É o fim da minha vida

José Horta Manzano

O distinto leitor e a graciosa leitora hão de se lembrar da birra que Jair Bolsonaro tinha com a Folha de São Paulo. Birra? Que digo! Era ódio mesmo. Aconteceu mais de uma vez ele mandar expulsar jornalista(s) daquele veículo que ousassem estar presentes numa coletiva de imprensa.

Rei morto, rei posto. As coisas mudaram. Hoje, longe do poder, sem a caneta, sem mandato, sem imunidade, acuado pela justiça penal, Jair tem disfarçado a crista. Não digo que tenha perdido a soberba, mas, vez por outra, deixa de lado a pose de imbrochável (hoje recauchutado e amparado pela ciência) e veste a máscara de coitadinho.

Fez isso estes dias, ao aceitar ser entrevistado por uma jornalista (uma mulher!) da Folha. Com palavras humildes, respondeu às perguntas que lhe fez a moça. Como de costume, safou-se de toda culpa na trama em que é acusado. Não fez nada de errado, não cometeu nenhum deslize, não conspirou, não incentivou, não deu luz verde para nada, viajou para a Florida para não ter de passar a faixa, não sabe de nenhum crime, não invadiu palácio nenhum, não quebrou nada. E pergunta onde está a “prova” de um possível golpe.

Foi indagado sobre as consequências de uma eventual prisão, se isso poderia representar o fim de sua carreira política. A resposta veio de bate-pronto:


“É o fim da minha vida. Eu já estou com 70 anos!”


Eu, que já passei dos 70 faz uns bons anos, fiquei comovido. Me pus a imaginar a figura de um ancião confinado num cômodo de alguma vila militar, possivelmente na capital federal. Com armário, micro-ondas, minibar, tevê mural, banheiro exclusivo. Tudo isso e mais o escambau. Pode parecer o fino da hospedagem, mas não deixa de ser prisão, um lugar onde o hóspede fica confinado e não sai quando deseja.

Apesar da comoção, meu pensamento foi mais longe. Voltei cinco anos no tempo. Tornei a sentir o bafo de desespero que emanou do povo brasileiro naqueles dias de pandemia brava. Lembrei de gente carregando cilindros de oxigênio para acudir parentes morrendo de asfixia em hospitais, vítimas da inépcia do general que comandava o Ministério da Saúde (e que hoje é deputado federal!). Lembrei de um odioso Bolsonaro, que teve a ousadia de arremedar, diante de câmeras e microfones, os estertores da respiração ofegante dos moribundos.

Lembrei de muitas outras situações em que Bolsonaro se posicionou frontalmente contra os interesses vitais do povo brasileiro, que acabou contabilizando cifra assombrosa de mais de 700.000 mortos de covid-19.

Talvez, no futuro, a Ciência consiga estabelecer com certeza quantos óbitos devem ser debitados da conta do capitão, pelas ações tomadas e/ou decididas por ele no enfrentamento da pandemia. Hoje, mesmo não possuindo ainda essa fórmula, é lícito intuir que milhares, dezenas de milhares, quiçá centenas de milhares de mortes poderiam ter sido evitadas se o então presidente quisesse realmente, como ele afirma na entrevista, “o bem do meu país”.

Para Bolsonaro, alguns anos numa prisão de primeira classe serão “o fim da vida”. Isso porque ele já está com 70 anos.

Há milhares de brasileiros, ricos e pobres, bolsonaristas e lulistas, jovens e velhos, para os quais não haverá prisão. Nem de primeira nem de última classe. Estão mortos. Para eles, o “fim da vida” já foi. A covid, associada à pusilanimidade pérfida do presidente, não lhes deu tempo de chegar aos 70 anos. Nunca verão os futuros netinhos.

Bolsonaro, de todo modo, um dia sairá da cadeia e voltará ao convívio dos seus. Suas vítimas, ai delas, não voltarão nunca mais.

O que sobra desta vida

Gruta de Lascaux, França: pinturas rupestres

 

José Horta Manzano

Artigo publicado no Correio Braziliense de 31 março 2025

O homem das cavernas caprichou na surpreendente arte pictórica, que acabou deixando para a posteridade rastros de sua existência. De fato, numa esplêndida prova de que os humanos de tantos milênios atrás já eram capazes de elaborar pensamento abstrato, pinturas rupestres feitas por artistas daquelas eras chegaram até o presente. Algumas delas são de beleza artística tão notável que poderiam rivalizar com a arte de nossos tempos.

Pinturas rupestres têm sido descobertas em cavernas do mundo todo: Américas, Europa, Sibéria, Extremo Oriente, Austrália. Embora alguns espécimes possam ser considerados obras de arte, sua importância transcende considerações meramente artísticas. Bem mais que isso, estão entre os parcos testemunhos dos primórdios de nossa espécie.

Num formidável salto no tempo, vamos passar agora da pré-história à história tal como a entendemos. Com a sociedade já organizada em vilarejos e burgos, com Estados governados pelo mais forte fisicamente, pelo mais inteligente ou pelo herdeiro de linhagem aceita como legítima, não se dissipou a aspiração ancestral do ser humano por deixar algum traço de sua passagem.

As tentativas individuais dos que viveram em tempos antigos e trataram de deixar uma marca perene nem sempre foram coroadas de sucesso. Guerras, invasões, terremotos, desmoronamentos, incêndios, inundações, erupções vulcânicas, vandalismo e abandono deram conta de esboroar orgulhosas construções, que acabaram virando pó. Palácios, estátuas, faróis, casas e mausoléus perderam-se no tempo.

O que, de verdade, sobra desta vida não são objetos materiais, por mais que sejam significativos. O prolongamento de cada indivíduo se faz através do que sua obra tem de imaterial. Temos, na história do Brasil, um caso curioso e que vem a propósito.

Dom Pedro II, nosso segundo e último imperador, esteve no trono por 58 anos, até que um golpe de Estado o depôs e o despachou para a Europa. Sua filha, a princesa Isabel, não chegou a ser coroada, logo nunca pôde ostentar o título de imperatriz. No entanto, numa ausência do imperador, coube-lhe assinar a Lei Áurea, a que libertou os últimos escravos. Por esse único gesto, é mais festejada que o próprio pai. Entre os vultos do império, a princesa é, no imaginário popular, a magnânima, figura simpática apesar de nunca ter tido cetro, nem manto, nem coroa.

Mas o mundo é vasto. É raro que personagens fiquem na lembrança por uma simples assinatura, como nossa princesa. É mais frequente que a inscrição na História seja fruto de uma sequência de medidas, fortes e impactantes, impostas com energia, que atinjam as estruturas da sociedade mundial. Os personagens que maior probabilidade têm de inscrever seu nome pelos séculos vindouros são os grandes líderes cujo legado tenha alcançado a façanha de perturbar a marcha da História – para melhor ou para pior.

Dito assim, pode parecer simples. Não é. O século 20 deixou uns poucos exemplos significativos. Adolf Hitler foi, sem dúvida, o personagem que mais fortemente sacudiu as bases da sociedade. Seus atos provocaram a inteira reestruturação política do mundo. Nenhum outro dirigente conseguiu, sozinho, causar tamanha revolução. O próprio Stalin não foi iniciador, mas continuador, da difusão do sistema comunista.

O século atual, a menos que um imprevisto lhe trunque a ascensão, já conhece o personagem que fará tremer as bases da sociedade: é Donald Trump. Talvez por dar-se conta de que o tempo lhe é contado, o presidente americano tem utilizado o poder que a força bélica e a capacidade econômica de seu país lhe conferem para atordoar um mundo até então embevecido com um já longevo statu quo.

Pela novíssima cartilha – que ainda ninguém decifrou –, inimigos de ontem são prestigiados e saem da berlinda, enquanto os amigos de sempre são hostilizados e tratados como inimigos. Os demais permanecem num temporário limbo, à espera de conhecer o destino que lhes será imposto pelo novíssimo “imperador do mundo”.

Neste momento, é impossível saber como estará a sociedade global ao fim do mandato de Mr. Trump. Ainda não se consegue predizer para que lado evoluirá o mundo. Conseguiremos retornar ao statu quo ante bellum – o estado em que estavam as coisas antes da guerra?

Sem medo de errar, podemos profetizar que não, que nada voltará a ser como antes. O mundo estará melhor? Pode ser, mas há controvérsia.

Liquidificador

José Horta Manzano

Sempre me surpreendeu o comprimento da palavra liquidificador. São seis sílabas: li-qui-di-fi-ca-dor. É muita letra pra designar um aparelho relativamente pequeno. Outras línguas encontraram saídas mais curtas. Nós, não. Preferimos escrever por extenso. Na época em que esse aparelho apareceu, algo como liqüex ou liqüinho talvez soasse um tanto chué pra dar nome a objeto tão revolucionário. Há de ser por isso que preferiram palavra de dobrar a esquina.

Falando nisso, tenho notado que nós, brasileiros, damos preferência a palavras longas em detrimento das mais curtas. Por exemplo, em vez do velho , o somente parece ser mais apreciado hoje em dia. O só está ficando só, abandonado num canto.

Um outro caso é o do antigo verbo pôr que, caído em desuso e quase em via de extinção, foi substituído por co-lo-car. Outro dia li a surpreendente história de uma jovem que, desertada pelo namorado, decidiu “colocar fogo” no apartamento dele. Fiquei imaginando a moça fantasiada de vestal romana subindo as escadarias do templo levando nos braços uma pira com o fogo sagrado para colocá-lo ao pé da estátua de Vulcano, o deus do fogo original. Isso, sim, seria “colocar fogo”. Fora isso, é melhor dizer ‘pôr foto em’, ‘atear fogo a’ ou, melhor ainda, ‘botar fogo em’. Sem falar no familiar ‘tacar fogo em’.

Outra palavra que espichou foi fim, atualmente substituída por final. Ninguém mais deseja um bom fim de semana, mas um excelente “final de semana”. Talvez a palavra mais comprida dê impressão de prolongar o tempo de descanso.

A simpática aeromoça de antigamente deu lugar à não menos simpática comissária de bordo ‒ título menos caseiro e mais pomposo, sem dúvida. E mais comprido também.

E a hora que virou horário então? A hora legal, ditada pela Divisão do Serviço da Hora, do Observatório Nacional, é hoje conhecida como horário: horário de verão, horário de Brasília. Este blogueiro é do tempo em que a palavra horário era reservada para indicar algo que ocorria em tempo ritmado, cadenciado, limitado como em horário de funcionamento, horário de trabalho, horário de saída dos ônibus.

E o problema, que se está transformando em problemática? Vejo aí contaminação vinda de palavras modernas como informática e telemática. Bom, convenhamos: problemática tem um charme e um perfume erudito que problema está longe de ter.

E assim vamos nós, sempre acrescentando penduricalhos, raramente podando, arcados sob o peso crescente. E vamos em frente, que um dia ainda chegamos lá.

O jubileu de prata de Putin

Gianluca Mercuri (*)

Há exatos vinte e cinco anos, Vladimir Putin assumiu o poder na Rússia. Ele já havia sido presidente interino por quatro meses após a renúncia de Boris Yeltsin. Mas em 26 de março de 2000, ele venceu sua primeira eleição presidencial.

O quarto de século que se seguiu transformou a Rússia, esse imenso, maravilhoso e terrível país. Varreu as ilusões de paz da Europa, de um “fim da história” marcado pela vitória incontestável do Ocidente e uma convergência da Rússia e da China em direção aos benefícios do desenvolvimento econômico global, do comércio pacífico e de uma ordem mundial compartilhada. Isso trouxe a guerra de volta ao nosso continente, a ponto de assustar sua parte mais rica, democrática e estável. Essa parte somos nós.

Aqui está o que Putin fez em seus cinco anos no poder:

* Ele estancou brutalmente a perda de territórios da antiga URSS, com a segunda e mortal guerra na Chechênia (a primeira havia sido em 1994-96): em 10 anos, 50.000 mortos, dezenas de milhares de refugiados e a capital, Grozny, descrita em 2003 pela ONU como “a cidade mais devastada do mundo”.

* Ele tem eliminado sistematicamente todos os oponentes: o primeiro da lista foi o magnata do petróleo Mikhail Khodorkovsky, preso em 2003, antes que pudesse desafiar o chefe. Em 2006, o assassinato da jornalista Anna Politkovskaya e do ex-oficial de inteligência Aleksandr Litvinenko. Em 2015, o assassinato do rival Boris Nemtsov e, em 2024, a morte de Aleksej Navalny numa prisão na Sibéria. Esses são apenas os nomes mais conhecidos; milhares foram parar na prisão.

* Ao agarrar-se ao Kremlin, ele rasgou a primeira constituição democrática da história da Rússia. Reeleito em 2004, não pôde concorrer novamente em 2008, mas fez com que o leal Dmitri Medvedev fosse eleito presidente; assumiu então o lugar de premiê. Em seguida, aboliu o limite de dois mandatos e ampliou sua duração de quatro para seis anos. Ele é presidente novamente desde 2012 e pretende concorrer novamente em 2030, depois de ter obtido cerca de 90% dos votos no ano passado.

* Ele respondeu com guerra a todas as tentativas feitas pelos países vizinhos de se aproximarem da Europa: em 2008, atacou a Geórgia; em 2014, a Ucrânia, após o levante antirrusso na Praça Maidan. Naquele ano, conquistou a Crimeia.

* Em fevereiro de 2024, atacou novamente a Ucrânia de forma brutal, dessa vez com uma invasão em grande escala, com a qual imaginava poder submeter Kiev em poucos dias. Depois de três anos, ainda não venceu formalmente a guerra, graças à resistência dos agredidos, com a ajuda dos EUA e da Europa. Isso foi até o retorno de Donald Trump.

* Teorizou e impôs a ferro e fogo o direito da Rússia de impedir escolhas autônomas por parte de seus vizinhos, com base no pressuposto de que a europeização deles seria uma ameaça à sua segurança.

* Ele ressuscitou o mito da “Terceira Roma de Moscou”, já cultivado por Ivan III, o Grande, no século XV: isso significa que a Rússia se autoproclama madrinha do cristianismo e dos valores tradicionais, ainda mais diante da “decadência” do Ocidente, que, nessa visão, seria devida à contaminação da sociedade por valores seculares e progressistas. Seu conservadorismo social e autoritarismo político fizeram dele o ídolo dos direitistas do mundo.

Hoje, Vladimir Putin está comemorando seu jubileur de prata no poder com uma trégua no conflito ucraniano acertada com os americanos, limitada à infraestrutura de energia e ao Mar Negro, e que, portanto, parece beneficiar principalmente o país agressor.

(*) Gianluca Mercuri é jornalista. Este artigo foi publicado no jornal Corriere della Sera.

Bandeiras para comer

 

José Horta Manzano

Japão

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Japão: arroz e atum

Japão: arroz e atum

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Líbano

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Líbano: pão libanês, fatush e cheiro verde

Líbano: pão libanês, fatush e cheiro verde

 

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Itália

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Itália: manjericão, spaghetti e tomate

Itália: manjericão, spaghetti e tomate

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Indonésia

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Indonésia: pimenta malagueta e arroz

Indonésia: pimenta malagueta e arroz

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Índia

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Índia: curries, arroz e pão indiano

Índia: curries, arroz e pão indiano

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Grécia

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Grécia: azeitonas de Calamata e queijo feta

Grécia: azeitonas de Calamata e queijo feta

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França

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França: queijo Roquefort, queijo Brie e uvas

França: queijo Roquefort, queijo Brie e uvas

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Estados Unidos

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EUA: hot dog e mostarda

EUA: hot dog e mostarda

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Espanha

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Espanha: paella e chorizo

Espanha: paella e chorizo

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China

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China: pitaia (fruta do dragão) e carambola

China: pitaia (fruta do dragão) e carambola

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Austrália

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Austrália: torta de carne enfeitada

Austrália: torta de carne enfeitada

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Vietnã

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Vietnã: rambutan, litchi e carambola

Vietnã: rambutan, litchi e carambola

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Reino Unido

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Reino Unido: scone, queijo cremoso e geleias

Reino Unido: scone, queijo cremoso e geleias

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Turquia

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Turquia: turkish delight (= locum)

Turquia: turkish delight (= locum)

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Suíça

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Suíça: carne defumada e queijo Emmenthal

Suíça: carne defumada e queijo Emmenthal

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Coreia do Sul

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Coreia do Sul: gimbap e molhos

Coreia do Sul: gimbap e molhos

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Brasil

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Brasil: folha de bananeira, limão galego, abacaxi e maracujá

Brasil: folha de bananeira, limão galego, abacaxi e maracujá

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Fotos Fronterasblog.com

O sabiazão e a sabiazinha

Chamada O Globo

José Horta Manzano

Nos tempos em que não havia avião, humano andava a pé e quem voava era passarinho.

Para indicar o começo do voo da ave, dizia-se levantar voo, alçar voo ou simplesmente voar: “O sabiazão estava descansando num galho; de repente, passou uma sabiazinha e ele voou atrás dela”.

Para informar que o voo tinha acabado, usava-se o verbo pousar: “O sabiá pousou”.

Inventado o avião, os primeiros progressos do novo meio de transporte ocorreram na França. A novas atividades, palavras novas. Os franceses preferiram não utilizar o vocabulário antigo; em vez dele, bolaram as seguintes expressões.

Para indicar que o avião levantou voo, usaram o verbo “décoller” (descolar), palavra que foi aportuguesada e virou “decolar”.

Para indicar o pouso do avião, foi criada a palavra “atterrissage”, que entrou em nossa língua como “aterrissagem”.

Lá pelos anos 1960, surgiram os primeiros voos espaciais habitados. No nariz do foguete, chamado cápsula, é que viajavam os astronautas. Na volta da missão, os soviéticos levavam um tranco ao bater nas estepes do Cazaquistão, enquanto os americanos mergulhavam num “tchibum” caribenho – o tranco era mais suave.

Sentiu-se então necessidade de inventar uma palavra para a volta daqueles que pousavam na água. “Aterrissar” não era um verbo plausível, visto que não caíam na terra. Mais uma vez, os franceses saíram na frente. Com base na palavra “mer” (mar), formaram o verbo “amerrir” e o substantivo “amerrissage”, palavra logo aportuguesada como “amerrissagem”.

Alunissagem, nome que indica pouso na Lua, já está dicionarizada. Para Marte, ainda não foi cunhada uma expressão. Talvez estejam esperando que aquele bilionário assistente de Trump embarque para o planeta vermelho, se encante pelo lugar e… por lá fique.

PS
Se vosmicê chegou até aqui, a expressão “aterrissagem na água”, grafada na chamada de jornal lá na entrada, deve estar lhe parecendo obra de jovem estagiário de poucas letras.

Não vai acabar bem

José Horta Manzano


• Suprema Corte repreende Trump após governo ignorar decisão e pedir impeachment de juiz

• Juiz aponta inconstitucionalidade e ordena que Musk desfaça desmonte da USAID

• Justiça dos EUA bloqueia política que expulsaria militares transexuais das Forças Armadas

• Justiça questiona Casa Branca por rejeitar ordem que barrou deportação e causa tensão

• ‘Trump usa cargo para que Justiça aceite suas mentiras e põe EUA em labirinto constitucional’


Essas cinco chamadas estavam no Estadão online na manhã deste 19 de março. Aos 79, que completará daqui a alguns meses, Donald Trump deve estar se dando conta de que não terá tempo útil para encetar uma carreira de ditador.

Para chegar a um perfeito Putin, a um azeitado Fidel ou a um experiente Salazar, tinha que ter começado aos 40 ou 50. É nessa idade que se constroem as brilhantes carreiras autocráticas. Aos poucos, vai-se tecendo a teia de amizades, de cumplicidades, de cooptações. Só os anos podem alicerçar forte rede de apoios, eliminando duvidosos e interesseiros, e guardando somente fiéis e leais.

Veja o caso de Elon Musk, por exemplo. Como diz o outro, o salão oval não é grande o suficiente para dois egos daquele tamanho. Mais dia, menos dia, a própria eletricidade estática, fenômeno natural provocado pelo atrito entre duas massas, vai acabar expulsando um dos dois pela janela. Imagina-se que Trump, favorecido pelo peso do cargo e do corpo, continue atarrachado à poltrona presidencial. Portanto, sai o outro.

Com seu relógio pessoal encostando nos 80, fica muito complicado, para Trump, encetar o espinhoso caminho de ditador de carreira. Tendo interiorizado essa realidade, o presidente americano decidiu agir com rapidez. Acostumado ao papel de brutamontes nos negócios, está tratando os assuntos exteriores de seu país com ares de quem está com a faca e o queijo na mâo.

Desde a Alta Antiguidade, o mundo está interligado pelas trocas comerciais. Desde então, produtos são levados de cá e trazidos de lá, num movimento circular e constante. Dele participam todos os países. Pode chamar a isso globalização, mundo multipolar, mundo unipolar, mundo bipolar, tanto faz. Sempre houve essas trocas e não é hoje que vão parar.

Trump parece ignorar fatos que são maiores que ele. Ao aumentar impostos de importação, provoca represálias geralmente representadas pelo aumento de impostos de importação em países parceiros comerciais, que vão atingir produtos americanos. Qualquer ginasiano entende esse mecanismo, mas Donald Trump não parece acompanhar o giro da engrenagem.

Além de reações externas, Trump começa a sentir o peso de bloqueios internos. Em princípio, a Justiça não tem medo de cara feia. E o judiciário americano está começando a mostrar que se encaixa nesse modelo: brutamontes não assustam. É o que dizem as chamadas que recolhi hoje do Estadão e que estão na entrada deste artigo.

Se a Justiça americana continuar alerta – e aposto que continuará – o caminho de Trump vai se tornar pedregoso. Talvez ele logo se dê conta de que, apesar do estilo rolo compressor, não vai dar tempo de destruir tudo o que imaginava poder destruir.

O mundo agradece.

Asilo em embaixada

José Horta Manzano

Bolsonaro já deixou entender que, a qualquer momento, com ou sem passaporte, pode pedir asilo numa embaixada em Brasília. Muitos analistas vão nesse sentido e dão crédito ao que diz o capitão. O grande Elio Gaspari já previu que Jair Messias não passará nem um dia atrás das grades porque vai se asilar. Minha visão é menos otimista. Acho importante fazer a diferença entre pedir e obter o tal asilo. Pedir qualquer um pode. Conseguir são outros quinhentos.

Se o distinto leitor acordar um dia disposto a se asilar numa embaixada chique, pode vestir terno de três peças, preparar pequena valise com o necessário para alguns dias e tocar a campainha do imóvel. Em seguida, pode escrever: terá 100% de probabilidade de receber resposta negativa. Não vão nem lhe permitir a entrada.

Bolsonaro imagina-se um ser superior à ralé que o circunda. Acredita que basta se apresentar pelo porteiro eletrônico que um tapete vermelho vai se desenrolar para sua entrada triunfal. Cada um acredita no que quer. Se eu fosse ele, não teria tanta certeza do roteiro.

Todos nos lembramos dos dois dias que ele passou dentro da embaixada da Hungria em fev° 2024. O episódio foi tão escondido que nenhum veículo da imprensa nacional tinha ficado sabendo. Quem revelou o enredo foi o jornal The New York Times, um mês depois – com fotos, que é pra ninguém duvidar.

Quanto a mim, entendi que os acontecimentos tinham sido revelados ao NYT pela própria embaixada a mando do governo húngaro. Valeram-se do jornal mais importante do mundo para deixar claro que o ex-presidente tinha penetrado na embaixada por sua própria conta, que não tinha havido nenhum conluio, que ele havia pedido asilo e que Budapeste havia negado. Bolsonaro já era página virada e a Hungria não tinha interesse em se indispor com o governo brasileiro.

Pois a mesma realidade continua valendo. Desde que o ex-presidente deixou o Planalto, o mundo virou a página Bolsonaro. Bola pra frente. Política se faz com a razão, não com o coração. Os países com embaixada em Brasília pretendem manter boas relações com o Estado brasileiro, sejam quem forem os governantes de turno.

Bolsonaro tornou-se um estorvo, uma batata quente que ninguém quer segurar, um mico do qual cada um quer se livrar. Assim que for julgado e condenado, caso ouse se enfiar em alguma representação estrangeira, ele periga ser incluído na lista dos foragidos da Interpol. Ninguém está disposto a carregar trambolho.

Trisal

José Horta Manzano

A criatividade do brasileiro já foi maior. No século passado, conceitos novos eram quase sempre traduzidos ou adaptados para nossa maneira de falar. O simples mixer deu liquidificador, incômoda palavra de seis sílabas que se enraizou na língua e não se foi. Já hoje, um air fryer se diz air fryer mesmo, cru e com casca. Ninguém se dá mais ao trabalho de traduzir nem de adaptar.

Hot dog, iguaria conhecida no mundo inteiro com o nome original, virou cachorro quente entre nós, numa tradução jocosa e genial. Sandwich, que guardou a grafia original por toda parte, se naturalizou como sanduíche em nossa terra. O mesmo aconteceu com as francesas maillot, embrayage e capot, que se tornaram respectivamente maiô, embreagem e capô.

Apesar da aparente preguiça que atinge os habitantes de uma Pindorama (que, acreditem, já foi morna e úmida e não escaldante como atualmente), por vezes uma centelha ilumina a penumbra e nos brinda com uma palavra nova. E original.

É o caso de trisal, que dá nome a uma curiosa composição conjugal que, na minha opinião, é fadada a ter vida curta. Falo da composição conjugal, não da palavra em si. A palavra pode até ser que continue em uso por décadas, mas não acredito que um trisal aguente décadas.

Trisal há de ser conceito recente, visto que meu dicionário Houaiss, que já soprou 23 velinhas, não abona esse termo. É palavra que tem seu charme, goste-se ou não. Imagino que seja produto nacional – pelo menos, nunca vi termo correspondente em outra língua. Como palavra de difícil tradução, entra para o mesmo balaio que saudade e conceitos de igual jaez.

Estes dias, o trisal, deixou o campo lúdico para sapatear no tablado da injúria. A ofensa pessoal gratuita é um vício feio e inútil que, incentivado pelo imediatismo da internet, foi plenamente adotado, não sei por que razão, pela turma da extrema direita. Parlamentares que, vivendo à custa de obesos salários pagos pelo povo, se autorizam criar, do nada, mensagens insultantes e mandá-las ao ar na esperança de “lacrar” não devem ser mantidos no cargo.

Tanto faz que sejam deste ou daquele partido, que se ajoelhem diante deste ou daquele líder, que professem este ou aquele credo. Tanto faz. De elementos assim, nosso Congresso não precisa. Estão ali ocupando uma poltrona que poderia ser confiada a um cidadão mais sério, de espírito menos adolescente. Lugar de gente assim é no boteco, não no Parlamento. Em casos mais graves, que sejam mandados para a Papuda.

A esta altura, percebo que não dei detalhes do caso. É que imaginei que meus espertos leitores já estivessem a par. Trata-se das estrepolias de um deputado de nome Gayer, apoiador do capitão Bolsonaro, afiliado ao PL. A história começou com a estupidez dita por um Lula que atualmente se debate num atoleiro de maionese. A fala de Luiz Inácio, sem ser uma ofensa pessoal, era de um machismo primitivo, não condizente com os dias atuais. O deputado Gayer aproveitou a deixa para descer alguns andares na graduação da baixaria. Sugeriu que se formasse um trisal entre dois parlamentares homens e a presidente do PT. E deu nome aos bois!

Talvez algum fanático seguidor tenha achado graça. Os componentes do trisal mencionados por Gayer não sorriram. Para azar do deputado ofensor, um dos personagens de sua fantasia é o presidente do Congresso, senador Alcolumbre. Furioso, este último prometeu denunciar o desbocado personagem ao Conselho de Ética com vistas à cassação do mandato de Gayer por quebra de decoro parlamentar.

Torço para que o procedimento chegue a bom porto e que o deputado seja cassado. Será bom como exemplo. Quem sabe, depois disso, os parlamentares pensarão duas vezes antes de discursar no plenário debaixo de uma peruca amarela, como fez outro dia um fiel acólito do capitão.

Pró-natalista

José Horta Manzano

Nos tempos de antigamente, quando se costumava guerrear à força dos braços, o lado que dispusesse de mais braços tinha vantagem considerável sobre o adversário, pois podia contar com mais combatentes. Maior exército significava mais gente para segurar baioneta, para sitiar uma cidade, para manipular arbaletas, canhões ou minidrones.

Essa lógica funcionou até pouco tempo atrás. Desde que foram inventados artefatos que, lançados de longe, podem causar tremendo estrago, tornou-se relativa a necessidade de contar com exército mais numeroso que o do inimigo.

Na guerra da Ucrânia, por exemplo, a Rússia, país invasor, conta com população três vezes superior à do país invadido. Em teoria, poderia fazer mingau da Ucrânia. Mas faz três anos que está pelejando, sem sucesso.

Ao término de um período de conflitos, Estados guerreiros – como a França de Napoleão, por exemplo – instauravam políticas natalistas. A intenção era incentivar a população a ter mais filhos, de maneira a fornecer “carne de canhão” para servir às guerras pátrias.

Nestes últimos 80 anos, desde que terminou a Segunda Guerra Mundial, políticas de natalidade deixaram de fazer sentido na bacia atlântica (Europa e Américas). Se as famílias latino-americanas continuaram a fabricar muitos filhos por algumas décadas ainda, foi por falta de instrução adequada, nada a ver com política natalista.

A informação que reproduzi na entrada é de deixar surpreso. É realmente curioso ver aparecerem, na seita dos seguidores de Trump, grupos que veriam com bons olhos a instauração de uma política de natalidade. Para quê mesmo?

Me ocorre que esses grupos enxergam a chegada de clandestinos latino-americanos como ameaça existencial ao equilíbrio racial da sociedade dos EUA. É certamente essa a razão de tais grupos simpatizarem com uma política que promova o aumento da população branca. Na ideia deles, isso pode neutralizar a contaminação da sociedade americana por “latinos” pobres, de pele bronzeada e de baixa estatura.

Agora, um tanto incrédulos quanto à inclinação das jovens damas americanas para gerar mais pequerruchos, vamos endireitar a redação do anúncio da Folha, que está meio torto.

A expressão “Impulso a grupos pró-natalista” parece estranha. Para melhorar, há pelo menos três opções:

“Impulso a grupos pró-natalistas
(natalista pede s no final para concordar com grupos, que está no plural)

“Impulso a grupos pró-natalidade”
(é outra opção para substituir o deselegante “pró-natalistas”

“Impulso a grupos natalistas”
(é a opção mais simples e direta, eliminando o “pró”)

Por culpa do pastel

José Horta Manzano

Especialistas nas artes da mesa, os franceses são bastante rigorosos ao denominar as diversas variedades de alimentos. Cada tipo de comida tem seu nome e ai de quem confundir: simplesmente não será compreendido.

Produtos de boulangerie francesa

Na França: produtos de boulangerie

 

Na França: produtos de confiserie

 

Na França, a brioche é produto de pâtisserie

Meus distintos e cultos leitores certamente já ouviram falar de Marie-Antoinette, esposa de Luís XVI, a última e infeliz rainha da França. No auge da balbúrdia engendrada pela Revolução Francesa, ambos terminaram seus dias na guilhotina. Importada da Áustria, a desventurada rainha nunca foi bem aceita pelos franceses. Carregava fama de frívola e era desdenhosamente conhecida como «a estrangeira». Não que ela fosse muito diferente da nobreza de sua época. Vivia e agia de acordo com os costumes vigentes. Naqueles tempos, não havia Constituição, o que tornava o poder do rei absoluto. Governar resumia-se a pouco mais que coletar impostos. Imerso em miséria feia, o povão se virava como podia.

Quando de uma manifestação de revolta popular causada pela fome, a rainha teria indagado o que é que estava acontecendo. Explicaram-lhe que o povo reclamava porque não tinha pão. Dizem as más línguas que Marie-Antoinette teria retrucado: «Não têm pão? Ora, que comam brioches!» Pessoalmente, não acredito que o diálogo tenha realmente ocorrido. Há de ser intriga da oposição. No entanto, dá bom exemplo do fosso profundo que separava o povão dos nobres. Estes últimos, todo-poderosos, eram de fato os donos do país.

Voltando à culinária francesa, é bom explicar que as artes em que a farinha de trigo entra como ingrediente principal se subdividem em três ramos principais: a boulangerie (padaria), a confiserie (confeitaria) e a pâtisserie (pastelaria). Urge dizer que esta última especialidade, a pâtisserie, é de difícil tradução em português do Brasil. Na verdade, nosso pastel, especialidade desconhecida na França, ocupou o espaço semântico. No Brasil, pastelaria é comércio especializado em vender pastéis. Traduzir pâtisserie ficou complicado. Em Portugal, onde nosso pastel ainda não faz parte dos hábitos culinários, as pastelarias são lojas que correspondem exatamente às pâtisseries francesas.

Qual a diferença entre os três ramos que utilizam a farinha como matéria-prima principal.

O boulanger (=padeiro) faz pão. O produto pode ser pequenino, enorme, comprido, massudo, redondo, macio, cascudo, escuro, com cereais, quadrado, torcido, com isto, com aquilo. Cada padaria tem especialidades próprias.

O confisier (=confeiteiro) especializa-se em doce confeitado. É frequente o uso de chocolate nas composições. Bala, bombom, caramelo e puxa-puxa, embora não levem farinha, são especialidades de confeiteiro.

E o pâtissier (=pasteleiro) fabrica especialidades em que farinha e açúcar assumem papel importante. Bolo, croissant e brioche(*) são artigos emblemáticos. Tortas, roscas e pães doces também são produtos de pâtisserie. Muitas vezes, o profissional utiliza massa folhada.

Toucinho do céu - especialidade portuguesa

Toucinho do céu é especialidade portuguesa

Os brasileiros que moram em Portugal sabem do que vou contar. Se vosmicê estiver por lá de visita e vir uma pastelaria, não peça pastel de carne nem de pizza, que não vai encontrar. Opte por pastéis de nata, de Santa Clara ou de Belém. Pode também experimentar um toucinho do céu: é de arrebitar-se-lhe as orelhas!

Interligne 18h

(*) Diferentemente do que acontece no uso brasileiro, a brioche é palavra feminina na língua francesa.

Massacre de Selma

Massacre de Selma
7 março 1965

José Horta Manzano

Faz 60 anos hoje. No âmbito da demorada luta que os pretos norte-americanos tiveram de enfrentar para conseguir a abolição do segregacionismo e o reconhecimento de seus direitos civis, um episódio importante aconteceu.

Em 7 de março de 1965, uma marcha de mais de 500 manifestantes, quase todos de pessoas “de cor”, como se dizia então, foi violentamente interrompida numa ponte chamada Edmund Pettus Bridge, em Selma, Alabama.

Policiais estaduais acompanhados por um bando de xerifes da região dispararam gás lacrimogêneo e espancaram violentamente os manifestantes com cassetetes. O episódio ficou conhecido como “Bloody Sunday” (domingo sangrento).

Post Scriptum
É de se perguntar se a “Festa da Selma”, senha combinada pelos depredadores da Praça dos Três Poderes, foi escolhida por mera coincidência ou se era alusão ao violento episódio americano de 60 anos atrás.

Se era uma referência ao espancamento dos negros de 1965, a escolha foi de mau gosto. A luta pelos direitos civis, uma batalha pelo avanço civilizatório, não se confunde com baderna pra tentar manter no poder, à força, um candidato derrotado.

O fim da Pax Americana

by Maurenilson Freire, desenhista cearense-brasiliezse
via Correio Braziliense

José Horta Manzano

Artigo publicado no Correio Braziliense de 3 março 2025

A Pax Americana, que vigorava desde que o silêncio dos canhões anunciou o fim da Segunda Guerra, dá sinais de estar se esgotando. Num momento histórico como o atual, em que qualquer um pode afirmar, sem medo do ridículo, que Hitler era comunista, que o Tiradentes era gay ou que o papa é pedófilo, vai ficando claro que nada mais é como antes. Nosso mundo de confiança, acolhedor e reconfortante, vai se tornando um mundo de desconfiança, em que acordos de cavalheiros se tornaram vaga reminiscência histórica. Na atualidade, golpes baixos são assestados todos os dias pelas mais altas autoridades, restando às vítimas os olhos para chorar.

Faz apenas um mês que Donald Trump assumiu a Casa Branca. Nesse curto espaço de tempo, seu comportamento, reforçado pelo de J.D.Vance, seu vice-presidente, e pelo de Elon Musk, seu assessor especial, tem demonstrado que a solidariedade atlântica – base estável do que, até outro dia, se chamava Ocidente e que incluia a América do Norte e a Europa – está demolida, varrida, morta e enterrada. Em duas semanas, desmoronou e deixou de existir.

Pode-se até, sem forçar na caricatura, incluir a América Latina nesse falecido mundo atlântico. Excetuando-se uma ou outra erupção antiamericana aqui e ali, os países latino-americanos faziam parte desse mesmo universo. Relevem-se naturalmente “enfants terribles” tais como Cuba, Nicarágua, Venezuela.

Abrigada há 80 anos sob o guarda-chuva da proteção dos EUA, a Europa acorda assustada. A reviravolta é tão violenta e inesperada que chefes de Estado e de governo, parlamentares e outras autoridades parecem agitar-se, frenéticos, correndo de um lado para outro, tais formigas cujo formigueiro tivesse recebido vigoroso pontapé. Da noite para o dia, teme-se que os acordos consignados na Otan – tratado de defesa mútua assinado em 1949 entre EUA, Canadá, Turquia e 29 países europeus – tenham-se tornado subitamente letra morta.

Na guerra que se instalou em 2022 na sequência da invasão russa do território ucraniano, Trump já deixou claro seu apoio ao agressor, posição esdrúxula, que contraria o bom senso e o direito que os países livres e soberanos têm de defender o próprio território de ataques externos. Segundo Trump, Zelenski, o presidente da Ucrânia, que conta com 63% de aprovação de seu povo, não passa de um “ditador” que tem de mais é que se dobrar às imposições de Moscou. Da posição de Trump, os espanhóis diriam que é “un atropello a la razón”.

Trump não parou por aí. Foi além, saltou todas as linhas vermelhas e adotou ao pé da letra a posição de Moscou. Declarou, alto e bom som, que a Ucrânia terá o direito de aderir à União Europeia mas não à Otan. É exatamente o futuro da Ucrânia desejado por um Putin incomodado com a perspectiva de ter mais um membro da Otan à sua fronteira.

Zelenski, presidente da Ucrânia, mostrou prudentemente seu desacordo com as palavras de Trump. Já um indignado Emmanuel Macron, presidente da França, declarou que “Ninguém tem o direito de dizer que a Ucrânia não tem direito a entrar na União Europeia ou na Otan”. E embarcou para Washington a fim de repetir essas palavras a Trump, cara a cara. Como se vê, formigas desnorteadas se perguntam como é possível que lhes falte chão debaixo das patinhas.

Donald Trump, além de ser narcisista em alto grau, é dono de um ego desmesurado. Disso, o mundo já se deu conta. Outra faceta de sua personalidade, que vai se revelando com o passar dos dias, é a que o leva a não fazer distinção entre amigos e inimigos, aliados e adversários. A Europa é a maior aliada dos EUA, uma realidade de 80 anos, desde o fim da guerra. O desdém com que Trump tem tratado o aliado tradicional é estonteante.

Mas por que diabos o presidente americano está agindo assim? Louco, não é. Tem de ter em mente um plano, posto que seja inexequível. É plausível que, após analisar a atual situação geopolítica e considerado a inescapável ascensão da China, tenha decidido cindir o tabuleiro mundial em dois mundos, um capitaneado pelos EUA e o outro, pela China. Isso explica seu desejo de trazer a Rússia para seu campo, passando por cima da Europa – que considera favas contadas.

O plano até faria sentido, mas a forma estabanada como está sendo implantado pode pô-lo a perder. Se der certo, será a cortina de ferro ressuscitada, em outras coordenadas geográficas.

Eskindô x Se acabô

José Horta Manzano

Enquanto uns vão de eskindô, outros amargam um se acabô. Tirando um ou outro acometido de amnésia etílica, todos ficaram sabendo do constrangedor espetáculo oferecido este fim de semana ao mundo por Donald Trump, no papel de “quem manda aqui sou eu”.

Esquecido de que Zelenski não havia entrado de penetra, mas a convite, Trump desancou o visitante e humilhou-o diante de câmeras e microfones. Puseram-se em dois – o dono da casa e seu vice – para descer a lenha no ucraniano. Para coroar, puseram o visitante pra correr, expulsando-o antes que fizesse o pronunciamento final.

Todas as análises que li desde então foram unânimes em expressar espanto e mal-estar. De memória de jornalista acreditado junto à Presidência americana, nunca se viu (nem se imaginou) cena desse tipo. Por detrás de portas cerradas, ninguém garante que já não tenha havido murros na mesa, brados de protesto, gestos de ameaça. Diante de câmeras e microfones, no entanto, jamais se tinha visto algo parecido.

Apesar de a cena parecer ter sido espontânea, gerada pelo calor da hora, tenho palpite de que não foi exatamente assim. A meu ver, houve preparação minuciosa, combinação prévia, verdadeira emboscada. Vejamos.

Não é todo dia que se vê o presidente americano discutir política externa com um colega estrangeiro diante de um batalhão de jornalistas munidos de gravadores, holofotes e câmeras. O que se costuma ver são cinco minutos de sorrisos para permitir fotos que vão estampar as reportagens. Discussões, nunca.

Assim sendo, o assunto não era para ser discutido naquele momento. Se o foi, é porque o desmonte da imagem do ucraniano Zelenski tinha sido minuciosamente preparado. A certa altura, Trump deu a primeira paulada, sinal de que a encenação podia começar. Logo em cima, seu vice, sem que lhe fosse solicitado, entrou no meio da conversa para sentar a pua no infeliz visitante que, com conhecimentos insuficientes de inglês, titubeou, dançou e rolou.

Estamos diante de um caso estranho. Numa guerra que já dura três anos, causada por uma potência que despachou suas forças armadas para invadir o país vizinho, a maior potência bélica do planeta apoia abertamente o agressor e não o agredido. Trump, no fundo, está rebaixando seu próprio país a um nível que imaginávamos reservado a dirigentes periféricos, como Lula, que também destratou o presidente ucraniano e deu apoio a Putin, o invasor.

Trump não sabe ainda, mas atitudes como a que ele tomou no Salão Oval diante do presidente Zelenski vão na contramão de seu desejo de fazer que os EUA voltem a ser grandes (Make America Great Again). No dia seguinte ao do bate-boca, os países que, confiantes, tinham se abrigado desde 1945 sob o guarda-chuva nuclear americano entenderam que a aliança estava morta.

A Europa entendeu que, sem o apoio militar dos Estados Unidos, corre perigo existencial. A Rússia, por seu lado, também entendeu que, com um Trump indiferente, é chegada a hora de recompor a Grande Rússia, como nos tempos da URSS. Quem sabe qual será a primeira das novas vítimas? Um país báltico? A Romênia? A Finlândia? É bem capaz de acontecer antes do que imaginamos.

Rearmar-se leva tempo, mas a Europa já está no bom caminho. O Reino Unido e a França são países dotados da arma atômica. A Alemanha acaba de pedir à França que estenda sua proteção nuclear ao território alemão. As coisas estão se mexendo com rapidez.

Como vão ficar os que confiaram na proteção dos EUA? Taiwan, cobiçado pela China continental? O Japão, desarmado há 80 anos e confiante na proteção americana? A América Latina que, fascinada pela Florida e pelos EUA, rejeita ser colonizada pela Rússia ou pela China?

Ninguém garante que Trump pendure as chuteiras no encerrar deste mandato. Pode ser que ouse entortar a Constituição e propor-se para mais quatro anos. Pode ser também que o próximo presidente seja o atual vice, J.D.Vance, que tem comportamento ainda mais ignorantão e agressivo que o chefe. Portanto, não é possível cravar, neste momento, que daqui a 4 anos estaremos livres desse pesadelo.

Trump pode até tirar algum proveito de sua guerra de tarifas de importação. Mas periga ver uma debandada de bons e antigos aliados. Ninguém quer ter aliado não confiável.

As preocupações do mundo

O Globo, 27 fevereiro 2025

José Horta Manzano

O Ipsos, conhecido instituto francês de pesquisa de opinião, leva a cabo um estudo permanente em 29 diferentes países (entre os quais o Brasil) para aferir as inquietações dos respectivos habitantes.

Ao entrevistado, é apresentada uma lista de 18 tópicos de sociedade. Pede-se que ele selecione os três que lhe parecem os mais preocupantes. Os resultados são frequentemente evidentes, às vezes curiosos, sempre interessantes.

A edição mais recente acaba de ser publicada, com os dados de fevereiro de 2025. Sem surpresa, a maior preocupação do brasileiro (38%) são o crime e a violência, tópico que incomoda muito pouco os habitantes de Singapura, onde foram citados por somente 7% da população.

Na Argentina, desde que a inflação desenfreada dos últimos anos arrefeceu, na esteira das reformas de Milei, a população parece ter recuperado o sorriso. A confiança na economia subiu 28 pontos com relação ao mesmo período do ano passado. O castigo da hiperinflação dos anos recentes foi tão pesado, que hoje estão todos se sentindo aliviados, apesar de a situação ainda estar bastante complicada.

Já a perocupação dos brasileiros quanto à inflação, está crescendo no sentido contrário ao dos argentinos: mais confiança lá, maior preocupação aqui. Até o ano passado, no Brasil, o dragão da inflação parecia adormecido. Este ano, a população está sentindo que o dragão acordou.

A pobreza e a desigualdade social, como era de se esperar, empata com a criminalidade na preocupação dos brasileiros. Mesmo os cidadãos cuja posição social está distante dessa categoria, sentem que aí reside um dos maiores males nacionais. Uma curiosidade: no Japão, uma porcentagem elevada de cidadãos (33%) mostra preocupação com o aumento da desigualdade social no país. Visto de fora, não imaginaríamos que fosse essa uma das inquietudes japonesas.

O desemprego não parece estar entre as preocupações nacionais do momento. O Brasil é o 21° (em 29) na lista dos que receiam o desemprego. Já a Argentina aparece em 3° lugar na mesma lista. O contraste entre as duas maiores economias da América do Sul é grande.

Quanto à preocupação com a corrupção política e financeira, o Brasil aparece no meio da lista, próximo da média mundial. Não é que o brasileiro não perceba a corrupção que rói as entranhas da nação; eu diria que nossa indiferença é reflexo do desalento e da certeza de que, por mais que façamos, a classe política continuará a negar-se a servir ao povo para poder servir-se do dinheiro do povo.

O tópico que mais me impressionou foi o das mudanças climáticas. Entre os países que se preocupam com as mudanças no clima da Terra, o Brasil está em 18° lugar (entre 29 países). Ou seja, estamos longe de nos preocupar com o estado do planeta que vamos deixar para nossos filhos e para os que virão depois.

Nossas catástrofes climáticas dos últimos tempos (entre as quais, enchentes diluvianas no Rio Grande, labaredas espontâneas a lamber o Pantanal e a Amazônia, seca saariana no Rio de Janeiro) parecem não ser suficientes para sacudir a percepção do brasileiro e alertá-lo para o cataclisma em que já pusemos o pé. E que nos obriga a entrar na roda, queiramos ou não.

Há fenômenos naturais que não podemos combater por serem mais fortes que nós. Assim mesmo, temos meios humanos à nossa disposição para mitigar os efeitos de catástrofes. Cabe às nossas autoridades (federais, estaduais e municipais) investir em campanhas de esclarecimento da população. Cada um pode (e deve) fazer a sua parte. Tudo se aprende, que ninguém nasceu sabendo.

Amigo cidadão

Cristovam Buarque (*)

[A esquerda brasileira] não percebeu que uma utopia possível e necessária consiste em acenar com um sistema nacional de educação com qualidade e equidade, independentemente da renda e do endereço, filhos de pobres e ricos na mesma escola com qualidade entre as melhores do mundo.

Além da visão do capital monetário, não percebeu os tempos do capital conhecimento, por isso prefere apoiar greves dos trabalhadores da educação a apoiar os interesses dos alunos. Prefere continuar como o partido do sindicato de professores em vez de ser o partido da educação.

(*) Cristovam Buarque (1944-) é professor emérito da Universidade de Brasília. A integralidade deste artigo está no Correio Braziliense. Clique aqui.

Placa de automóvel na Suíça

placa-23José Horta Manzano

Você sabia?

A Suíça é um dos poucos países onde placa de automóvel não pertence ao veículo mas ao proprietário do veículo. E como é que funciona?

Suponhamos que o cidadão compre seu primeiro carro, novinho em folha, direto da concessionária. A própria loja se encarregará de cumprir as formalidades junto às autoridades. O feliz proprietário já receberá seu carro emplacado e pode sair por aí.

No dia em que quiser revender o carro, vai entregar os documentos ao comprador mas não a placa. Deve tirá-la do carro e guardá-la. Se tiver intenção de utilizar a placa em outro veículo (novo ou de segunda mão), basta avisar o Departamento de Tráfego, completar a papelada, pagar eventuais taxas e pronto: pode instalar sua placa no novo carro.

Caso tenha aderido à filosofia do ecologicamente correto e tiver desistido de possuir veículo próprio, basta devolver as placas ao Serviço dos Automóveis e não se fala mais nisso. Vai receber reembolso da taxa de circulação e do seguro pro rata temporis.

Se tiver intenção de dar um tempo antes de comprar novo veículo, o melhor será entregá-la ao Departamento de Tráfego para armazenagem. Por módica taxa, ela será conservada por até um ano, à disposição do proprietário a qualquer momento. A vantagem dessa devolução temporária é que, durante o período de armazenagem, o proprietário não terá de pagar taxa de circulação nem seguro. Passado um ano, o direito ao uso da placa prescreverá. Caso o cidadão compre novo veículo no futuro, receberá nova placa.

Nenhum veículo pode circular sem placa ‒ é o que diz a lei. Então como é que fica no caso do comprador de carro de segunda mão? Se o proprietário antigo retém a placa, o novo dono sai por aí sem placa? Não pode. Pra remediar, a administração já pensou nesse problema. Antes de concluir a transação, o comprador terá de passar pelo Departamento de Tráfego e solicitar uma autorização provisória de circulação. O papel lhe dá direito a deslocar-se ‒ uma vez só ‒ do lugar onde está o veículo até o posto de emplacamento mais próximo. Se for parado no meio do caminho, o documento o protegerá contra toda sanção.

A grande vantagem desse sistema é evitar que, depois de haver vendido um carro, o antigo proprietário continue a receber multas cujo culpado é um novo dono que, distraída ou dolosamente, se «esqueceu» de transferir a posse. No Brasil, isso já aconteceu comigo. Dá uma dor de cabeça dos diabos, porque nem sempre é fácil localizar o novo possuidor.

Tem mais uma particularidade suíça: a placa intercambiável. Suponhamos que o indivíduo tenha dois veículos que nunca são utilizados ao mesmo tempo. Digamos que usa um deles para o trabalho, durante a semana, reservando o outro para passear no fim de semana. É possível ter uma placa só, intercambiável entre os dois carros.

As condições são duas. Por um lado, os dois automóveis nunca poderão circular ao mesmo tempo. Por outro, aquele que estiver sem placa não pode ser estacionado em via pública ‒ terá de ser guardado em lugar particular, que seja garagem, jardim, terreno ou assemelhado.

A vantagem de ter uma placa só para dois veículos é que uma só taxa de circulação e um só seguro valem para os dois. São 50% de economia.

Inelegibilidade

José Horta Manzano

Estava lendo agora há pouco um relato n’O Globo sobre a possível extensão da inelegibilidade de Bolsonaro se, porventura, vier a ser condenado. Explica o texto que a inelegibilidade passa a contar do fim da execução da pena. Se, por exemplo, o ex-presidente viesse a receber a sentença máxima (43 anos), estaria inelegível por 50 anos.

Se essa é a lei atual, cumpre-se. Leis são feitas para serem cumpridas. Mas também são feitas para serem alteradas. Essa história de inelegibilidade temporária me intriga.

Ao condenar Bolsonaro a oito anos de privação do direito de ser eleito, pressupõe-se a expectativa de que, ao final do período de privação de eleição, o antigo presidente se tenha transformado, que sua personalidade volte despida de toda agressividade, que seu comportamento reapareça livre de intenções golpistas.

Ora, sabemos todos que não será assim. Pau que nasce torto não tem jeito, morre torto. Desde a juventude, quando tentou criar o caos no Exército por meio de explosivos, Jair Messias não mudou um milímetro. Assim como entrou na Presidência, saiu. Como é que alguém pode ter a ilusão de que ele se transformará após 8 anos de provação? Que acompanhamento psicológico foi previsto para ele durante esse período de abstinência de votos? Nenhum.

Logo, o período de inelegibilidade é apenas um castigo, uma punição, sem esperança de remissão dos pecados, ou seja, de regeneração da personalidade. Se assim for, parece-me medida inócua, que só protela a volta do malfeitor, carregado dos mesmos defeitos que lhe eram peculiares.

Por seu lado, se um indivíduo é condenado a não mais ter o direito de candidatar-se a cargo público, a mim parece que a pena deveria ser definitiva. Dado que o cidadão foi condenado por defeitos de sua própria personalidade, não faz sentido dar-lhe um castigo temporário. Ao final, voltará com os mesmos defeitos, se candidatará e, caso seja eleito, espalhará os mesmos problemas.

Em resumo, penso que a condenação à inelegibilidade deveria ser definitiva, sem possibilidade de volta atrás. Ou que, caso se acredite na possibilidade de “cura” do apenado, que se o obrigue a seguir os passos médicos ou psicológicos impostos pelo tribunal.

Falta de profissionalismo

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Minha filha já foi sequestrada umas sete vezes e covardemente ameaçada de morte caso eu não providenciasse a recarga de um cartão pré-pago para seus algozes.

Minhas contas bancárias já foram invadidas por hackers umas cinco vezes e meus cartões de crédito já foram clonados várias outras. Se não fosse graças à presteza do gerente para me ligar alertando sobre movimentações suspeitas e disponibilizando um motoboy para retirar meu cartão, o prejuízo seria enorme.

Minha operadora de telefonia já me ligou duas vezes, comunicando que eles haviam sido multados pela Anatel por cobrarem uma taxa de ligações internacionais jamais feitas e que, por isso, se prontificavam a fazer o reembolso imediato dos valores recebidos indevidamente, bastando apenas que eu informasse o número da minha conta e a senha para o depósito.

Já fui advertida inúmeras vezes pela Netflix por não ter sido identificado o pagamento de parcelas atrasadas e que, portanto, minha conta seria encerrada. Os Correios já me notificaram diversas vezes de que um pacote referente a uma compra internacional teria sido apreendido pela fiscalização e que eu teria um prazo máximo para a regularização junto à Receita Federal. Também o Detran já emitiu vários avisos de que minha carteira nacional de habilitação seria suspensa caso eu não pagasse multas referentes a infrações de trânsito cometidas por mim. Em todos esses casos, vejam só quanta facilidade e cortesia, tudo o que eu precisaria fazer era escanear um QR Code ou copiar o código de barras para providenciar o pagamento.

Juro que eu entendo e me comovo com a dificuldade de sobrevivência de pessoas sem muita qualificação profissional que vêm lutando sem sucesso para abrir espaços no competitivo mercado de trabalho atual. Compreendo também a profunda desigualdade de oportunidades de acesso a uma educação de qualidade que mancha indelevelmente nossa combalida república.

Sei por experiência própria como é humilhante ir ao supermercado e ter de sair de mãos abanando por não dispor de fundos suficientes para encarar os preços hiperinflacionados de produtos básicos de alimentação e higiene pessoal. Porém, em meio a esse excruciante cipoal de tentativas de me separar do meu suado dinheirinho de aposentada, sinto a necessidade de aconselhar tantos e tão variados golpistas quanto às formas mais eficientes de administrarem seu “negócio”. Observem, por favor:

1. Não subestimem a inteligência de suas vítimas em potencial. O fato de uma pessoa ter chegado a uma idade avançada não significa que ela tenha obrigatoriamente de apresentar um déficit cognitivo. Podemos ser mais lentos para reagir, mas não incapazes de ligar lé com cré e desconfiar das reais intenções de pessoas que não conhecemos pessoalmente;

2. Antes da segunda tentativa de passar um golpe por telefone ou e-mail que já tenha ‘dado ruim’ na primeira, risquem imediatamente o número e/ou o endereço da vítima. Isso vai lhes poupar muito constrangimento e desviar sua atenção de contatos que poderiam lhes render muito mais frutos. É uma questão básica de organização e de planejamento, uma tarefa que pode facilmente ser delegada a um auxiliar qualquer;

3. Façam um curso rápido de imersão gramatical na língua portuguesa, dada a alta complexidade de suas regras e das infinitas exceções que ela comporta. Principalmente se a mensagem for escrita, é preciso atentar para o jargão da área, a concordância verbal e nominal, e evitar a todo custo o emprego de gírias e expressões populares. Isso reforça em muito a sua credibilidade e agrega um toque de simpatia ao seu esforço de convencimento da vítima;

4. Diversifiquem ao máximo seus golpes. O que vem acontecendo desde sempre é que alguém descobre um veio que mostra ser altamente promissor e ele passa a ser explorado ad nauseam por incontáveis outros garimpeiros. Sejam criativos também para agregar novos contornos a golpes já conhecidos, inovando nos detalhes da mensagem e contando com a ajuda da IA para reforçar o entendimento de que “é verdade este bilete”.

Cansada de ser assediada por tantos meliantes, desenvolvi algumas técnicas de negociação rápida que agora tenho o prazer de compartilhar com quem me lê:

Interrompa várias vezes o discurso alarmista do golpista, pedindo explicações e mais detalhes sobre a ocorrência. Isso costuma implicar muitos gaguejos e desculpas esfarrapadas que podem ligar o alerta de que o golpista não dispõe de tantos dados assim a seu respeito;

Na primeira vez que for abordado, deixe que o discurso golpista avance até chegar a um ponto crucial de persuasão e, ao final, informe placidamente que ele se equivocou e está falando com a pessoa errada. Aprenda a se divertir dizendo algo como: “Tudo bem, vou fazer o que você me pede, mas só tem um probleminha: eu não tenho filhos, não tenho conta nesse banco, não tenho cartão de crédito, não fiz nenhuma compra internacional, não tenho carro/não dirijo há meses, deixei de trabalhar com essa operadora de telefonia há dois anos, etc.

Ajude a profissionalizar nossos golpistas pé de chinelo, já temos concorrentes demais no universo político e empresarial.

A pátria agradece.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.