2025: o ano da normalização do anormal

 

by Valdo Virgo, desenhista
via Correio Braziliense

Artigo publicado no Correio Braziliense de 28 dezembro 2025

José Horta Manzano

Já estamos no futuro? Pois ele me parece bem diferente de tudo o que costumavam nos prometer no passado. Nos diziam que, no século 21, tudo seria “atômico” (termo da época para designar a modernidade), que os carros deslizariam pelo ar, que a comida se resumiria a pílulas coloridas, que viajaríamos à Lua com a velocidade do pensamento. Tirando o russo Putin, que não se cansa de nos lembrar que ele a possui, a arma atômica saiu do noticiário. Carros continuam se arrastando no engarrafamento insano das metrópoles. A comida continua baseada em prosaicos arrozes e feijões. Apesar de uma ou outra nave enviada à Lua, o astro continua mais ao alcance dos namorados que dos turistas.

Mas que diferença há então entre hoje e algumas décadas atrás? Vivíamos na quase certeza de que uma guerra entre nações de Europa e América fosse fantasma do passado, devidamente exorcizado e enterrado. Trágico engano. Aliás, essa impressão de paz garantida está entre os fatores que contribuíram para o ressurgimento de robustas falanges de extrema direita. A assunção do presidente Trump, em janeiro 2025, assustou as gentes e ribombou como trovão em céu azul. Brutal e impiedoso, o novo inquilino da Casa Branca, verdadeiro viking emerso de tempos primitivos, passou a comportar-se como se senhor dos mundos fosse. Ameaçou anexar o Canal do Panamá, a Groelândia e até seu vizinho do norte, o imenso Canadá. Prometeu expulsar 11 milhões de estrangeiros. Fez olhos lânguidos para o déspota Vladimir Putin. Bombardeou o Irã. Afagou Netanyahu, enquanto este destruía, com canhões e mísseis, o formigueiro miserável em que Gaza se transformou. Para coroar, aumentou dramaticamente os impostos de importação americanos, perturbando os fluxos da economia mundial.

Após o fulgurante progresso que tem feito, a IA deixa de ser vaga promessa e vai-se instalando como infraestrutura silenciosa de poder. A política econômica global passou a viver aos sobressaltos, com juros elevados e crescimento baixo. Todos os países, sem exceção, vivem em permanente estado de alerta, sempre na aflitiva espera do próximo anúncio bomba de Mr. Trump. O anormal normalizou-se.

E o Brasil nessa ebulição? É curioso notar que, em nosso país, dispensamos influências d’além-mar para abalar o curso de nossa existência. Sabemos muito bem como nos aperrear nós mesmos. Na política brasileira, 2025 foi o ano em que o futuro perdeu o glamour. Tivemos, já para o final do ano, o julgamento dos réus da sedição de 22-23, que deixou um epitáfio nulo: nenhum dos condenados exprimiu arrependimento – numa confirmação tácita que dispensa confissão.

Para quem ainda contava com alguma renovação do discurso político, o que sobrou foi a sempiterna gestão de crises. Assistimos à ressurreição de debates antigos, como soberania, nacionalismo, protecionismo. Incansável, o discurso presidencial insiste na velha pregação lulopetista de um Estado forte. Apesar da renovação pela qual passou a Câmara, com a entrada de representantes mais jovens e, esperava-se, portadores de ideias novas, nossa política continua entravada, pouco criativa, distante dos anseios dos eleitores, sempre mais reativa que propositiva. O próprio governo e, em certa medida, também a oposição, jogam para “não perder”, com pouco empenho em se preparar para as transformações de 2026.

Assim, vamos nos preparando para as eleições do novo ano, com pouca imaginação e uma dose de temor. O ‘Centrão’ vai se ampliando como força dominante de nosso Congresso, um agrupamento de contornos indefinidos, com parlamentares sem grude que os ligue, unidos tão somente por uma ganância sem freios, indigna de representantes do povo. Esse centro, em que vicejam personalidades amorais e apolíticas, funciona como espaço de contenção, não de liderança.

Se 2025 nos ensinou algo, foi que a política não está à beira de uma ruptura, mas está se acomodando num estado crônico de tensão estéril. É possível que 2026 não traga grandes eventos. E talvez seja exatamente isso que devemos temer.

Feliz ano novo a todos.

O chanceler alemão e seus problemas

Friedrich Merz, chanceler da Alemanha
by Silvan ‘Swen’ Wegmann, desenhista suíço

 

Artigo publicado no Correio Braziliense de 3 dezembro 2025

José Horta Manzano

Quinze dias atrás, Herr Friedrich Merz, chanceler da Alemanha, fez uma declaração de desdouro ao Brasil, em especial à cidade de Belém, que o tinha recebido dias antes. Discursando perante uma seleta plateia na Associação Alemã do Comércio, foi direto ao ponto: contou que se sentiu feliz de poder deixar “aquele lugar” e voltar a seu país após a visita de um dia que fez à COP30. De suas palavras, exalou profundo desprezo.

O mundo estranhou a declaração. No Brasil, então, ela causou forte rejeição ao personagem. Arguiu-se que era de mau gosto tratar assim o país que o havia acolhido. Ficou, principalmente, a desagradável sensação de um visitante arrogante, que houvesse explodido devido ao acúmulo de pressões profissionais ou pessoais. Talvez o calor equatorial tenha sido demasiado para seu fusível, que acabou queimando.

Que ninguém tome este escrito por tentativa de desculpar o chanceler alemão. Não é esse meu propósito. É que, quando o chefe do governo de um país importante age como esse senhor agiu, fico curioso para descobrir o que lhe pode ter passado pela cabeça naquele momento. Excetuando raros líderes como o atual presidente dos EUA, não é comum ouvir essa gente falando abobrinha.

Quando pisou o solo brasileiro em Belém, o senhor Merz estava a dois dias de seu aniversário de 70 anos. Talvez o aproximar da cifra arredondada lhe tenha perturbado a ideia. Nem todos enfrentamos de bom humor a entrada em nova década de vida. Excetuando essa desculpa anedótica, os caminhos atuais da política de seu país devem estar-lhe dando calafrios.

Para os mais jovens, a queda do Muro de Berlim faz parte da história. Já para os mais antigos, foi acontecimento espantoso, acompanhado no dia e na hora. Este escriba teve o privilégio de assistir pela televisão ao vivo.

Naquela noite de 9 para 10 de novembro de 1989, os principais canais da Europa suspenderam a programação para transmitir as inacreditáveis imagens que chegavam de Berlim, o povo aglomerado ao pé do Muro, centenas de jovens inebriados diante do inesperado momento de liberdade, os carrinhos Trabant estalando e petardeando ao transpor a passagem entre a Berlim-Este e Berlim-Oeste, gente a pé, gente de bicicleta, todos de sorriso deslumbrado, recebidos por uma turma também sorridente e solícita apesar da noite fria de novembro. Foram imagens que ficaram na retina para nunca serem esquecidas.

Menos de um ano depois, estavam reunificadas as duas Alemanhas, que eram relíquias da divisão do país decidida na Conferência de Potsdam, em 1945. Assim, em princípio, a Alemanha Oriental (comunista) e a Ocidental (capitalista) passaram a formar um único país. No entanto, passados 36 anos, as duas antigas Alemanhas ainda não formam um Estado uniforme.

O salário é um bom exemplo. Nos estados da antiga Alemanha Ocidental (capitalista), o salário mensal médio é hoje de 4.810 euros. Já nos estados que formavam a antiga Alemanha socialista, o salário é de 3.973 euros. O número de desempregados é outro indicador da desigualdade. Nos estados da antiga Alemanha Ocidental, a taxa é de 5,7% de desempregados, enquanto ela é de 7,5% nos estados orientais. A diferença dos PIBs per capita é ainda mais impressionante. No Oeste, 54.162 euros, e no Leste, 37.711 euros. O envelhecimento da população é outro indicador que denota a baixa atividade produtiva do Leste em contraste com o Oeste.

Essas disparidades entre estados alemães é perigosa. O permanente descontentamento da população da antiga Alemanha socialista é caldo de cultura propício à criação de partidos políticos saudosistas, que se aproveitam da insatisfação para se implantar e florescer. O AfD, partido da extrema direita xenófoba e neonazista, professa ideologia nacionalista, excludente, antieuropeia e anti-imigração. A cada nova eleição, tem plantado raízes cada vez mais profundas na antiga Alemanha comunista. Eis o exemplo de um movimento que, a continuar crescendo, periga balançar a democracia alemã.

Herr Merz é primeiro-ministro há somente 6 meses. Além das dores de cabeça causadas por uma Ucrânia invadida pela Rússia e das contrariedades do dia a dia, o chanceler tem esse problemão de conduzir duas Alemanhas que se entendem mas não se compreendem. Ele não quer passar para a história como aquele que facilitou a volta do nazismo a seu país.

A assombração da Rússia

Artigo publicado no Correio Braziliense de 29 outubro 2025

José Horta Manzano

Todo país com pretensões ao status de potência global tem de seguir o receituário tradicional, do qual não é possível escapar.

Em primeiro lugar, é preciso ter uma superfície que lhe garanta massa crítica. Se, ao longo da história, países de território pouco imponente chegaram a se impor em campanhas bélicas, a série de vitórias não sobreviveu à escassez de alimentos e matérias primas decorrente da falta de châo.

Em seguida, o candidato a potência tem de investir na indústria bélica. É o que sempre fizeram países tradicionalmente poderosos, e é o que tentam fazer candidatos prejudicados pela pouca extensão territorial, como a Coreia do Norte e o Irã.

Em terceiro lugar, toda potência mundial que se preze tem de contar com população importante. Veja-se o caso da China, cuja população, após décadas de “política do filho único”, decidiu adotar política natalista. Países que miram ao status de potência global não podem se permitir conviver com decréscimo populacional.

A Rússia de Vladimir Putin, herdeira da grande, forte e temida União Soviética, vem empenhando todas as forças na recuperação do prestígio de antanho. De fato, o desmonte da URSS, no início da década de 1990, deu lugar a anos conturbados, durante os quais saltaram à vista as enormes dificuldades que a competição forçada com o Ocidente havia provocado no país.

Em seu reinado, que já dura um quarto de século, Putin se propôs dois objetivos primordiais: 1) permanecer no poder e 2) restabelecer a grandeza do antigo império russo. O boné MAGA de Trump, uma vez transliterado, cairia bem como mote putiniano para a Rússia de hoje, algo como Make Russia Great Again.

Se tivesse vislumbrado o desastre que a campanha da Ucrânia estava por ocasionar, Putin talvez tivesse deixado a ideia de molho para momento mais propício. Na luta para recobrar o status de potência global, perdido há 35 anos, o ditador russo conta com dois aliados fiéis: a imensa superfície e o potencial bélico de seu país. Da área, não se discute, visto que se trata do maior país do mundo. Da indústria bélica, tampouco, visto o poder de dissuasão de seu arsenal nuclear.

Mas essa conta não fecha. Para complementá-la, um forte contingente populacional está faltando. Se a Rússia já assistia a um declínio de seu número de habitantes estas últimas décadas, a agressão contra a Ucrânia e a guerra que daí decorreu vêm agravando a crise. Um levantamento vazado do ministério russo da Defesa no começo do mês informa que, entre os combatentes, 280 mil perdas teriam sido registradas só nos primeiros nove meses deste ano. Note-se que os mortos são em geral homens jovens, na faixa dos 25 a 39 anos, idade em que se entra de pé firme na vida ativa de trabalho.

Sangria adicional está ocorrendo em outra camada da população, na classe média superior. Os homens em idade de ser recrutados fogem do país e emigram para países da vizinhança ou até para o sul da Ásia ou para a Europa. Algumas projeções estimam essa emigração a um milhão de cidadãos só nos primeiros dois anos da guerra.

Um cruel círculo vicioso está formado. Quanto mais tempo dura a guerra, maior será o fluxo emigratório e mais dramáticas serão as perdas humanas. Uma guerra de trincheiras, como essa, precisa de carne de canhão, o que tende a causar maior morticínio entre os conscritos e a encorajar a emigração. A seguirem as coisas como estão, não é tão já que Putin porá fim ao espectro do despovoamento de seu país.

A voluntariosa entrada de tanques de guerra russos em direção a Kiev nos primeiros dias da invasão botou medo em muita gente. Muitos imaginaram rever o grande exército vermelho, aquele que tinha fincado a bandeira da URSS no topo do Reichstag, em Berlim, em 1945. No entanto, contrariando todos os prognósticos, os corajosos ucranianos conseguiram a proeza de repelir os tanques e salvar a capital de seu país.

A força bélica da Rússia reside em seu arsenal de mísseis e de ogivas. A imagem que se tem das tropas de solo saiu meio arranhada depois da campanha (e da retirada) de Kiev.

O melhor impulso que Putin poderia dar a seus sonhos de grandeza seria decretar já o fim das hostilidades, equipar e treinar melhor seus soldados e adotar uma política de abertura do país à imigração. Sem essas medidas, sua quimera de reaver a grande Rússia estará cada dia mais distante da realidade.

A solidão do Brasil

by Caio Gomez (1984-), desenhista brasiliense

Artigo publicado no Correio Braziliense de 29 setembro 2025

José Horta Manzano

Se fosse possível ir dormir, logo mais à noite, e só acordar nos anos 2030, descobriríamos um mundo bem diferente do que conhecemos hoje. As mudanças não serão impactantes, detectáveis ao primeiro olhar. O arroz e o feijão continuarão a frequentar o prato do brasileiro, o sol continuará estalando mamona, as aves que aqui gorjeiam continuarão gorjeando melhor que lá.

Talvez o assustado recém-desperto precise observar o mundo por uns dias, conversar aqui e ali, ler as notícias. Vamos deixar essa leitura das notícias entre parênteses por enquanto. Mais adiante, vosmicê vai entender por quê.

Até outro dia, o planeta já não andava bem. Guerras mortíferas e intermináveis na Ucrânia e na Palestina; a França expulsa de suas antigas colônias africanas, que preferiram o guarda-chuva russo; na Venezuela, em El Salvador e na Nicarágua, a ditadura apertando cada dia mais o torniquete. Não, as coisas não andavam nada bem.

O povo dos EUA teve a – a meu ver, infeliz – ideia de eleger Donald Trump para a Presidência. Há apenas nove meses no poder, ele tem tomado atitudes do arco da velha. Por decreto, lançou um festival de aumentos nos impostos de importação afetando praticamente todos os países, e o Brasil em especial. Deu o tiro de largada a uma verdadeira caça às bruxas na mídia: quem não disser o que ele quer ouvir será perseguido. Estrangulou as finanças das universidades que não se comportassem como ele queria.

Na feliz expressão de Garry Kasparov, tradicional estrela do enxadrismo, Trump pôs os EUA em processo de “putinização”. Kasparov referiu-se à crescente tomada de controle, determinada por Trump, da formação universitária dos jovens americanos e da triagem prévia da informação, visando a abafar toda voz crítica ou discordante antes que circule. Por “triagem”, entenda-se censura.

É permitido supor que, ao despertar daqui a seis ou oito anos, vosmicê se depare com os Estados Unidos já espoliados do regime democrático que um dia serviu de farol ao mundo. Terão se tornado um país de regime autoritário, fechado, semiditatorial, hostil a estrangeiros, um país no qual o cidadão pensará duas vezes antes de fazer uso da palavra ou de postar um comentário nas redes.

Se os Estados Unidos fossem um país de segunda linha, o fato de seu regime ter endurecido não traria problemas ao planeta. Mas trata-se do país mais rico e mais poderoso, o que causa, sim, um problemão. Um país fechado e hostil não terá mais os requisitos para ocupar um dos polos do tabuleiro mundial.

Dessa forma, os grandes países terão se tornado ditaduras ou semiditaduras: EUA, China e Rússia entram nesse figurino.

O Brasil, por seu lado, segue sua trajetória particular. Num momento de recrudescência autoritária das grandes potências, nosso país não aceita mais o papel de submisso ou avassalado. Nossa índole e nossa vivência já não admitem receber ordens de potência nenhuma, nem Washington, nem Pequim, nem Moscou. Com diplomacia voltada para a paz, prezamos nossa independência e nossa soberania.

Um mundo de governança multipolar é o que o Brasil tem almejado estes últimos tempos. Acordar daqui a alguns anos e constatar que todos os polos dessa nova governança são potências ditatoriais será um choque. E uma decepção. Nesse contexto, o Brasil dificilmente se entregará de peito aberto a uma das doutrinas dominantes. Nosso país não aceitará transformar-se em mero parafuso na engrenagem das potências.

A situação trará um problema. Sem aderir plenamente à órbita de atração de nenhum dos polos dominantes, como fazer para nos manter firmes na defesa de um sistema aberto, democrático, pluralista e humanista, quando todos ao redor tiverem sucumbido à lei da selva? O Brasil está condenado a flutuar, sem órbita fixa, como elétron livre no vácuo. Até quando resistiremos à força de atração das potências maiores?

Nossa escolha será complicada. Por um lado, temos de pensar no custo de uma luta solitária para manter nossa soberania e nossas liberdades. Por outro, temos de considerar o preço a pagar pelo abandono das liberdades que conseguimos conquistar com tanta luta.

Há fortes indícios de que teremos de refletir sobre o tema dentro em breve. Diante do dilema, teremos de decidir. É possível que nosso cacife não seja suficiente para nos permitir ficar em cima do muro.

Depois da morte

by Maurenilson Freire
desenhista cearense-brasiliense

 

José Horta Manzano

Artigo publicado no Correio Braziliense de 1° setembro 2025

No Brasil, a crença na reencarnação perpassa todos os estratos sociais. Está nos muito ricos, nos muito pobres e nos remediados. Vai da favela ao condomínio de luxo, atravessando fronteiras de classe e instrução. Junto com o arroz com feijão, a novela das oito e o futebol de domingo, o reencarnacionismo é parte constitutiva da identidade nacional. Mesmo não sendo dogma oficial de nenhuma grande igreja tradicional, e mesmo sendo incompatível com a doutrina católica, está profundamente enraizado no imaginário coletivo do brasileiro.

O sincretismo é traço peculiar da nossa religiosidade. Assim como orixás e entidades das crenças africanas se amalgamaram a santos e arcanjos da fé católica, a ideia de múltiplas vidas foi se entranhando na crença popular, servindo de pano de fundo para todo um universo esotérico – de médiuns de televisão a centros de mesa branca, passando por horóscopos, regressões, florais e cristais. O brasileiro, mesmo quando diz “não acreditar em nada”, costuma bater na madeira três vezes “só por via das dúvidas”.

E quanto mais se envelhece, mais a questão do depois vai se infiltrando no pensamento. O que virá depois do último suspiro? Costumo dizer, em tom de brincadeira (mas com sinceridade), que não me agradaria passar a eternidade sentado numa nuvem, de camisola branca, tocando lira, esperando não sei bem o quê. Um céu estático e entediante não me seduz. Já a doutrina espírita parece bem mais dinâmica, instigante até. Nela, a morte é apenas um ponto de passagem entre duas jornadas. Com ela, entra-se em fase de aprendizado, reflexão e planejamento, antes de reencarnar para mais uma etapa da longa caminhada.

Se for assim mesmo – se a alma tiver mesmo que voltar –, quero fazer um pedido modesto. Aceito ir e vir quantas vezes for necessário, sem medo, livre e galhardo. Mas não quero voltar a este planeta. Peço licença para seguir adiante, para outro mundo, uma outra Terra, quem sabe, mais justa, mais humana, mais honesta, mais igualitária. Uma sociedade menos estressante, menos predatória, mais sensível ao sofrimento alheio. Um planeta habitado por gente de boa vontade e incapaz de odiar, gente que ri com facilidade e vive com leveza.

Digo isso com o peso de quem sonhou diferente. Os da minha geração, quando jovens, acreditávamos sinceramente que a humanidade, em poucas décadas, teria superado sua fase mais bárbara. Achávamos que a era de Aquário traria sabedoria, paz e equilíbrio. O tempo passou e, infelizmente, nos desmentiu um bocado.

Houve avanços significativos, sim. Hoje se viaja pelo espaço, há curas médicas antes inimagináveis, a tecnologia nos conecta em tempo real, o número de analfabetos caiu, a expectativa de vida subiu, e o número de famintos diminuiu. Mas os retrocessos gritam. A violência atingiu um nível intolerável, a desigualdade persiste com cara renovada, e nacos do nosso território são hoje terra sem lei, dominada por forças paralelas – narcotráfico, milícias, facções. A educação pública foi sendo sucateada, minada de dentro para fora. Em vez de formar cidadãos, forma estatísticas. A ignorância, antes vergonha, agora é ostentação. Ou pior: há quem prefira permanecer nela, por conveniência ou por preguiça.

E não é só aqui. O mundo parece tomado por uma onda de lideranças sombrias, despóticas, personagens trevosos que cavam trincheiras em vez de pontes. Vampiros modernos, sedentos de poder, ergueram seus tronos em territórios diversos: nos Estados Unidos de Trump, na Rússia de Putin, na Venezuela de Maduro, na Coreia do Norte dos Kim, na Nicarágua de Ortega. Há também regimes disfarçados, onde a repressão vem com verniz de ordem e progresso. O Brasil, por exemplo, sob o clã dos Bolsonaros, por pouco não cruzou a fronteira que separa a democracia frágil do autoritarismo escancarado.

No mundo para onde quero voltar, esse tipo de liderança não existe. Não pode haver lugar para os que mentem em série, que instrumentalizam a fé alheia, que manipulam a verdade conforme lhes convém. E menos ainda para seus fiéis seguidores, cegos por preguiça, fanatismo ou desinformação. Quero viver num lugar em que a verdade não seja alvo de disputa, em que os direitos humanos não sejam vistos como “coisa de comunista”, em que a empatia não seja taxada de fraqueza.

Se um mundo assim existir – e há de existir, algures, entre os bilhões de planetas que coalham nosso céu noturno –, é para lá que quero ir. Nem que precise renascer com aspecto de homenzinho verde, de três olhos, com três dedos em cada mão.

O legado de Trump: a nacionalidade em xeque

José Horta Manzano

Artigo publicado no Correio Braziliense de 24 julho 2025

Pode parecer cedo, passados apenas seis meses de governo, para falar em legado da presidência de Donald Trump. Há ainda um longo caminho até o término de seu mandato, e o cenário político dos Estados Unidos anda por demais volátil. No entanto, mesmo nesse estágio inicial, já se delineiam traços que provavelmente marcarão de forma duradoura a história americana, chegando a influenciar outros países nas décadas por vir.

Trump ascendeu à presidência com um discurso duro, inflamado e nacionalista, sustentado por métodos políticos pouco ortodoxos. Seus modos abrutalhados, frequentemente à margem de práticas diplomáticas e institucionais, têm deixado marca em diversos setores da vida pública americana. O estilo de governo que impõe, centralizador e inflexível com o dissenso, é próprio de quem detém grande poder e não hesita em usá-lo até os limites – por vezes, além deles.

Espera-se, naturalmente, que esse modo de governar não vire padrão. Imagina-se – e deseja-se – que futuros presidentes dos EUA abandonem a mão pesada que Trump tem imprimido à condução do Executivo. Ainda assim, seu impacto não se limitará ao tempo presente. Em alguns aspectos, pode vir a alterar, de maneira profunda, os próprios fundamentos da cidadania americana.

Um desses aspectos é o princípio de jus soli, o direito à nacionalidade pelo local de nascimento. Embora esse conceito esteja hoje solidamente ancorado na Constituição e na cultura dos EUA, já se vislumbram sinais de que esse alicerce pode ser abalado. Os discursos e ações do presidente em relação aos imigrantes, estudantes estrangeiros e visitantes forasteiros não deixam dúvidas: o ideal de uma América aberta a quem nasce em seu solo está sob ameaça.

O jus soli – princípio segundo o qual basta nascer em território nacional para adquirir automaticamente a cidadania – é uma peculiaridade de poucos países, quase todos situados no continente americano. A razão é histórica. Quando as colônias europeias das Américas se tornaram independentes, foi necessário estabelecer critérios para definir a cidadania de cada indivíduo. Como resultado, adotou-se majoritariamente o princípio da territorialidade.

Nos Estados Unidos, o jus soli foi consagrado na 14ª Emenda à Constituição, aprovada em 1868, após a Guerra Civil, para garantir cidadania aos filhos de escravos alforriados nascidos em solo americano. Desde então, essa norma se manteve, intocada. Países como o Brasil e praticamente todos os ibero-americanos valeram-se de regra semelhante para embasar sua política de nacionalidade.

Mas o governo Trump reintroduziu no debate político americano ideias há muito marginalizadas: o nacionalismo étnico, o apego a jus sanguinis (nacionalidade por filiação sanguínea) e a noção de que a cidadania deve ser um privilégio concedido, não um direito automático. O uso frequente de expressões como “raça americana” e a valorização de uma “herança nacional” restritiva dão pistas claras do caminho que Trump e seus apoiadores gostariam de seguir.

Se esse rumo se consolidar, os efeitos perigam se tornar profundos e duradouros. A revogação do jus soli representaria não apenas uma mudança legal, mas uma transformação simbólica na identidade americana. Os Estados Unidos deixariam de ser a terra de oportunidades acessível a todos para se tornarem uma comunidade fechada, definida por laços de sangue, e não mais por um contrato social baseado na inclusão e na integração.

Mais inquietante ainda é a possibilidade real de esse modelo ser exportado. A história demonstra que movimentos políticos nos Estados Unidos frequentemente repercutem em outras partes do mundo, especialmente nas Américas. Não seria impensável, portanto, que o Brasil viesse a seguir o mesmo caminho num futuro não muito distante.

Hoje, a Constituição brasileira garante a cidadania a qualquer pessoa nascida no território nacional, ainda que de pais estrangeiros. Mas num país ao qual imigrantes já não acorrem em massa, e onde o tema da identidade nacional volta e meia é instrumentalizado politicamente, uma eventual mudança nesse sentido poderia passar quase despercebida. A substituição de jus soli por jus sanguinis não afetaria a maioria da população no curto prazo, o que tornaria a transição mais palatável – em todo caso, menos exposta a contestação.

Assim, o legado de Trump pode se estender muito além de suas fronteiras e de seu tempo na presidência. Ao desafiar princípios centrais do ideal democrático americano, o ex-presidente contribui para o enfraquecimento de valores universais como a inclusão, a igualdade e o direito de pertencer. Se a cidadania passar a ser tratada como um privilégio hereditário, não como um direito civil, estaremos diante de uma regressão histórica cujas consequências serão sentidas por gerações.

Extremos que não se equivalem

Estilingue

José Horta Manzano

Artigo publicado no Correio Braziliense de 26 junho 2025

Há uma tendência recorrente de colocar extrema esquerda e extrema direita no mesmo plano moral e histórico. A ideia de que uma seria o espelho da outra com sinais trocados não resiste a uma análise mais profunda. Embora o radicalismo seja a tônica de ambas, os fundamentos ideológicos, as motivações e os objetivos que as movem são substancialmente diferentes.

A extrema direita tem obsessão pela origem, pelo sangue e pelo pertencimento nacional, assumindo a pátria o valor absoluto. Os que não se encaixam nesse modelo idealizado de cidadão – muitas vezes branco, cristão e “puro” – são considerados ameaça interna. Esse discurso não raro se manifesta na retórica do “resgate de valores tradicionais” ou na defesa de um nacionalismo agressivo e excludente. São os autodenominados “patriotas”, guardiães de uma identidade nacional que não passa de invenção nostálgica de um tempo que não existiu.

Já a extrema esquerda, apesar de também incorrer em excessos e, por vezes, de flertar com o autoritarismo, parte de uma premissa bem diferente. Seu ponto de partida costuma ser a tentativa – nem sempre bem-sucedida – de erradicar a miséria, promover justiça social e melhorar as condições de vida de todos, independentemente de raça, cor, religião ou origem. Se, por um lado, pode perder-se em dogmas ou práticas centralizadoras, por outro, tem como horizonte um projeto de inclusão e equidade. Essa diferença, por si só, já impede que as duas extremas sejam vistas como farinha do mesmo saco.

O ponto de contato entre ambas, sem dúvida, está no recurso à violência como ferramenta política. Quando a moderação é abandonada, quando o diálogo é substituído pela imposição, os extremos se encontram na radicalização dos meios – ainda que os objetivos sejam distintos.

O caso norte-americano
Há casos emblemáticos da ascensão da extrema direita em democracias consolidadas. Trump é o retrato fiel de uma política voltada para trás, centrada em uma ideia mitificada do passado americano. Em seu slogan de campanha “Make America Great Again”, o “again” (de novo) revela esse desejo de regressão a um tempo idealizado – uma época marcada por ordem, prosperidade e respeito internacional, mas que na prática era também um tempo de exclusões sistemáticas.

Essa nostalgia política se traduziu em políticas de segregação e exclusão. Sua hostilidade aberta contra imigrantes latino-americanos ou de fé muçulmana e seu discurso racista e xenófobo constituem uma ruptura da igualdade preconizada pelos fundadores do país. A obsessão pela raça e pelo pertencimento nacional torna-se, então, não apenas perigosa, mas solapadora para a democracia.

Trump, como muitos líderes de extrema direita, mostrou-se incapaz de governar de forma ampla e responsável. Suas decisões estouvadas e sua recusa de aceitar as regras democráticas deixaram os EUA à beira de uma crise institucional. Ainda assim, parte significativa da população parece hipnotizada e inerte diante de seus abusos – fenômeno que inquieta outras democracias pelo mundo.

Brasil: uma história diferente?
No Brasil, um país miscigenado, a noção de “raça” como critério de exclusão perde consistência. É impossível definir os contornos raciais de um povo marcado pela mistura. Isso levou nossa extrema direita a buscar outros marcadores para cumprir papel excludente.

No nosso contexto, a religião tem sido usada como ferramenta de segregação e controle. As denominações neopentecostais foram alçadas ao status de guardiãs da moral nacional, enquanto outras religiões passaram a ser vistas com indiferença ou até com hostilidade. O fato religioso tornou-se combustível para a radicalização e a divisão social.

A violência, antes simbólica, ganhou corpo na sedição do 8 de janeiro. Os líderes da intentona jamais se retrataram de seus atos. A extrema direita brasileira, à semelhança da americana, tem tentado se escorar numa visão messiânica de mundo, com resultados alarmantes.

Apesar das desigualdades persistentes, da violência urbana e da crise política permanente, o Brasil tem algo que, nos últimos anos, mostrou-se vital: instituições que funcionam. Ao contrário dos Estados Unidos, cujo sistema judiciário parece paralisado diante de um presidente que o desafia abertamente, o Brasil conseguiu reagir.

Nos momentos mais críticos, coube ao Judiciário atuar como último bastião à beira da ribanceira. Nossas instituições resistem aos impulsos autoritários e mantêm, com esforço, o país em rota democrática. Diante de tanta desgraça, esse é um fator que não deve ser desprezado.

Para lavar a afronta

José Horta Manzano

Artigo publicado no Correio Braziliense de 27 maio 2025

Houve um tempo em que afronta se lavava com sangue. Era assim entre iguais, entre aqueles que, mesmo em oposição, se reconheciam mutuamente como dignos do duelo. A honra ultrajada exigia reparação imediata, e essa lógica imperava entre nações soberanas quando sua dignidade era colocada em xeque. Mas os tempos mudaram, ao menos para alguns.

Há alguns dias, o Brasil foi alvo de uma afronta insuportável, de dimensões diplomáticas e institucionais alarmantes. O Secretário de Estado dos Estados Unidos declarou ser “muito provável” que o ministro Alexandre de Moraes, integrante da mais alta corte do Judiciário brasileiro, venha a ser sancionado formalmente pelo governo norte-americano. Não se trata de uma crítica. Trata-se de uma ameaça concreta, com consequências graves e pessoais.

A sanção mencionada carrega implicações profundas, não apenas simbólicas, mas materiais: congelamento de bens sob jurisdição americana, bloqueio de cartões de crédito com bandeiras dos EUA, fim da concessão de visto de entrada no país, proibição de negociações com empresas e cidadãos americanos e até a suspensão de perfis em plataformas digitais de empresas sediadas em solo estadunidense, como Google, YouTube e outros serviços da mesma família corporativa. Trata-se, em suma, de uma exclusão sistemática da vida globalizada moderna – um banimento que ultrapassa fronteiras físicas e se infiltra no quotidiano digital.

Ora, qualquer cidadão minimamente atento deveria ter se perguntado: que país é esse que vê seu magistrado supremo, no exercício de suas funções, ser ameaçado de forma tão insolente e explícita, e apenas debate os danos pessoais que a sanção pode acarretar ao ministro?

Porque o cerne do problema não é o indivíduo Alexandre de Moraes, mas o que ele representa. O alvo é o Supremo Tribunal Federal. É o Poder Judiciário. É, por extensão, a soberania do Estado brasileiro e a dignidade institucional de todos os seus cidadãos. A ofensa ultrapassa o homem e atinge a estrutura da República. Através da figura de Moraes, é o Brasil que se vê retratado como indigno, como país sem lei ou ordem legítima, sujeito à tutela moral e política de outra nação.

Não é necessário simpatizar com o ministro, nem endossar todas as suas decisões – o debate democrático permite crítica a qualquer autoridade pública. Mas há uma linha que não pode ser cruzada sem que haja consequências, ao menos morais: a linha da submissão silenciosa a um insulto dessa magnitude. Quando uma potência estrangeira cogita sancionar um membro do Judiciário de outro país por suas ações no exercício da função, o que se está dizendo, de maneira tácita mas eloquente, é que aquele país já não é considerado par. É um satélite, uma colônia errante no século XXI.

No entanto, estamos de mãos atadas. As ferramentas de que dispomos para reagir são poucas e limitadas. Um protesto diplomático, talvez a convocação de nosso embaixador em Washington. Nada que realmente reverta o quadro ou restabeleça o equilíbrio. Entre iguais, lavava-se afronta com sangue. Não é mais o caso entre Brasil e Estados Unidos. Não temos os meios para enfrentar de igual para igual a potência que nos agride. Somos, neste momento, a parte fraca da equação.

Mais do que nunca, isso nos obriga a uma reflexão incômoda: que imagem temos projetado ao mundo? Que tipo de país somos, afinal, se aceitamos calados o rebaixamento institucional de nossas autoridades? A hostilidade americana não surgiu do nada — é sintoma de uma desordem mais profunda. Um país que se dobra internamente diante de chantagens, desinformação e golpismo não pode esperar respeito externo. De tanto brincar com coisa séria, fomos parar de cabeça pra baixo no centro de um mapa-múndi invertido.

A única atitude que nos resta é seguir adiante com firmeza institucional, sem recuar diante da pressão externa, sem hesitar em cumprir os ritos democráticos. O Supremo Tribunal Federal, encabeçado por ministros designados segundo o devido processo constitucional, precisa manter sua autonomia e levar até o fim o julgamento dos envolvidos na ousadia criminosa do 8 de janeiro. Não se trata de vontade política – trata-se de dever institucional.

A integridade da República está em jogo. E embora não possamos lavar essa afronta com sangue, ainda podemos – e devemos – lavá-la com dignidade, coerência e firmeza democrática.

A dança instável do poder global

by Serdar, desenhista turco

José Horta Manzano

Artigo publicado no Correio Braziliense de 24 abril 2025

O tabuleiro geopolítico mundial assemelha-se, cada vez mais, a um palco onde os atores, antes bem definidos em seus papéis, ensaiam movimentos fora do roteiro, sob o olhar perplexo de uma plateia incrédula. O brilho da outrora incontestável hegemonia americana, farol seguro e firme, vai se atenuando de modo lento mas inexorável. Não se trata de apagão súbito, é crepúsculo gradual decorrente de medidas tomadas por Donald Trump. Elas corroem o poderio do próprio país que ele tencionava proteger. O remédio que ele receita revela-se demasiado tosco para fazer bem ao país debilitado. Por tabela, sacode as relações político-comerciais entre as nações.

Esse cenário de relativo declínio americano abre uma fresta de oportunidade para que outras potências reconfigurem a balança de poder, mexendo na dinâmica das relações internacionais por caminhos que ainda não compreendemos mas que já se deixam adivinhar.

Nesse intricado xadrez global, a China emerge com desenvoltura de mestre estratégico. O dragão asiático, impulsionado por décadas de crescimento econômico, consolida a rede de influência que vem tecendo com seus parceiros em nível intercontinental. A ordem tradicional vê-se desafiada. As ambiciosas novas Rotas da Seda, com seus tentáculos de infraestrutura e investimento, redefinem laços comerciais e econômicos, enquanto a ascensão de empresas tecnológicas chinesas alarga as fronteiras da inovação.

Paralelamente, com a modernização constante de suas forças armadas, Pequim projeta uma sombra de poderio militar que açambarca águas e ilhas ao largo de seus mares meridionais. O país não apenas aproveita o vácuo deixado por um possível recuo americano, mas também molda ativamente um novo cenário global, no qual sua voz e seus interesses ocupam lugar central. A questão atual não é se a China ascenderá, mas como essa ascensão se dará e qual será seu impacto na arquitetura mundial.

Enquanto o eixo de poder parece deslocar-se para Oriente, a Europa, até outro dia coadjuvante nos dramas globais, prepara-se para um despertar estratégico. Uma ameaça existencial se agita em suas fronteiras orientais, com o conflito latente e as tensões persistentes a lembrarem a fragilidade da paz no continente. Essa percepção, somada a uma crescente dúvida sobre a efetividade do apoio americano, impulsiona um robusto movimento de rearmamento em diversas capitais europeias. O debate sobre a autonomia estratégica ganha força, impulsionando investimentos em defesa e a busca por maior coesão militar no âmbito da União Europeia. A Europa, consciente de seu peso econômico e de sua herança cultural, está determinada a não ser apenas um espectador passivo na redefinição da ordem global, buscando forjar uma voz unificada e um papel proativo na cena internacional. Contudo, a coordenação entre os diversos interesses nacionais e a superação de antigas rivalidades representam desafios consideráveis nessa jornada rumo a uma autonomia mais ampla.

No extremo oposto dessa dinâmica de ascensão e reafirmação, a Rússia encontra-se imersa num atoleiro que expôs as fissuras de seu projeto de restauração de influência. A aventura militar, concebida para reafirmar sua esfera de poder e desafiar a expansão da Otan, virou um sorvedouro de perdas humanas e materiais, com consequências econômicas devastadoras e um isolamento internacional danoso. A antiga imagem de um poderio militar incontestável ruiu sob o peso da realidade do conflito prolongado, lançando dúvidas sobre suas ambições geopolíticas. O sonho de reviver a velha glória imperial esbarra na dura contingência de um conflito que consome recursos e erode sua posição no cenário global. A saída desse lamaçal e a redefinição de seu papel no mundo pós-conflito representam um formidável desafio para Moscou.

Diante desse panorama complexo, o planeta observa, surpreso a cada episódio. As certezas do século XX, moldadas pelo fim da Guerra Fria e pela unipolaridade americana, se esvaem e cedem lugar a um futuro incerto e marcado por incipiente multipolaridade. A ordem liberal internacional, com suas instituições e seus valores, enfrenta o desafio da ascensão de novas potências com visões de mundo distintas e de rivalidades que ressurgem.

A globalização, outrora vista como força inexorável de convergência, revela suas arestas, suas contradições e seus limites, com o protecionismo e o nacionalismo ganhando terreno. A busca por novo equilíbrio global, capaz de garantir paz e prosperidade num mundo ora interconectado e, paradoxalmente, mais fragmentado, emerge como a grande questão para o século XXI. As respostas, por ora, permanecem nebulosas, enquanto a dança instável do poder global continua a surpreender com movimentos imprevisíveis.

O que sobra desta vida

Gruta de Lascaux, França: pinturas rupestres

 

José Horta Manzano

Artigo publicado no Correio Braziliense de 31 março 2025

O homem das cavernas caprichou na surpreendente arte pictórica, que acabou deixando para a posteridade rastros de sua existência. De fato, numa esplêndida prova de que os humanos de tantos milênios atrás já eram capazes de elaborar pensamento abstrato, pinturas rupestres feitas por artistas daquelas eras chegaram até o presente. Algumas delas são de beleza artística tão notável que poderiam rivalizar com a arte de nossos tempos.

Pinturas rupestres têm sido descobertas em cavernas do mundo todo: Américas, Europa, Sibéria, Extremo Oriente, Austrália. Embora alguns espécimes possam ser considerados obras de arte, sua importância transcende considerações meramente artísticas. Bem mais que isso, estão entre os parcos testemunhos dos primórdios de nossa espécie.

Num formidável salto no tempo, vamos passar agora da pré-história à história tal como a entendemos. Com a sociedade já organizada em vilarejos e burgos, com Estados governados pelo mais forte fisicamente, pelo mais inteligente ou pelo herdeiro de linhagem aceita como legítima, não se dissipou a aspiração ancestral do ser humano por deixar algum traço de sua passagem.

As tentativas individuais dos que viveram em tempos antigos e trataram de deixar uma marca perene nem sempre foram coroadas de sucesso. Guerras, invasões, terremotos, desmoronamentos, incêndios, inundações, erupções vulcânicas, vandalismo e abandono deram conta de esboroar orgulhosas construções, que acabaram virando pó. Palácios, estátuas, faróis, casas e mausoléus perderam-se no tempo.

O que, de verdade, sobra desta vida não são objetos materiais, por mais que sejam significativos. O prolongamento de cada indivíduo se faz através do que sua obra tem de imaterial. Temos, na história do Brasil, um caso curioso e que vem a propósito.

Dom Pedro II, nosso segundo e último imperador, esteve no trono por 58 anos, até que um golpe de Estado o depôs e o despachou para a Europa. Sua filha, a princesa Isabel, não chegou a ser coroada, logo nunca pôde ostentar o título de imperatriz. No entanto, numa ausência do imperador, coube-lhe assinar a Lei Áurea, a que libertou os últimos escravos. Por esse único gesto, é mais festejada que o próprio pai. Entre os vultos do império, a princesa é, no imaginário popular, a magnânima, figura simpática apesar de nunca ter tido cetro, nem manto, nem coroa.

Mas o mundo é vasto. É raro que personagens fiquem na lembrança por uma simples assinatura, como nossa princesa. É mais frequente que a inscrição na História seja fruto de uma sequência de medidas, fortes e impactantes, impostas com energia, que atinjam as estruturas da sociedade mundial. Os personagens que maior probabilidade têm de inscrever seu nome pelos séculos vindouros são os grandes líderes cujo legado tenha alcançado a façanha de perturbar a marcha da História – para melhor ou para pior.

Dito assim, pode parecer simples. Não é. O século 20 deixou uns poucos exemplos significativos. Adolf Hitler foi, sem dúvida, o personagem que mais fortemente sacudiu as bases da sociedade. Seus atos provocaram a inteira reestruturação política do mundo. Nenhum outro dirigente conseguiu, sozinho, causar tamanha revolução. O próprio Stalin não foi iniciador, mas continuador, da difusão do sistema comunista.

O século atual, a menos que um imprevisto lhe trunque a ascensão, já conhece o personagem que fará tremer as bases da sociedade: é Donald Trump. Talvez por dar-se conta de que o tempo lhe é contado, o presidente americano tem utilizado o poder que a força bélica e a capacidade econômica de seu país lhe conferem para atordoar um mundo até então embevecido com um já longevo statu quo.

Pela novíssima cartilha – que ainda ninguém decifrou –, inimigos de ontem são prestigiados e saem da berlinda, enquanto os amigos de sempre são hostilizados e tratados como inimigos. Os demais permanecem num temporário limbo, à espera de conhecer o destino que lhes será imposto pelo novíssimo “imperador do mundo”.

Neste momento, é impossível saber como estará a sociedade global ao fim do mandato de Mr. Trump. Ainda não se consegue predizer para que lado evoluirá o mundo. Conseguiremos retornar ao statu quo ante bellum – o estado em que estavam as coisas antes da guerra?

Sem medo de errar, podemos profetizar que não, que nada voltará a ser como antes. O mundo estará melhor? Pode ser, mas há controvérsia.

O fim da Pax Americana

by Maurenilson Freire, desenhista cearense-brasiliezse
via Correio Braziliense

José Horta Manzano

Artigo publicado no Correio Braziliense de 3 março 2025

A Pax Americana, que vigorava desde que o silêncio dos canhões anunciou o fim da Segunda Guerra, dá sinais de estar se esgotando. Num momento histórico como o atual, em que qualquer um pode afirmar, sem medo do ridículo, que Hitler era comunista, que o Tiradentes era gay ou que o papa é pedófilo, vai ficando claro que nada mais é como antes. Nosso mundo de confiança, acolhedor e reconfortante, vai se tornando um mundo de desconfiança, em que acordos de cavalheiros se tornaram vaga reminiscência histórica. Na atualidade, golpes baixos são assestados todos os dias pelas mais altas autoridades, restando às vítimas os olhos para chorar.

Faz apenas um mês que Donald Trump assumiu a Casa Branca. Nesse curto espaço de tempo, seu comportamento, reforçado pelo de J.D.Vance, seu vice-presidente, e pelo de Elon Musk, seu assessor especial, tem demonstrado que a solidariedade atlântica – base estável do que, até outro dia, se chamava Ocidente e que incluia a América do Norte e a Europa – está demolida, varrida, morta e enterrada. Em duas semanas, desmoronou e deixou de existir.

Pode-se até, sem forçar na caricatura, incluir a América Latina nesse falecido mundo atlântico. Excetuando-se uma ou outra erupção antiamericana aqui e ali, os países latino-americanos faziam parte desse mesmo universo. Relevem-se naturalmente “enfants terribles” tais como Cuba, Nicarágua, Venezuela.

Abrigada há 80 anos sob o guarda-chuva da proteção dos EUA, a Europa acorda assustada. A reviravolta é tão violenta e inesperada que chefes de Estado e de governo, parlamentares e outras autoridades parecem agitar-se, frenéticos, correndo de um lado para outro, tais formigas cujo formigueiro tivesse recebido vigoroso pontapé. Da noite para o dia, teme-se que os acordos consignados na Otan – tratado de defesa mútua assinado em 1949 entre EUA, Canadá, Turquia e 29 países europeus – tenham-se tornado subitamente letra morta.

Na guerra que se instalou em 2022 na sequência da invasão russa do território ucraniano, Trump já deixou claro seu apoio ao agressor, posição esdrúxula, que contraria o bom senso e o direito que os países livres e soberanos têm de defender o próprio território de ataques externos. Segundo Trump, Zelenski, o presidente da Ucrânia, que conta com 63% de aprovação de seu povo, não passa de um “ditador” que tem de mais é que se dobrar às imposições de Moscou. Da posição de Trump, os espanhóis diriam que é “un atropello a la razón”.

Trump não parou por aí. Foi além, saltou todas as linhas vermelhas e adotou ao pé da letra a posição de Moscou. Declarou, alto e bom som, que a Ucrânia terá o direito de aderir à União Europeia mas não à Otan. É exatamente o futuro da Ucrânia desejado por um Putin incomodado com a perspectiva de ter mais um membro da Otan à sua fronteira.

Zelenski, presidente da Ucrânia, mostrou prudentemente seu desacordo com as palavras de Trump. Já um indignado Emmanuel Macron, presidente da França, declarou que “Ninguém tem o direito de dizer que a Ucrânia não tem direito a entrar na União Europeia ou na Otan”. E embarcou para Washington a fim de repetir essas palavras a Trump, cara a cara. Como se vê, formigas desnorteadas se perguntam como é possível que lhes falte chão debaixo das patinhas.

Donald Trump, além de ser narcisista em alto grau, é dono de um ego desmesurado. Disso, o mundo já se deu conta. Outra faceta de sua personalidade, que vai se revelando com o passar dos dias, é a que o leva a não fazer distinção entre amigos e inimigos, aliados e adversários. A Europa é a maior aliada dos EUA, uma realidade de 80 anos, desde o fim da guerra. O desdém com que Trump tem tratado o aliado tradicional é estonteante.

Mas por que diabos o presidente americano está agindo assim? Louco, não é. Tem de ter em mente um plano, posto que seja inexequível. É plausível que, após analisar a atual situação geopolítica e considerado a inescapável ascensão da China, tenha decidido cindir o tabuleiro mundial em dois mundos, um capitaneado pelos EUA e o outro, pela China. Isso explica seu desejo de trazer a Rússia para seu campo, passando por cima da Europa – que considera favas contadas.

O plano até faria sentido, mas a forma estabanada como está sendo implantado pode pô-lo a perder. Se der certo, será a cortina de ferro ressuscitada, em outras coordenadas geográficas.

EUA e a caquistocracia

by Caio Gomez (1984-), desenhista brasiliense
via Correio Braziliense

José Horta Manzano

Artigo publicado no Correio Braziliense de 30 janeiro 2025

Corria a última década do século passado quando a palavra internet começou a circular. Ela já existia antes, mas só circulava entre peritos e iniciados. Naquela época, corria a voz de que logo logo essa tal de internet seria introduzida na firma em que eu trabalhava. A curiosidade me levou a procurar me informar junto a um colega mais enfronhado.

Por meio de esquemas e desenhos rabiscados num canto da mesa, o rapaz me explicou que internet representava o futuro da telecomunicação. Permitia que qualquer um, da comodidade de seu escritório, se comunicasse com qualquer pessoa ao redor do globo, instantaneamente, sem custo. Perguntei quem era o dono dessa maravilha. Quem se maravilhou com a resposta fui eu: a invenção não tinha dono.

Como assim, não tem dono? Confesso que não entendi bem como uma estrutura gigantesca poderia vir a existir e funcionar sem dono. Os anos passaram e internet se tornou a companheira inseparável de parte considerável da humanidade. Hoje em dia, sem internet, nada mais funciona. Nem trem, nem avião, nem hospital, nem firma, nem telefone. Nada mesmo.

Surgiram as redes sociais – que às vezes dá vontade de chamar de “redes associais”. Foram chegando de mansinho, infiltraram-se entre jóvens e maduros, entre ricos e remediados, entre inteligentes e cretinos. Com raras exceções aqui e ali, enredaram as gentes. (“Enredar” é o próprio de toda rede que se preza, pois não?)

O que antes se aparentava a fenômeno passageiro acabou tornando-se um tique mundial: ninguém dá dois passos sem consultar suas “redes” pra conferir se o planeta continua de pé. Para muitos, as redes se tornaram o único veículo de informação. Só que tem uma coisa: o advento das redes sociais enquadrou e canalizou a liberdade que a internet prometia 30 anos atrás. Aquela sonhada “cabeça fresca e cabelos ao vento” foi acaparada pelas redes sociais, com formatação imposta e chuva de anúncios publicitários.

Um dia a gente acorda e descobre que a internet livre de dono não passou de sonho fugaz. As redes que hoje canalizam os fluxos da comunicação humana têm nome, endereço e, sobretudo, proprietário. O que, até outro dia, parecia um espaço de total liberdade já não é exatamente um. Firmas têm dono, e donos impõem sua visão de mundo. Com o crescimento exponencial dos negócios, os donos das redes enricaram. Insaciáveis, não se contentam com os bilhões arrecadados. Querem mais, muito mais.

Ao se dar conta de que Donald Trump se preparava para assumir a presidência cercado de bilionários, aí incluídos os donos das redes sociais, Joe Biden alertou, em seu discurso de despedida, para o perigo de os Estados Unidos virem a ser governados por um clube de bilionários.

Sem tirar-lhe a razão, convém acrescentar que, entre esses magnatas, estão os proprietários das maiores redes sociais do planeta, como Twitter (agora chamada X), Facebook, Whatsapp, Instagram. Que o mundo seja governado por ricaços é compreensível, tem sido assim desde sempre. A novidade é ver aninhados no poder os donos dos canais que, com frequência, exercem a função dos confessionários de antigamente. É preocupante deixar alegrias e penas accessíveis a um nababo que, com o auxílio da IA, terá nas mãos uma massa de conhecimentos que lhe conferem poder extraordiário sobre cada um dos habitantes do planeta.

Dispor desse arsenal de informações e sentar à mesa do homem imprevisível que lidera o país mais poderoso é bagagem perigosa como dinamite. Explosiva. O único caminho para minorar o problema seria que todos cancelassem sua inscrição nas redes. Mas… cancelar, quem há de?

Os Estados Unidos de Trump 2.0, a julgar pelos nomes já anunciados de ministros e auxiliares, não prenunciam contar com um governo de sumidades. Está mais para um “L’État c’est moi” de Louis 14, com um magnata de temperamento narcisístico e explosivo no centro de uma corte de adoradores, alguns tão magnatas quanto ele ou mais. Uns dizem “amém” e outros respondem “amém nós todos”.

Que ninguém se engane: nos EUA, está instalado o governo dos piores, a caquistocracia.

Mundo friorento

by Maurenilson Freire, ilustrador cearense-brasiliense

José Horta Manzano

Artigo publicado no Correio Braziliense de 30 dezembro 2024

Tenho notado que o mundo hoje está mais friorento que no passado. Não me refiro ao frio que o termômetro registra, aquele que bate quando um ventinho gelado sopra do Sul. Falo de falta de calor humano, de empatia, de amizade, de sintonia. Sinto que tem faltado aquela atmosfera cálida que, ao expandir, dissipa o gelo e a desconfiança entre as gentes. Faltam braços abertos.

Em 2015, a Alemanha da primeira-ministra Merkel abriu os portões para a entrada de um milhão de estrangeiros que vinham em busca de asilo. O gesto horrorizou numerosos governos europeus, que consideraram exagerado o número de recém-chegados e tacharam o gesto de desarrazoado. Há alemães, aliás, que reprovam até hoje a decisão da chanceler e não perdem uma ocasião para atribuir aos forasteiros todos os males da nação.

O fato é que, passados quase dez anos, os asilados, em grande maioria, se integraram, aprenderam a língua, formaram-se numa profissão, fundaram família e vivem hoje como os demais cidadãos da pátria adotiva. Esses novos cidadãos vêm complementar a mão-de-obra de que a Alemanha sabe que terá necessidade estes próximos anos mas que o simples crescimento natural da população não lhe fornecerá.

Desde que Donald Trump assumiu seu primeiro mandato, em 2017, os novos tempos não têm sido benéficos para a conciliação entre os povos. Barreiras e muros foram erguidos na fronteira com o México para impedir a entrada de imigrantes pobres – num esquecimento maroto de que todos os que hoje apoiam o bloqueio aos forasteiros pobres são descendentes de imigrantes pobres que, um dia, também bateram às portas do país, foram acolhidos e ajudaram a fazer o que os EUA são hoje. Esquecem-se de que, num país em processo de envelhecimento, todo aumento populacional é bem-vindo.

Para seu segundo mandato, Trump ameaça abandonar a Otan, pacto de defesa que seu país mantém com a Europa há 75 anos. Esquecidos de que juraram governar para todos os brasileiros, os sucessivos governos do Brasil continuam a dar as costas para os povos amazônicos, obrigando-os a sobreviver atolados num território que o Estado enjeitou e de que o crime se apoderou.

Em vista de possível nova leva de imigrantes sírios, que ora têm liberdade de deixar o país de origem, a Europa nem de longe renovou a “operação acolhida”, da Alemanha de 2015. A ditadura de Damasco ruiu num fim de semana. Dois dias depois, os principais países europeus tomaram decisão idêntica: os processos de concessão de asilo a refugiados sírios foram suspensos sine die, com efeito imediato. É decisão provisória, com direito a revisão no futuro, mas supõe-se que, com uma Síria normalizada, as portas da Europa se fecharão de fato para os nativos daquele país.

Matteo Salvini, político italiano, teve problemas recentemente com a justiça de seu país por ter sido acusado de impedir durante três semanas, quando era vice-primeiro-ministro, o desembarque de 149 migrantes chegados no barco de uma ONG. Lembre-se que a Itália ocupa um dos últimos lugares na Europa no quesito fertilidade. Sua população é declinante.

Este mês de dezembro trouxe ainda duas notícias inquietantes provenientes do meio universitário. Na Suíça, o parlamento decidiu triplicar o valor da anuidade dos alunos estrangeiros das universidades federais. Alegando dificuldades orçamentárias, o congresso tomou essa decisão de puro populismo mesquinho. Quando formados, os alunos estrangeiros voltarão para casa como embaixadores gratuitos da excelência do país onde estudaram. Entravar a vida estudantil desses alunos é contrário ao bom senso.

A outra notícia preocupante nos veio de uma Argentina em plena mutação. Suas universidades públicas devem passar a cobrar anuidade dos alunos estrangeiros – somente deles. Valem aqui os argumentos que usei no caso suíço: estarão perdendo a ocasião de formar propagadores internacionais das virtudes do país.

Acho ingênuo acreditar que cheguemos tão já à fraternidade universal que teorias do século 19 nos prometiam. Ao contrário, percebo sinais inquietantes de estarmos, a passo contínuo, caminhando no sentido oposto. O lado friorento da humanidade está querendo nos ensinar que bom mesmo é se isolar, cada um vivendo no seu canto, todos de porta fechada. Alto lá! Nem tanto ao mar, mas também nem tanto à terra! Virtus in medio.

Feliz ano novo a todos!

Melhor não saber

Mãe! O vovô roubou meu carro!

José Horta Manzano

Artigo publicado no Correio Braziliense de 30 novembro 2024

Um ano atrás, um antigo e conceituado laboratório brasileiro de análises clínicas informou à distinta clientela que seu arsenal passava a contar com um novíssimo teste para diagnóstico do mal de Alzheimer. O informe veio escrito em mediquês, mas assim mesmo o não iniciado consegue entender que, para o teste, basta uma trivial amostra de sangue; como se vê, um simples exame de laboratório hoje pode mais que bola de cristal.

A grande novidade é que o futuro doente já pode ficar sabendo, com anos de antecedência, que vai terminar a vida com Alzheimer. Do ponto de vista médico, é uma conquista e tanto! Do ponto de vista do paciente, a vantagem de um pré-diagnóstico tão precoce ainda está para ser validada.

Faz alguns meses que este blogueiro, já entrado em anos, vem notando que, com irritante frequência, palavras lhe faltam no meio de uma conversa. Não se trata, por enquanto, da situação dramática do indivíduo que se encontra vagando na rua à noite de pijama e que não se lembra mais do próprio nome. Mas o fato é que, no meio de uma fala, quero usar um verbo, um nome ou um adjetivo, e o verbo não vem, nem o nome, nem o adjetivo. Não é trágico, mas é desagradável.

Comentei com o médico generalista que me cuida há anos. Contei a ele o problema e disse também que tinha ouvido falar de uma instituição especializada em detectar, por meio de apurados testes de memória, os primeiros achaques de algum tipo de demência que estiver para apontar no horizonte. Pensei que talvez pudesse ser útil saber antes, para tomar alguma providência.

O doutor me aconselhou a não procurar a tal instituição. Seu argumento foi claro: “O senhor vai voltar pra casa com um carimbo aplicado na testa. Além do mais, pra essa doença não há vacina nem cura. Fique tranquilo e viva normalmente.” Entendi a mensagem e desisti de procurar a tal instituição. E continuo tranquilo e tocando a vida normalmente.

O falecimento do homem de letras e acadêmico Antônio Cícero, ocorrido há algumas semanas, ecoou na mídia brasileira. Numa viagem sem volta, o poeta veio à Suíça para um procedimento de suicídio assistido – que eu saiba, a Suíça é o único país onde essa prática está legalmente descrita e rigorosamente enquadrada.

Se o poeta decidiu tirar a própria vida, não terá sido em decorrência de um desengano amoroso, nem por ter dívidas insolúveis, tampouco por estar com câncer em estado terminal – nenhuma dessas desgraças. O que o atormentava a ponto de tirar-lhe o gosto de viver era a perspectiva de ser entranhado pelo mal de Alzheimer, do qual já sentia as primícias.

Cada cabeça, uma sentença. Assim como acatei o conselho de meu médico e abandonei a ideia de fazer a bateria de testes de memória, não tenho intenção de me submeter a exame de sangue para detectar Alzheimer. Se a doença for pra vir, virá de qualquer maneira, com testes ou sem eles. Portanto, de que adianta ficar sabendo de véspera, se nada se pode fazer para evitar?

Pode ser que alguém prefira estar preparado. Na minha maneira de pensar, não faz sentido. Se houvesse meios de retardar, suavizar ou eliminar a doença, seria outra coisa; mas, no estágio atual da ciência, não há que fazer.

Ao contrário. Tenho a impressão de que saber de antecedência o nome da doença feia que vai nos agarrar daqui a não se sabe quantos anos pode até precipitar a chegada que se queria retardar. O estresse que essa pré-ciência vai provocar é capaz de estragar a existência e tirar o gosto de viver.

Não conheço os detalhes do caso do acadêmico Antônio Cícero. No entanto, é permitido supor que, se os descarrilamentos de sua memória não tivessem sido etiquetados com o nome de Alzheimer, ele ainda estivesse entre nós. E talvez viesse a morrer de outra coisa antes da piora da doença.

Brios

by Caio Gomez (1984-), desenhista brasiliense

José Horta Manzano

Artigo publicado no Correio Braziliense de 30 outubro 2024

A palavra brio é de origem pré-românica, descendente de uma raiz já implantada na Europa ocidental antes da expansão do Império Romano. Entrou no vocabulário de todas as falas latinas e há muitos séculos está presente em nossa língua. Textos da Idade Média já revelam a existência desse termo – e do conceito que o acompanha.

A frequência com que cada palavra aparece na mídia impressa corresponde a seu uso na linguagem do dia a dia. Por minha conta, fiz um levantamento utilizando o acervo de um jornal centenário para conhecer a evolução do uso do termo “brios”, no plural, que é a forma mais comum. O resultado confirmou minha intuição: a palavra aparece cada vez menos. De 6.000 menções anuais nos anos 1990, baixamos hoje a apenas 500 menções anuais. O termo está se tornando arcaismo.

No tabuleiro político, estas duas últimas décadas vêm sendo marcadas por um embate entre as correntes de extrema direita e os demais cidadãos, os não extremistas. Chamam a isso polarização, termo inadequado. É um embate de que participam, de um lado, militantes agressivos e barulhentos, e, do outro lado, gente mais próxima do modelo tradicional da militância civilizada. A tal polarização se dá entre cidadãos grosseiros e malcriados e cidadãos que ainda conservam a capacidade de se indignar diante de comportamento selvagem.

Venceslau Brás (1868-1966) foi presidente do Brasil durante a Primeira Guerra Mundial, de 1914 a 1918. Discreto como convinha à sua época, deixou a política assim que terminou o mandato de presidente. Foi pescar, tranquilo, em sua propriedade das Minas Gerais. A discrição e o afastamento devem ter-lhe feito bem, pois chegou à idade de 98 anos, tendo sobrevivido meio século depois de ter sido presidente – um recorde! Era uma época em que convinha a uma personalidade política ser homem de brios, qualidade muito apreciada.

Décadas depois, a política nacional deu os primeiros sinais de que os brios já não eram qualidades essenciais no homem público. Jânio Quadros (1917-1992) foi presidente do Brasil por 7 meses em 1961. Inopidanamente, renunciou ao cargo, como todos sabem. Dizem que sua intenção era ser trazido de volta nos braços do povo e tornar-se ditador. Não saberemos nunca. O que se sabe, porém, é que, anos após ter deixado a Presidência, Quadros foi eleito prefeito de São Paulo. Diz o bom senso que, uma vez chegado ao ponto alto da carreira, o homem político não deveria buscar um posto de menor importância. Não cai bem. Os brios começavam a periclitar.

Depois disso, tivemos ainda um Collor presidente que, destituído, voltou como senador. Uma Dilma presidente que, igualmente destituída, tentou voltar como senadora, sem sucesso. Lava a Jato e outros processos retumbantes mostraram que, em dezenas de acusados, quase nenhum admitiu os “malfeitos”. A mentira descarada vai-se firmando como esconderijo óbvio de homens e mulheres sem brios.

Antiga prefeita que agora se candidata à vice, e foragidos da Justiça que se candidatam a prefeito são outras facetas do mesmo fenômeno. Estivéssemos em outros tempos, todos os elencados destes últimos parágrafos seriam rotulados como pessoas às quais falta vergonha na cara, qualidade em desuso.

Faz poucos dias, uma notícia calamitosa sacudiu os brasileiros decentes. Um descaso inominável permitiu que órgãos contaminados por HIV fossem enviados para transplante, o que ocasionou criminosa e imediata transmissão da doença aos frágeis pacientes transplantados. Os infelizes buscavam a salvação mas encontraram a condenação. Um horror indescritível. Apesar da repercussão, os diretores da Fundação Saúde, órgão responsável pelo controle e supervisão dos transplantes, fizeram cara de paisagem e continuaram pendurados no cabide, impérvios, sem mostrar vergonha. Foi preciso o governador do Rio tomar a iniciativa e exonerar a turma toda.

A falta de brios tem-se alastrado para fora do picadeiro político. Outro dia, uma aluna de conhecida faculdade paulista foi expulsa do estabelecimento por ter insultado uma colega chamando-a de macaca. Inconformada com a expulsão, a agressora recorreu à Justiça e obteve decisão liminar em seu favor, permitindo-lhe reintegrar os cursos. Fosse em outros tempos, ela não só não voltaria às aulas, como também nunca mais passaria diante da escola. De vergonha.

Logo logo, os brios desaparecerão da linguagem comum e se restringirão ao jargão da pecuária: “Eia, Briosa!”.

Com o parlamento que temos

José Horta Manzano

Artigo publicado no Correio Braziliense de 3 outubro 2024

O sistema político francês, que o general Charles De Gaulle arquitetou e fez assentar na Constituição de 1958 (que vigora até hoje), é tido como ‘semipresidencial’. O presidente da República é chefe do Estado, com atribuições executivas em princípio limitadas. Como em todo regime parlamentarista, um primeiro-ministro desempenha as funções de chefe do governo, secundado por ministros.

Um detalhe de capital importância, que confere ao sistema características diferentes dos regimes parlamentares tradicionais, é que a eleição do presidente se faz pelo voto popular direto. Essa particularidade contribui para que esse presidente, longe de exercer apenas funções protocolares, se torne a figura número um da política nacional, um personagem central e vistoso, que acaba relegando o primeiro-ministro a segundo plano.

Essa força presidencial está na raiz da atual crise política do país. Desde que o presidente decidiu dissolver o parlamento, três meses atrás, o país ficou sem governo. Primeiro-ministro e demais ministros permaneceram provisoriamente só para tratar os assuntos do dia a dia, deixando temas de peso em banho-maria.

Se a escolha do chefe de governo (primeiro-ministro) fosse atribuição dos parlamentares, provavelmente teriam chegado a um acordo aceitável por todas as correntes politicas. No entanto, dado que cabe ao presidente da República nomear o governo – e que o presidente é forte e poderoso – ele acabou escolhendo os ministros segundo seu gosto pessoal, sem levar em conta as correntes políticas representadas na Assembleia. E demorou três meses para fazê-lo.

O novo governo já foi nomeado e já arregaçou as mangas. No entanto, dado que a escolha dos ministros foi feita segundo a vontade presidencial, tem-se atualmente uma situação emaranhada, difícil de destrinchar. Qualquer solução, ainda que agrade a uns, será execrada por outros.

O mundo mudou nestes 70 anos, e a Constituição francesa envelheceu. Feita para um panorama político em que apenas dois partidos dominavam a cena, tornou-se difícil de aplicar num universo em que três forças políticas praticamente se equivalem.

No Brasil, de tempos em tempos, quando o caldo engrossa nos altos círculos de Brasília, volta à baila a ideia de um semipresidencialismo. Esse sistema, que tem boas chances de vicejar num terreno bipartidário, seria, entre nós, fator de instabilidade paralisante. A miríade de partidos representados em nosso Congresso não permite que se pense num regime parlamentar acoplado a um presidente eleito pelo voto universal. A figura presidencial tende a sugar e puxar para si a aura que deveria pairar sobre o parlamento.

Nossos congressistas estão mal-acostumados. Cacoetes preexistentes foram potencializados nos tempos de Jair Bolsonaro, quando um governo acuado se tornou refém do Congresso. Generosas emendas personalizadas floresceram e criaram raiz. O governo Lula não tem mostrado habilidade para mitigar a avidez de Suas Excelências.

Nossa pulverização partidária dificulta a formação de maiorias estáveis, fenômeno que leva a um ambiente efervescente e a um confronto permanente entre Executivo e Legislativo. Essa tensão desprovida de sentido não deveria existir. Ela não leva benefício a ninguém.

Se um dia vingar a ideia de introduzir-se um regime parlamentar, a figura presidencial terá de ser inteiramente repensada. Poderes e atribuições do cargo serão drasticamente limitados. O presidente não será mais que chefe do Estado, escolhido pelo Congresso entre os notáveis do país, uma figura simbólica com visibilidade mas sem poder.

Neste momento, temos um presidente com convicções de esquerda e um Congresso que tende nitidamente à direita. Esse antagonismo entra em choque com frequência e atravanca o avanço do país. Nossa política externa, com forte dependência da ideologia presidencial, tem seguido rumos pedregosos e estéreis. Pouco a pouco, o Brasil tem perdido importância, limitando-se hoje a discursar na ONU para criticar a ONU.

Alguém dirá: “Mas como! Um regime parlamentar com o parlamento que temos?” Por minha parte, acredito que o ser humano pode se emendar. Nossos parlamentares se comportam hoje com a irresponsabilidade de adolescentes birrentos. Fazem isso porque sabem que o Executivo tem meios de aparar os exageros vindos do Congresso. No dia em que o poder executivo for exercido pelo próprio Parlamento, o quadro se transformará.

O jeitinho

by Caio Gómez (1984), desenhista brasiliense

José Horta Manzano

Artigo publicado no Correio Braziliense de 30 agosto 2024

Todo povo tem um conjunto de características próprias que o distinguem. Assim, também no Brasil temos atributos que perpassam a população. Mas vamos examinar primeiro as características que não costumam ser associadas ao brasileiro.

O brasileiro não tem a aplicação dos povos do Extremo Oriente, em especial o japonês. De fato, um país com muita gente e pouca terra, como o Japão, exige de seus habitantes qualidades tais como paciência, comedimento, rigor e aplicação. Se cada um agisse sem se importar com os demais, o país não teria alcançado seu atual nível de civilização.

O brasileiro não tem a audácia dos colonizadores da América do Norte. Diferentemente dos que para cá vieram, muitos dos imigrantes que povoaram aquelas terras deixaram a Europa na esteira de perseguições religiosas ou políticas. Vinham com a família, de mala e cuia, com a intenção de fincar pé para nunca mais voltar. Os rigores do clima recompensaram os audazes e deixaram os timoratos na beira da estrada.

Os brasileiros não compartilham o ultra-conservadorismo resignado dos povos da Índia que, neste 21° século da Era Cristã, ainda toleram viver numa sociedade estratificada em castas, sistema que ainda não implantou um elevador social. Quem nasceu na casta A nunca será aceito na B, muito menos na C. Ainda que, em nossa terra, alguns ainda torçam o nariz para o 13 de maio da princesa Isabel, felizmente não são maioria nem imprimem seu egoísmo na lousa das qualidades nacionais.

No meu entender, a faceta mais significativa da alma nacional responde pelo simpático nome de “jeitinho brasileiro”. Todos sabemos o que quer dizer, só falta definir com precisão. Tal como a palavra “saudade”, nosso jeitinho resiste a toda tentativa de definição clara e rigorosa. Será justamente porque clareza, rigor e precisão não combinam com o jeitinho.

Uma terra em que milhões conseguem sobreviver e seguir adiante com o salário de miséria que lhes toca mostra que seu povo tem poderes mágicos, inexplicáveis, quase atávicos. Em outros horizontes, uma revolução popular já teria defenestrado todo o andar de cima. (Para, em seguida, recomeçar do zero e, poucas décadas depois, retornar ao mesmo estado de coisas. Mas essa é uma outra história.)

Nosso jeitinho inclui atitudes altamente positivas. Nossa tolerância para com os que se desnorteiam é proverbial. Centenas de movimentos religiosos tratam de reintegrar no rebanho as ovelhas extraviadas. A flexibilidade de nossas atitudes tem algo de notável. Quem não tem cão caça com gato é ditado que faz sentido entre nós. O brasileiro não é de empacar se lhe falta um ingrediente para a receita: dá rápido um jeito.

Do lado menos charmoso, nosso jeitinho dá vazão a comportamentos e atitudes pouco elogiáveis. “Leis que pegam” vs “leis que não pegam” é fenômeno tipico nosso. E isso nos parece normal. Todos nos conformamos com a falta de rigor e com a falta de apego à lei. Cidadãos que são condenados hoje a pesadas penas e “descondenados” amanhã não causam escândalo. Costumamos nos resignar com imprecisões da lei. Criminosos bacanas que escapam à justiça contam com nossa leniência – a frouxidão dos procedimentos legais não nos revolta.

Esse coquetel de imprecisão, elasticidade e ambiguidade se derrama e se aninha nos recônditos da alma nacional. Essa síndrome de informalidade se entranha em instâncias em que sua presença é extravagante. Ainda recentemente doutor Moraes, ministro do STF, frequentou as manchetes, na sequência de uma denúncia de que foi vítima: foi acusado de valer-se de procedimentos informais para angariar subsídios para processos que relata.

Só o futuro nos dirá se a denúncia contra o magistrado terá consequências. A bem considerar, ela é a prova de que o jeitinho nacional, que a gente imagina se restringir a castas inferiores, atravessa todos os estratos sociais e se faz presente até na cobertura deste imenso condomínio.

No regime do brasileiro, se arroz com feijão são o prato principal, o jeitinho é a mistura.

Os presentes que os anos trazem

José Horta Manzano

Artigo publicado no Correio Braziliense de 25 julho 2024

Correligionários e amigos do peito podem acompanhar teu corpo moribundo até o pé da cova. Podem chamar o padre para a extrema-unção. Podem até despejar pétalas quando teu caixão for baixado. Mas não esperes que algum deles se atire na cova contigo: nenhum o fará. Chega um momento em que o interesse pessoal de cada um sobressai e prevalece.

Basta ver o que aconteceu com Joe Biden. Correligionários antigos, admiradores fervorosos e financiadores generosos, daqueles que por anos o apoiaram, foram, um a um, se afastando da campanha de reeleição. Até personalidades célebres anunciaram publicamente ter desistido de apoiá-lo. Ponto alto da humilhação, o New York Times, jornal mais importante do país, declarou a seus milhões de leitores que considerava ser chegada a hora de Biden renunciar à candidatura e ceder o posto a outro pretendente.

Tudo se precipitou na sequência de um debate televisivo entre Joe Biden e Donald Trump. O desempenho de Biden foi tão calamitoso que o eleitor americano se pôs a duvidar que ele estivesse em condições de governar o país por mais quatro anos. Suas falas foram confusas e nebulosas a ponto de constranger a plateia.

Teorias de complô floresceram. Uma das mais interessantes garantiu que o ataque proveio de uma arma de energia dirigida, de origem russa, manipulada por agente infiltrado instalado no auditório, arma que bloqueou e baqueou Biden. Se os deslizes do presidente tivessem se resumido ao desempenho naquele debate, podia até ser. O problema é que ele foi vítima das mesmas perturbações em numerosos outros pronunciamentos. A “arma de energia dirigida” pôde, assim, ser descartada.

O problema de Joe Biden parece ligado a uma afecção neurológica fomentada pelo avanço da idade. A rápida degradação de sua higidez mental foi observada atentamente mundo afora. Na França, parlamentares já estão propondo um limite de idade para cargos eletivos. Um exemplo dessa prudência já existe no Brasil, com a aposentadoria compulsória dos ministros do STF.

Em princípio, velhice não rima obrigatoriamente com caduquice. Mas há que convir que, quanto mais avançam os anos, mais propenso fica o indivíduo a sofrer certa diminuição do desempenho mental. Para um cidadão qualquer, é chato mas… que fazer? Já para o dirigente máximo de um país, o cenário é mais dramático. Aos 81 anos, Biden não resistiu à pressão e finalmente decidiu entregar as rédeas. Devia tê-lo feito antes. Uma desistência assim, de última hora, ficou com cara de derrota.

Por falar em idade, Luiz Inácio da Silva completa 79 aninhos daqui a três meses. Caso a saúde não lhe falte, ele é bem capaz de tentar a reeleição em 2026. Se o fizer (e se for bem sucedido), já terá completado 81 anos ao assumir o próximo mandato – exatamente a idade de Joe Biden hoje.

Lula é impulsivo e falante. Como se sabe, quem fala muito às vezes desliza. Temos visto as encrencas que as falas de nosso presidente lhe têm trazido. Arrumou briga feia com Israel, se desentendeu com o presidente argentino, deixou os países vizinhos assustados com o apoio explícito a Maduro, causou ressábio geral na Europa com seu respaldo a Putin e seu rechaço a Zelenski. Nenhum dirigente de país grande tropeçou tanto.

Pesquisa recente diz que 55% dos eleitores acham que Lula não merece nova chance em 2026. A dois anos da eleição, não se pode cravar, mas esse resultado deveria acender no Planalto um pisca-pisca amarelo vivo. É sinal sério e grave. Com o drama de Biden ainda fresco na memória, o eleitorado pode se assustar.

Logo será dada a partida da corrida presidencial de 2026. Por enquanto, os candidatos principais não se apresentaram. Vai chegando o momento em que Lula, em seu íntimo, deveria reconhecer que chegou a hora de designar seu herdeiro político. O mais importante é convencer-se de que esse é o melhor caminho. O anúncio público pode vir mais tarde. Se Lula insistir em se apresentar como candidato, a crescente rejeição que ele sofre vai poluir a campanha. Uma avenida estará então aberta para a volta dos bolsonaristas.

É sempre melhor saltar do bonde por vontade própria do que ser atirado fora do veículo.

Parceiro duvidoso

by Caio Gomez (1984-), ilustrador brasiliense

José Horta Manzano

Artigo publicado no Correio Braziliense de 28 junho 2024

O R do Brics é a Rússia. No acrônimo, ela aparece coladinha ao Brasil. Na vida real, a distância física, histórica e cultural entre os dois países é imensa. Basta um exemplo: o povo russo jamais viveu sob um regime que não fosse autoritário, enquanto os brasileiros já conheceram largos períodos democráticos, inclusive o atual. Os russos vivem atualmente um momento apertado, com o fechamento da porta que dava para o Ocidente. Mesmo com os combates na Ucrânia ainda longe das grandes cidades russas, a vida já não é como antes.

Dirigentes de numerosos países já cometeram erros fundamentais que mudaram os rumos da nação. Se arrependimento matasse… cemitérios estariam lotados – é o que se costuma dizer. Mas há erros que deixam mais remorso que outros.

Os dirigentes do Japão que participaram da decisão de atacar a frota marítima americana na Pearl Harbour de 1941 hão de ter se arrependido amargamente de ter elaborado o plano que acabou por desgraçar o Império do Sol Levante.

Nosso Jânio Quadros é outro que, depois de renunciar ao mandato de presidente do Brasil, certo de que o povo o traria de volta “carregado nos ombros”, há de ter chorado lágrimas de aflição em seu autoexílio londrino. Além de perder o mandato, abriu as portas para um regime de exceção, que castigaria o país por mais de 20 anos, na sequência do golpe de 1964.

Talvez o exemplo mais eloquente de “post errorem desperandum” (desespero depois do erro) seja a monumental derrapada que Vladímir Pútin deu ao mandar suas tropas invadirem a Ucrânia em 2022. O fiasco foi tão grande que ele só continuou no comando da ditadura russa até hoje por obra e graça do sistema mafioso que o sustenta no trono. Não fosse a máquina governamental repressiva e opressiva, e o total enquadramento do sistema judiciário, é possível que Pútin já tivesse desaparecido num “desafortunado acidente” e já tivesse deixado o trono para um sucessor.

Estes dias, os discretos serviços secretos britânicos publicaram uma estimativa das perdas sofridas pela Rússia na guerra atual. Meio milhão de humanos (incluindo militares e civis) teriam sido mortos ou feridos! O morticínio continua a um ritmo superior a 1.200 pessoas por dia. Quanto às perdas materiais, teriam sido destruídos: 10 mil blindados, 3 mil tanques de guerra (número que representa quinze vezes o número total de tanques do exército francês!), 109 aviões, 136 helicópteros, 23 navios de guerra. A esses números, convém acrescentar cerca de 400 drones e mais de 1.500 peças de artilharia.

Essa impressionante quantidade de combatentes e de material perdidos em dois anos seria uma sangria insuportável para qualquer país, mesmo para os mais equipados. Para a Rússia, a situação é dramática, bem pior do que se imagina. A prolongação dos combates obrigou Moscou a reanimar sua indústria bélica. As compras de material bélico no orçamento de 2024 representam entre 30% e 40% das despesas totais do Estado russo. Para juntar essa montanha de dinheiro, cortes profundos têm de ser feitos em outras áreas, enfraquecendo o funcionamento do país como um todo.

Em momentos específicos do século passado, a economia da hoje falecida União Soviética chegou a ter certo vigor. Essa potência perdeu muito de seu antigo brilho. Na verdade, a Rússia de hoje é um país pobre. Para comparar, seu PIB corresponde aos PIBs somados de Holanda e Bélgica. Só que Bélgica e Holanda, adicionadas, têm 30 milhões de habitantes, enquanto a Rússia tem 146 milhões. Moscou tornou-se basicamente exportador de matéria prima (gás e petróleo).

Do ponto de vista militar, a Rússia, orgulhosa herdeira do laureado Exército Vermelho, perdeu esta guerra logo nos primeiros dias, ao não conseguir tomar Kiev e ser obrigada a retirar-se da Ucrânia. Naqueles dias o mundo assistiu, pasmo, à débâcle de um temido grande exército diante de tropas menos poderosas. Para a Rússia, o vexame e o desgaste de imagem foram tremendos. Hoje, para a Rússia, o exército perdeu a majestade. Para servir de espantalho, só restou o espectro do arsenal atômico que, aliás, Pútin agita dia sim, outro também.

Ao desprezar o Ocidente democrático e se jogar de cabeça no Brics, um clube de países que não combinam com o nosso, a dupla Lulamorim está fazendo mau negócio. Fosse eu, refletia duas vezes.

Solastalgia

José Horta Manzano

Artigo publicado no Correio Braziliense de 24 maio 2024

As águas vão baixando no Rio Grande. O que se vai descobrindo agora é um espectro de devastação, panorama de infinita tristeza. O trabalho de uma vida inteira, a pequena propriedade rural que custou anos de sacrifício, a semeadura feita à custa de dívida bancária contraída com tanta dificuldade – tudo destruído.

Nós outros, que assistimos a essa tragédia pela televisão, não fazemos a menor ideia do que seja passar por um sufoco desse calibre. O desastre assolou uma área de tamanho comparável a uma Grã-Bretanha, quase uma Itália inteira! É uma tragédia superlativa.

O Instituto Quaest publicou, no momento em que as enchentes atingiam seu pico, os resultados de uma pesquisa nacional. Tanto gente de bom senso como terraplanistas concordaram num ponto principal: para 99% dos entrevistados, a calamidade que atingiu o Rio Grande do Sul tem ligação com as mudanças climáticas que perturbam a vida no planeta. Unanimidade assim é rara de se ver.

Enquanto isso, em Brasília, se desenrolam fatos dignos de um outro planeta. Estão atualmente tramitando, no Senado ou na Câmara, 25 projetos de lei e 3 propostas de alteração da Constituição visando a mexer na legislação de preservação florestal, a afrouxar regras de licenciamento ambiental e até a anistiar grileiros, desmatadores e outros neandertais. Interesses pessoais néscios e mesquinhos estão por trás desses projetos. Seus autores vivem divorciados de seus eleitores e da realidade global. Esperemos que as enchentes do Rio Grande sacudam o berço esplêndido desses eleitos deslumbrados e os despertem para as desgraças que entraram na pauta nacional.

Boa parte da população de países mais atentos já se deu conta, faz anos, de que toda a humanidade navega num mesmo barco e de que, se cada um não fizer sua parte, o planeta periga tornar-se inabitável antes do que se imagina. Quando digo “cada um” é cada um mesmo, na medida de suas possibilidades. Reutilizar um saco de papel, por exemplo, é o tipo de gesto fácil e simples mas que, multiplicado por milhões de cidadãos, tem seu peso.

Acredito que, em matéria de participação individual no esforço geral de fazer o que se pode para lutar contra aquecimento planetário e catástrofes climáticas, o cataclismo do Rio Grande seja um marco histórico: assinalará um antes e um depois na tomada de consciência do brasileiro sobre o processo de rápida deterioração do clima global.

As enchentes do Sul não são um fenômeno isolado – afirmação cujo bom senso já foi aferido pela pesquisa Quaest. Estão intimamente relacionadas ao desmate na Amazônia e no Cerrado, à reorientação da circulação dos ventos e da umidade. É uma teia complexa de eventos que se equilibram e se complementam. Uma alteração num dos componentes perturba o funcionamento do todo.

Neste ‘day after’ das enchentes do Rio Grande do Sul, não se trata mais do derretimento de longínquas geleiras ou do desaparecimento de ilhotas num oceano qualquer. Hoje sabemos o que significa ver um naco da própria terra natal desaparecer sob uma água barrenta como enxágue de olaria e estagnante como criadouro de mosquito. A partir deste maio de 2024, os brasileiros contam com um exemplo real, doméstico, de carne e osso, com nome e endereço. Não dá mais pra fazer que não viu.

A saúde mental da população, especialmente dos mais jovens, estará cada vez mais comprometida. De fato, são os que entram agora na vida adulta que mais se preocupam com o horizonte sombrio, sem luz, sem sol e sem esperança. É a eles que estamos legando esse mundo. Vamos pelo menos corrigir um pouco do que fizemos errado estas últimas décadas.

Solastalgia, título deste escrito, é termo cunhado em 2005 pelo filósofo australiano Glenn Albrecht. Descreve o estado de estresse emocional causado pelas alterações do meio ambiente, especialmente a destruição de ecossistemas e da biodiversidade. E, consequência inevitável, o aquecimento global.

Energias renováveis, transição energética, ecoansiedade, angústia climática, luto ecológico, ponto de não retorno – são expressões que vão continuar se avolumando em nosso futuro próximo. Se o sofrimento causado pela calamidade das enchentes do Rio Grande puder nos abrir o olho (e a mente) para essa inescapável realidade, um bom passo terá sido dado.