Passaportes à venda

José Horta Manzano

Javier Milei, presidente da Argentina e ídolo da ultradireita brasileira, não é um verdadeiro patriota. Além de prestar vassalagem a um chefe de Estado estrangeiro (já visitou Donald Trump uma vintena de vezes), acaba de pôr à venda a cidadania argentina em troca de dinheiro. Quando se trata de aumentar as receitas de um país semiarruinado, la plata (o dinheiro) é argumento acima de qualquer ideologia nacionalista.

O passaporte argentino está à disposição de qualquer um que queira comprar e que tenha dólares para pagar. A nacionalidade é vendida a granel, mas pode-se também adquirir por unidade. Para uma pessoa, custa 350 mil dólares (R$ 1,75 milhão), a serem depositados no Tesouro Nacional argentino.

Atenção: esse montante não é um investimento! Trata-se de um pagamento a fundo perdido. É compra mesmo, sem nenhum disfarce. Não será devolvido em hipótese nenhuma, ainda que o cliente se arrependa. É dinheiro perdido para sempre.

Como se vê, a oferta é destinada aos que dispõem de caixa reforçado. Não há nenhuma exigência de residência no país, nem de conhecimento da língua. Deduz-se que bandidos e traficantes internacionais também são bem-vindos.

Há uma escala decrescente de preços para grupos. Para uma família de 4 pessoas, a conta fica em 500 mil dólares (R$ 2,5 milhões), uma ninharia para quem tem muito. Quem deve achar que a oferta é valiosa são os titulares de passaportes de países como Afeganistão, Irã, Turcomenistão e outros exóticos situados nas bordas deste mundo plano. Essa gente pode possuir palácios, serviçais, Rolls-Royces, jatinhos, mas tem dificuldade em viajar pelo mundo e atravessar fronteiras com seu passaporte de origem. Milei entendeu isso perfeitamente.

Por seu lado – aqui está um paradoxo –, os argentinos estão entre os que mais têm buscado uma segunda nacionalidade, europeia de preferência. O caminho mais seguido é a recuperação da nacionalidade italiana ou mesmo espanhola herdada de avós, bisavós e tataravós. Levam às vezes anos correndo atrás de documentos amarelados, de fotos de familiares desaparecidos, de toda informação que possa ser útil para alcançar o precioso passaporte europeu.

Quando conseguem, acabam vendendo o que têm até que um dia partem de armas e bagagens para a terra dos antepassados. Boa parte desses aventureiros acabam se dando conta de que a pátria dos antepassados, idealizada e romantizada, não lhes convém. Um dia, não demora muito, voltam à pátria verdadeira. Mas essa já é uma outra história.

Dentro de menos de uma semana, arriscamos botar na Presidência do Brasil um indivíduo que também se diz patriota. Ainda que não tenha sido lido por todos, o livro que ele escreveu há quase 10 anos está ainda disponível, com a exposição clara de seu credo e suas disposições. É “patriota” legítimo, dedicado e verdadeiro filho do pai.

Agora vem a pergunta: Será que Bolsonaro jr. copiará a ideia de seu ídolo Milei? Teremos, nos próximos anos, um passaporte brasileiro oferecido em promoção a quem puder pagar?