonhado ao Hamas, apoio inabalável e indisfarçado a Maduro – esses são os atos que nos afastam de uma almejada liderança regional. Se pretendesse ser a locomotiva à qual se engatam todos os países vizinhos, o Brasil teria de se comportar com maior clareza e, sobretudo, com menos parcialidade.

Lula dirá e fará o que acha que tem de dizer e fazer em Nova York. Ao fim e ao cabo, porém, vai acabar se dando conta de que a liderança começa por um dever de casa benfeito. Nesse quesito, não são só as arestas que precisam ser aparadas – é hora de sentarem-se em volta de uma mesa e repensarem a política exterior brasileira, que tem sido tratada a sopapos.

Os nomes do capitão

José Horta Manzano

Exatamente dois anos atrás, em setembro de 2022, compilei uma lista de adjetivos que me pareceram combinar bem com a personalidade do então presidente de nossa República.

O tempo passou, o presidente perdeu o trono, mas a lista ficou aí, nunca usada, à espera de novo manequim em que pudesse servir. Até hoje, a novidade política que mais lembra o velho capitão apareceu brusco como boneco de mola que assusta ao saltar fora de uma caixinha-surpresa: chama-se Pablo Marçal.

Rios de tinta têm sido gastos para dar conta da novidade. Os comentários da imprensa séria nem sempre são complacentes, antes, são nitidamente críticos dos métodos pérfidos do rapaz que, sob a aparência de “bom capiau semiletrado e inofensivo”, esconde um espírito viperino, exatamente como cobra pronta a atacar à traição.

Não, os adjetivos que cabem em Bolsonaro não servem obrigatoriamente para o “influenciador”, não dão bom caimento. A diferença é que Bolsonaro, o original, cobre toda a gama, de “tolo” a “pedaço-d’asno”. Já o hoje candidato a prefeito de São Paulo não passa de pálida imitação. Não corresponde a toda essa renca de qualificativos.

Veja bem, o “influenciador” pode até ser mais perigoso que o ex-presidente, mas aqui estamos falando de adjetivos que cabem ou deixam de caber. Este escrito não tem pretensão de ir além.

Aqui estão os quarenta e poucos adjetivos que selecionei para Bolsonaro (Primeiro e único).

Alofo
Animalejo
Babaca
Babaquara
Besta quadrada
Boçal
Bordalengo
Bronco
Bufão
Cepo
Charro
Chavasco
Coiçoeira
Lorpa
Madeiro
Maninelo
Modorro
Morcão
Néscio
Obtuso
Pábulo
Pacóvio
Palerma
Palonço
Palúrdio
Panal
Pancrácio
Papalvo
Parrado
Pascácio
Pasconço
Patau
Patego
Pateta
Patola
Patureba
Pedaço-d’asno
Simplório
Tacanho
Tanso
Tapado
Tolaz
Toleirão
Zamboa
Zote

A cadeirada

José Horta Manzano

Campanha eleitoral sempre foi, e continua sendo, um picadeiro. Dependendo do espírito do momento, pode ser picadeiro exposto à chuva, transformado em lamaçal. Pode também ser forrado de areia, material escolhido para contrastar com o sangue que aí vai se derramar. Pode ainda ser um tablado revestido de madeira, apto para salamaleques e contradanças elegantes. Esta última opção é menos frequente, convenhamos.

A atual corrida de acesso à cobiçada cadeira de prefeito da cidade de São Paulo tem passado ao largo do velho estilo “salão literário”, onde se trocam ideias e se apresentam propostas para cuidar os problemas da metrópole. Um candidato inesperado conseguiu, sozinho, impor seu tom e seu ritmo à campanha.

Trata-se de um forasteiro, vindo de Goiás. Não é a primeira vez que um candidato de outro estado concorre a esse cargo. Entre outros, o mato-grossense Jânio Quadros, a paraibana Luiza Erundina, o carioca Celso Pitta foram eleitos para o posto de prefeito paulistano. Entre os seis principais nomes da atual campanha, o candidato de nome Marçal é o único não paulista.

Mais que os demais, esse candidato deixa claro que seu maior objetivo não é propriamente assumir o governo da maior cidade do país e melhorar a vida de seus habitantes. Percebe-se que sua intenção é usar seu desempenho nas artes da internet para arrebanhar adeptos e aumentar sua fortuna, já hoje considerável.

Até ontem, estava eu longe de imaginar que viria a comentar fatos da campanha paulistana. Os anos passados longe acabam aumentado a distância física, que já é grande.

Mas hoje, não houve como escapar. Todos os veículos, sem exceção, deram a notícia da cadeirada que um candidato desferiu sobre a cabeça de outro. Em pleno debate da TV Cultura (!), diante de assistentes e câmeras. O picadeiro-lamaçal evoluiu para arena-sangrenta, o que não deixa de ser singular.

Em política, já se tinham visto tiros, tapas, bolos de chantilly, explosões, pedradas, facadas. Cadeirada, que eu me lembre, é a primeira vez no Brasil. Quem disse que o brasileiro não é um povo imaginativo?

Falando sério agora, a cadeirada do Datena no Marçal é bastante diferente da facada que o Bolsonaro levou ou dos tiros que (quase) “neutralizaram” o Trump. No caso da facada e dos tiros, o agressor não tinha relação pessoal nem estreita com o agredido. Foram, portanto, atentados nitidamente políticos.

Já no caso de ontem, a política passou longe. Aquilo foi briga de bar entre bebuns, depois da terceira cerveja. Marçal atiçou pensando em faturar na internet, e Datena reagiu com o fígado. Foi desavença de cunho estritamente pessoal, mais próxima de bafafá de pátio de escola infantil do que de querela política.

O maior castigo que se poderia dar a esses dois energúmenos seria a inabilitação da candidatura, combinada a uma pena de alguns anos de inelegibilidade.

A população, que apenas deseja escolher o ‘menos pior’ dos candidatos para ser seu prefeito, ficaria agradecida se aqueles dois saíssem de cena. O cadeirador e o cadeirado.

Circuito Elizabeth Arden

José Horta Manzano

Quem dá a notícia é o jornalista Ancelmo Góis, n’O Globo.


Depois de viagens a Paris e ao Catar, Janja vai a Nova York para debater a… fome

Depois de viajar a Paris para os Jogos Olímpicos, e ao Catar, para discutir a educação em territórios de conflito, Janja vai a Nova York, sexta, dia 21, para participar de um painel sobre a “fome”, na famosa Universidade de Columbia.

Endosso

Taylor Swift, “Childless Cat Lady”

José Horta Manzano

Para as pessoas que, como este escriba, têm uma visão nítida do mal que um Trump – se eleito presidente dos EUA – pode causar à humanidade, soa irreal imaginar que algum eleitor americano possa redirigir seu voto, para atender à recomendação de uma celebridade. A gente acredita que trumpistas e kamalistas pertencem, cada um, a um mundo diferente: como água e óleo, não se misturam.

No entanto, pesquisas feitas estes últimos anos revelam que há eleitores que escolhem seu candidato mas, ao mesmo tempo, não se sentem comprometidos com suas ideias. Esse posicionamento entreabre o caminho de uma eventual mudança de voto.

A plataforma The Conversation, que reúne artigos de acadêmicos e jornalistas, lembra o resultado de um estudo feito em fevereiro de 2020 nos Estados Unidos. A pesquisa descobriu que 89% dos adultos não mudariam seu voto mesmo que sua celebridade preferida endossasse a candidatura adversária.

Como de costume, pode-se também ler esses resultados ao contrário. Se 89% dos cidadãos não mudariam seu voto, os restantes 11% confessam que provavelmente acompanhariam a recomendação de um artista ou de alguém conhecido e influente, e mudariam o voto. Entre os jovens eleitores, essa porcentagem é ainda maior: 19% deles estariam dispostos a aceitar a sugestão de seu artista preferido.

Numa eleição presidencial apertada, como a deste ano nos EUA, a recomendação dada por Taylor Swift tem eco especial nessa franja de eleitores. São 283 milhões de seguidores que potencialmente leram seu post de endosso à candidatura de Kamala Harris. Desse mato podem sair coelhos suficientes para dar a vitória à simpática candidata.

Nos EUA, a apuração é lenta, aventurosa e cheia de surpresas. Portanto, na pior das hipóteses, assim que o Natal chegar já estaremos sabendo.

O debate Trump x Kamala

Kamala Harris: expressão corporal durante o debate com Trump

José Horta Manzano

Não assisti ao debate eleitoral americano de ontem. É que, devido à defasagem causada pelo fuso horário, o programa caiu por aqui no meio da madrugada. Mas já li a notícia e mais meia dúzia de artigos de opinião.

Parece que os analistas se puseram de acordo: descrevem o duelo com palavras semelhantes e são unânimes em atribuir a vitória a Kamala Harris. Por pontos, é verdade, mas sempre vitória é. (Aliás, como seria mesmo uma vitória por nocaute?)

Entretanto (ou however, como dizem eles), a história tem um nó. A opinião pessoal dos eleitores de lá anda tão cristalizada, que é difícil que o debate, por mais esclarecedor que seja, abale alguém a mudar o voto. Ao fim e ao cabo, cada eleitor desligou a tevê satisfeito de ver que seu(sua) candidato(a) é de fato superior ao adversário. Afinal, cada um ouve o que quer e retém o que deseja, não é mesmo?

De fato, tenho dificuldade em imaginar um trumpista roxo ter se encantado com a verve de Kamala, a ponto de decidir se tornar kamalista, se me perdoam o neologismo. O mesmo vale para o vice-versa. Ou alguém imagina um fervoroso democrata ter-se tornado trumpista desde ontem?

Logo, para que servem esses debates? Se não servem pra orientar eleitores e fazê-los escolher candidato, qual é a utilidade? Talvez para incentivar eleitores preguiçosos a se levantarem do sofá e se dirigirem ao posto de votação.

E há outro nó. É um pouco complicado de entender para nós, que vivemos numa república onde, na hora de escolher o presidente, todos os votos são iguais. Para nós, um eleitor equivale a um voto; e o chefe da nação será o candidato que obtiver mais votos. Nos EUA é mais enrolado.

Na intenção de dar uma ajuda aos estados menos populosos, os fundadores do país complicaram o sistema. Não tenho a pretensão de explicar aqui como funciona, mas o fato é que, a nossos olhos, o resultado pode ser distorcido. O candidato que tiver o maior número de votos não é necessariamente o vencedor. Acontece com certa frequência que o vencedor do voto popular perca a eleição.

Assim, por mais empolgante que seja – tem gente que perde horas de sono só pra acompanhar – o debate eleitoral americano é jogo que não vira o jogo. Um desastre, como o desempenho de Biden no duelo anterior, tem mais força que um bem estruturado debate de ideias.

Só me resta dar um conselho a nossos leitores americanos (não sei se os há, mas devem ser numerosos).

Votem em quem quiserem, mas não votem em Trump.
Para o bem da humanidade.

Multidão

José Horta Manzano

Que multidão imensa! Será um comício do capitão nas praias do Rio de Janeiro?

 

 

Que nada! Visita do papa Francisco ao Timor Leste, pequenino país de língua portuguesa situado do outro lado do mundo, nas proximidades da Indonésia.

700.000 fiéis assistiram à missa, ou seja, mais da metade da população do país. Isso é que é sucesso de audiência!

Começou bem

José Horta Manzano

A propósito da nova ministra dos Direitos Humanos, dois dos jornalistas do Estadão assinaram um longo e esclarecedor artigo cujo primeiro parágrafo é o seguinte.

“Macaé Evaristo (PT), nova ministra dos Direitos Humanos do governo Luiz Inácio Lula da Silva após a demissão de Silvio Almeida, é ré na Justiça de Minas Gerais sob a acusação de superfaturamento na compra de kits de uniformes escolares quando ela era secretária de Educação de Belo Horizonte em 2011, no governo do ex-prefeito Márcio Lacerda, então no PSB. Ela também chegou a ser acionada judicialmente pela mesma suposta prática quando foi secretária de Estado de Educação na gestão de Fernando Pimentel (PT), entre 2015 e 2018. Neste último caso, porém, fez um acordo com o Ministério Público de Minas Gerais para encerrar o processo.”

Murro em ponta de faca

José Horta Manzano

Tem uma expressão conhecida, clara, usada com frequência e que carrega uma imagem doída do que nunca se deve fazer: dar murro em ponta de faca. Ui! Precisa ser demente pra fazer um negócio desses, não lhe parece?

Pois Jair Bolsonaro, nosso saudoso ex-presidente, está dando mostra de sua especial disposição para o sacrifício. Seria heroico, não fosse inútil. O capitão chegou ao cúmulo de convocar um comício no dia 7 de Setembro para dar publicidade a seu ato de coragem.

A multidão não veio tão compacta como costumava vir no passado, mas a mise en scène seguiu à risca o que tinha sido ensaiado. Os protagonistas principais discursaram, cada um dando sua contribuição e botando falatório para plateia cativa.

Quanto ao ex-presidente, abdicou do cargo de messias, posto ao qual se tinha autopromovido no passado. Deixou claro que sua única preocupação atualmente é salvar a própria pele e escapar dos processos a que responde. “O povo que se dane, eu quero mais é tirar Alexandre de Moraes do meu caminho” – ele não pronunciou exatamente essas palavras, mas elas resumem seu pensamento.

O capitão quer que o juiz seja destituído de suas funções e, se possível, que seja condenado a apodrecer numa masmorra. Puro murro em ponta de faca. Jair não se dá conta das consequências de sua insistência.

Quanto mais o capitão vocifera contra o juiz, mais forte este fica. Tão forte ele está se tornando, que foi a estrela do desfile oficial do Dia da Independência. Apareceu sorridente e prestigiado, ao lado do presidente e dos figurões da República.

Quanto mais o capitão bate no juiz, mais se reforça o corporativismo do STF. Ainda que, numa hipótese de probabilidade quase nula, Moraes fosse destituído, mais coesos e ressentidos ficariam os magistrados restantes. Um perigo, capitão!

Da justiça, vai ser difícil Jair escapar. Seus esperneios mais irritam que ajudam. Atacar e insultar aqueles que vão te julgar é péssima ideia. Percebe-se que os anos passaram, mas o capitão nada aprendeu: continua vociferando como quem acha que se ganha no grito. Não se ganha, capitão.

Se ele não aprendeu até hoje, é caso sem esperança.

Candidato a prefeito, em tempos idos, numa cidade do Ceará

Gaudêncio Torquato (*)

Parece absurda, mas é verdadeira. Deixamos de dar os nomes para evitar constrangimentos às famílias. Um ex-prefeito de Aracati, cidade litorânea do Ceará, em comício animado, gritou no palanque: “Meu povo e minha pova. Vou ser reeleito prefeito de Aracati com minha fé e as fezes de vocês”. E foi.

(*) Gaudêncio Torquato é jornalista, professor titular da USP e colunista.

Marçal, Bolsonaro ao cubo

Ruy Castro (*)

Primeiro, a má notícia: estamos ameaçados de ter Pablo Marçal como presidente. Agora, a boa notícia: ficaremos livres de Bolsonaro para sempre.

É dos casos em que uma notícia não compensa a outra. Bolsonaro, por exemplo, não está achando graça em nenhuma das duas. Ao acompanhar atônito a escalada de Marçal rumo à, por enquanto, Prefeitura de São Paulo, consegue identificar e até antecipar cada movimento dele. Sabe muito bem como a história vai terminar —na qual ele, Bolsonaro, morre no final. Na verdade, seu enterro já saiu.

Bolsonaro está ciente de que Marçal, que aprendeu tudo com ele em violência e estupidez, vai esmagar seu opaco candidato Ricardo Nunes. Isso o obrigará a jogar Nunes aos cães, como fez com muitos outros, e, para sobreviver politicamente, juntar-se a Marçal, levando seus filhos hoje reduzidos aos zeros. Marçal talvez aceite o apoio, pela massa de votos bolsonaristas que isso lhe pode trazer. Mas, do jeito que as coisas vão, Marçal poderá ter esses votos jogando parado e ele próprio chutar Bolsonaro aos abutres. O que será bem feito, mas que vantagem levará nisso a democracia?

Bolsonaro abriu a porta do inferno para Marçal. Antes dele, Jânio Quadros, com a caspa na lapela, e Fernando Collor, a bordo de seus jet skis, já tinham sido eleitos em nome da antipolítica. Bolsonaro foi além. Estuprou o decoro presidencial, cuspiu na cara da nação, corrompeu meio mundo e deu shows diários de desumanidade, tudo para consolidar o espírito da antipolítica junto aos pacóvios.

Pois Marçal é Bolsonaro ao cubo —faz antes da eleição o que Bolsonaro só ousou fazer de faixa. Desmoraliza o processo eleitoral, zomba de suas condenações criminais, devolve os epítetos de bandido e ladrão, chama todo mundo para a briga e define seus eleitores como idiotas, para deleite deles. É Bolsonaro sem filtro e sem meias palavras.

Já chamam Marçal de demente e descontrolado. Mas não há demência nem descontrole. Cada palavra, cada ofensa, cada gesto é calculado. Conhece seu gado, sabe o que quer e como chegar. Comparado a ele, Bolsonaro é um amador.

(*) Ruy Castro (1948-) é escritor, biógrafo, jornalista e colunista. Este texto foi publicado na Folha de SP.

É Natal na Venezuela

José Horta Manzano


“Está chegando setembro, e graças ao fato de termos encerrado o mês de agosto com boas perspectivas econômicas, podemos dizer que [o ar] já traz um cheiro de Natal”.


Quem disse isso, em seu programa semanal de televisão, foi o presidente da Venezuela, señor Nicolás Maduro. Até aí, a declaração podia não passar de mais uma autolouvação, comum entre mandatários. Mas ele foi adiante.

Depois de aproveitar a ocasião para açoitar os “sabotadores” e os “fascistas” que tentaram, sem sucesso, atacar a nação, anunciou o prêmio maior: este ano, o Natal venezuelano muda de data. Em vez de ser comemorado no tradicional 25 de dezembro, fica reagendado para 1° de outubro, daqui a um mês.

A mídia do país, que calça luvas para tratar de assuntos ligados à alta cúpula, não disse nem sim, nem não, muito pelo contrário. Ninguém ousou denunciar o tragicômico da situação. Ninguém teve coragem de lembrar que, dado que é festa religiosa católica, só quem tem o direito de modificar a data do Natal é o Vaticano – que, aliás, não mexe no assunto há séculos.

Nas entrelinhas dos veículos, perdido entre comentários de leitores, está o desabafo de um cidadão segundo o qual, num momento em que muitos não têm o que comer, não fica bem decretar que este ou aquele dia é dia de festa. É indecente.

De fato, na terra dos amigos de Lulamorim, cidadãos passam fome. E o tirano que os domina e constrange pelo medo tem delírios dignos de um Musk.

A diferença é que Musk é um rei sem reino, enquanto Maduro é rei com coroa, manto e cetro. E um povo inteiro pra chamar de seu e pra oprimir.