O Kapeta se chama Marina

Dad Squarisi (*)

by Alberto Correia de Alpino F°, desenhista capixaba

by Alberto Correia de Alpino F°, desenhista capixaba

Estudiosos de Saussure, Pike, Bloomfield, Chomsky, Martinet, Jakobson e o brasileiríssimo Matoso Câmara estão intrigados. Querem explicações para o milagre. O Lula sumiu da telinha. Só ficou a Dilma, que virou fervorosa advogada de si mesma.

Até há pouco, a criatura não convencia nem as velhinhas de Taubaté. Precisava de aval do padrinho. Professor de Deus, ele punha a mão no fogo pela afilhada. Agora o cenário mudou. As palavras vêm do fundão das entranhas. Brotam aos borbotões — fortes, altas e valentes. Xô, comedimentos!

Qual a mágica? Linguistas pesquisam em livros, vasculham a internet, entrevistam medalhões. Nada de resposta. Alguns arriscam palpites. Lembram-se de crianças. Ao menor descuido, as arteiras enfiam o prego na tomada. Levam um choque e disparam a choradeira.

Há quem acredite que Dilma tomou estimulante. Não Kapeta, que se compra em farmácia. O remédio que animou a presidente se chama Marina. Com a acriana crescendo e aparecendo, pintou o medo. O PT perder o poder? Nãããão!

(*) Dad Squarisi, formada pela UnB, é escritora. Tem especialização em linguística e mestrado em teoria da literatura. Edita o Blog da Dad.

Quem vai ganhar?

José Horta Manzano0-Sigismeno 1

Como todos os brasileiros, Sigismeno anda empolgado com a eleição para a presidência da Republica. Até quinze dias atrás, nem tocava no assunto. Achava modorrento, maçante, aborrecido, um jogo de cartas marcadas.

Ainda ontem nos encontramos. Depois de falar do sol e da chuva, ele abriu um largo sorriso ― acho até que chegou a dar uma piscadela ― e veio direto: «Você viu as eleições?».

«Claro que vi, Sigismeno. Quis o destino que um dos pretendentes ao trono tenha desaparecido naquele avião espatifado. Que coisa trágica, não?»

urna 4«Pois é, e foi acontecer justamente com o mais jovem dos candidatos que tinham alguma chance. Não há que dizer, era a hora dele. Mas deixe estar, que há males que vêm pra bem.»

«É, tem razão. A desgraça serviu pra sacudir o processo. Dona Marina, que andava meio apagada no incômodo lugar de vice, desabrochou.»

«Desabrochou?» ― bradou Sigismeno ― «explodiu, isso sim!».

«Andam até dizendo que ela tem chance de chegar ao segundo turno. O que é que você acha, Sigismeno?»

«Pois não só vai chegar ao segundo turno, como vai ganhar a eleição. Pode se preparar. Nossa próxima presidente já está ungida pelo destino, acredite.»

«E como é que você pode ter tanta certeza, Sigismeno?»

«É cristalino como água de fonte. Mas vamos começar pelo começo. O que valia para os anos 50 já não vale mais hoje. Tem muito político por aí achando que a maioria do povo brasileiro é constituída de broncos, desdentados, analfabetos, perfeitos ignorantes. Já não é assim.»

Eleição 1«As coisas têm mudado um bocado, é verdade.»

«As mudanças se aceleraram estes últimos anos. Se a eleição que ocorreu em 2002 fosse hoje, não tenho nem certeza de que ganharia o Lula. O povo anda meio vacinado contra líderes messiânicos.»

«Você acha, Sigismeno? Pois essa ascensão de dona Marina Silva, a evangélica, não deixa evidente que o povo ainda espera seu messias?»

«De jeito nenhum. A fé neopentecostal está longe de deriva messiânica. Essas novas seitas pregam a redenção pela transformação pessoal, pelo esforço individual, pela persistência no caminho da virtude. A base é: “faz a tua parte, que Eu te ajudarei”.»

«Mas, nesse caso, o que é que explica a explosão de dona Marina, como você mesmo disse, Sigismeno?»

«É simples. O povo brasileiro, que deixou de ser bronco e desdentado, sabe que a coisa anda podre lá no andar de cima. Todos ouviram falar em mensalão, corrupção, dinheiro na cueca, presídio da Papuda, fuga para o exterior, cãezinhos passeando de helicóptero, bifurcação de rios de mentirinha, desvio de bilhões da Petrobrás e outros bichos. Ou não?»

«É verdade, Sigismeno. Não precisa ser cientista político pra perceber que a turma da primeira classe anda exagerando.»

«Pois é, de cada três eleitores, dois gostariam de substituir os mandatários. Só que… só que muitos deles, antigos eleitores dos que ora nos governam, hesitavam em dar seu voto a esse outro jovem, o Aécio. Sentiam como se estivessem cometendo traição.»

«E agora mudou, Sigismeno?»

«Com a entrada de Marina no páreo, sim. Os desencantados, que vacilavam em dar voto ao moço de Minas, se jogaram em cima da acriana. Não por messianismo nem por programa de governo. Aliás, pouco importa quais sejam as metas de governo dela. O povo sente que, se lhe confiar o mandato, vai conseguir dois objetivos: varrer a bandalheira e entregar o poder a alguém que vem do andar de baixo, que venceu por seu próprio esforço e não por Q.I.»

Urna 2«Não deixa de fazer sentido o que você diz, Sigismeno. E… você tem uma previsão do resultado da votação?»

«Olhe, certeza ninguém tem. Mas eu apostaria num primeiro turno com 45% para dona Marina, 35% para dona Dilma, 15% para o moço de Minas e umas migalhinhas para os paraquedistas.»

«Só 35% para a presidente atual, Sigismeno?»

«Ela atingiu o teto do núcleo duro do eleitorado petista. Daí, não passa.»

«E o segundo turno, como é que fica?»

«Marina leva com um placar em torno dos 60%. Se não houver manipulação dessas urnas eletrônicas. Como você sabe, para mim, elas são pra lá de suspeitas. Todo cuidado é pouco.»

«Olhe, Sigismeno» ― disse eu ― «vou botar no blogue». «Mas que fique bem claro: é o seu palpite, não necessariamente o meu.»

Promessa cumprida.

Frase do dia — 168

«Sem mau humor, sem descrença, sem divisões, sem “eles”. O Brasil de todos nós. Agregador, assim era Eduardo Campos, um político de quem se podia discordar, mas uma pessoa de quem era absolutamente impossível não gostar.»

Dora Kramer, em sua coluna do Estadão, 14 ago 2014.

Frase do dia — 152

«O horário dito gratuito, como se sabe, já é devidamente financiado pelo público mediante a renúncia fiscal a que têm direito as empresas de comunicação pela cessão do espaço.

(…) Os programas dos candidatos à reeleição também acabam sendo em parte pagos pelo contribuinte. Isso sem que ele seja informado nem que perceba sua condição de doador compulsório.»

Dora Kramer, em sua coluna do Estadão de 6 jul° 2014.

Quem tem medo de povo?

José Horta Manzano

A Noruega é uma monarquia parlamentar. O rei é chefe do Estado, com funções meramente simbólicas. Como a rainha da Inglaterra e outros monarcas modernos, o rei da Noruega não interfere na vida política. Representa a base, o cimento que mantém a sociedade unida. Os políticos vêm e vão, dependem de confirmação periódica pelo voto. No final, acabam passando. Já o monarca permanece, firme e forte, até que abdique do trono ou que exale o último suspiro. O governo é exercido pelo parlamento e chefiado pelo primeiro-ministro.

Falando em eleições, a Noruega se prepara para renovar os 169 membros de seu parlamento. Entre 1° de julho e 6 de setembro, os cidadãos têm o direito de votar por antecipação. Os que preferirem podem deixar para votar no último dia, 9 de setembro.

Noruega

Noruega   –   clique para ampliar

O país conta com dois partidos políticos principais que congregam, juntos, cerca de 60% dos votos. Uma meia dúzia de partidos menores compartilham o resto. O vencedor virá, com certeza, de um dos dois partidos majoritários. Neste momento, as pesquisas indicam empate entre os dois candidatos principais. Um deles é justamente o atual primeiro-ministro, Jens Stoltenberg.

Sabemos todos que a sociedade escandinava está entre as mais igualitárias do planeta. Nesse campo, a norueguesa sobressai. Ninguém por lá está interessado em títulos. O tratamento de respeito correspondente a «o senhor/a senhora» foi abolido já faz muitos anos. Todos se chamam usando a mesma palavra: Du. Senhor Fulano ou Senhora Sicrana são fórmulas do passado, que hoje fariam sorrir. Nem em cartas comerciais de cerimônia se deve dar título ao destinatário. Quando não se conhece a pessoa e se tem de ser formal, escreve-se o nome e o sobrenome. E basta.

Dito isso, Jens Stoltenberg, o sorridente primeiro-ministro, é candidato a suceder a si mesmo. Quis saber de perto o que o povo pensava dele e de seu governo. Chegou à conclusão de que cabeleireiros e taxistas são profissionais que costumam recolher declarações íntimas e espontâneas de muita gente em pouco tempo. Dado que não leva jeito para cabeleireiro, decidiu exercer a função de taxista por um dia inteiro.

Noruega

Noruega   –   clique para ampliar

Vestiu o uniforme, pendurou o crachá de rigor, enfiou óculos escuros para disfarçar, e pôs mãos à obra. Aproveitou para filmar os acontecimentos (*) com uma câmera discreta. A oportunidade era excelente para matar dois coelhos de uma só cajadada: ficar a par dos comentários da população e fazer seu marketinguezinho a preço de ocasião.

Acertou na mosca. Ainda não se sabe se o vídeo o terá ajudado a ganhar alguns votos, mas o fato é que fez sucesso planetário. Foi repercutido da Islândia até o Bangladesh.

Como deve ser bom viver num país onde o primeiro-ministro pode sair à rua sem proteção e, principalmente, sem medo de povo, de agressões ou de vaias.

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(*) Assista ao vídeo, que vale a pena. São menos de 3 minutos.

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