Fui escolarizado nos tempos em que professor ensinava e aluno aprendia. Assim mesmo, na hora das provas de fim de ano, meu terror maior – e de muitos colegas – eram os exames orais.
Nas provas escritas, a gente ficava um pouco estressado (essa palavra é nova, na época se dizia nervoso). Mas sempre dava pra parar e passar uns minutinhos tentando lembrar um ponto esquecido. Dava pra dar uma espiadinha na prova do colega ao lado, desde que ele permitisse. Dava até pra tirar um papelzinho enrolado no fundo da caneta tinteiro ou previamente grudado debaixo do tampo da carteira, expediente que a gente chamava de cola.
Na hora das orais, aí é que eram elas. Lá íamos nós, juventude atemorizada, assim que nosso nome era chamado, pernas cambaleando, garganta seca, olhar implorando por misericórdia, a enfrentar a temida hora da verdade. O peso atribuído aos exames orais era alto, portanto todo cuidado era pouco. Face a face com o examinador – que não necessariamente era nosso professor habitual – não havia como colar, dar uma espiada na prova do colega, pedir um tempo para recordar um ponto importante. Era um pingue-pongue de perguntas e respostas. Ouvido o pingue, tinha-se de responder com um imediato pongue.
Era um sufoco (a gente dizia uma agonia). Tinha gente mais cool (a gente dizia folgada) que não se abalava com exame oral. Entrava na sala como quem entrasse no Cine República pra ver uma chanchada.
Em resumo, complicado ou não, era passagem obrigatória, exercício do qual não havia como escapar. E todos entendiam isso. Nunca vi ninguém faltar a exame oral de fim de ano. O castigo era ficar de segunda época e ter de estudar durante as férias e voltar em fevereiro para enfrentar… a mesma prova oral. Impensável.
Os bem-informados leitores e as argutas leitoras sabem que em outubro teremos eleições gerais, e que estamos em plena campanha eleitoral oficial. Estações de televisão, sites de notícias e outras plataformas de informação estão convidando os principais candidatos à Presidência para apresentarem seus respectivos programas de governo e para debaterem num rodízio de perguntas e respostas.
Não sei se por causa de traumas paralisantes ligados ao velho exame oral, alguns candidatos, justamente os mais bem colocados nas pesquisas, estão mostrando aversão pelo joguinho de “Candidato, seu tempo se esgotou” ou “Candidato, é sua vez de responder”. Pretextos, há vários. Diz um que não quer ser alvo de apedrejamento. Diz outro que “Se ele não for, eu também não vou”.
Um pouco de coragem, senhores, vamos! Só se esconde quem não está em condições de dar respostas civilizadas e convincentes. Não pega nada bem só fazer campanha cercado de seguranças e correligionários, sem adversários para exercerem o contraditório. Se, para o atual presidente, que quer ser reeleito, já fica feio pra caramba, para o desafiante fica pior ainda. Como é possível que um senador, que nunca exerceu a presidência, tenha medo de responder a perguntas sobre seus atos controversos?
O eleitor tem o direito de saber quem são os dois personagens que pedem seu voto, mas que fogem a toda pergunta embaraçante. Querem ser eleitos pelos belos olhos? Ou pela fama, Luiz Inácio? Ou pelo sobrenome, Flavio B.?
Nenhum dos dois é campeão de oratória (nem de enrolatória). Um não deve temer o outro. Ainda que o adversário fosse um Carlos Lacerda ressuscitado, o Brasil dispensa belas palavras e espera ouvir a verdade do passado e a promessa de futuro honesto. Futuro honesto?
É, talvez more aí o problema.
