Imunidade de rebanho

José Horta Manzano

Você sabia?

Muito se tem falado sobre o conceito de imunidade de rebanho, que também pode ser chamado imunidade gregária, imunidade coletiva ou ainda imunidade de grupo. Há muita gente aplaudindo o método sem saber exatamente do que se trata. Imaginam que a tal imunidade é como mágica que cai do céu, um presente concedido pelo chefe bondoso. Não é exatamente isso.

O conceito já tem 200 anos de idade. Desde quando se popularizou a vacinação contra a varíola, começaram a aparecer os efeitos da imunização coletiva. Já em meados do século XIX, cientistas constataram que bastava imunizar parte da população para conter epidemias de varíola. Não era necessário vacinar todos. Para se atingir a imunização de grupo, os cálculos variam. As melhores estimativas garantem que a imunização coletiva será atingida assim que 60% a 85% dos habitantes estiverem imunizados.

O princípio não é difícil de entender. Parte-se da premissa de que é possível entravar o alastramento de uma doença infecciosa numa população, desde que determinada parcela de indivíduos esteja imunizada, seja por vacina, seja porque já teve a doença e se curou.

De fato, quanto mais aumentar a proporção de pessoas imunizadas, menor será o risco de um não-imunizado apanhar a doença. A partir de um certo ponto, o risco será tão baixo que é mais provável um B-747 cair na cabeça do cidadão do que ele se contaminar. Ao fim de um determinado tempo, a epidemia se extinguirá por si mesma.

Dito assim, é tentador. A gente se pergunta por que é que a maioria dos países está impondo medidas de proteção à população. Ora, que sejam todos deixados à vontade até que se atinja o ponto estatístico a partir do qual o risco de contágio praticamente desaparece! Por que não?

Há uma razão para que as autoridades não tenham decidido assim. É que a implementação do método de ‘abrir as porteiras já’ colide com uma visão humanista da sociedade. Nossa Constituição garante, a todos os habitantes do território, igualdade perante a lei. Nenhum dispositivo legal, portanto, pode contrariar essa pretendida igualdade. Ora, para atingir a imunidade de rebanho, será preciso morrer muita gente. Como assim?

Não é difícil entender. Se soltarmos todos, à vontade, num clima de ‘liberou geral’ antes da chegada da vacina, a imunização não virá por milagre. Será preciso passar muito tempo – meses ou anos – até que se chegue aos 60% ou 85% de cidadãos imunizados. Mas, daqui até lá, é garantido: muita gente vai morrer. Quem? Em primeiro lugar, as populações que correm maior risco: idosos e pobres.

Os idosos formam um grupo de risco porque este coronavírus, ninguém sabe realmente por que, parece ter especial predileção por eles. Quanto aos mais humildes, são os que mais se expõem dado que raramente podem teletrabalhar e todos os dias passam horas e horas espremidos em condução lotada. Portanto, as ‘vítimas colaterais’ do caminho preparatório para a imunidade de grupo são essas: idosos e pobres.

Temos de agradecer aos céus o fato de as determinações de proteção (máscara, distanciamento social, lavagem das mãos, lockdown) terem sido ditadas pelos governadores. Se essas decisões tivessem sido deixadas nas mãos de doutor Bolsonaro, estaríamos caindo feito enxame de pernilongos borrifado com Detefon. À espera de atingir a imunidade coletiva, naturalmente.

A cegueira de nosso presidente sobre esse caminho doloroso que leva à imunidade coletiva sem vacina ficou patente. Sua alardeada religiosidade provou ser só de fachada. Na fé cristã, os valores de caridade e compaixão são básicos – e doutor Bolsonaro mostrou não comungar com eles. Ele tem agido como se presidisse outra nação, não a nossa, castigada pelo maior desastre sanitário dos últimos 100 anos.

Em sua longa e didática fala de 28 de out°, Emmanuel Macron, presidente da França, delineou como será a vida de sua população até dia 1° de dezembro, neste novo período de confinamento para enfrentar a segunda onda de covid. Aproveitou para rejeitar explicitamente esse caminho da imunidade de rebanho por ser ‘contrário aos valores de nossa República’. Concordo com ele.

No Brasil também, o caminho já está traçado. Antes da chegada da vacina, seja o que Deus quiser. Assim que a vacina chegar, cidadãos esclarecidos se imunizarão. Devotos renitentes, se forem coerentes, rejeitarão a vacina. Muitos deles morrerão. É o preço a pagar por esta aplicação tardia das doutrinas eugenistas do século 19: os fracos ficam pelo caminho, enquanto os fortes seguem adiante. Assim, passo a passo, com a colaboração de devotos renitentes, a imunidade coletiva se espalhará pelo país.

Silêncio!

José Horta Manzano

Onde muitos veem um problema, outros enxergam uma oportunidade – é axioma que se ouve frequentemente. A epidemia de covid que transtorna o mundo atualmente se encaixa nesse raciocínio. Ela traz morte e desolação, mas também acende luzes.

Quando a progressão da epidemia se intensificou, muitos países tomaram a difícil decisão de confinar a população. Em muitos deles, não foi só um suave conselho do tipo “Fique em casa”. Na França, na Itália, na Espanha e em outros países, o confinamento rigoroso foi pra valer. Os comércios fecharam, com exceção dos essenciais (farmácias e supermercados). Escolas deixaram de funcionar. E – o mais chato – o povo foi obrigado a ficar em casa, só podendo sair para fazer compra de comida ou de remédio. Tudo isso, sob controle rígido e multas pesadas.

Um dos efeitos colaterais desse confinamento foi a drástica diminuição do tráfego urbano. Menos tráfego = menos barulho. Como se sabe, ruídos fortes produzem efeitos na audição e podem ocasionar perda irreversível do olfato e do paladar.

Os dois meses (março a maio) durante os quais a população francesa permaneceu confinada dentro de casa foram psicologicamente difíceis, mas trouxeram de volta um mundo silencioso como não se via desde os tempos de antigamente.

Uma pesquisa informa que, depois do período de confinamento, 57% dos habitantes das metrópoles ficaram mais sensíveis aos ruídos. É que, antes da pandemia, o barulho era tão intenso e constante que ninguém mais prestava atenção. Agora, sim. Todos entenderam que é bem mais agradável viver num universo pouco barulhento.

Paris: os Champs Elysées em dia de confinamento.

Pesquisadores do Instituto Francês de Pesquisa Científica (CNRS) empreenderam um estudo relevante sobre o assunto. O projeto chama-se Silent Cities e visa a modelizar os fatores que reduzem o barulho. Por exemplo, uma distribuição mais inteligente e integrada dos horários de trabalho pode contribuir para a diminuição do ruído urbano. A pesquisa pode também indicar ser mais racional instalar ciclovias nesta rua em vez de noutra.

Atualmente, diversas sociedades desenvolvem asfalto menos barulhento e edifícios que absorvem o barulho. Certas empresas chegam a criar bolhas de silêncio. Para leigos como eu, a explicação sobre o funcionamento da bolha vem a seguir.

Caixinhas com alto-falantes são instaladas nos cômodos da casa. Visto que o barulho é uma onda, quando ela é detectada pelos sensores, os alto-falantes emitem uma onda inversa para neutralizar o som. O princípio é genial. Mas é bom que funcione direitinho, porque se não, vão surgir interferências desagradáveis. A sociedade Silentium está desenvolvendo um sistema de “bolha de silêncio”. Prometem que, quando estiver pronto e for posto no mercado, deverá neutralizar 90% dos sons externos. Boa notícia pra quem vive em lugar barulhento.

Certamente muitos outros projetos só estão saindo do papel graças à pandemia. Como diziam os antigos, há males que vêm pra bem.

Novos termos

José Horta Manzano

Pandemias não agradam a ninguém. Trazem uma baciada de males e incômodos. Quanto mais duram, mais duradouros serão os transtornos. Lado bom, não há; parece que todos os lados são ruins.

No entanto, examinando bem, há que constatar que a covid está sendo propícia ao surgimento de termos novos ou à ressurreição de termos antigos, que voltam à moda reformados e com significado novo. Aqui estão alguns deles.

comorbidade
Palavra de uso antes raríssimo, estritamente reservada ao âmbito medical. Nem o Houaiss, nem o Aulette trazem o verbete. Comorbidade ocorre quando, a uma doença pré-existente num determinado paciente, vem se adicionar uma nova. Dado que está entre os principais fatores de risco, a comorbidade caiu na boca do povo.

presencial
Era termo raro, reservado para uso jurídico-policial. Ao frequentar os bancos da escola, nenhum de nós jamais se deu conta de que assistia a aulas «presenciais». Assim como o conceito não existia, o termo não era utilizado. O Houaiss dá dois exemplos: testemunha presencial, reconstituição presencial do crime. Hoje o termo é usado como contraponto a remoto.

remoto
Termo comum, presente na língua há séculos. Tem dois significados: tratando de tempo, indica o que ocorreu há muito; tratando de espaço, designa o que está fisicamente distante. No caso do ensino remoto, expressão de uso frequente, indica distância física entre educador e educando. Ainda não se cogitou em proporcionar ensino remoto no tempo, ou seja, ensino à moda antiga com intimidação e palmatória.

teletrabalho
A palavra é tão recente que ainda nem foi dicionarizada. É expressão bem mais simpática do que a pernóstica “home office”. A não ser que o indivíduo viva sozinho ou disponha de cômodo reservado, trabalhar em casa é complicado. Criança chorando, cachorro latindo, telefone tocando, adolescente escutando música em volume alto, campainha soando, tevê anunciando xampu – tudo isso atrapalha. Prefiro teletrabalho. É mais maneiro e parece menos cansativo.

alquingel
Nem sei se o produto existia antes da pandemia. Se existia, seu uso estava restrito a hospitais e outros ambientes onde esterilização é capital. Hoje encontra-se por toda parte. “Alquingel” é álcool em gel na voz do povo – palavra que parece não ter plural: “passa os alquingel aí!”. Dos termos que entraram na moda com a covid, é meu preferido. É menos perigoso que comorbidade e menos cansativo que teletrabalho. E, ainda por cima, protege. Que mais pedir?

Tweet censurado

José Horta Manzano

Assim que foi anunciada a doença de Donald Trump, a empresa Twitter previu que alguns aproveitariam a ocasião para exprimir desejo de ver o presidente num caixão. Antes que acontecesse, foram logo avisando que bloqueariam a conta de quem tuitasse sua esperança de ver Trump morto pela covid.

Poucas horas mais tarde, ao se darem conta de que teriam de bloquear a conta de pelo menos metade dos usuários, explicaram que não era bem assim. Os tuítes macabros seriam apagados, mas a suspensão da conta só se faria “em alguns casos”.

Nos tempos de antigamente, isso não acontecia. Quando a comunicação ia por carta, telex ou fax, a gente escrevia o que bem entendia. Tirando algum caso (raro) de criminosa invasão de privacidade, ninguém lia as mensagens. A gente podia dizer o que quisesse sem receio de censura.

Ah, esse progresso! Como se vê, progredir é irmão gêmeo de regredir. Quando um aparece, o outro nunca está muito longe.

Tweet ‒ Nuclear
by Patrick Chappatte (1966-), desenhista suíço

Etimologia
Em latim, o verbo gradi significa andar, caminhar. Em português, temos alguns descendentes em linha direta: grau, degrau, graduar, gradual. Com adição de prefixos, formaram-se numerosos filhotes:

Progredir
Andar para a frente

Regredir
Andar para trás

Transgredir
Caminhar para além de um determinado ponto. Transpor determinada meta.

Agredir
Na origem, tinha o inocente significado de andar em direção a um ponto ou a alguém. Com o tempo, passou a significar atacar, investir.

Há outros cognatos: degradar, retrogradar, egresso, progresso, regresso, ingresso.

Interessante será notar que o Congresso, sempre pronto a dar um passinho à frente e outro pra trás, é membro legítimo da família.

E o santo remédio?

José Horta Manzano

Neste dias em que um planeta paralisado e aflito mantém os olhos voltados para o hospital onde o presidente Donald Trump está internado, seu médico pessoal, Dr Sean Conley, é a voz oficial que traz as esperadas notícias sobre a evolução clínica do ilustre paciente.

No boletim da noite de ontem (sábado), ele informa que Trump recebeu a segunda dose de Remdesivir(*) sem complicações. Acrescenta que o paciente está sem febre e que a saturação de oxigênio arterial está entre 96% e 98%, nível plenamente aceitável. Diz ainda que, embora Trump ainda não esteja fora de perigo, a equipe guarda prudente otimismo. O plano para domingo é manter o paciente em observação entre as doses de Remdesivir.

Trump com covid
Boletim médico de 3 out° 2020

Ué? Acho que meus distintos leitores também repararam: onde está a cloroquina? Li o boletim de frente pra trás e de trás pra diante e… nada. O santo remédio foi abandonado!

No entanto, não faz muito tempo que assisti a um vídeo em que o próprio Trump afirmava tomar hidroxicloroquina regularmente como preventivo contra a covid. E o devoto Bolsonaro, então, que de tanto botar fé na palavra do mestre, chegou a mostrar o remédio às emas do Planalto!

Pelo que agora se vê, tanto a gesticulação de lá quanto a de cá não passavam de blá-blá-blá, fruto de ignorância malandra. Ou de ignorância autêntica, o que é ainda pior.

(*) Remdesivir é um medicamento antiviral que tem dado resultados positivos em alguns pacientes com covid. É aquele tipo de remédio que, na falta de outro, o médico receita. “Se não tem tu, vai de tu mesmo.”

De vacinas

José Horta Manzano

Lê-se a todo momento que a vacina contra a covid está para sair. Russos, chineses, americanos, europeus e até indianos dedicam-se seriamente ao assunto. Cada semana, aparece notícia animadora sobre a vacina: a russa está no ponto; na China só falta o derradeiro teste; os americanos afirmam que a deles estará no mercado antes do Natal. E assim por diante. Tanto falam nisso, que a gente acredita que, sim, um dia virá a vacina.

Algo me escapa, porém. A covid é causada por vírus, um bichinho minúsculo que até sob as lentes potentes de um microscópio eletrônico aparece como uma mancha embaçada, não é? A aids também é dano causado pour outro terrível vírus, pois não? Ora, esta última enfermidade se espalhou pelo mundo inteiro a partir do fim dos anos 70, ou seja, 40 anos atrás. Desde então, muitos laboratórios de pesquisa vêm se dedicando a fabricar uma vacina. Passados 40 anos, não conseguiram.

Como é que é possível ter tanta certeza de que estará disponível, em um ano, vacina eficaz contra a covid, quando se sabe que, no caso da aids, não se conseguiu em quarenta anos?

Faço votos para que encontrem rapidamente (mesmo porque, pessoalmente, no teste de múltipla escolha dos grupos de risco, assinalo três ou quatro quadradinhos). Assim mesmo, sem querer ser profeta de desgraça, fico dubitativo. Vamos torcer.