Resenha – 4

by Pedro Silva, desenhista português

José Horta Manzano

Descartável
Doutor Anderson Torres, que foi ministro da Justiça aos tempos de Bolsonaro, foi colhido pela PF ao desembarcar de voo que o trazia de volta de suas ‘férias’ em Orlando. Foi então conduzido a um destacamento da Polícia Militar de Brasília onde está preso há três semanas.

Ontem, o doutor deu depoimento. Indagado sobre a minuta de decreto golpista encontrada entre seus guardados, declarou que considera a dita minuta “totalmente descartável” e, mais que isso “sem viabilidade jurídica”.

O doutor não explicou o que é que um papel “totalmente descartável” fazia entre os documentos conservados em sua residência. Se era descartável, deveria ter sido descartado. Por que não o foi?

Ao declarar que o decreto golpista é “sem viabilidade jurídica”, o doutor chove no molhado. Golpe de Estado significa exatamente a quebra de ordem jurídica. Dizer que ele é “sem viabilidade jurídica” é uma evidência, um truísmo.

Em matéria de esclarecimento, o depoimento foi de soma zero.

Do porão
Assustado com as múltiplas tentativas de golpe de Estado que permearam os últimos meses da gestão bolsonárica, doutor Gilmar Mendes (STF) declarou que “a gente estava sendo governado por uma gente do porão”.

Se qualquer um de nós, cidadãos comuns, fizéssemos esse comentário, o mundo não viria abaixo. Mas quando Gilmar Mendes, conhecido como “o ministro que mais solta bandido”, faz a mesma observação, vale o dobro. Fica patente que essa gente é do porão mesmo.

Italiano
Bolsonaro disse que é italiano e que, se quiser tirar os documentos, basta solicitá-los, que a burocracia não será pesada. Tem razão o ex-presidente. O que ele não disse, talvez por não saber, é que a Itália não é o porto mais seguro para fugitivos da lei. Nenhuma lei do país impede a extradição de nacionais.

Já tivemos um caso famoso, o de Henrique Pizzolato. Binacional, o condenado na Lava a Jato se homiziou na Itália. O governo brasileiro solicitou extradição e, depois de uma batalha judicial, a Itália acabou entregando Pizzolato à PF, que o levou direto de Roma para a Papuda.

Portanto, a nacionalidade italiana pode ser útil para cidadãos brasileiros comuns. Para um Bolsonaro condenado, não é destino recomendável.

Enquanto isso
Inconformado ao ver que uma das mais importantes instituições da República escapa ao seu controle, Lula dá sinais de querer “rever” a autonomia do Banco Central. Para não chacoalhar o mercado, diz que a ideia só será posta em prática após o término do mandato do atual presidente do banco.

Lula não tem jeito. Com os pés cravados nos anos 1970, não consegue (ou não quer) entender que a absoluta independência do banco emissor é ponto importante no sistema de pesos e contrapesos de uma democracia vigorosa. É assim que funciona em todos os países democráticos.

Doutora em Ginecologia
Uma cirurgiã-ginecologista francesa, que oficia no hospital de Bordeaux (sul da França), gosta de cantar. Já na sala de operações, antes de iniciar o procedimento cirúrgico, canta para tranquilizar a paciente.

Embalados por sua bela voz, os “gospels” têm feito sucesso desde que foram publicados nas redes. Veja aqui.

Cuidado com o sub do sub

José Horta Manzano

No Brasil, tirando algum analista mais comedido, as grosserias e o palavreado chulo que são marca registrada do capitão parecem não incomodar. Deve ser efeito da repetição. É como quem mora numa avenida movimentada que, de tanto ouvir barulho de caminhão, nem percebe mais que tem veículo passando. Ou de quem vive no eixo da pista de aeroporto movimentado, que acaba não se dando mais conta de que um avião rela seu telhado a cada 15, 10 ou 3 minutos.

Já nos States, tem disso não. A coleção de impropérios e palavrões deles é tão rica quanto a nossa, o problema não está aí. O fato é que, num país cuja certidão de nascimento foi assinada por um grupo de famílias devotas que estavam imigrando por motivo de perseguição religiosa, certas baixarias são reservadas para o âmbito privado; é inconcebível pronunciá-las em público.

A CPI que investiga o comportamento de Donald Trump nos dias que precederam a invasão do Capitólio de Washington, no ano passado, ouviu ontem uma moça jovem, assistente do chefe de gabinete do presidente. Ela encarna aquela figura meio invisível, que trafega livre e despercebida pelos altos círculos. Sua presença não intimida, de modo que ninguém policia muito as palavras diante dela, e as falas correm fluidas.

Pois foi essa senhora que, chamada a depor na comissão parlamentar, botou a boca no trombone. É que ouviu, da boca do presidente, um palavreado que – nos Estados Unidos – presidente não deveria ousar.

Não vou aqui repetir a notícia que todos já conhecem. O que me chamou a atenção foi, primeiro, o que disse Trump; segundo, como o palavrão foi estampado na mídia internacional

O que ele disse
“I’m the effing president. Take me up to the Capitol now!”
“Effing” é a forma suavizada usada pela imprensa para evitar de escrever o original fucking, que, embora frequente na linguagem falada, é considerada ofensiva demais pra aparecer em jornal. Pra saber o que o presidente disse exatamente, substitua-se effing por fucking.

Em espanhol
“Soy el maldito presidente, ¡llévame al Capitolio ahora!”
Foi assim que saiu a maioria dos títulos em espanhol. Maldito, nesse caso, embora seja expressão pesada, não chega a ser tabuística.

Assim mesmo, o jornal El País, decerto pra não correr risco de ofender ninguém, mostrou que a moda do “politicamente correto” vem fazendo estragos em seu país e optou por omitir a palavra mais vulgar. Numa solução radical, suavizou:
“Soy el presidente de Estados Unidos, ¡llévenme allí!”

Em alemão
A imprensa alemã utilizou expressão corrente na língua. Curiosamente, trata-se da tradução do mesmo “maldito” espanhol. Ficou assim:
“Ich bin der verdammte Präsident, bringt mich zum Capitol”

Em italiano
Os italianos aproveitaram a ocasião. Usaram uma palavra que trota na cabeça de todos, mas que só vem à boca depois que as senhoras tenham deixado a sala. É cazzo (= cacete).
“Sono il cazzo di capo, vai al Campidoglio!”

Em francês
Os franceses fizeram como os italianos – idem com batatas.
“Je suis le putain de président, amenez-moi au Capitole tout de suite!”
A palavra tabuística lembra a nossa versão, dado que usa um substantivo que não faz sentido lógico naquela posição mas denota exasperação e traz carga ameaçadora. Putain = puta.

Em português
No Brasil, a mídia deitou e rolou. Alguns veículos deram a letra inicial do palavrão seguida por estrelinhas, forma antiga de dizer sem dizer. Mas a maioria mandou ver:
“Eu sou a porra do presidente, me leve para o Capitólio agora!”

Já em Portugal, a grande imprensa preferiu uma saída à moda de El País:
“Sou o presidente, leve-me ao Capitólio agora!”
Não dói no ouvido, mas também não transmite o estado furibundo em que se encontrava Trump.

Em holandês
Na Holanda, país em que grande parte da população fala, além da língua do país, inglês fluente, a expressão inglesa não dá medo a ninguém.
“Ik ben de fucking president, breng me naar het Capitool, nú.”

Moral da história
Desconfie do sub do sub. Por mais alheio que ele possa parecer, ele também tem ouvidos para ouvir e boca para falar.

Badalação

José Horta Manzano

Surgida no fim dos anos 70, a palavra ‘tietagem’ é relativamente nova. Nos tempos em que ela não existia, usava-se bajulação ou ainda badalação, mais coloquial. Aluno que trouxesse presentinho para a professora era chamado de «badalo» ou, de forma mais crua, «puxa-saco».

Outro dia, a mídia se deliciou com a notícia de que um juiz do Rio de Janeiro tinha tietado Lula da Silva, por ocasião de um depoimento no âmbito da Lava a Jato. É que o magistrado fez confidência pública já no finzinho da audiência. Revelou já ter comparecido a comício, vestindo camiseta e boné com o nome do então candidato ‒ hoje encarcerado.

Dia seguinte, numerosos magistrados e criminalistas vieram a público manifestar indignação com a fala do juiz carioca. Qualificaram as declarações de inconvenientes. De fato, são.

Depois de viver décadas em sociedade carrancuda, estou em posição de observador privilegiado. Posso dizer que o brasileiro me surpreende pela cordialidade, me encanta pela prestatividade, mas me irrita pela exagerada sem-cerimônia.

Em sociedades mais reservadas, a fronteira entre formalidade e familiaridade é fosso intransponível. Um exemplo revelador: colegas de escritório, ainda que de idade equivalente, podem chegar a trabalhar anos e anos lado a lado sempre tratando-se por senhor. Parece lorota, mas ocorre com frequência. No Brasil, assistimos ao extremo oposto. Uma familiaridade ‒ que, às vezes, soa falsa ‒ invade terreno sério. Foi o que aconteceu na conversa entre o Lula e o juiz.

In medio stat virtus, a virtude está no meio-termo. Nenhum dos comportamentos é desejável: nem a formalidade castrante, nem a familiaridade invadente. Enfim, que fazer? Cada um é como é, difícil será mudar. Mas, convenhamos, não custa fazer um esforço pra refrear exageros. O juiz escorregou.

Gravata

José Horta Manzano

Não terá escapado a ninguém o fato de Luiz Inácio da Silva não se ter apresentado ao juiz Moro vestindo camisa vermelha. Diferentemente do figurino habitual com que se paramenta quando fala ao povão, o antigo presidente compareceu engravatado e trajando terno escuro. Coisa fina mas um tanto inútil, dado que o hábito não costuma fazer o monge. Roupa chique não consegue apagar o bem feito nem o mal cometido.

Curitiba, 10 maio 2017

Observei a gravata que ornava o colarinho de nosso guia. Pareceu-me familiar. Onde é mesmo que eu já tinha visto o adereço? Ah, matei! Foi em outubro de 2009, numa cerimônia em Copenhagen (Dinamarca). Naquele dia, diante de uma plateia entusiástica, o presidente do Comitê Olímpico Internacional tirava do chapéu o papelzinho com o nome do Rio de Janeiro. Estava designada a cidade-sede dos Jogos Olímpicos de 2016. As porteiras estavam abertas para o programado estouro da boiada.

Copenhagen, out° 2009
Por que estarão todos tão eufóricos? Será a gravata?

A populosa delegação brasileira, encabeçada pelo Lula, incluía o notório Sérgio Cabral, Eduardo Paes, Carlos Arthur Nuzman, João Havelange, Henrique Meirelles, o Pelé, esportistas, figurões, jornalistas. Uma particularidade: usavam todos gravata igual ‒ uma boniteza. Listrada de verde, amarelo e azul, ela fazia alusão às cores nacionais. Nosso guia há de ter-se encantado com ela, tanto que desde então, em ocasiões que lhe parecem solenes, costuma trazê-la em volta do colarinho. Eu imagino que, após oito anos de uso, já há de estar meio puída. Combina com o personagem.(*)

Copenhagen, out° 2009

Nota etimológica
Não se sabe quem terá sido o primeiro a ter a ideia. O fato é que, desde a Antiguidade, certas corporações costumam enrolar uma fita ou um pedaço de tecido no pescoço como sinal distintivo.

Copenhagen, out° 2009

Na sua forma moderna, a generalização da gravata como adereço masculino usual e até obrigatório é atribuída ao uniforme usado pelos soldados croatas contratados por Luís 13, rei da França, na década de 1630. O exército francês, considerando que a moda era elegante, acabou adotando o adereço. E deu-lhe o nome de cravate, adaptação da palavra «hrvat», que designa o cidadão croata.

A partir do francês, o termo passou a outras línguas europeias: Krawatte (alemão), corbata (espanhol), cravatta (italiano), kravat (turco). Entre nós, virou gravata. Nova ou puída, tanto faz.

(*) Em Curitiba, quem usa gravata vermelha é justamente… o juiz. Reparem.

Deposição

José Horta Manzano

De vez em quando, uma palavra rara entra no uso diário, permanece lá por algum tempo e logo acaba voltando ao lugar humilde daquelas que quase nunca são utilizadas. A Operação Lava a Jato trouxe para o centro do palco um desses termos: depor.

A palavra está atestada na língua há quase um milênio. Nos tempos de antigamente, seu uso era mais frequente que hoje. Com a passagem dos séculos, a utilização foi-se modificando.

«Depor um livro sobre a mesa», «depor o sobretudo no cabide», «depor confiança no funcionário» são frases de sabor deliciosamente arcaico. Em casos assim, depor será hoje em dia substituído por depositar, colocar, pendurar.

Depor é filhote do latim depōnĕre, onde de indicava movimento para baixo e pōnĕre chegou até nós como pôr. Depoimento, deposto, depósito, deposição, depositário são ramos do mesmo tronco.

O verbo pode ser transitivo (depor alguma coisa), pronominal (depositar-se). É raramente usado como transitivo indireto ‒ aparece em expressões como «depor de carga pesada» ou «no confessionário, depôs de pecados que o atormentavam».

Desde que surgiu a Lava a Jato, o verbo tem sido extensivamente utilizado. Não passa um dia sem que um figurão qualquer faça sua deposiçãozinha. Em jurisdiquês, o verbo é sempre intransitivo. Não é adequado dizer que fulano depôs a quem quer que seja. Fulano depôs. Ponto e basta. Em linguagem jurídica, depor equivale a ‘responder a interrogatório’.

Com muito poucas exceções, a mídia escorrega ao dizer que o Lula depôs ao juiz. Nosso guia simplesmente depôs. Não revelou nada que já não se soubesse, assim mesmo, depôs. Em Curitiba.

Chamada Estadão, 10 maio 2017
Errou

Chamada Folha de São Paulo, 10 maio 2017
Errou

Chamada Globo, 10 maio 2017
Acertou!

Chamada Correio Braziliense, 10 maio 2017
Errou

Chamada O Tempo (BH), 10 maio 2017
Errou

Chamada Agência Brasil, 10 maio 2017
Acertou!

Chamada Exame, 10 maio 2017
Errou

Chamada Veja, 10 maio 2017
Errou

O poder do vil metal

José Horta Manzano

Chacinas não fazem parte do quotidiano suíço. Estatísticas mostram que a taxa anual de homicídios voluntários no país não passa de 0,7 por cem mil habitantes. Para efeito de comparação, registre-se que a taxa brasileira é 30 vezes mais elevada, chegando a incríveis 22 assassinatos por cem mil habitantes.

A criminalidade, portanto, não figura entre as maiores preocupações da população da Suíça. Eis por que a matança de quatro pessoas, ocorrida no fim do ano passado no vilarejo de Rupperswil, Cantão de Argóvia, continua nas manchetes nacionais.

Rupperswil, Cantão Argóvia, Suíça

Rupperswil, Cantão de Argóvia, Suíça

Alguns dias antes do Natal, numa casa em chamas, a polícia encontrou quatro mortos. Logo se constatou que o incêndio tinha sido ateado para disfarçar crime maior: todas as vítimas haviam sido mortas a facadas. Eram quatro mulheres: a mãe, duas filhas adolescentes mais uma amiga das jovens.

Sem pistas, a polícia local não tem poupado esforços para elucidar o misterioso crime. Já colheu depoimento de 110 pessoas e já recebeu cerca de 250 testemunhos de outros indivíduos. Dezenas de automobilistas entregaram às autoridades imagens da minicâmera (dashcam) do automóvel. Quarenta policiais trabalham 24h por dia nas investigações. Até peritos suíços e alemães foram chamados para apoiar.

Wanted 1Visto que, decorridos dois meses, o inquérito não saiu da estaca zero, a polícia resolveu sacar o trunfo maior. Promete recompensa de cem mil francos suíços (quatrocentos mil reais!) a quem fornecer indícios que levem à elucidação do enigma. É um patrimônio, minha gente! São boas as chances de desmascarar finalmente o(s) culpado(s) e de entender o que aconteceu.

É o caso de cogitar se não valeria a pena oferecer, com maior frequência, recompensa em dinheiro para elucidar crimes no Brasil. Não precisa chegar a montante astronômico como o de Rupperswil, sejamos modestos! Com bem menos, já é possível destravar línguas. O poder do vil metal é irresistível. Com certeza, ajudaria o Brasil a se afastar da vergonhosa taxa atual de homicídios, digna de país mergulhado em guerra civil.