O que o Lobo Mau diria a Bolsonaro

Eduardo Affonso (*)

Sr. presidente (ou candidato — nunca sei ao certo),

Invadi o provedor que o Elio Gaspari usa para fazer chegar aos vivos (principalmente aos muito vivos) certas mensagens do Além e valho-me dessa tecnologia de ponta para me dirigir ao colega, daqui do mundo das fábulas, onde bichos falam, e toda história tem uma moral.

Permita que me apresente e justifique a intimidade de tratá-lo de igual para igual: sou o Lobo Mau, aquele que contribuiu para o aumento do déficit habitacional entre os porquinhos, fez disparar a taxa de mortalidade de cordeiros e vovozinhas e lançou mão de feiquenius para tentar devorar Chapeuzinho Vermelho.

Tenho percebido, de sua parte, a apropriação de muitas das minhas estratégias — e não posso me furtar a lhe lembrar que elas nem sempre deram certo.

Como eu, o senhor bufou e mandou pelos ares a casa de palha. Bufou, bufou e derrubou a casa de pau. Animado com o sucesso, bufou, bufou, bufou e… não conseguiu pôr abaixo a casa erguida com cláusulas pétreas. Os porquinhos 01, 02 e 03, meus companheiros de fábula, poderiam ter lhe contado que, bufando, se consegue muita coisa, mas não tudo.

O senhor se travestiu de liberal na economia, assim como eu de vovozinha. Mas as orelhas grandes, que fizeram ouvidos de mercador às demandas pela reforma administrativa e por um modelo fiscal mais justo, ficaram de fora. O nariz grande, que farejou vantagens na manutenção da TV estatal e da empresa do trem-bala, também. O olho grande, que insistiu em intervir na Petrobras e travou as privatizações, idem. Por fim, a boca grande mastigou o equilíbrio fiscal e engoliu o teto de gastos. O senhor vai levar um susto maior que o meu quando o caçador entrar em cena — e olha que eu tinha imunidade por ser espécie em via de extinção.

Sua pinimba com as urnas eletrônicas é plágio descarado daquele meu entrevero, às margens do riacho, com o cordeiro. Nunca foi segredo que eu quisesse porque quisesse comê-lo, mas precisava de uma boa desculpa. Inventei que ele sujava a água que eu bebia. Isso seria impossível, haja vista ele estar 20 passos adiante de mim, no sentido da correnteza. Criei outras narrativas (se não era ele, era o irmão dele etc.), mas sem chegar ao ponto de sugerir que a direção em que corria o riacho não fosse auditável. Um lobo, ainda que mau, tem seus limites lógicos e éticos. Fosse o senhor, mesmo com os goles d’água impressos, um novo pretexto seria fabricado.

Sabemos do triste fim do cordeiro (triste para ele, não para mim, que o comi tão logo desmontou minha terceira ou quarta falácia). Quanto ao senhor, prepare-se: até o mais cordial dos cordeiros já aprendeu que bom cabrito é o que mais berra.

O pastor que gritava “é o lobo, é o lobo!” quando eu nem estava nas imediações teve sérios problemas no dia em que resolvi assuntar o rebanho. Os aldeões já estavam dessensibilizados para a ameaça.

Em outro momento, minha amiga raposa@uva entrará em contato para lhe falar de um golpe que ela tentou aplicar, o “as urnas estão verdes”. Não colou. E leão@rei manda dizer que deu boas gargalhadas com a PEC do senador vitalício.

Um abraço fraterno do

Lobo Mau

(*) Eduardo Affonso é arquiteto, colunista do jornal O Globo e blogueiro.

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