O Brasil se solidariza à Rússia

José Horta Manzano

Para Celso Luft (1921-1995), grande dicionarista e profundo conhecedor da língua, o verbo solidarizar pode ser usado pronominalmente (solidarizar-se). Nesse caso, pedirá a preposição com: Solidarizar-se com algo ou com alguém.

Em conversa com Vladímir Putin, o autocrata russo, nosso capitão rosnou que “o Brasil se solidariza à Rússia”. Digo que ele rosnou porque rosnar é o verbo que melhor descreve seu modo habitual de se expressar. O capitão não fala “pra fora”, como se diz. Ele lança sons meio enrolados. O final das palavras sai engolido. Muitas vezes, faltam os verbos. Para serem entendidas, suas frases têm de ser reconstruídas, como fazem os linguistas com línguas desaparecidas.

Tirando a pisada de bola na regência do verbo e apurando a frase, fica a afirmação de que “o Brasil se solidariza com a Rússia”. Que diabo ele quis dizer com isso? Analistas de boa cepa espremem as meninges pra entender aonde o presidente quis chegar. No fundo, ninguém conhece ao certo a abrangência do pensamento presidencial. Nem ele mesmo, provavelmente.

Para Merval Pereira (d’O Globo e da ABL), “Bolsonaro não sabe usar as palavras, e é possível que nem soubesse o que estava falando quando afirmou que o Brasil é ‘solidário à Rússia’. Ele provavelmente estava se referindo à economia e ao comércio, mas se solidarizar com a Rússia numa visita oficial é um erro absurdo neste momento de crise.”

Para Bruno Boghossian (da Folha de São Paulo), “O Bolsonaro que visitou Putin exibiu sua própria falta de expressão. Ninguém se incomodou muito quando o presidente disse que os brasileiros eram ‘solidários à Rússia’ – o que poderia indicar que o país apoiava o Kremlin nas tensões com a Ucrânia. Na mesa dos adultos da diplomacia, ele praticamente desapareceu.”

Há outras análises, todas no mesmo tom. Ao final, fica a terrível impressão de termos um presidente ignaro que, de olhos vendados como num jogo de cabra-cega, é conduzido por não se sabe quem, para não se sabe onde. O homem não parece ser mestre do próprio destino. Vai para onde mandam que vá.

Nosso país parece estar sendo dirigido por uma junta misteriosa, sem rosto, sem etiqueta, sem nomes. Quem, na verdade, conduz os negócios? Entre os organizadores dessa farsa macabra, estarão certamente os filhos, os generais palacianos, os cabeças do centrão. E sabe-se lá mais quem. Fica patente que o presidente não é senhor de seus atos. Embora, pelo cargo, devesse representar a nação brasileira, seu desempenho denuncia que ele é apenas representante de si mesmo.

Insignificante fora das fronteiras e nocivo no país, qual é o lugar de Bolsonaro? Acredito e espero que os rios de (nosso) dinheiro que ele possa torrar daqui até outubro não serão suficientes para reelegê-lo. Nossa Senhora dos Aflitos não vai nos faltar.

A elegância presidencial

José Horta Manzano

Pois é, senhores, temos presidente. Não é lá muito inteligente, não é esperto, não é corajoso, não é confiável, não é instruído, não é bem-intencionado, não é amado, não é líder, não é firme, não é insuspeito, não é simpático, não é religioso, não é anticlerical, não é bem educado, não é pessoa de fino trato, não é diplomata, não é sutil. Não é grande coisa, mas é o presidente do Brasil.

Ao aceitar a faixa presidencial, recebeu a incumbência de representar nosso país no exterior. Em terras russas (ou de qualquer outro país), ele é o Brasil. E o Brasil é ele.

Agora saboreie esta fotografia. Foi tirada em Moscou na terça-feira 15 de fevereiro, à chegada do capitão.

Ela flagra um Bolsonaro empertigado para a audição dos hinos, executados logo após a aterrissagem no Aeroporto de Vnukovo. Os componentes da banda musical, os figurões que foram recepcionar o capitão e até o segurança (que se adivinha pelo “discreto” fone de ouvido) vestem gravata. Admita-se que é adereço normal para uma solenidade dessas.

Quanto a nosso mandatário, se gravata tinha, não se viu. Vê-se uma figura um tanto disforme, ostentando pança avantajada e trajando calça amarrotada, com ar de ter ido à guerra e voltado sem ver ferro de passar. Paletó, não se vê. No lugar da peça mais comum do vestuário formal masculino, aparece uma espécie de blusão trancado até o queixo, de matéria plástica, azul-marinho (chocando com a calça marrom). O blusão tem jeitão de “made in China” comprado a preço de fim de feira.

Pensei que a Presidência da República contasse com um serviço de cerimonial, com chefe, conselheiros e executantes. Imaginei que fossem consultados nessas horas, nem que fosse pra evitar gafes presidenciais, tipo roupa errada na hora errada. Constato que serviço de cerimonial não há. Se há, não funciona.

Alguém precisa informar a senhor Bolsonaro que, em fevereiro, na Europa, faz frio. Na Rússia, mais ainda. Não se desce de avião vestindo um blusão de banca de feira. Além de dar impressão de que nosso país está mais na miséria do que realmente está, ainda periga não aquecer suficiente o corpo sofrido de um senhor de idade avançada, que sofreu meia dúzia de intervenções cirúrgicas nos últimos anos.

Que ele tome exemplo em Donald Trump, seu mentor. Não me lembro de ter visto o presidente americano sair à rua sem a proverbial gravata vermelha e o mantô azul-marinho que cobre até o tornozelo. Será que Bolsonaro só absorveu as patacoadas do mestre, deixando de lado seus poucos ensinamentos úteis?

Em tempo
Não vale alegar que o capitão não tem dinheiro, que não tem tempo de fazer mala, que não dá pra se trocar no avião, que ele não sabe escolher o próprio guarda-roupa.

Para a falta de dinheiro, está aí o famigerado cartão corporativo, financiado com o suor de todos nós, destinado justamente a esses gastos “confidenciais”.

Para arrumar-lhe as malas, ele conta com esposa. Se não bastasse, é suficiente estalar os dedos e um batalhão de serviçais (pagos com nosso dinheiro) acorrerá, todos prontos para dobrar cuecas, arrumar na valise e afivelar.

Que não pôde se trocar no avião? Ora, venha cá. O Aerolula – que ele usa até hoje mas que guarda o nome do presidente que o comprou – tem mais espaço que muito apartamento por aí. A suite presidencial, onde o capitão pode espichar as pernas e dormir numa cama de verdade com armário e espelho, dá pra duchar-se, barbear-se, e trocar de roupa antes da aterrissagem. Teria dado pra enfiar uma calça decente.

Que ele não sabe escolher o próprio guarda-roupa? É uma evidência. Só que tem uma coisa. Quando sai pra passear de lancha, pode usar camiseta com propaganda da firma de um amigo; fica um lixo, mas os admiradores não costumam reclamar.

Agora, quando ele é a imagem do Brasil em terra estrangeira, por favor, capitão, evite mostrar a pança espremida dentro de um blusão com ar de plástico “made in China”. Pega pra lá de mal. Quem sabe o Trump, que agora vive nos calores da Florida, pode até ceder-lhe o dele. De altura, os dois regulam.

O que aconteceria

José Horta Manzano

Li hoje, de soslaio, um artigo em que o autor dava sua opinião sobre “o que aconteceria no agro brasileiro se a Rússia invadisse a Ucrânia”. Era artigo longo, de mais de 4.000 toques (página e meia em escrita Arial corpo 12). Me pergunto se alguém terá lido.

Longe de mim pretender menosprezar o autor. Este escriba sabe, por experiência própria, quanto dói uma saudade. Meus textos para o blogue geralmente são feitos na hora, mas, quando escrevo para jornal, a conversa é outra. O Correio Braziliense, que costuma publicar meus artigos num sábado, pede que sejam enviados na quinta-feira o mais tardar.

Dado que não espero até o último minuto da última hora do último dia, escrevo antes. Lá pela segunda ou terça, já está pronto. Aí surge o dilema. Mando ou não mando? E se o assunto já tiver envelhecido quando chegar a hora da publicação? E se o problema já tiver desaparecido? E se o personagem malhado tiver sido hospitalizado com doença grave? Dizem que não é de bom-tom atirar em quem está caído.

Tem sorte quem, como eu, conta com autorização do jornal para abordar o assunto que bem entender. Jornalistas especializados não têm essa amplitude. Comentarista político tem de falar de política. Analista econômico só escreve sobre economia. E assim por diante.

Em situações em que o panorama pode mudar de um minuto a outro, a porca torce o rabo. O pobre comentarista que mencionei deve ter pulado miudinho para escolher bem suas palavras, pois foi dormir com um Putin vociferante e um exército de 100 mil homens amontoado junto à fronteira ucraniana. Era uma quase-guerra.

Só que, quando se levantou de manhã, ficou sabendo do começo de retirada das tropas russas e do arrego de um Putin que argumenta, num contorcionismo: “Mas eu nunca disse que invadiria país nenhum! Tudo não passa de intriga da oposição!”.

Nisso, o artigo já estava no prelo. E lá está ele hoje, com destaque: “o que aconteceria no agro brasileiro se a Rússia invadisse a Ucrânia”. Mas a Rússia não invadiu a Ucrânia. E a invasão se torna menos provável a cada minuto que passa. Putin pode ser atirado, mas estúpido não é. Seria uma guerra em que todos perderiam, a Rússia mais que os outros.

Tecer considerações sobre o que aconteceria (ou, melhor dizendo, o que teria acontecido) se tivesse havido guerra corresponde a conjecturar como seria o mundo se Hitler tivesse ganhado a guerra. É assunto que pertence ao campo da ficção científica. Ou filme de horror.

O bilionário monitorado

Rastreamento de voo

José Horta Manzano

Faz uns dez dias, o New York Times publicou um fait divers engraçado. Um primeiranista da Universidade da Florida Central, de 19 anos, está alcançando, há dois anos, um tremendo sucesso de audiência em sua conta Twitter.

A razão da popularidade é simples: Jack Sweeney, o estudante adolescente, publica mapas com as indas e vindas de Elon Musk, um dos indivíduos mais ricos e poderosos do planeta. Mr. Musk é aquele que faz coisas que, contando, ninguém acreditaria. Além de fabricar carros elétricos, chega a lançar satélites por conta própria para instalá-los em órbita em torno da Terra. Um assombro.

Como é que o jovem consegue monitorar o jatinho do bilionário? O procedimento é de uma simplicidade infantil. Como se sabe, todo jato conta com um dispositivo que sinaliza a posição do aparelho e relata outros parâmetros do voo. Em princípio, destina-se aos operadores da torre de controle, mas não há como impedir que suas informações sejam captadas por quem procure por elas. As regras da aviação civil impõem que esse dispositivo esteja sempre ligado quando o avião estiver voando.

Há na internet pelo menos dois sites especializados em informar, em tempo real, todos os movimentos aéreos ao redor do globo. Todos os aviões aparecem. Os sites – um sueco, outro americano – informam velocidade, altitude, direção de voo, aeroporto e hora de partida, destino e previsão de chegada. E muitos outros detalhes. A gente pode passar um bom tempo apreciando aqueles aviõezinhos a se movimentar no mapa, saber que tipo de aparelho é cada um, de onde vem, para onde vai, a que horas vai chegar, que temperatura faz em cada aeroporto do planeta inteiro. Um mundo de informações.

Pois bem, nosso adolescente criou um algoritmo e um software rastreador especialmente para monitorar o jatinho de Elon Musk. A partir do momento em que a aeronave é ligada, pronto: o software instalado no computador pessoal do rapaz passa a acompanhar o voo. E tudo é publicado para seus milhares de seguidores. Em tempo real.

Assim que ficou sabendo da “espionagem”, Elon Musk ficou furioso. “Como assim? Eu, com meu dinheiro e meu poder, sendo seguido por um espinhudo qualquer?” – é o que deve ter resmungado. Resolveu agir. Mas… como? Se a lei não proíbe os sites de monitorarem os aviões, ninguém pode ser criminalizado por divulgar essas mesmas informações.

O ricaço escreveu ao rapaz, ameaçou, protestou, alegou razões de segurança, pediu que desativasse a conta. Chegou a oferecer 5 mil dólares. Não conseguiu. O adolescente fez uma contraproposta: fecharia a conta Twitter contra uma recompensa de 50 mil dólares; ou então, se contentaria com um carro elétrico Tesla de 38 mil dólares, veículo fabricado justamente pelas indústrias de Mr. Musk. (Logo em seguida, dando-se conta de que poderia ser acusado de chantagem, o rapaz retratou-se e disse que estava brincando.)

Até hoje, entendimento não houve. A troca de mensagens entre o ricaço e o remediado se estancou no mês passado. Os deslocamentos aéreos do aviãozinho do bilionário continuam sendo publicados. Para deleite dos 305 mil seguidores do espinhudo.

No fundo, qual é a importância dessa historinha? Para nós, que não somos bilionários nem temos intenção de seguir carreira na espionagem, a importância é mínima. Mas a fábula convida a uma reflexão sobre o instinto de sobrevivência. Me explico.

No tempo dos neandertais, os humanos levavam vida intranquila. Não tinham de fugir de ladrão, mas era vital precaver-se contra eventuais ataques de tigres, lobos e outros bichos ferozes. Desde criança, o neandertalzinho aprendia a abrir bem o olho, estar sempre alerta, vigiar tudo e todos, o tempo todo. Sua sobrevivência dependia dessa vigilância permanente.

Os milênios passaram, leões e hienas não correm mais soltos pelas avenidas, mas o instinto continua presente. Adaptado à vida moderna, ele leva os humanos a fiscalizar-se uns aos outros. Vizinho adora vigiar vizinho, colega adora vigiar colega, todos adoram vigiar gente famosa. Apesar da inutilidade de tanta supervisão, insistimos. Há enorme interesse por imagens roubadas de celebridades, por conversas particulares de gente famosa e por miudezas do pessoal do andar de cima.

O monitoramento de Mister Musk se inscreve nessa lógica. Pensando bem, ninguém ganha nada em ficar sabendo dos trajetos do ricaço. Mas o instinto desenvolvido no tempo das cavernas não morreu. Foi apenas reorientado conforme os preceitos da modernidade.

Em tempo
Os dois sites que monitoram os movimentos aéreos em tempo real são os seguintes:

O sueco Flight Radar 24

O americano ADSB Exchange

Evolução do templo

José Horta Manzano

Você sabia?

Desde tempos pré-históricos, o homem sentiu necessidade de designar local específico para cultuar deuses. O Oriente Médio guarda numerosos resquícios de templos de outras eras. Petra (na Jordânia atual) e Palmira (na Síria atual) são exemplos de antiquíssimas cidades que contavam com edifícios de culto.

Na Europa Ocidental, a Idade Média conheceu o apogeu do fervor espiritual. Entre os anos 1200 e 1500, dezenas de catedrais góticas foram levantadas. Eram obras monumentais cuja edificação, à força de braço, levava muitíssimos anos, um século às vezes.

Catedral de Córdoba

Há o caso curioso de um templo cuja função flutuou ao sabor da religião dominante. Mais de dois mil anos atrás, o povoado ibérico situado onde hoje está Córdoba (Espanha) foi ocupado por tropas romanas, que aí estabeleceram a capital da província da Hispania Bætica.

Como toda capital que se preze, Córdoba merecia um templo. Ganhou um dedicado a Janus, o deus romano dos começos e dos fins, aquele que abre portas e passagens. É o mesmo deus que, mais tarde, emprestaria seu nome ao mês de janeiro, espelhando o fim de um ano e a abertura de outro.

Passaram os séculos. O esfacelamento do Império Romano abriu caminho à invasão de Vândalos e de Visigodos. Povos germânicos convertidos à fé cristã, os recém-chegados se valeram do que restava do antigo edifício para construir templo cristão.

Catedral de Córdoba

Trezentos anos mais tarde, a região mudou novamente de dono. Muçulmanos, que haviam atravessado o Estreito de Gibraltar, estabeleceram em Córdoba um califado que duraria mais de 500 anos. Não destruíram o templo existente. Preferiram reformá-lo e ampliá-lo inteiramente para abrigar o culto maometano. Majestosa, a nova mesquita refletia o poder do califa.

Cinco séculos depois, no lento movimento que ficou conhecido como como La Reconquista, o muy católico Fernando III, rei de Castela, retomou Córdoba. Na sequência, reformou-se de novo a mesquita. Colunas foram derrubadas. Acrescentou-se uma nave, ergueu-se uma torre e o edifício voltou a ser templo cristão.

Catedral de Córdoba, detalhe

Olhando hoje do exterior, o visitante hesita em definir o conjunto como mesquita, convento ou catedral. Pra dizer a verdade, o edifício ‒ por muitos chamado Catedral-Mezquita ‒ é um verdadeiro bolo de noiva. Uma surpreendente e interessantíssima mistura que marca a passagem de diferentes culturas.

Publicado originalmente em 25 jan° 2016.

Complemento ao post anterior

José Horta Manzano

Em sua coluna do jornal O Globo de 12 fev° 2022, a jornalista Bela Megale relata o que ouviu de funcionários do Itamaraty:

“[…] um dos principais focos da viagem é discutir uma cooperação de tecnologia militar entre os governos brasileiro e russo e que, por isso, a comitiva será formada majoritariamente por militares”.

O bom senso ensina que espionagem, em nível de Estado, é tecnologia militar. Logo…

Esse esclarecimento vem reforçar a ideia que expus no post A razão da visita de Bolsonaro.

A razão da visita de Bolsonaro

José Horta Manzano

Parece que está esclarecida a disparidade de dimensões entre, de um lado, a mesinha de chá que punha Putin a meio metro de distância do argentino Fernández, e, de outro, a mesona de mármore que mantinha 6 metros de distância entre o russo e o francês Macron.

Segundo o próprio Kremlin, a razão é sanitária. Visto que Emmanuel Macron se recusou a passar pelos testes de detecção de covid exigidos pelo hospedeiro, este impôs distância física entre os dois. Vladímir Putin afasta todo risco a sua excelsa pessoa. Ameaçar vizinho de bombardeio pode (veja a Ucrânia), mas respirar bafo de colega não testado não pode.

Bolsonaro está de partida para Moscou. Agora, que as redes sociais já começam a estranhar a insistência do capitão em fazer essa viagem justo agora, quando o mundo faz novena pra evitar uma guerra na região, está começando a ficar realmente esquisito.

O presidente não é conhecido por ser homem corajoso. No dia a dia, vive transferindo as próprias culpas a terceiros e, quando obrigado a aparecer em público, vem regularmente escorado atrás de uma legião de seguranças. Se ele se expõe a atravessar uma região em conflito e passar uns dias nos gelos russos, com o risco de ser alvejado por um míssil, alguma razão muito forte haverá. Qual será?

Nem o Kremlin nem o Planalto vão confirmar. Resta conjecturar. Não custa nada, vamos lá.

O distinto leitor já há de ter ouvido falar em Pegasus, um spyware israelense de excepcional desempenho, capaz de se infiltrar em qualquer telefone celular e realizar tarefas de roubo de dados e monitoramento de voz. Meses atrás, fiquei sabendo que um dos bolsonarinhos, aquele que é deputado federal, estava interessadíssimo em adquirir a tecnologia. O objetivo evidente era espionar adversários, desafetos, ministros do STF, parlamentares da oposição, líderes de associações, ONGs e quetais. Talvez tenha sido essa uma das razões da viagem que uma alentada comitiva do Planalto fez a Tel Aviv meses atrás. O motivo declarado era buscar um spray nasal contra a covid, mas essa alegação podia ser mera cobertura.

Por mais que apreciem o clã Bolsonaro, os israelenses não são bobos. Sabem que, dentro em breve, serão todos varridos para a lata de lixo da história. Em resumo: não vão se comprometer vendendo tecnologia tão sensível a gente tão pouco estável – e nada confiável. Acredito que o negócio tenha dado chabu.

Por trás da visita “de cortesia” a Putin, o capitão pode estar com alguma ideia desse tipo. Embora a Rússia não tenha nunca admitido, o mundo ficou sabendo da insidiosa interferência de Moscou quando da corrida presidencial americana que elegeu Donald Trump. Interferência, se houve, foi muito benfeita. Tanto que, até hoje, todos desconfiam, mas ninguém foi capaz de comprovar.

Essa poderia ser a razão que está levando o capitão a procurar comprar ajuda russa para lhe dar uma mãozinha na tentativa de reeleição. Comprar ajuda russa com nosso dinheiro, saliente-se. Diante de uma reeleição quase impossível, ele há de estar apelando para todos os santos.

Depois de ter orgulhosamente anunciado ao mundo todo que não estava vacinado e que não pretendia vacinar-se, Bolsonaro está agora em situação delicada. Putin foge da covid como da peste. Para se aproximar dele, todo convidado tem de passar por meia dúzia de testes consecutivos, ainda que esteja vacinado. Como é que as coisas vão se desenrolar?

Macron, que está vacinado com três doses, recusou-se a passar pelos testes. Receia que seu ADN seja coletado pelo Kremlin para fazer sabe-se lá o quê. Como vai reagir Bolsonaro? Vai passar pela humilhação dos testes? Acho que será obrigado, se não Putin não o receberá nem com mesa de 6 metros. E quanto à ajuda que está buscando, vai conseguir? Teremos interferência russa nas eleições de outubro?

Tenho cá minha ideia. Não é porque Bolsonaro voou até Moscou que ele será agraciado com ajuda russa para reeleger-se. Acho que Putin, que pode não ser grande amigo da democracia mas bobo não é, vai recusar. Não vejo que interesse ele teria em ter o capitão por mais quatro anos no Planalto. Mais interessante para Moscou é ter em Brasília um amigo da Venezuela, que é atualmente afilhada da Rússia.

E o distinto leitor sabe qual dos candidatos à Presidência do Brasil é o mais próximo de Caracas, pois não?

Monark e Caloi

José Horta Manzano


Na minha adolescência, duas marcas de bicicleta disputavam o mercado brasileiro: a Monark e a Caloi.


A Monark, mais prestigiosa, era de origem sueca. Nos primeiros anos, era importada. Mais tarde, os veículos passaram a ser fabricados no Brasil. No ano de 1956, a matriz sueca contava com 2500 funcionários, enquanto a filial brasileira já dava emprego a 1000 pessoas, o que mostra a importância da marca no Brasil. Alguns anos mais tarde, a Monark brasileira gritou seu “Independência ou Morte” e passou a seguir caminho próprio. Hoje, as duas versões coexistem: tanto a Monark sueca quanto a brasileira continuam fabricando bicicletas.

Caloi era a outra marca de bicicleta. Seus primeiros anos foram semelhantes aos da concorrente. O imigrante italiano Luigi Caloi começou importando bicicletas italianas. Um negócio cômodo, que não dava dor de cabeça nem exigia grande investimento. Mas chegou a Segunda Guerra, e a fonte secou. Dedicada integralmente à indústria bélica, a Itália parou de exportar bicicletas. Para continuar vendendo, Signor Caloi foi obrigado a montar, às carreiras, uma fábrica nacional. Assim nasceu a Caloi genuinamente tupiniquim.

Agora, vamos à hora da saudade. Durante toda a infância e a adolescência, minha preferida – hoje se diria meu “sonho de consumo” – foi uma Monark. Papai Noel andava meio apertado naquele tempo. A bicicleta só chegou aos 16 anos, quando o sonho já tinha evaporado. Décadas mais tarde, por um desses acasos que a vida nos reserva, cheguei a conhecer a viúva do fundador da fábrica, uma senhora magrinha e já bem velhinha. Todo o mundo a chamava de Dona Caloi. Fim da hora da saudade.

Dia desses, um retardado com nome de bicicleta apoiou, numa laive na internet, a criação de um partido nazista. Acho que não preciso dar aqui detalhes, que o Brasil inteiro ficou sabendo da história. Se faltasse uma prova, está aí a demonstração que os ditos “influenciadores” (que pretensão!) do povão não passam de ignorantes. Os seguidores agem como bando de cegos guiado por caolho.

Com a petulância que só a ignorância lhe permite, o rapaz sustentou sua tese, mostrando desconhecer a História. Na sua cabecinha vazia, nazismo é uma doutrina como qualquer outra. Não é. O nazismo tem um defeito de nascença, que o torna incompatível com o mundo civilizado. Preto no branco, seu programa afirma o objetivo de promover a superioridade da “raça” ariana (em cujos cânones, aliás – cabelos loiros e olhos azuis – o tal influenciador parece não se encaixar). Paralelamente, essa malfadada doutrina põe como objetivo exterminar fisicamente judeus, ciganos, homossexuais e todos aqueles que se opuserem a ela.

Essas diretivas já estavam, aliás, explicitadas no livro Mein Kampf (Meu Combate), que Adolf Hitler escreveu em 1925. Orientais, pretos e índios não são mencionados simplesmente porque, quando a doutrina foi elaborada, não estavam presentes em número significativo em solo europeu. Nazismo é ideologia que, já na cartilha do partido, prega o genocídio – postura proibida por nossa Constituição.

Portanto, que um infeliz “influenciador” não concorde com os termos de nossa Constituição, é problema interno dele. Pode gostar ou deixar de gostar, assim como gosta de costela de porco e detesta sorvete. Pode até comentar numa rodinha de amigos na intimidade de seu chatô. Só não tem o direito de propagar suas ideias em praça pública, comportamento agravado, aliás, pelo fato de ser “influenciador”.

Em matéria de conselhos tortos, quanto maior for a audiência, maior será a culpa de quem os dá. Em nosso país, toda pregação contra os preceitos da Constituição é crime. As queixas-crime que tramitam contra o capitão o demonstram.

Bolsonaro não teve outra opção se não repudiar a fala do rapaz com nome de bicicleta. Só que, mesmo sendo menos “influenciador” que o rapaz ignorante, mostrou ser tão (ou mais) ignorante que ele. Aproveitando o embalo, repudiou também o comunismo, sua obsessão, alegando ser “doutrina que prega o antissemitismo”(sic).

Como é que é? O comunismo prega o antissemitismo? ¡Vaya ignorancia!, como diriam os espanhóis. Quanta ignorância! O capitão precisa urgentemente ler duas linhas sobre o assunto. Vale até a Wikipédia, que, pra ele, já está de bom tamanho. É pra não soltar tanta asneira em público. Acaba pegando mal.

E se alguns daqueles dez ou doze porcento de eleitores que (ainda) o apoiam forem menos ignorantes que ele e souberem que a doutrina comunista, teorizada pelo judeu Karl Marx, não prega o antissemitismo? Vão corar de vergonha? Ou a devoção ao mito do “mito” vai sobrepujar?

The lottery

José Horta Manzano

Faz alguns anos, o prêmio acumulado da Loteria Nacional Britânica estava pelas alturas. O ganho máximo seria de quase 58 milhões de libras, o que equivale atualmente a mais de 400 milhões de reais. O país estava em frenesi, os cidadãos fazendo fila, cada um querendo fazer sua fezinha. Uma loucura.

Um jornal publicou então um artigo desmancha-prazeres. De modo sádico, calculou que as chances de um apostador acertar na cabeça era de 1 em 45 milhões. Já começa a dar desânimo, mas o artigo não parou por aí. Comparou a probabilidade de ganhar o grande prêmio com a chance de sobrevirem outros acontecimentos raríssimos. Por exemplo.

  • Um cidadão tem maior probabilidade de ser atingido por uma peça desprendida de um avião (1 em 10 milhões) do que de acertar todos os números.
  • O risco de um canhoto sofrer um acidente fatal por ter utilizado mal um aparelho concebido para destros é de 1 em 4,4 milhões.
  • Ser atingido por um meteoro é muitíssimo mais provável do que ganhar na loteria: 1 probabilidade em 700 mil.
  • Ser eletrocutado por um raio e morrer é quatro vezes mais provável que acertar o prêmio grande (1 em 10 milhões).
  • Esta é pior: qualquer um de nós tem mais risco de morrer de infecção bacteriana do que ganhar na loteria (1 em 1 milhão).
  • Dar à luz quadrigêmeos idênticos também é mais provável do que acertar todas as dezenas (1 em 13 milhões).

Parece que até a chance de ganhar o Oscar é maior do que tirar a sorte grande. Só que, para chegar lá, é aconselhado estrelar primeiro um filme.

Línguas lusófonas

Chamada da Folha de São Paulo, 9 fev° 2022

José Horta Manzano

A Europa abriga grandes famílias linguísticas. Há as línguas latinas, as germânicas, as eslavas. As latinas também podem ser chamadas neolatinas, romances ou românicas.

Com toda sinceridade, é a primeira vez que ouço falar em “línguas lusófonas”. Suponho que a língua portuguesa entre nessa curiosa categoria. Quais seriam as outras? Ou será que o jornal já dá de barato que o português e o brasileiro são línguas diferentes?

Em tempo
O adjetivo lusófono define o indivíduo que fala português. A língua propriamente dita, não se deve dizer que é “lusófona”, mas lusa.

Bolsonaro visita o tsar de todas as Rússias

José Horta Manzano

Não é a primeira vez que falo deste assunto, que me deixa bastante inquieto. Tenho a impressão de que a imprensa brasileira tem passado ao largo do desastre que está se preparando. Parecem todos mais preocupados com a ‘jequiata’ que Bolsonaro planeja do que com a ‘burrata’ que está prestes a cometer.

Imagine o distinto leitor que o Dalai Lama fizesse uma visita ao Principado de Mônaco. Ou que o papa Francisco desse um pulinho a Andorra. Um conversaria com o príncipe, o outro se encontraria com o chefe do governo. Conversariam amenidades, trocariam presentes, dariam passeio em carro aberto, escutariam coral de crianças agitando bandeirinhas. E pronto. Terminado o passeio, cada um voltaria pra casa. E a Terra não pararia de girar.

Fim de semana que vem, Bolsonaro embarca para uma visitinha dita ‘de cortesia’ à Rússia. Não é fácil explicar a razão pela qual os personagens mais vistosos a acompanhar o presidente – além dos intérpretes, evidentemente – serão Mário Frias, secretário de Cultura, e o “capitão Cultura”, um senhor que fiscaliza a Lei Rouanet. Vão aprender como montar uma companhia de dançarinos cossacos? Como de costume, a comitiva presidencial deverá ser rechonchuda, com dezenas de autoridades, convidados, xeretas e penetras.

Alguém precisa urgentemente contar ao capitão que a Rússia não é Mônaco nem Andorra. Uma visita desse quilate não passa despercebida. Tem significados, nem sempre aparentes, aos quais ele não parece estar dando a devida importância.

Pra começar, Jair Bolsonaro e Vladímir Putin não hão de ter grande coisa a conversar. O capitão não deve entender lhufas de política interna russa. Nunca deve ter ouvido falar no mundialmente conhecido Alexei Navalny, oponente e atual prisioneiro político, que foi vítima de tentativa de assassinato da qual escapou penosamente depois de meses de tratamento na Alemanha. Novichok, o veneno de que foi vítima, não se compra na farmácia da esquina. É substância desenvolvida pela indústria militar russa. Donde se conclui que a ordem de eliminá-lo partiu do chefe de Estado. Gente fina.

Menos ainda deve nosso capitão entender do problema entre a Rússia e a vizinha Ucrânia. Com boa vontade, admito que já tenha ouvido falar da União Soviética, que finou 30 anos atrás. Mas não deve estar a par da importância que a Ucrânia representa para os russos, considerada por estes o berço da civilização nacional. Não deve ter a menor ideia de que, nas fronteiras russas, se prepara um afrontamento entre Rússia e Otan. (Estou supondo que saiba o que é a Otan, mas não tenho muita certeza.)

Essa visitinha presidencial me lembra aquela que o Lula fez, acompanhado de alentada comitiva, ao Oriente Médio. Tinha na cabeça uma ideia ambiciosa e genial: resolver a questão palestina, nada menos que isso. Imaginou que, com um jogo de futebol entre os adversários, tudo se resolveria. Santa ingenuidade! Deu tudo errado e ele teve de voltar com o rabo entre as pernas, quase escorraçado como inhambu em festa de jacu. Humilhação total. Nunca mais se falou no assunto.

Lula, o messias de Garanhuns, tinha a pretensão de salvar o mundo, mas faltava-lhe instrução e capacidade. Bolsonaro apesar de ser Messias de nome, é bobão. O momento é de quase-guerra entre Rússia e Ucrânia. Se não for para tratar de apaziguar os ânimos, o momento é péssimo pra qualquer visita, seja ela de cortesia ou de negócios. Quem não for lá pra ajudar só vai atrapalhar.

A visita de Bolsonaro a Putin (a versão 2.0 do tsar de todas as Rússias) não trará nada de bom para nosso país. Vejamos por quê:

• Uma viagem dessas implica logística complexa e custa os olhos da cara. Se não tiver um objetivo útil para o Brasil, é dinheiro jogado fora.

• A Rússia, que já é cliente dos frigoríficos brasileiros, não vai comprar nem um bife a mais.

• A Ucrânia, país que contribuiu para a formação do Brasil com mais imigrantes que a Rússia, vai ficar muito desagradada. Por que Bolsonaro visita Moscou, mas ignora Kiev? Não é inteligente indispor-se com um mercado de quase 45 milhões de consumidores.

• A União Europeia, que tem envidado esforços para garantir a paz na região, vai se sentir contrariada. Não convém indispor-se com a UE assim, sem nada, sem motivo válido, num momento de tanta tensão.

Os EUA já rogaram a Bolsonaro que desista da viagem. Nosso aliado tradicional são os Estados Unidos, não a Rússia. Isto aqui não é a Venezuela – Bolsonaro está confuso.

Já que ele bate o pé, me resta dar-lhe um conselho de bom samaritano.

Capitão, procure não repetir o vexame de Nova York, quando vosmicê e seus badalos se deixaram fotografar comendo pizza na calçada. E com as mãos! É verdade que, de quem come farofa com as mãos, tudo se pode esperar.

Mas olhe que em Moscou faz muito frio nesta época do ano. Quem, como vosmicê, está a caminho dos 70 anos e passou recentemente por meia dúzia de cirurgias devia evitar apanhar resfriado. Pode dar complicação. Se acontecer, não são seus seguranças nem o Centrão que vão acudir.

A sala de visitas de Putin

José Horta Manzano

Em diversos países da Europa, o uso comercial da expressão “saldos” é protegida. Isso quer dizer que toda venda de saldos é regulamentada. A palavra não pode ser usada por qualquer comerciante, pra vender qualquer tipo de mercadoria, a qualquer preço, em qualquer época do ano. Só pode ser usada durante a época fixada pelas autoridades que regulam o comércio. Nem antes, nem depois. Isso lhe agrega valor. A época dos saldos é aguardada ansiosamente.

O período dos saldos é especialmente apreciado por comerciantes de roupas. E por seus clientes, naturalmente. É que o comércio de peças de vestuário, além de sazonal, é sujeito às variações da moda. Os saldos são autorizados durante algumas semanas em janeiro (para liquidar o estoque encalhado de roupas de inverno) e, de novo, em julho (para o vestuário de verão).

Conforme o país, as vendas especiais duram de 3 a 4 semanas, às vezes até mais. Os primeiros dias têm o efeito de uma sexta-feira negra (em português: black Friday). Antes da abertura das lojas, já tem gente encostada à porta. Comerciantes que não trabalham com vestuário também aproveitam o embalo pra fazer caixa, vendendo alguns de seus artigos a preço de pechincha.

Quinta-feira passada, Señor Alberto Fernández, presidente da Argentina, esteve de visita a Vladímir Putin, em Moscou. Na foto, entre os dois dirigentes, aparece uma mesinha dessas que se usam pra pousar uma xícara de chá e, se der, pra ajeitar um pratinho (pequeno) para o bolo. Na mesinha que separava os dois, de tão minúscula, acho que nem bolo ia caber.

Terminada a visita, chegou o fim de semana. Vladímir Putin, que não tem o hábito de ir à feira comer frango com farofa, deve ter inventado outro programa. A agenda do dirigente russo não confirma, mas é possível que ele tenha aproveitado a folga pra dar uma espiada nos saldos de alguma loja de móveis. Não conheço os costumes locais, mas pode ser que os saldos de Moscou se estendam até fevereiro.

O fato é que, na segunda-feira 7, Monsieur Emmanuel Macron veio visitá-lo. A exígua mesinha de chá tinha desaparecido. Não se sabe onde foi comprada nem quanto custou a mesa ao redor da qual se sentaram Macron e Putin, mas, convenhamos, ela é im-pres-sio-nan-te!

Daqui a alguns dias, será a vez de nosso capitão fazer sua peregrinaçãozinha nas neves moscovitas. Vamos ver qual das duas mesas sairá na foto. A mini de chá ou a XXL dos saldos? A conferir.

Em tempo
Quem lê jornais em vez de ficar mergulhado na bolha sabe que a Rússia e a Ucrânia estão em pé de guerra. Putin encostou na fronteira com a Ucrânia um contingente militar de assustar. Fotos de satélite avaliam que cem mil homens estão ali, à espera da ordem de atacar. Um tiro de chumbinho na hora errada pode ser suficiente pra assustar todo o mundo e desencadear uma carnificina.

Macron, que bobo não é, entendeu a fragilidade da situação. Numa hora dessas, visitar um e ignorar o outro significa automaticamente que se tomou partido na briga. É exatamente o que Macron, a França e a Europa querem evitar. Nesta terça-feira, terminada a visita a Moscou, o presidente francês está em Kiev para uma conversa com o presidente ucraniano, Zelensky – que, por coincidência, também é Vladimir (ou Volodímir, como dizem eles). Se o encontro vai evitar a guerra, só o futuro dirá. Mas, pelo menos, Macron guardará o mérito de haver tentado.

Nosso capitão, que bobo é, vai se meter onde não foi chamado. O infeliz não consegue entender o frágil e o delicado da situação. Com os dois a ponto de se morderem mutuamente a orelha, lá vai o paspalhão visitar um dos contendores, ignorando o outro. Em linguagem diplomática, que é entendida por todos os governos do planeta, essa visita significa alinhamento com um dos beligerantes. Uma imensa estupidez para um Brasil que não tem nada a ver com aquele peixe. Não temos nada a ganhar com essa demonstração explícita de preferência por um dos lados.

A visita unilateral de Bolsonaro vai acrescentar agressão gratuita e desnecessária a mais um povo. O gesto será somado à longa lista das afrontas que já fizeram, ele e seu clã, aos EUA, à França, à Itália, à Alemanha, à Noruega, à Argentina, ao Chile, ao Peru. E, naturalmente, à China, vítima preferencial de suas ofensas de babaca boca-suja.

Ucrânia, seja bem-vinda ao clube! Sinta-se honrada! Amigo do capitão bom sujeito não é.

Brasil extraviado

José Horta Manzano

Saudades do tempo em que o Brasil atraía imigrantes em busca de recomeçar a vida num país pacífico e de futuro.

Saudades do tempo em que a simples menção do nome “Brasil” evocava imagens de gente feliz, sorridente, acolhedora, alegre, prestativa, solidária, dançante.

Saudades do tempo em que o mundo nos olhava com respeito e uma ponta de inveja.

O Brasil se extraviou. Os novos tempos são anunciados diariamente, ao mundo todo, em todas as línguas. Aqui está o exemplo mais recente.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

In the subway

José Horta Manzano

Um estudo levado a cabo anos atrás por biólogos da Universidade do Colorado constatou que o ar que se respira nos labirintos subterrâneos do metrô nova-iorquino não é lá essas coisas. Imagino que a conclusão possa ser estendida a todos os sistemas de metrô do planeta.

Apesar da ventilação forçada e dos filtros, cerca de 15% das amostras de ar colhidas nas plataformas é constituída de… pele.

Os cientistas decidiram investigar mais a fundo para conhecer a proveniência exata dessa pelanca toda. Descobriram que a maior parte provinha da cabeça e da sola dos sapatos dos viajantes. Além disso, uns 12% da pele provinha de outras zonas do corpo: do umbigo, do ouvido, das axilas e do bum-bum.

Bon voyage! Have a nice trip!

Muro da USP

José Horta Manzano

“O Brasil tornou-se um purgatório” – diz um amigo meu. Não tenho como contradizê-lo. Crimes e delitos (que alguns preferem chamar ‘malfeitos’) se tornaram tão corriqueiros, que a gente passa reto, sem se dar conta, como se a vida fosse assim mesmo.

Alguns anos atrás, foi construído um belíssimo muro de painéis de vidro transparente para substituir o antigo muro de concreto que separava a Universidade de São Paulo do mundo exterior. Segundo palavras do próprio reitor, a intenção era “integrar a USP na paisagem urbana”. A substituição do antigo pelo novo faria o efeito da derrubada de um simbólico “Muro de Berlim”.

O primeiro trecho, inaugurado há quatro anos, isolava a raia olímpica da ultramovimentada e superbarulhenta autoestrada urbana (dita marginal), que margeia o Rio Pinheiros. Feito parcialmente com doações, deve ter custado caro. Mas ficou bonito que só.

Bonito até demais aos olhos cavernosos dos neandertais que se multiplicam entre nós e que aceitamos que circulem soltos e que convivam com a parte civilizada da sociedade. Nem bem inaugurado esse primeiro trecho, o vandalismo gratuito mostrou sua face primitiva.

Um dia, um dos painéis amanheceu estilhaçado. Noutro dia, foi um segundo. A ação foi sempre noturna, que a covardia não permite fazer esse tipo de coisa à luz do sol. A derrubada continuou dia após dia, diante da inação complacente e quase cúmplice de todos. Não sobrou nada.

Nenhuma ação preventiva foi tomada pelas forças policiais, que são, afinal de contas, as autoridades encarregadas de defender a população e o bem público. Em terra de bandido, quem é que liga pra um vidro quebrado, não é mesmo?

Sob essa luz, dá pra entender a chamada da Folha, que aparece na entrada deste artigo. O jornalista, em tom de reclamação, constata que “os vidros continuam quebrados após 4 anos da inauguração”.

Num país normal, antes de pensar em consertar (ou em refazer inteiramente o trabalho, como é o caso), a população se preocuparia em descobrir quem cometeu esse crime contra o patrimônio de todos. Crime ou “malfeito”, como preferirem.

De fato, enquanto os autores estiverem correndo soltos por aí, será perda de tempo, de esforço e de dinheiro refazer o trabalho destruído. Antes, é preciso identificar e tirar de circulação os causadores do estrago; só depois é que se pode pensar em reconstruir.

Como era

O problema é que a selvageria se instalou de modo tão enraizado em nossas mentes, que já ninguém se dá conta da enormidade de uma ocorrência como a destruição voluntária desse muro. Fatos assim são admitidos e digeridos como se fossem parte integrante de nosso atual estágio de civilização. Não são. Isso é obra de criminosos. A desigualdade social e a carestia não levam hordas de famintos a levantar de madrugada pra destruir paredes de vidro. Não paga a pena. Saquear um supermercado daria mais futuro.

Além de estarmos nos acostumando com a baixaria onipresente (obrigado, capitão!), estamos banalizando e aceitando o crime. Isso é perigoso e pode terminar mal.

Salve-se quem puder

José Horta Manzano

Quando este blogueiro ainda frequentava as carteiras da escola, em mil novecentos e antigamente, havia muitos estrangeiros no Brasil. Era gente vinda de muitos horizontes. Me lembro que a imensa maioria de meus colegas era composta por descendentes de estrangeiros chegados recentemente. Brasileiros quatrocentões, havia poucos.

Entre os colegas, havia filhos e netos de imigrantes. Cheguei até a ter um colega de ginásio, de quem tenho notícias até hoje, que tinha nascido no exterior, fato menos corriqueiro. Havia sírio-libaneses, judeus da Europa oriental, portugueses, italianos, alemães, suíços, franceses, japoneses. Muitos eram perfeitamente bilíngues; na escola, falavam como todos nós, mas em casa falavam outra língua. Vindo de família monoglota, sempre achei isso fabuloso.

As origens eram diversas, mas um ponto era comum a todos. Ninguém emigra pra fazer turismo. Se uma família decide vender o que tem, abandonar as raízes, fazer as malas e dar um salto num país desconhecido, do outro lado do oceano, é por estar sendo impelida por razões muito poderosas. O mais das vezes, os imigrantes vinham por não enxergar futuro na terra natal ou por estarem arruinados depois de perder tudo em guerras e perseguições.

Com o passar das décadas, as cicatrizes da Segunda Guerra foram se fechando na Europa, nosso maior fornecedor de imigrantes. A partir do fim dos anos 1970, o fluxo praticamente se extinguiu. A Europa enricou e o fluxo se inverteu: de fornecedora de imigrantes, ela passou a receptora.

O problema é que, nos últimos anos, o volume de africanos que procuram chegar à Europa tem sido tão importante, que os governos decidiram restringir-lhes a entrada. Os candidatos mais temerários tentam forçar a porta. De canoa, a pé, escondidos em caçamba de caminhão, dentro de contêiner – os meios mais arriscados são utilizados. Uns conseguem chegar, outros são repelidos. Sem contar os que perecem no caminho.

Não conheço a história dessa refugiada congolesa que aparece na chamada da Folha de São Paulo que pus na entrada do artigo. Congoleses costumavam se refugiar na Bélgica (a antiga potência colonial) ou eventualmente na França. É possível que acolhida tenha sido negada a essa senhora, daí estar entre nós.

A frase que a mulher pronunciou dá uma tristeza infinita. “Não quero que meus filhos cresçam no Brasil” é uma das declarações mais terríveis que já ouvi sobre meu país. O pior é que a refugiada não é a única a pensar assim. A frase está na mente de muito brasileiro nascido e criado na pátria: “Não quero que meus filhos cresçam no Brasil”.

Por que isso ocorre? Onde é que erramos? O Brasil é feito por nós, minha gente! Nenhum dos que fazem as leis, dos que se sentam na cadeira presidencial, dos que dirigem municípios e estados é extraterrestre, descido de um disco voador. Todos foram escolhidos por nós.

Os dois personagens que dominam a cena de nossas próximas eleições presidenciais não são desconhecidos. Ambos já governaram o país. Portanto, a desculpa de 2018, quando um então quase desconhecido Bolsonaro foi eleito, não vale mais. Desta vez, sabemos com quem estamos tratando.

Sabemos que o país tem andado pra trás nos últimos 20 anos. As perspectivas de avanço de nosso processo civilizatório, o futuro decente ansiado pelos antigos imigrantes, foi pro beleléu.

Corrupção, roubalheira, migalhas jogadas aos pobres foi o que se viu com o lulopetismo. Além da violência crescente. Corrupção, baixaria, descaso com a população é o que se vê com Bolsonaro. Além da violência crescente. Por que é que os brasileiros insistem em dar seu voto de confiança a um desses dois estropícios? Nesta altura do campeonato, ninguém pode alegar desconhecê-los.

Se o brasileiro insistir nesse erro, não só os imigrantes recentes vão querer dar o fora. Os descendentes de imigrantes antigos vão seguir o mesmo caminho, esvaziando o país do que ele tem de melhor e deixando os que ficarem à mercê de milícias e braços do crime organizado.

Entre o cachaceiro e o farofeiro, cabe a você escolher.

Com açúcar, com afeto e com fixações

José Horta Manzano

Antes de começar, faço questão de deixar claro que vejo no artista Francisco Buarque de Hollanda um dos grandes da música brasileira. Com o devido respeito ao gênero de cada um e à época em que exerceram sua arte, considero que Chico ocupa lugar de honra no mesmo patamar em que estão Francisco Mignone, Heitor Villa-Lobos, Oswaldo Gagliano (Vadico), Ary Barroso, Baden Powell, Tom Jobim e mais três ou quatro. Não é coisa pouca.

Mas ninguém é perfeito. Artistas, principalmente, devem ser julgados por suas qualidades, não por seus defeitos. Se alguns dos que citei bebiam demais, eram mulherengos ou chegaram a tomar ideias musicais “emprestadas” de terceiros, que importância tem isso em sua arte? Os eflúvios do álcool, as estrepolias de alcova ou até a inspiração colhida em obra alheia passam. O que fica, ao final, é a arte de cada um. Os personagens que citei, cada um em seu estilo, ainda estarão na crista da onda daqui a séculos.

Num documentário lançado recentemente, Chico Buarque fez um pronunciamento pra lá de polêmico, quase uma provocação. Ao referir-se ao extraordinário “Com açúcar, com afeto”, uma das maravilhas da MPB, samba composto por ele há 55 anos, disse:

“Na verdade, a primeira música que fiz na primeira pessoa foi pra Nara [Leão]. Ela me pediu uma música ‘daquelas’, ela me encomendou essa música. Ela falou ‘Eu quero agora uma música de mulher sofredora’. E deu exemplos de canções do Assis Valente, Ary Barroso, aqueles sambas da antiga, onde os maridos saíam para a gandaia e as mulheres ficavam em casa sofrendo, tipo “Amélia”, aquela coisa. Ela encomendou, e eu fiz (…) É justo, as feministas têm razão, vou sempre dar razão às feministas, mas elas precisam compreender que naquela época não existia, não passava pela cabeça da gente que isso era uma opressão, que a mulher não precisa ser tratada assim. Elas têm razão. Eu não vou cantar ‘Com açúcar e com afeto’ mais e, se a Nara estivesse aqui, ela não cantaria, certamente.”

Pra quem teve preguiça de ler na íntegra a citação, fica aqui o essencial da fala do artista: “É justo, as feministas têm razão, vou sempre dar razão às feministas”.

Essa declaração comporta um trecho assaz constrangedor, em que Chico, um tanto ingenuamente, empresta intenções a Nara Leão, falecida há mais de três décadas. Diz que, se viva fosse, ela certamente não cantaria “Com açúcar, com afeto”. Acho sempre arriscado pôr palavras na boca dos mortos ou intenções na cabeça deles. No limite, ele poderia ter dito que achava, que imaginava, que acreditava. Mas ele disse que “certamente” ela não cantaria. Uma temeridade. Ninguém pode fazer afirmação desse quilate, passados mais de trinta anos do desaparecimento da pessoa.

Por minha parte, acho que Nara não abandonaria um dos tesouros do cancioneiro nacional que, examinado com lupa, não reforça preconceito nenhum, limitando-se a descrever com sobriedade o dia a dia de um casal que viveu faz meio século, uma vida como milhões de outras. Com alguma insatisfação mas também com ternura. E sem violência. Mas no fundo, ninguém – nem Chico, nem eu – pode ter certeza sobre a decisão que Nara tomaria.

Mas o que mais me impactou foi outra frase. Foi a que pus em negrito. Chico diz, com todas as letras, que “as feministas têm razão” e que vai “sempre dar razão a elas”. Ele não se restringe a este caso. Ele diz sempre. Tirando ditadores e líderes autoproclamados e autoincensados, que costumam ter um parafuso a menos e, por isso, se acham infalíveis, ninguém na face da Terra tem sempre razão. Ninguém.

Devo confessar que fiquei um tanto chocado com a fala do imenso artista. A forma como ele lança essa afirmação é tão natural, que a gente se dá conta de que ele acredita no que está dizendo. Acha realmente que as feministas têm sempre razão.

Apesar do abalo, para mim, Chico continua exatamente no mesmo pedestal em que sempre o alcei. Continua a fazer companhia a Ary, a Mignone, ao Tom e aos demais. Sua frase sobre as feministas até que serviu pra jogar alguma luz sobre seu posicionamento político destas últimas décadas.

Incomodado e perseguido durante a ditadura dos militares, é compreensível que tenha guardado ressentimento. Se apoiou o Lula e o petismo, é porque via nesse movimento a antítese ao regime que lhe havia atazanado a existência. Ele não foi o único a escolher a mesma via pelos mesmos exatos motivos.

Quando foram desvelados o mensalão e, sobretudo, o petrolão, grande maioria dos que haviam visto no lulopetismo, um dia, o polo oposto e o antídoto à ditadura desembarcaram da carruagem, que idealismo tem limite. Chico continuou no comboio.

O imenso poeta e compositor, aliás, não se limitou a apoiar o personagem do ex-metalúrgico. Foi fervente defensor de sua sucessora, a inominável doutora, aquela que, em matéria de prejuízos causados ao povo brasileiro, só perde para o atual ocupante do Planalto.

Evidentemente, posso estar enganado, já que ninguém tem sempre razão. Mas me ficou a forte impressão de que Chico Buarque é daquele tipo de pessoa que, quando abraça uma pessoa ou uma causa, agarra-se a ela com unhas e dentes. Sua dedicação é total; sua fidelidade, canina; seu apego, acrítico. Ele parece incapaz de reconhecer que as vias do coração não devem ser incondicionais. Mais que isso, parece incapaz de admitir que pessoas podem até, às vezes, não ter razão.

Hora das promessas

Carlos Brickmann (*)

Para se candidatar a governar São Paulo, os bolsonaristas não estão preocupados com Tarcísio Freitas, aquele ministro que continua procurando o estado no mapa: têm certeza de que ele, ouvindo especialistas como Carla Zambelli e estudando um pouco, logo estará inteirado dos problemas de São Paulo.

Para alguém como Tarcísio, que conseguiu ser alto funcionário de Dilma e ministro de Bolsonaro, não é difícil.

E certamente mudará o nome do Aeroporto de Campinas, para não homenagear adversários. Viracopos, onde já se viu? Melhor algo mais bolsonarista, tipo Espalhafarofa.
(*) Carlos Brickmann é jornalista, consultor de comunicação e colunista.

A moda do “fake” se alastra até a China

José Horta Manzano

Parece que a moda que nos obriga a conviver com uma realidade paralela já chegou até a China. Alguém já imaginou organizar os Jogos Olímpicos de Inverno na região de Garanhuns (PE)? Parece coisa de maluco, não é? Pois deve haver no mundo muito mais malucos do que se imagina. E alguns ocupam cargos de importância planetária. Antes dos finalmentes, vamos aos considerandos.

No Brasil, Olimpíada de Inverno não tem repercussão, o que é compreensível. Pra quem não sabe, ela ocorre de quatro em quatro anos, intercalada com os Jogos de Verão, que já tiveram lugar no Rio de Janeiro e que ficaram na história do país pelo “legado” que deixaram.

A China foi designada para abrigar a edição invernal deste ano, que começa no fim de semana que vem. Até aí, nada de espantoso. O clima do país, em princípio, é compatível com os requisitos dos esportes de gelo e neve. Na região escolhida – Pequim e seus arredores – faz um frio congelante no inverno. Em janeiro, a temperatura oscila entre 7°C abaixo de zero de noite e 3° abaixo de zero no momento mais “quente” do dia. É pra pinguim nenhum botar defeito.

Só que tem um probleminha: não neva. Embora muito morador dos trópicos acredite que basta fazer um frio do cão pra cair neve, não é bem assim. Neve é precipitação, exatamente como chuva. Pra nevar, é preciso que haja nuvens e umidade. Com céu claro e sem nuvens dia e noite, não tem como nevar.

Assim, escolher organizar os Jogos de Inverno em Pequim equivale a escolher organizá-los em Garanhuns. Ambas as cidades têm morros por perto, onde pistas de esqui podem ser facilmente desenhadas. Estádio olímpico, é fácil construir, principalmente com dinheiro público. Propaganda, é fácil fazer. Povo entusiasta, é sempre fácil encontrar. Só que cada uma das sedes tem seu problema. Enquanto Garanhuns não tem frio suficiente pra aguentar a parada, Pequim não tem neve. Como contornar o problema?

Estamos entrando nos Jogos Olímpicos de Inverno mais antiecológicos da história. Primeiro, o leitor precisa saber que, na falta eventual de neve, as pistas de esqui podem ser atapetadas com neve artificial. Não, não se trata de neve de cinema, com floquinhos de plástico. A neve artificial é produzida por canhões de neve, enormes tubos que cospem no ar, geralmente à noite, quando todos dormem, água sob alta pressão. Ao entrar em contacto com o ar muito frio, as gotículas de água vaporizada se tranformam instantaneamente em flocos de neve.

Todas as pistas de esqui do mundo dispõem de dezenas desses dispositivos. Servem para completar o tapete de neve nas pistas, quando já está bastante achatado pela passagem dos esquiadores e quando o tempo anda claro, sem precipitações. Só servem para suprir uma certa porcentagem do cobertor branco.

O problema é que em Pequim, região semidesértica situada junto à poeirenta aridez que recobre a China central e ocidental, toda a neve das pistas será artificial. Todinha. Tudo 100% artificial. A paisagem das colinas onde estão as pistas está sui-generis: faixas brancas que serpenteiam em meio a montes escuros e totalmente desprovidos de neve. Bem pouco natural. (Confira a imagem na entrada do artigo.)

Evidentemente, os canhões espirram água e são movidos a combustível fóssil. Pra começar, precisa levar água até lá em cima, o que consome uma enormidade de energia. Em seguida, o funcionamento de centenas deles durante duas semanas, numa região já altamente poluída, só vai fazer aumentar o grau de poluição que os pequineses terão de respirar. Atenção: respirar sem reclamar, como costuma ser na China. Todos estão convidados a aplaudir. E ai de quem der um pio!

Fica agora uma dúvida ingrata. A escolha do Catar para a Copa do Mundo foi obra dos conchavos e da notória corrupção da Fifa. Onde já se viu jogar futebol no deserto, num país sem nenhuma tradição esportista, onde não se joga nem futebol de várzea (mesmo porque não há várzea)?

Será que o COI (Comitê Olímpico Internacional), que cuida das Olimpíadas, sofre do mesmo mal?

A escolha da data

José Horta Manzano

Em outras ocasiões já devo ter falado da birra que tenho contra essa moda de acrescentar um zero à esquerda dos algarismos. (Para quem já se esqueceu, lembro que algarismo é o que hoje convém chamar de dígito.)

Acho muita graça quando leio (ou até ouço) “dia 01”, “guichê 03”, “elevador n° 02”. Tem gente que, obedecendo à curiosa mania, leva o costume para dentro de casa e acaba numerando membros da família, fala em “filho 01”, “filho 02” e por aí vai. A mim, parece um bocado simplório.

Até algumas décadas atrás, todo o mundo, rico ou pobre, costumava ter apelido. Lembro que todos os irmãos de minha avó (eram 12, fora ela) tinham apelido. Parecia até obrigatório. No entanto, gente numerada dentro da família, confesso que nunca tinha visto antes da chegada do clã que dá as cartas no Planalto.

Adivinho qual possa ter sido a origem do modismo de acrescentar um zero à esquerda de números pequenos. No tempo em que o cheque era um meio chique de pagamento – usado somente em ocasiões especiais, quando o montante era considerável –, o cidadão que o emitia procurava se precaver contra falsificações que pudessem aumentar o valor do documento.

Assim, no campo onde a quantia aparecia por extenso, usava-se grafar “hum mil cruzeiros”, por exemplo. Ou então, punha-se um traço horizontal grudado ao início da quantia. Assim: “–––––Quatrocentos milréis”. Já no campo onde aparecia o montante em cifra, alguns introduziam um zero entre o traço horizontal e o valor. Assim, para quatrocentos milréis, ficava: “––––0400$000”. Se alguém tiver explicação melhor para a origem do modismo atual, mande cartinha para a Redação.

Escolher data de morte é difícil. A gente pode até ter um forte desejo de morrer dia tal, mas é complicado ter controle sobre o assunto. Escolher data de nascimento de um(a) filho(a) é, até certo ponto, possível. Mas o período não é extensível ao infinito. Pode-se adiantar ou atrasar alguns dias, não mais.

Tem uma data que, salvo emergência, dá pra marcar: é a data de casamento. É verdade que casório anda meio fora de moda, mas ainda há muita gente que faz questão de seguir essa “tradição burguesa”, como diriam os barbudinhos dos anos 1980. Há quem escolha pelo horóscopo; outros querem que caia num sábado, que é pra poder receber um máximo de amigos (e de presentes).

Há datas especiais, muito procuradas. Este mês, temos duas excelentes. Uma delas é amanhã: 2 de fevereiro. Reparem como fica original: 2.2.22. É um charme, diga a verdade. A próxima será daqui a dez dias. É mais forte ainda: 22.2.22. Não sei como anda o agendamento de casamento no Brasil, mas na Europa em geral – e na Suíça em particular –, já está difícil encontrar vaga nesses dias. Em Zurique, por exemplo, o dia 22 está completamente tomado. Não adianta insistir, que não vai adiantar. Dia 23, se o cavalheiro concordar…

Quem perder esta oportunidade vai ter outra daqui a onze anos. Será em 3.3.33. Perdida essa, só onze anos depois, em 4.4.44. E assim por diante, até o fim do século. Só que, se esperar muito, o distinto leitor periga ter de levar os netos pra assistirem ao casamento dos avós. Hoje em dia, fica meio fora de esquadro. Daqui até lá, quem sabe, pode ser que já ninguém ligue. Pode até ser que ninguém mais se case.