A nova camisa da Seleção: vermelho, paixão e o fim da seca?

José Horta Manzano

Uma polêmica desnecessária tomou conta das redes com o anúncio da nova camisa reserva da Seleção Brasileira. A cor? Vermelho. A reação? Uma enxurrada de interpretações políticas atribuindo ao tom escarlate significados ideológicos que beiram a comédia. Politizar a cor de um uniforme de futebol é comovente demonstração de estupidez.

A camisa, em si, é um símbolo. E o vermelho, longe de qualquer conotação política, representa exatamente aquilo que tem faltado à Seleção nos últimos tempos: alegria, vivacidade e paixão. Uma cor vibrante, que evoca energia e ardor, atributos essenciais para uma equipe que busca o sucesso.

É preciso lembrar que muitos países, alguns de longa tradição futebolística, usam, no uniforme, cor que não aparece em sua bandeira. O azul da Itália, o laranja da Holanda, o amarelo da Austrália e o azul do Japão são exemplos. A escolha da cor de um uniforme de futebol é uma decisão estética e mercadológica, que busca identidade e impacto visual, não uma declaração política.

O vermelho costuma carregar simbolismos históricos e culturais, mas reduzi-lo a uma única interpretação política é ignorar a riqueza de significados que a cor pode representar. No contexto do futebol, o vermelho grita paixão, força, e a busca incansável pela vitória. É uma cor que exalta a torcida, energiza os jogadores e impõe respeito aos adversários.

Após 24 anos sem conquistar a Copa do Mundo, a Seleção precisa resgatar a alegria e a garra que a consagraram no passado. Quem sabe essa nova camisa, com sua cor vibrante e carregada de energia positiva, anuncie o despertar de que a equipe precisa. Quem sabe o vermelho, tão associado à paixão e à luta, seja o ingrediente que faltava para que a Seleção volte a erguer o caneco.

Mais do que uma simples camisa, é uma esperança renovada, uma busca pelo resgate da identidade e da glória de nosso futebol. Que o vermelho, então, não apenas seja uma cor, mas assinale o retorno triunfal do Brasil ao topo do futebol mundial.

Putin quer mesmo o fim da guerra?

José Horta Manzano

Dizer que Vladimir Putin deseja o fim da guerra é uma falácia, uma ideia que não resiste à menor análise. Desde o início da invasão da Ucrânia, em fevereiro de 2022, o objetivo do Kremlin foi muito além de uma mera operação militar. Para Putin, a guerra não é um acidente de percurso, mas um instrumento essencial de sua estratégia de enfraquecer a Europa e impor-se num novo equilíbrio de forças no continente, quiçá no mundo.

Interessa ao líder russo que o conflito se prolongue indefinidamente – ou pelo menos até que os Estados Unidos se cansem de financiar e apoiar Kiev. Em sua lógica, trata-se de um jogo de paciência: enquanto a Rússia, acostumada a resistir a longos períodos de privações e adversidades, segura o terreno, ele aposta que o Ocidente, sujeito a pressões internas e a ciclos políticos curtos, acabará desistindo.

O cálculo é cínico, mas não desprovido de realismo: sem o respaldo militar, financeiro e diplomático dos EUA e da União Europeia, a Ucrânia se verá sozinha diante do colosso russo. A partir daí, Putin acredita que a resistência ucraniana acabará por desmoronar e que Kiev, isolada e exaurida, terá de se render – ou aceitar a paz nos termos impostos por Moscou.

by Patrick Chappatte (1966-), desenhista suíço

Cada trégua aparente, cada discurso em favor da paz vindo do Kremlin deve ser entendido como parte de uma estratégia maior: ganhar tempo, dividir o Ocidente, sem nunca perder de vista o objetivo final. Para Putin, a guerra não é algo a ser encerrado; é uma ferramenta a ser utilizada até a exaustão do adversário.

Enquanto houver esperança de ver o apoio ocidental à Ucrânia enfraquecer, a paz naquela região continuará sendo apenas o que é: uma linda palavra, útil para discursos diplomáticos e “tréguas” de ocasião, mas distante da realidade.

Collor na cadeia, muito bem. E os milhões?

José Horta Manzano

Fernando Collor de Mello, primeiro presidente eleito após a ditadura militar, marcou a história do Brasil de forma trágica ao ser também o primeiro a sofrer um impeachment. Driblou a Justiça por décadas; vê-se agora finalmente na hora do acerto de contas. Condenado em derradeira instância, foi encaminhado para a prisão. É passo importante para um país que tanto clama por responsabilização. Antes tarde do que nunca.

Mas se a prisão de um figurão mostra que, no fundo, ninguém está acima da lei, resta a pergunta que ecoa por ruas e redes: e o dinheiro desviado? Os milhões roubados de cofres públicos e privados, fruto de corrupção, favorecimentos e obscuras transações, serão recuperados? Ou a punição se resume apenas à perda da liberdade, deixando que o apenado saia da cadeia amanhã tão ilicitamente rico quanto entrou? Talvez a informação tenha me escapado, mas não encontrei no noticiário nenhuma menção a confiscação do dinheiro embolsado ilicitamente.

Prender corruptos é necessário, mas tão ou mais importante é assegurar a reparação do dano causado ao erário ou a outrem. O confisco de bens, a devolução de valores desviados e a indenização pelos prejuízos são passos que precisam caminhar junto com a responsabilização penal. Sem isso, a Justiça corre o risco de virar apenas um espetáculo, sem efetivo efeito reparador para a sociedade. Devolução e multa milionária têm de marchar pari passu com a prisão.

O brasileiro comum, que paga impostos diretos e indiretos, que enfrenta fila em hospitais públicos, que vê a educação sucateada, tem todo o direito de querer mais do que o encarceramento de figurões metidos a besta como esse cavalheiro: exige-se o ressarcimento. Não basta punir o corpo; é preciso recuperar e confiscar o patrimônio rapinado. Sem contar a imposição de multa milionária, correspondente ao valor embolsado.

Collor foi para a cadeia, ótimo. Mas que a Justiça vá além. Que também desfaça o que foi construído à custa da corrupção. Só assim poderemos, de fato, torcer o braço à ladroagem que nos circunda e construir uma democracia séria e respeitada.

E agora, para onde vai a Igreja?

José Horta Manzano

Conduzir a Igreja Católica não é tarefa para amadores – nem mesmo para santos. Desde que Pedro trocou as redes de pesca pelo governo das almas, o sucessor de Cristo na Terra tem vivido o angustiante dilema de apascentar um rebanho que, com o passar das décadas, vem mostrando tendência a afastar-se dos preceitos. Com o papa Francisco, esse drama atingiu novos e intricados capítulos.

Desde o início de seu pontificado, Jorge Bergoglio deixou claro que não seria apenas o “papa simpático” das selfies e dos discursos emocionantes. Ele tinha convicções firmes: uma Igreja pobre para os pobres, aberta ao diálogo com o mundo contemporâneo e mais preocupada em acolher almas do que em policiar comportamentos. Mas querer é uma coisa; fazer, especialmente no Vaticano, é outra bem diferente.

Francisco viu-se sitiado entre duas frentes surdas: de um lado, a ala conservadora, sempre pronta a acionar o freio de mão dogmático a cada aceno de mudança; de outro, o progressismo ansioso, que muitas vezes lhe cobra avanços com a impaciência típica de quem desconhece a lentidão peculiar do tempo eclesiástico – um “sim” pode levar décadas e um “não” pode durar séculos.

Os conservadores escrutaram com desconfiança cada gesto pastoral do papa: se ele visitava uma prisão, era “populismo”; se falava em mudança climática, era “desvio de missão”. Já os progressistas, que sonham com reformas profundas – ordenação de mulheres, revisão do celibato, reconhecimento de novos modelos de família –, frequentemente se frustraram com a cautela e as meias palavras do pontífice argentino. Entre uns e outros, Francisco governou o barco como pôde, entre escolhos e sargaços.

Para impor uma visão de Igreja, é preciso mais do que carisma: é necessário ser uma força da natureza. Desde João XXIII – aquele que, com candura e astúcia, abriu as janelas do Vaticano ao mundo – não se viu outro papa com perfil verdadeiramente transformador. Paulo VI teve a intenção, mas não o apoio. João Paulo II, o vigor, mas o apego a velhas práticas. Bento XVI, o intelecto, mas não o pulso. E Francisco? Teve o sonho, mas faltou-lhe o exército.

No fundo, a Igreja continua esperando aquele homem providencial capaz de, com mão firme e sorriso sereno, romper o imobilismo e trazer a barca de Pedro a nossos tempos. Desta vez, ainda não foi possível. Mas resta a todos a esperança: essa, sim, uma virtude teologal.

A dança instável do poder global

by Serdar, desenhista turco

José Horta Manzano

Artigo publicado no Correio Braziliense de 24 abril 2025

O tabuleiro geopolítico mundial assemelha-se, cada vez mais, a um palco onde os atores, antes bem definidos em seus papéis, ensaiam movimentos fora do roteiro, sob o olhar perplexo de uma plateia incrédula. O brilho da outrora incontestável hegemonia americana, farol seguro e firme, vai se atenuando de modo lento mas inexorável. Não se trata de apagão súbito, é crepúsculo gradual decorrente de medidas tomadas por Donald Trump. Elas corroem o poderio do próprio país que ele tencionava proteger. O remédio que ele receita revela-se demasiado tosco para fazer bem ao país debilitado. Por tabela, sacode as relações político-comerciais entre as nações.

Esse cenário de relativo declínio americano abre uma fresta de oportunidade para que outras potências reconfigurem a balança de poder, mexendo na dinâmica das relações internacionais por caminhos que ainda não compreendemos mas que já se deixam adivinhar.

Nesse intricado xadrez global, a China emerge com desenvoltura de mestre estratégico. O dragão asiático, impulsionado por décadas de crescimento econômico, consolida a rede de influência que vem tecendo com seus parceiros em nível intercontinental. A ordem tradicional vê-se desafiada. As ambiciosas novas Rotas da Seda, com seus tentáculos de infraestrutura e investimento, redefinem laços comerciais e econômicos, enquanto a ascensão de empresas tecnológicas chinesas alarga as fronteiras da inovação.

Paralelamente, com a modernização constante de suas forças armadas, Pequim projeta uma sombra de poderio militar que açambarca águas e ilhas ao largo de seus mares meridionais. O país não apenas aproveita o vácuo deixado por um possível recuo americano, mas também molda ativamente um novo cenário global, no qual sua voz e seus interesses ocupam lugar central. A questão atual não é se a China ascenderá, mas como essa ascensão se dará e qual será seu impacto na arquitetura mundial.

Enquanto o eixo de poder parece deslocar-se para Oriente, a Europa, até outro dia coadjuvante nos dramas globais, prepara-se para um despertar estratégico. Uma ameaça existencial se agita em suas fronteiras orientais, com o conflito latente e as tensões persistentes a lembrarem a fragilidade da paz no continente. Essa percepção, somada a uma crescente dúvida sobre a efetividade do apoio americano, impulsiona um robusto movimento de rearmamento em diversas capitais europeias. O debate sobre a autonomia estratégica ganha força, impulsionando investimentos em defesa e a busca por maior coesão militar no âmbito da União Europeia. A Europa, consciente de seu peso econômico e de sua herança cultural, está determinada a não ser apenas um espectador passivo na redefinição da ordem global, buscando forjar uma voz unificada e um papel proativo na cena internacional. Contudo, a coordenação entre os diversos interesses nacionais e a superação de antigas rivalidades representam desafios consideráveis nessa jornada rumo a uma autonomia mais ampla.

No extremo oposto dessa dinâmica de ascensão e reafirmação, a Rússia encontra-se imersa num atoleiro que expôs as fissuras de seu projeto de restauração de influência. A aventura militar, concebida para reafirmar sua esfera de poder e desafiar a expansão da Otan, virou um sorvedouro de perdas humanas e materiais, com consequências econômicas devastadoras e um isolamento internacional danoso. A antiga imagem de um poderio militar incontestável ruiu sob o peso da realidade do conflito prolongado, lançando dúvidas sobre suas ambições geopolíticas. O sonho de reviver a velha glória imperial esbarra na dura contingência de um conflito que consome recursos e erode sua posição no cenário global. A saída desse lamaçal e a redefinição de seu papel no mundo pós-conflito representam um formidável desafio para Moscou.

Diante desse panorama complexo, o planeta observa, surpreso a cada episódio. As certezas do século XX, moldadas pelo fim da Guerra Fria e pela unipolaridade americana, se esvaem e cedem lugar a um futuro incerto e marcado por incipiente multipolaridade. A ordem liberal internacional, com suas instituições e seus valores, enfrenta o desafio da ascensão de novas potências com visões de mundo distintas e de rivalidades que ressurgem.

A globalização, outrora vista como força inexorável de convergência, revela suas arestas, suas contradições e seus limites, com o protecionismo e o nacionalismo ganhando terreno. A busca por novo equilíbrio global, capaz de garantir paz e prosperidade num mundo ora interconectado e, paradoxalmente, mais fragmentado, emerge como a grande questão para o século XXI. As respostas, por ora, permanecem nebulosas, enquanto a dança instável do poder global continua a surpreender com movimentos imprevisíveis.

Guarda Pontifical

José Horta Manzano

O território suíço é pouco propício à agricultura. No fim da Idade Média, conforme a população aumentava, as magras colheitas foram se tornando cada vez mais insuficientes para alimentar a todos.

Essa é a razão principal para o êxodo de homens suíços em idade de portar uma arma. Iam trabalhar como soldados mercenários ao serviço de reis e príncipes por toda a Europa. Eram excelentes militares, sérios e dedicados, daí nunca lhes faltarem propostas.

A contratação de soldados suíços para garantir a proteção dos palácios papais data dessa época. Foi papa Júlio II que contratou, em 1505, um batalhão de mercenários suíços para proteger o Vaticano.

De lá pra cá, a Suíça venceu a miséria e seus cidadãos não foram mais obrigados a deixar o país para lutar em guerra alheia. Pouco a pouco, todos os batalhões helvéticos foram desaparecendo. A Guarda Suíça do Vaticano é a derradeira unidade de soldados que ainda lembra aqueles tempos antigos.

A quantidade de guardas suíços a serviço do papa variou através dos séculos. Atualmente, são 135 militares. Uns dizem que é o menor exército do mundo, enquanto outros rebatem afirmando que a Guarda Suíça é apenas um batalhão de polícia. São questões semânticas.

Os guardas têm por missão securizar as entradas do palácio apostólico, da secretaria de Estado e dos apartamentos privados do papa. A segurança privada do papa é o ponto que concentra todas as atenções.

Para se candidatar às funções de guarda, o pretendente precisa ser cidadão suíço, de sexo masculino, solteiro no momento da admissão, de confissão católica; precisa ter reputação imaculada, medir 1,74m ou mais de altura, ter entre 19 e 30 anos de idade. Precisa ainda ter completado a escolaridade obrigatória e ter feito o serviço militar suíço.

A seleção é rigorosa. O pároco do lugar de habitação do candidato será interrogado e deverá confirmar por escrito que o jovem é bom praticante e goza de reputação sem mancha. As primeiras entrevistas são realizadas na Suíça e podem durar mais de 5 horas. O postulante tem de conhecer bem o alemão, que é a língua oficial da Guarda; o conhecimento de outras línguas conta pontos.

O jovem é contratado por dois anos. O trabalho inclui casa, comida, roupa lavada e mais um salário mensal de 1.200 euros (R$ 7.700). Quem vê o uniforme característico, que aparece atualmente em todas as imagens, pode até pensar que é o desenho original, aquele de 1505. Não é bem assim. A vestimenta atual foi criada um século atrás.

As longas lanças (piques) e as alabardas com que os militares desfilam são objeto decorativo para turista fotografar. Em matéria de arma, eles não estacionaram na Idade Média. Estão treinados a utilizar pistolas Glock 19, fuzis de assalto SIG-550 e metralhadoras HK MP7, assim como spray de pimenta. Além disso, todos têm treinamento de esportes de combate.

Levar a breca

José Horta Manzano

O mundo está numa encruzilhada, balançando entre antigas certezas e novas dúvidas. A chegada de Donald Trump à presidência dos EUA deu o pontapé inicial a essa turbulência civilizacional. Como acontece em todo sacolejo, há os que tombam da carroça, mas há os que se seguram firme e às vezes até saem ganhando quando a poeira se dissipa.

A nuvem de pó ainda não permite ver o horizonte com nitidez, mas já se distingue, apertando bem o olho, a silhueta de um país que vai sair desta encrenca melhor do que nela entrou: é a China. Receio que o Make America Great Again, grito de guerra de Trump, vai levar a breca (antiga expressão hoje traduzida por “ir para o brejo”).

O Grande Irmão do Norte periga sair desta aventura diminuído, e a China, aumentada.

Observação
Breca é palavra antiga, que já está morando no porão do esquecimento. Só sobrevive em algumas locuções que também já estão a caminho da aposentadoria. Por exemplo:

Levado da breca
Ex: É uma criança levada da breca.
É uma criança especialmente levada.

Levar a breca
Ex: Achou que ia ganhar a partida, mas levou a breca.
Achou que ia ganhar a partida, mas deu-se mal.

Com a breca
Ex: Com a breca! Por essa eu não esperava!
Putz! Por essa eu não esperava!
(esta expressão é do tempo do Onça)

Ir-se com a breca
E os bons modos desta gente, onde estão? Foram-se com a breca.
E os bons modos desta gente, onde estão? Perderam-se para sempre.

Sexta-feira da Paixão

José Horta Manzano

As sextas-feiras santas da minha infância eram marcadas pelo som dos sinos das igrejas e pelo perfume das flores frescas que adornavam os altares. Naquela época, a cidade inteira parecia entrar em um estado de contemplação e respeito, enquanto procissões serpenteavam pelas ruas, estreitas e largas, de terra e pavimentadas.

Naquele tempo, todos aprendiam desde pequeninos a diferenciar entre o profano e o sagrado, dois elementos que, como água e óleo, não se podem misturar. Eu me lembro da sensação de reverência que pairava no ar, misturada com a expectativa do sábado de Aleluia, dia em que os maiorzinhos tinham direito a dar com pau num judas de trapo e farrapo, amarrado a um poste. A meninava vibrava e mandava brasa porque tinham todos aprendido que o boneco representava um homem mau que estava ali pagando seus “malfeitos”. E dá-lhe paulada!

Depois vinha o domingo de Páscoa, dia especial em que todos se lançavam um “–Boa Páscoa!”. Eu não entendia bem por que razão os adultos externavam votos de que o dia de festa fosse bom. Pois o dia era, necessariamente, bom! Era domingo, não havia aula e, além de tudo, ganhava-se ovo de chocolate, um acontecimento!

Chocolate, hoje em dia, é mais disponível. Encontra-se em cada esquina e tem preço abordável. Naquele tempo, na venda do Seu Manuel, disponível era só doce de batata doce. E maria-mole.

Nas inchadas metrópoles brasileiras atuais, será que ainda se veem passar procissões?

Trapaça

by Igor Kopelnitsky (1946-2019), desenhista ucraniano-americano

José Horta Manzano

Futebolista de um time do Rio de Janeiro convocou família e amigos para organizarem, juntos, uma fraude. O objetivo era forjar um rápido enriquecimento ilícito para a numerosa parentada. Apostou-se na certeza de recebimento de cartão amarelo pelo futebolista. Tanto o rapaz fez, que conseguiu chamar a atenção do árbitro. E levou o tal cartão, fazendo feliz a família toda, cada um embolsando o prêmio correspondente a sua aposta.

Numa primeira apreciação do caso, o promotor havia concluído que essa fraude é comum no futebol brasileiro e que não valia a pena repreender.

Sem ser especialista em futebol (e muito menos em aposta esportiva), discordo do promotor. Não me parece normal que um crime, por ser cometido frequentemente e por muitos indivíduos, seja menos grave. Não estamos aqui falando de futebol de várzea, mas de jogo profissional.

Com a prática da fraude, os infratores estão:

  • passando a perna em outros cidadãos que apostaram certinho, sem embuste;
  • frustrando a veracidade daquilo que um dia foi “jogo bonito” e que hoje está mais para “me engana que eu gosto”;
  • incentivando colegas futebolistas, principalmente os novatos, a seguir o mesmo caminho e perpetuar a trapaça como modo de enriquecimento pessoal.

Longe do entendimento do mencionado promotor, entendo que cidadãos como o ora indiciado jogador devem ser punidos com rigor, incluindo algumas semanas de cadeia firme. Entre as ferramentas da prevenção, um exemplo de firmeza das instituições vale mais que mil ameaças.

  • Crime em bando organizado.
  • Crime contra a transparência do esporte nacional.
  • Fraude visando a lograr o grande público.

Vejam que, para tipificar o “malfeito”, denominações não faltam.

Família que trapaceia unida permanece unida? Tremai, famílias trapaceiras, tremai!

Imagens que intrigam

José Horta Manzano

Certas imagens me intrigam. Por exemplo, a foto estampada acima, tirada diante do hospital brasiliense que atualmente abriga Jair Bolsonaro.

Quando saiu a notícia de que o antigo presidente estava passando por uma intervenção cirúrgica complicada e de alto risco, muita gente deve ter se recolhido e pedido uma graça a seu santo de devoção. Muitos pediram proteção para o doente. Pode até ser que outros tenham formulado pedido diferente.

É normal e universal que um indivíduo se recolha para conectar-se com suas entidades protetoras. Em princípio, isso se faz em momentos íntimos, num ambiente caseiro e calmo. É nesse ponto que a foto me intriga.

Supõe-se que o retratado seja um apoiador de Bolsonaro em posição de oração. Se eu encontrasse o cidadão, ia fazer-lhe diversas perguntas. São caraminholas que não me saem da cabeça.

  • Por que razão preferiu prostrar-se em local público, à luz do dia, à vista de todos?
  • Qual o motivo de ter desfraldado nossa bandeira nacional, posicionada como se fosse altar?
  • Numa oração em que o fiel pede graças ao Altíssimo, a palma das mãos dever estar voltada para cima, simbolizando a espera das bênçãos que descem a este vale de lágrimas. Já o cidadão da foto voltou a palma das mãos para o hospital onde jaz o antigo presidente, numa postura que pode fazer escorregar as graças. Por que motivo voltou as mãos para o edifício? Acredita que, em vez de descer do céu, as bênçãos sejam emitidas pelo próprio ídolo recém-operado?

Quem entendeu o propósito do peregrino da foto, que me desculpe. Eu não entendi. Quando uma situação me parece fora dos eixos, gosto de tentar esclarecer.

Ocaso dos populistas

José Horta Manzano

Lula anda se comportando feito barata acuada. Corre pra um lado e pra outro, hesita em trocar ministros, tira da cartola um programinha populista aqui, outro ali, tudo de circunstância, sem consistência. Mostra, a cada dia, não ter programa de governo. Na sua cabeça, que parece ter estacionado no tempo de seus mandatos anteriores, imaginou que pudesse se comportar como Midas moderno, resolvendo todos os problemas com um toque. Não está dando certo.

Bolsonaro é outro que anda deslizando, cada vez mais enrolado. Nos bons tempos em que lhe serviam café quente, vencia todas e agredia sem medo todas as autoridades da república. Pairava, inatingível, acima da ralé e da grã-finada. Hoje o vento mudou. Não entra mais em palácio. Seus comparsas estão presos ou à beira de o ser. Desconcertado, agarra-se a qualquer miragem que lhe pareça poder livrá-lo da cadeia com a qual já tem encontro marcado.

Trump está decepcionando os que dele esperavam um poderoso “abre-te sésamo” que projetasse os EUA num futuro brilhante de riqueza e prosperidade. Suas promessas de campanha andam mal das pernas. A expulsão de 11 milhões de trabalhadores clandestinos está se verificando meta inatingível, fora de qualquer cogitação. O conflito ucraniano, que seria resolvido em 24 horas, foi posto de molho. Bombas continuam explodindo na capital ucraniana. O vaivém dos impostos de importação mostrou, depois de perturbar as finanças do planeta, que não tinha vindo pra ficar, que era só uma ameaça. Caiu mal.

Putin continua lá no seu canto, jururu, sem conseguir vencer a guerra que declarou contra um vizinho bem menor e menos poderoso que ele. Ele também há de estar perdendo a confiança em Trump, aquele que prometia acabar com a guerra em um dia.

Milei, dizem, também anda inconformado. Seu sonho teria sido que a Argentina, e não o Canadá, tivesse sido convidada a se tornar o 51° estado americano.

Marine Le Pen é deputada francesa da extrema direita populista. A cada eleição para a presidência da república, seu nome na urna é tão infalível quanto brigadeiro em festa de criança: está sempre lá. E já faz umas duas ou três vezes que passou para o segundo turno. Pois Madame acaba de receber uma pena de prisão e de cinco anos de inelegibilidade. Em vez de prisão, terá de andar com tornozeleira eletrônica, mas a inelegibilidade é pra valer: não poderá disputar a próxima eleição.

Os que mencionei não são os únicos, há muitos outros líderes populistas no mundo. Falei dos que estão mais próximos de nosso universo. A julgar por eles, este ano da graça de 2025 parece assinalar o fim – ou pelo menos uma pausa – na pestilenta vaga de populismo que nos circunda.

Tomara que a pausa dure bastante tempo. Tomara que as próximas presidenciais brasileiras não tragam nenhum candidato populista na urna. Uma eleição sem Lula e sem Bolsonaro será uma bênção.

São Benedito é santo forte. Não sei se seus braços alcançam Le Pen, Milei, Putin e Trump. Mas sei que têm poder em Brasília.

Sem Lula e sem Bolsonaro(s), por favor, meu Santo!

Made in P.R.C.

José Horta Manzano

Até o começo deste século, os chineses eram mais que discretos ao etiquetar seus manufaturados para exportação. Se a legislação do país de destino fosse liberal, nem mencionavam a origem da mercadoria. Caso fosse absolutamente necessário, marcavam «Made in P.R.C.». A estranha e quase desconhecida sigla significava ‘feito na República Popular da China’.

De lá pra cá, as coisas evoluíram. Produtos daquele país hoje ostentam um desinibido «Made in China». Não dá pra dizer que o que vem da China se tenha tornado chique, que seria um exagero. Mas a desconfiança nos produtos chineses vem se amenizando ano a ano.

Tendo-se transformado em fábrica do mundo, a China tornou-se incontornável. Pouco a pouco, a indústria básica dos demais países tem dismilinguido em favor da China. Na França, grande país produtor de pianos, ninguém mais fabrica esse instrumento. O Brasil que, em meados do século XX contava com imensa população infantil, tinha grandes fábricas de brinquedo; fecharam-se uma após a outra, não sei se terá sobrado alguma. A indústria têxtil suíça, que já teve fama mundial, desapareceu. E assim por diante.

Até muito poucos anos atrás, não se viam automóveis chineses na Europa. Com bom marketing e, sobretudo, com preços imbatíveis, os carros elétricos chineses estão fincando pé no continente. Com a antipatia que Mr Musk tem espalhado pelo mundo, a venda dos carros de sua marca Tesla tem escorregado ladeira abaixo deixando campo livre para os chineses.

Nome, marca, origem da mercadoria podem ser prestigiosos. Em matéria de carnaval, praia, capoeira, caipirinha, chinelo de dedo, essas coisas, o nome de nosso País está por cima da carne seca. Deixa qualquer concorrente comendo poeira. Já em outros campos, a situação é menos dourada.

Para salvar a face, restam os aviões da firma Embraer, florão da indústria nacional, que irradia uma imagem pra lá de positiva de nosso castigado país. Por sorte, ainda não foi nacionalizada. Já imaginaram nossa maior indústria de excelência tornar-se um cabide de empregos, “feudo” do Centrão & associados? Cruz-credo!

Boicote

José Horta Manzano

Gosto de comer apimentado. Para os dias em que a comida não está picante o suficiente, tenho sempre à mão um vidrinho do molho de pimenta Tabasco, feito justamente pra servir à mesa. Duas gotinhas e pronto: um prato sem graça vira uma iguaria.

Outro dia, passeando os olhos pela mesa da cozinha e lendo etiquetas de embalagem, um de meus passatempos preferidos, me dou conta de que o Tabasco é feito no país de Trump! De fato, é importado direto da Luisiana.

Me senti meio aborrecido. Com a agressividade comercial de Donald Trump fazendo o mundo inteiro temer pelo amanhã, não é confortável descobrir que estou agindo contra a corrente – em vez de me abster, continuo comprando produtos americanos.

Não é tanto por vingança, que não tenho nada contra eles, mas é questão de solidariedade para com os países que neste momento se sentem esmagados e banidos do comércio mundial.

Já que o assunto era Tabasco, tive curiosidade de saber um pouco mais sobre o produto. Descobri que já faz século e meio que é produzido na Ilha Avery, situada nos alagados do estuário do Rio Mississipi. Quem deu nome ao lugar foi a família Avery, franceses originários da Normandia, que por lá se estabeleceram nos anos 1830 e foram proprietários daquelas terras. Era o tempo em que a Nova Orléans era a porta de entrada da América francesa.

Imaginei vasculhar a lojinha do indiano aqui perto de casa. (Digo indiano, mas talvez seja paquistanês, não sei, o fato é que não fala língua nenhuma além da sua, fato que dificulta a compreensão.) A loja é minúscula, mas tem uma imensa quantidade de produtos espremidos nas prateleiras cambaleantes. Há centenas de produtos indianos, paquistaneses e de outras lonjuras do Extremo Oriente, além de artigos do mundo todo, incluindo latino-americanos e até brasileiros. Um bazar sortido.

Mesmo antes de ir ao indiano, já considerei que não vai ser fácil encontrar substituto para o Tabasco. Com todas aquelas embalagens escritas em caracteres extremo-orientais e com o balconista que não entende nada, estamos bem arranjados. Melhor não trocar o certo pelo duvidoso.

Está resolvido, fico com o Tabasco. Mas tomo uma resolução: em vez de duas gotas, vamos pingar uma gota só em cada prato.

Tenho certeza de que essa prova de desprendimento patriótico vai ajudar a cortar pela metade o PIB americano. Trump que se prepare, que comigo a conversa é apimentada.

Indignação

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Para espanto da plateia, o filósofo francês Luc Ferry afirmou certa vez durante uma palestra no Brasil que a indignação não pode ser considerada em absoluto um sentimento moral. E isso por uma razão muito simples: só nos indignamos com as ações e atitudes dos outros, nunca com nossas próprias. Temos sempre uma desculpa pronta para justificar qualquer ato moralmente reprovável que porventura tenhamos cometido: “Eu estava transtornado, perdi a cabeça”, “Estava sem dormir e tinha bebido muito”; “Só revidei depois de anos de injustas agressões contra mim”; “Não quis ofender ninguém com meu comentário, apenas usei as palavras erradas no calor do momento”.

Curiosamente, todas essas circunstâncias ‘atenuantes’ tendem a ser desconsideradas quando o que se está avaliando é a transgressão cometida por terceiros. Então, se sob o manto da moralidade esconde-se apenas a vontade de prejulgar e condenar, não faz sentido pedir isenção antecipada para os próprios desvios éticos, não é mesmo? Se eu acho que as contingências devem sempre ser levadas em consideração na análise da culpabilidade ou não da pessoa que cometeu a infração ética, então não passa de hipocrisia o arroubo passional condenatório demonstrado instantaneamente pela imensa maioria ao saber de uma notícia escabrosa de jornal, tevê ou de portais de notícias da Internet.

A indignação tem o mau hábito de reeditar, sob uma ótica dissimulada, a luta do ‘nós x eles’, colocando em lados opostos as ‘pessoas de bem’, amantes da verdade, da justiça e da ordem, ou seja, todos nós que nos pautamos pelas regras civilizatórias mais elementares e somos tementes a Deus, contra eles, os bandidos, os psicopatas, os genocidas, os corruptos e os que “não têm Deus no coração”. Montados em nossa alegada superioridade moral, rejeitamos até mesmo a ideia de incluí-los na categoria de humanos: são todos monstros, animais, aberrações da natureza. Assumir que a condição humana abrange tanto um lado luminoso de altruísmo quanto um lado sombrio de busca desenfreada pela autogratificação a qualquer preço é algo inapreensível pelas mentes honradas dos indignados crônicos. E, quando se revela que, em muitos casos, os causadores de nossa indignação eram anteriormente cidadãos pacatos, tímidos e gentis, essa divisão desaba por absoluta falta de sentido.

A ciência ainda não conseguiu identificar com clareza quais fatores biológicos, neurológicos e psicológicos/psiquiátricos estão na base de tanta torpeza humana. A discussão não termina nunca: a pessoa nasce assim ou é o ambiente no qual ela está inserida que favorece a eclosão de surtos de violência? A perversidade é fruto de genes deficientes ou de lares disfuncionais? Ela atinge todas as classes sociais ou é exclusividade das populações marginais? O que resta exaustivamente comprovado é que nunca nos consideramos pessoalmente sujeitos a cair na criminalidade, acreditamos ser imunes à doença mental e apostamos que nunca perderemos a capacidade de empatia e autocontenção, mesmo se submetidos a condições degradantes de vida e intenso estresse cotidiano.

Mas, se Luc Ferry está certo, que nome dar, então, ao sentimento que nos assola ao sabermos das atrocidades cometidas diariamente por indivíduos pertencentes a todos os setores da experiência humana? Talvez se pudesse denominar aquela sensação de travamento do diafragma, falta de ar, aperto no peito e nó na garganta de revolta, aversão, repulsa, estarrecimento ou qualquer outro sinônimo, mas nenhum deles parece dar conta de todo o peso emocional contido nos contínuos atentados à dignidade humana. De todo modo, cabe perguntar, parafraseando Shakespeare: se o sentimento de indignação tivesse outro nome, seria por acaso mais fácil de absorver, metabolizar e transformar?

E ainda, por que a tônica dos dias atuais parece ser a indignação compulsiva, em série? Somos expostos todos os dias a uma série infindável de notícias indignantes, veiculadas sempre em tom alarmista – seja no plano da nova ordem geopolítica, das guerras expansionistas e genocídios, as referentes à emergência climática, ao negacionismo científico ou aos danos psicológicos causados pelo avanço da IA, isso sem falar dos horrores próprios da criminalidade urbana.

O maior legado que minha professora de psicologia social, Ana Verônica Mautner, me deixou foi a ideia de que “Às vezes, é preciso não compreender”. Se, ao invés de tentarmos explicar os comos e os porquês da morte da empatia e dos valores iluministas, nos deixássemos afundar na perplexidade e na incompreensão, talvez fosse mais fácil encontrar respostas para reeducar nossas crianças e jovens. Só assim nos daríamos conta de que os mesmos demônios nos habitam.

Uma das consequências mais devastadoras da indignação em série é que ela permite a criação de uma espécie de calo emocional que acaba nos insensibilizando para a dor e o sofrimento causados nesta situação e nos preparando emocionalmente para reagir somente a crimes ainda mais perversos na próxima. É consequência da assim chamada banalização do mal.

Depois de muito pensar, acabei me dando conta de que não há nada de aleatório na divulgação espetaculosa de tantos fatos indignantes. Ao contrário, há uma intencionalidade difusa razoavelmente fácil de identificar por trás das manchetes: a necessidade de gerar a sensação de desamparo e desesperança crescentes na sociedade para, em consequência, vender a ideia de que só um líder absolutista com punhos de ferro poderá dar fim a toda espécie de injustiças e nos guiar rumo à eterna bem-aventurança. Trump, Bolsonaro e Milei estão aí para provar.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

É o fim da minha vida

José Horta Manzano

O distinto leitor e a graciosa leitora hão de se lembrar da birra que Jair Bolsonaro tinha com a Folha de São Paulo. Birra? Que digo! Era ódio mesmo. Aconteceu mais de uma vez ele mandar expulsar jornalista(s) daquele veículo que ousassem estar presentes numa coletiva de imprensa.

Rei morto, rei posto. As coisas mudaram. Hoje, longe do poder, sem a caneta, sem mandato, sem imunidade, acuado pela justiça penal, Jair tem disfarçado a crista. Não digo que tenha perdido a soberba, mas, vez por outra, deixa de lado a pose de imbrochável (hoje recauchutado e amparado pela ciência) e veste a máscara de coitadinho.

Fez isso estes dias, ao aceitar ser entrevistado por uma jornalista (uma mulher!) da Folha. Com palavras humildes, respondeu às perguntas que lhe fez a moça. Como de costume, safou-se de toda culpa na trama em que é acusado. Não fez nada de errado, não cometeu nenhum deslize, não conspirou, não incentivou, não deu luz verde para nada, viajou para a Florida para não ter de passar a faixa, não sabe de nenhum crime, não invadiu palácio nenhum, não quebrou nada. E pergunta onde está a “prova” de um possível golpe.

Foi indagado sobre as consequências de uma eventual prisão, se isso poderia representar o fim de sua carreira política. A resposta veio de bate-pronto:


“É o fim da minha vida. Eu já estou com 70 anos!”


Eu, que já passei dos 70 faz uns bons anos, fiquei comovido. Me pus a imaginar a figura de um ancião confinado num cômodo de alguma vila militar, possivelmente na capital federal. Com armário, micro-ondas, minibar, tevê mural, banheiro exclusivo. Tudo isso e mais o escambau. Pode parecer o fino da hospedagem, mas não deixa de ser prisão, um lugar onde o hóspede fica confinado e não sai quando deseja.

Apesar da comoção, meu pensamento foi mais longe. Voltei cinco anos no tempo. Tornei a sentir o bafo de desespero que emanou do povo brasileiro naqueles dias de pandemia brava. Lembrei de gente carregando cilindros de oxigênio para acudir parentes morrendo de asfixia em hospitais, vítimas da inépcia do general que comandava o Ministério da Saúde (e que hoje é deputado federal!). Lembrei de um odioso Bolsonaro, que teve a ousadia de arremedar, diante de câmeras e microfones, os estertores da respiração ofegante dos moribundos.

Lembrei de muitas outras situações em que Bolsonaro se posicionou frontalmente contra os interesses vitais do povo brasileiro, que acabou contabilizando cifra assombrosa de mais de 700.000 mortos de covid-19.

Talvez, no futuro, a Ciência consiga estabelecer com certeza quantos óbitos devem ser debitados da conta do capitão, pelas ações tomadas e/ou decididas por ele no enfrentamento da pandemia. Hoje, mesmo não possuindo ainda essa fórmula, é lícito intuir que milhares, dezenas de milhares, quiçá centenas de milhares de mortes poderiam ter sido evitadas se o então presidente quisesse realmente, como ele afirma na entrevista, “o bem do meu país”.

Para Bolsonaro, alguns anos numa prisão de primeira classe serão “o fim da vida”. Isso porque ele já está com 70 anos.

Há milhares de brasileiros, ricos e pobres, bolsonaristas e lulistas, jovens e velhos, para os quais não haverá prisão. Nem de primeira nem de última classe. Estão mortos. Para eles, o “fim da vida” já foi. A covid, associada à pusilanimidade pérfida do presidente, não lhes deu tempo de chegar aos 70 anos. Nunca verão os futuros netinhos.

Bolsonaro, de todo modo, um dia sairá da cadeia e voltará ao convívio dos seus. Suas vítimas, ai delas, não voltarão nunca mais.

O que sobra desta vida

Gruta de Lascaux, França: pinturas rupestres

 

José Horta Manzano

Artigo publicado no Correio Braziliense de 31 março 2025

O homem das cavernas caprichou na surpreendente arte pictórica, que acabou deixando para a posteridade rastros de sua existência. De fato, numa esplêndida prova de que os humanos de tantos milênios atrás já eram capazes de elaborar pensamento abstrato, pinturas rupestres feitas por artistas daquelas eras chegaram até o presente. Algumas delas são de beleza artística tão notável que poderiam rivalizar com a arte de nossos tempos.

Pinturas rupestres têm sido descobertas em cavernas do mundo todo: Américas, Europa, Sibéria, Extremo Oriente, Austrália. Embora alguns espécimes possam ser considerados obras de arte, sua importância transcende considerações meramente artísticas. Bem mais que isso, estão entre os parcos testemunhos dos primórdios de nossa espécie.

Num formidável salto no tempo, vamos passar agora da pré-história à história tal como a entendemos. Com a sociedade já organizada em vilarejos e burgos, com Estados governados pelo mais forte fisicamente, pelo mais inteligente ou pelo herdeiro de linhagem aceita como legítima, não se dissipou a aspiração ancestral do ser humano por deixar algum traço de sua passagem.

As tentativas individuais dos que viveram em tempos antigos e trataram de deixar uma marca perene nem sempre foram coroadas de sucesso. Guerras, invasões, terremotos, desmoronamentos, incêndios, inundações, erupções vulcânicas, vandalismo e abandono deram conta de esboroar orgulhosas construções, que acabaram virando pó. Palácios, estátuas, faróis, casas e mausoléus perderam-se no tempo.

O que, de verdade, sobra desta vida não são objetos materiais, por mais que sejam significativos. O prolongamento de cada indivíduo se faz através do que sua obra tem de imaterial. Temos, na história do Brasil, um caso curioso e que vem a propósito.

Dom Pedro II, nosso segundo e último imperador, esteve no trono por 58 anos, até que um golpe de Estado o depôs e o despachou para a Europa. Sua filha, a princesa Isabel, não chegou a ser coroada, logo nunca pôde ostentar o título de imperatriz. No entanto, numa ausência do imperador, coube-lhe assinar a Lei Áurea, a que libertou os últimos escravos. Por esse único gesto, é mais festejada que o próprio pai. Entre os vultos do império, a princesa é, no imaginário popular, a magnânima, figura simpática apesar de nunca ter tido cetro, nem manto, nem coroa.

Mas o mundo é vasto. É raro que personagens fiquem na lembrança por uma simples assinatura, como nossa princesa. É mais frequente que a inscrição na História seja fruto de uma sequência de medidas, fortes e impactantes, impostas com energia, que atinjam as estruturas da sociedade mundial. Os personagens que maior probabilidade têm de inscrever seu nome pelos séculos vindouros são os grandes líderes cujo legado tenha alcançado a façanha de perturbar a marcha da História – para melhor ou para pior.

Dito assim, pode parecer simples. Não é. O século 20 deixou uns poucos exemplos significativos. Adolf Hitler foi, sem dúvida, o personagem que mais fortemente sacudiu as bases da sociedade. Seus atos provocaram a inteira reestruturação política do mundo. Nenhum outro dirigente conseguiu, sozinho, causar tamanha revolução. O próprio Stalin não foi iniciador, mas continuador, da difusão do sistema comunista.

O século atual, a menos que um imprevisto lhe trunque a ascensão, já conhece o personagem que fará tremer as bases da sociedade: é Donald Trump. Talvez por dar-se conta de que o tempo lhe é contado, o presidente americano tem utilizado o poder que a força bélica e a capacidade econômica de seu país lhe conferem para atordoar um mundo até então embevecido com um já longevo statu quo.

Pela novíssima cartilha – que ainda ninguém decifrou –, inimigos de ontem são prestigiados e saem da berlinda, enquanto os amigos de sempre são hostilizados e tratados como inimigos. Os demais permanecem num temporário limbo, à espera de conhecer o destino que lhes será imposto pelo novíssimo “imperador do mundo”.

Neste momento, é impossível saber como estará a sociedade global ao fim do mandato de Mr. Trump. Ainda não se consegue predizer para que lado evoluirá o mundo. Conseguiremos retornar ao statu quo ante bellum – o estado em que estavam as coisas antes da guerra?

Sem medo de errar, podemos profetizar que não, que nada voltará a ser como antes. O mundo estará melhor? Pode ser, mas há controvérsia.

Liquidificador

José Horta Manzano

Sempre me surpreendeu o comprimento da palavra liquidificador. São seis sílabas: li-qui-di-fi-ca-dor. É muita letra pra designar um aparelho relativamente pequeno. Outras línguas encontraram saídas mais curtas. Nós, não. Preferimos escrever por extenso. Na época em que esse aparelho apareceu, algo como liqüex ou liqüinho talvez soasse um tanto chué pra dar nome a objeto tão revolucionário. Há de ser por isso que preferiram palavra de dobrar a esquina.

Falando nisso, tenho notado que nós, brasileiros, damos preferência a palavras longas em detrimento das mais curtas. Por exemplo, em vez do velho , o somente parece ser mais apreciado hoje em dia. O só está ficando só, abandonado num canto.

Um outro caso é o do antigo verbo pôr que, caído em desuso e quase em via de extinção, foi substituído por co-lo-car. Outro dia li a surpreendente história de uma jovem que, desertada pelo namorado, decidiu “colocar fogo” no apartamento dele. Fiquei imaginando a moça fantasiada de vestal romana subindo as escadarias do templo levando nos braços uma pira com o fogo sagrado para colocá-lo ao pé da estátua de Vulcano, o deus do fogo original. Isso, sim, seria “colocar fogo”. Fora isso, é melhor dizer ‘pôr foto em’, ‘atear fogo a’ ou, melhor ainda, ‘botar fogo em’. Sem falar no familiar ‘tacar fogo em’.

Outra palavra que espichou foi fim, atualmente substituída por final. Ninguém mais deseja um bom fim de semana, mas um excelente “final de semana”. Talvez a palavra mais comprida dê impressão de prolongar o tempo de descanso.

A simpática aeromoça de antigamente deu lugar à não menos simpática comissária de bordo ‒ título menos caseiro e mais pomposo, sem dúvida. E mais comprido também.

E a hora que virou horário então? A hora legal, ditada pela Divisão do Serviço da Hora, do Observatório Nacional, é hoje conhecida como horário: horário de verão, horário de Brasília. Este blogueiro é do tempo em que a palavra horário era reservada para indicar algo que ocorria em tempo ritmado, cadenciado, limitado como em horário de funcionamento, horário de trabalho, horário de saída dos ônibus.

E o problema, que se está transformando em problemática? Vejo aí contaminação vinda de palavras modernas como informática e telemática. Bom, convenhamos: problemática tem um charme e um perfume erudito que problema está longe de ter.

E assim vamos nós, sempre acrescentando penduricalhos, raramente podando, arcados sob o peso crescente. E vamos em frente, que um dia ainda chegamos lá.

O jubileu de prata de Putin

Gianluca Mercuri (*)

Há exatos vinte e cinco anos, Vladimir Putin assumiu o poder na Rússia. Ele já havia sido presidente interino por quatro meses após a renúncia de Boris Yeltsin. Mas em 26 de março de 2000, ele venceu sua primeira eleição presidencial.

O quarto de século que se seguiu transformou a Rússia, esse imenso, maravilhoso e terrível país. Varreu as ilusões de paz da Europa, de um “fim da história” marcado pela vitória incontestável do Ocidente e uma convergência da Rússia e da China em direção aos benefícios do desenvolvimento econômico global, do comércio pacífico e de uma ordem mundial compartilhada. Isso trouxe a guerra de volta ao nosso continente, a ponto de assustar sua parte mais rica, democrática e estável. Essa parte somos nós.

Aqui está o que Putin fez em seus cinco anos no poder:

* Ele estancou brutalmente a perda de territórios da antiga URSS, com a segunda e mortal guerra na Chechênia (a primeira havia sido em 1994-96): em 10 anos, 50.000 mortos, dezenas de milhares de refugiados e a capital, Grozny, descrita em 2003 pela ONU como “a cidade mais devastada do mundo”.

* Ele tem eliminado sistematicamente todos os oponentes: o primeiro da lista foi o magnata do petróleo Mikhail Khodorkovsky, preso em 2003, antes que pudesse desafiar o chefe. Em 2006, o assassinato da jornalista Anna Politkovskaya e do ex-oficial de inteligência Aleksandr Litvinenko. Em 2015, o assassinato do rival Boris Nemtsov e, em 2024, a morte de Aleksej Navalny numa prisão na Sibéria. Esses são apenas os nomes mais conhecidos; milhares foram parar na prisão.

* Ao agarrar-se ao Kremlin, ele rasgou a primeira constituição democrática da história da Rússia. Reeleito em 2004, não pôde concorrer novamente em 2008, mas fez com que o leal Dmitri Medvedev fosse eleito presidente; assumiu então o lugar de premiê. Em seguida, aboliu o limite de dois mandatos e ampliou sua duração de quatro para seis anos. Ele é presidente novamente desde 2012 e pretende concorrer novamente em 2030, depois de ter obtido cerca de 90% dos votos no ano passado.

* Ele respondeu com guerra a todas as tentativas feitas pelos países vizinhos de se aproximarem da Europa: em 2008, atacou a Geórgia; em 2014, a Ucrânia, após o levante antirrusso na Praça Maidan. Naquele ano, conquistou a Crimeia.

* Em fevereiro de 2024, atacou novamente a Ucrânia de forma brutal, dessa vez com uma invasão em grande escala, com a qual imaginava poder submeter Kiev em poucos dias. Depois de três anos, ainda não venceu formalmente a guerra, graças à resistência dos agredidos, com a ajuda dos EUA e da Europa. Isso foi até o retorno de Donald Trump.

* Teorizou e impôs a ferro e fogo o direito da Rússia de impedir escolhas autônomas por parte de seus vizinhos, com base no pressuposto de que a europeização deles seria uma ameaça à sua segurança.

* Ele ressuscitou o mito da “Terceira Roma de Moscou”, já cultivado por Ivan III, o Grande, no século XV: isso significa que a Rússia se autoproclama madrinha do cristianismo e dos valores tradicionais, ainda mais diante da “decadência” do Ocidente, que, nessa visão, seria devida à contaminação da sociedade por valores seculares e progressistas. Seu conservadorismo social e autoritarismo político fizeram dele o ídolo dos direitistas do mundo.

Hoje, Vladimir Putin está comemorando seu jubileur de prata no poder com uma trégua no conflito ucraniano acertada com os americanos, limitada à infraestrutura de energia e ao Mar Negro, e que, portanto, parece beneficiar principalmente o país agressor.

(*) Gianluca Mercuri é jornalista. Este artigo foi publicado no jornal Corriere della Sera.