A cada quatro anos, na única eleição em que os brasileiros estabelecidos em países estrangeiros têm licença para votar, descubro algum problema que nossas comunidades expatriadas enfrentam.
Este ano, o estrepe que dói no pé de conterrâneos no estrangeiro se chama Donald Trump, e atormenta os que um dia procuraram os EUA na crença de lá encontrar seu eldorado e de engatilhar seu ‘sonho americano’.
Estimativas dão conta de 2,1 milhões de brasileiros vivendo nos Estados Unidos, enorme contingente que representa 40% de nossos compatriotas fora do país.
Para acolher o afluxo de eleitores esperados para o 4 de outubro, os serviços consulares do Brasil abriram nada menos de 12 postos de votação, situados nas regiões com maior concentração de brasileiros.
Reportagem da Folha relata o caso do Consulado-Geral de Nova York, que vale como exemplo. Por medo de ser apanhado por uma patrulha brutal do ICE, o serviço que caça imigrantes ilegais (ou não), nossos conterrâneos passam longe de multidão, ajuntamento, fila na calçada, enfim, todo lugar em que possa ser vítima de uma batida. Isso vale tanto para documentados quanto para indocumentados – as patrulhas se deixam guiar pela aparência ou pelo faro, que nem sempre é perfeito.
Ciente desse impedimento, nosso consulado procurou um lugar mais discreto, longe de bairros “manjados”. Encontrou um lugar onde os votantes possam entrar rápido, sem se aglomerar na calçada, pondo-se todos a salvo do ICE.
É louvável a preocupação do consulado, mas receio que não vai encorajar muita gente a sair de casa. O medo de ser preso e, sabe-se lá, expulso, é grande demais.
Contra a brutalidade de Trump e de seus serviços, não há nada que possamos fazer. Por seu lado, as competentes autoridades brasileiras podem, sim, aplainar a vida dos brasileiros que, enfrentando Trump ou não, ganham a vida e sustentam a família no exterior.
Para começar, há um ponto importante a ser mencionado. Os 5,3 milhões de brasileiros do estrangeiro remetem anualmente ao Brasil o montante de US$ 4 bilhões. São mais de R$ 20,7 bilhões, soma considerável. É dinheiro que entra em nossa economia limpinho, caído do céu. Corresponde a US$ 750 por pessoa (crianças incluídas), ou seja, quase R$ 3.900 por cabeça. Não é qualquer cidadão nacional que paga tudo isso de imposto direto.
Nos EUA, o problema é esgueirar-se nas esquinas para escapar à versão trumpiana do famigerado ICE. Em países onde não se perseguem estrangeiros, o problema muitas vezes é a distância entre o domicílio do eleitor e o posto de votação. Na França, por exemplo, há um só lugar para votar: Paris. Isso significa que o brasileiro residente em Marselha, segunda cidade do país, tem de percorrer os 777 km que separam as duas metrópoles (7h45 de automóvel). Esse é o caso de muitos outros países.
Está na hora de o Brasil implantar, nem que seja só para os eleitores do exterior, o voto por correspondência. Não estou falando de voto por internet, mas de voto por carta levada pelo correio. Dos grandes países da Europa, conheço bem três onde esse tipo de voto está em vigor há décadas: a França, a Suíça e a Itália.
Se o Brasil adotasse esse método, os eleitores registrados no consulado receberiam em casa o material de voto. Exprimiriam seu voto confortavelmente, em seguida bastaria seguir as instruções: botar no correio (não precisa nem selar) e despachar. Os votos seriam apurados no próprio consulado, em seguida enviados a Brasília.
Esse procedimento anula patrulhas do Trump, e apaga também a distância do domicílio até o posto consular.
Há ainda outros pontos a inserir em nossa legislação a fim de facilitar a vida dos que pagam, por meio de suas remessas mensais à pátria, o pedágio de terem ousado trilhar um caminho diferente. Ficam para uma próxima vez.
