Espero não ter que retornar antes

José Horta Manzano

Já nos tempos de Aristóteles, 2400 anos atrás, ensaiava-se a enumeração dos principais vícios da humanidade. Séculos mais tarde, o cristianismo tratou de catalogá-los. Ficou determinado que os desvios de comportamento que geram todos os males do comportamento humano são em número de sete.

A Igreja lhes dá o nome de sete “pecados capitais”, mas seria mais apropriado falar em “vícios capitais”. O vício é um desvio de comportamento que, na própria doutrina católica, pode dar origem a um ato pecaminoso.

A ordem em que esses vícios (ou “pecados”) são enumerados pode variar. No entanto, nas línguas da Europa cristã, a sequência mais frequente é esta: soberba, avareza, luxúria, inveja, gula, ira e preguiça.

Como se vê, a soberba aparece sempre no topo da lista, prova da importância que a doutrina lhe dá. Esse primeiro lugar ocupado pela soberba engloba uma família de variações: orgulho, vanglória, presunção, arrogância, empáfia, fatuidade, vaidade – todos aparentados.

Como já tinham notado os antigos, a soberba é atitude a evitar. Não traz nada de bom. Pra piorar, cutuca o destino, que é capaz de pregar peças cruéis.

História triste de fim de ano

by Caio Gómez, Correio Braziliense

José Horta Manzano

Artigo publicado pelo Correio Braziliense em 3 janeiro 2022

É verdade que, em época de fim de ano, é costume falar de presentes, de peru e de farofa. Só que, ao lado do sonho, está sempre a vida real, uma danadinha que tem o desagradável hábito de nos puxar de volta ao chão. Assim, apesar da vontade de escrever uma fábula com guirlandas e fogos de artifício, cedo ao dever de manter pés na terra. Deixo pra passear de jet ski outra hora.

Alguns apontam La Niña como responsável; outros atribuem a tragédia a um pesado carma que o país carregaria. Pouco importa. O fato é que, desde novembro, o estado da Bahia vem sendo castigado por verdadeiro dilúvio. Chove tudo o que Deus mandou, e mais ainda.

Enxurradas, enchentes, desabamento de habitações, desmoronamento de morros, queda de pontes, colapso de estradas – nenhuma desgraça terá sido poupada à população. O governador do estado não economizou palavras. Segundo ele, estamos assistindo ao “maior desastre natural da história da Bahia”.

Na Europa, onde bem poucos seriam capazes de apontar a Bahia num atlas, a notícia tem saído no jornal, no rádio e na tevê, ao vivo e em cores. Comovidos, governadores de pelo menos dez estados brasileiros já se movimentaram para enviar ajuda humana e material para mitigar o apuro dos sinistrados.

Segundo a contagem publicada no momento em que escrevo, o desastre já atingiu mais de 100 municípios, pelo menos 25 mortos, cerca de 360 feridos e pra lá de 30 mil desabrigados. Para dar uma ideia de grandeza, é como se, de repente, a população inteira de Dracena (SP), de Diamantina (MG), de Soledade (RS) ou de Gameleira (PE) perdesse o teto. Incluindo homens, mulheres, crianças, gestantes e anciãos. Todos na rua. Sem contar os mortos e os feridos.

Decerto cutucado por algum assessor para que fizesse algum pronunciamento, o presidente Bolsonaro veio a público e pareceu condoído da sorte dos feridos e desabrigados. Disse que “agora, no início do ano que vem” tinha intenção de editar medida provisória liberando crédito de 200 milhões “para atender o pessoal”. Disse isso no dia 27 de dezembro. Até “o início do ano que vem”, com boa vontade, faltava pelo menos uma semana. Pra quem tem teto e vive abrigado em palácio, cercado de seguranças e com aluguel pago pela Viúva, ‘estar sem teto’ não passa de figura de linguagem. Na vida real, é outra coisa.

Mas o doutor seguiu para o segundo capítulo de suas férias. Depois da dança do funk no litoral paulista, foi gozar as delícias da costa catarinense, bem longe da Bahia, das enchentes, dos desmoronamentos e dos pobres. Partiu com o espírito leve dos que nada devem.

Assessores mais conscientes hão de ter considerado que, para quem perdeu tudo e vive ao relento, ter de esperar até “o início do ano que vem” era muito. Logo na terça-feira 28 saiu a medida provisória com o crédito extraordiário. Mas a nota da Secretaria-Geral da Presidência adverte aos baianos que não venham com muita sede ao pote. O dinheiro não é só para eles, não. Terão de compartilhar com Amazonas, Minas Gerais, São Paulo e Pará.

Pois é, enganou-se quem imaginava que o auxílio de emergência fosse para os desabrigados reconstruírem as casas. De olho na recuperação do tráfego rodoviário, ora bloqueado por causa dos estragos provocados pela chuva, o governo deixou bem claro que esse dinheiro se destina a recuperar as estradas. Quem perdeu a casa? Que se vire. Deus é grande e há de ajudar, não é mesmo?

Pela enésima vez fica escancarada a absoluta falta de empatia do capitão, sua rematada indiferença com os problemas alheios. Fosse ele um cidadão comum, essa bizarria não iria além do círculo familiar. No entanto, sua posição de chefe do Estado brasileiro faz que a distorção de caráter respingue sobre o andamento da nação.

Bolsonaro sabe que, sem uma economia florescente, será difícil reeleger-se. O espeto é que, possuído por essa ideia, não se dá conta de que os votos da reeleição virão justamente daqueles que ele hoje relega a segundo plano. Esses infelizes não são variáveis de ajuste, presidente, são seus potenciais eleitores!

Mas não adianta. Não há pior cego que aquele que não quer ver. Vamos torcer para que as eleições deste novo ano não nos ponham de novo um estropício na Presidência – nem este, nem aquele. Feliz 2022 a todos!

Quanta dor

Dorrit Harazim (*)

O espetáculo de grand-guignol exibido pelo governo Jair Bolsonaro neste fim de ano ofende qualquer norma de civilidade. Pouco tem de humano o espécime que cavalga jet skis da Marinha, visita parque de diversões e joga na Mega-Sena da Virada enquanto uma parte do país pede socorro.

O Brasil já teve um leque bastante improvável de chefes de nação – inclusive a galeria militar cujo programa de manutenção no poder incluiu matar adversários políticos. Ainda assim, Jair Bolsonaro consegue ser único – seu ostensivo desprezo pelo povo que governa, pela dor do outro, é maníaco. E lugar de maníaco é no manicômio, não na Presidência da República.

(*) Dorrit Harazim é jornalista. Trecho de artigo publicado no jornal O Globo de 2 jan° 2022.

Servidor extinto

Ascânio Seleme (*)

O governo federal gasta, anualmente, R$ 8,2 bilhões para manter mais de 69 mil servidores ativos que ocupam cargos já extintos, como ascensoristas, datilógrafos e técnicos de manutenção de videotape.

Entre 2014 e 2015, o governo contratou afinadores de instrumentos musicais e datilógrafos. Apesar de tais cargos terem sido extintos em 2019, os servidores permanecerão na folha de pagamento pelos próximos 53 anos.

Ainda existem servidores ativos que ocupam cargos de açougueiro, chaveiro, encadernador e operador de telex.

(*) Ascânio Seleme é jornalista. Trecho de artigo publicado no jornal O Globo de 1° jan° 2022.

Lamento, mas…

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Leio no dicionário em relação ao significado do emprego de “mas” em uma frase: conjunção coordenativa, que liga orações com as mesmas propriedades sintáticas, introduzindo frase que denota basicamente oposição ou restrição ao que foi dito”.

Desde a icônica frase de Mário Amato, então presidente da FIESP, referindo-se a Dorothea Werneck, então ministra da Indústria e do Comércio, “Ela é inteligente, apesar de ser mulher”, nunca mais tinha atentado para o sentido de correção de rumo do pensamento embutido no emprego de uma simples locução conjuntiva. Só com a ascensão ao trono de Jair Messias Bolsonaro e, em especial, após a eclosão da pandemia de coronavírus, voltei a prestar atenção às intenções ocultas contidas num pronunciamento de autoridade.

Impressionantemente, o presidente da República parece jamais ter-se dado conta da gravidade de seus constantes lapsos linguísticos. Nunca percebeu que seu pretenso compadecimento pelo sofrimento de seu povo ia somente até a página 2 (isto é, o capítulo de apoio à sua reeleição), jamais mostrou ser capaz de colocar um ponto final na frase lamurienta que lhe foi evidentemente impingida por conselheiros e estrategistas políticos. Jamais permitiu que suas alegadas condolências se fizessem acompanhar e se traduzissem num rosto crispado pela dor, num corpo alquebrado pelo peso da responsabilidade ou num gesto fraterno de estender a mão a quem precisasse, anunciando alguma medida urgente de amparo às comunidades mais atingidas.

Precisou sempre colocar um “mas” imediatamente após a expressão de seu suposto lamento, para introduzir uma frase aviltante qualquer que comunicasse o verdadeiro significado de altaneira indiferença contida em suas palavras. Como um moleque que diz de forma inconsequente: “Foi mal, pessoal, mas é o que temos para hoje” ou “Deu ruim, mas e daí?”. Sentiu sempre a compulsão de manifestar oposição ferrenha à lógica científica da quase totalidade das cabeças pensantes no Brasil e no mundo, duvidar da legitimidade dos procedimentos recomendados por tantos órgãos nacionais e internacionais de saúde. Sonhou sempre secretamente ser aclamado como o único chefe de Estado em todo o mundo capaz de apontar outra solução – mais rápida, barata e menos trabalhosa – para equilibrar os desafios econômicos e sanitários, mesmo que para isso tivesse de caminhar sobre uma montanha de cadáveres e se tornasse alvo do ridículo internacional.

Nunca se envergonhou de demonstrar publicamente que não está nem um pouco alinhado emocionalmente com o sofrimento da população carente, dos trabalhadores, dos idosos – e, mais recentemente, com a aflição de pais e mestres em vacinar o mais rápido possível as crianças. Em todas as ocasiões em que foi instado a expressar oficialmente constrangimento diante da ausência de políticas públicas para combater o desemprego e a fome, ele optou por relativizar a importância de tanto infortúnio e se isentar de qualquer forma de responsabilidade. Preferiu colocar a economia à frente da vida de sua gente, contrastar sarcasticamente sua suposta coragem de militar destemido à mariquice da sociedade civil, sugerir hipocritamente que estava impedido de agir por determinação do Judiciário e denunciar a “ditadura” de todos aqueles que adotaram procedimentos de prevenção e isolamento.

Seu insolente “Sou Messias, mas não faço milagres” vai passar para a história universal como a demonstração mais cabal de insensibilidade social e falta de empatia das piores lideranças populistas. Tão criminosamente pervertida quanto o lema nazista de “O trabalho liberta” afixado no portão dos campos de concentração, sua mensagem de Natal revelou-se mais um exercício nauseante de mitomania:

“Estamos finalizando mais um ano. Um ano de muitas dificuldades. Contudo, não nos faltaram seriedade, dedicação e espírito fraterno no planejamento e na construção de políticas públicas em prol de todas as famílias”.

Ao criar o conceito de atos falhos, o sábio judeu Sigmund Freud destacou que eles representam uma solução de compromisso entre o impulso individual desviante e as normas sociais, trazendo à tona “sem querer” um desejo inconsciente que havia sido reprimido – ou seja, ilustrando sempre um ‘sem querer, querendo’. Campeão mundial de atos falhos e medalhista olímpico de ouro na categoria arremesso de responsabilidade à distância, com mais essa demonstração de alienação da dramática realidade brasileira, Bolsonaro deixou escapar pela enésima vez que seu eternamente repetido amor à pátria, a Deus, à família e à liberdade serve apenas ao propósito de reafirmar seu compromisso com a mentira, a desfaçatez, o ilusionismo e o autoelogio.

A nós, cidadãos conscientes, só resta retrucar em uníssono ao excelso mandatário nas próximas eleições: “Lamento, capitão, mas desta vez vou de comunista de novo”.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

O Brasil está sendo atacado

Acabo de ler um artigo que o jornalista Pedro Doria postou em seu blogue alojado no jornal O Globo. É muito interessante. Fala sobre os ataques de piratas informáticos que o Brasil vem sofrendo atualmente. Quem quiser ler o pdf, que clique aqui. (Não tenha receio – já está incluído no preço.)

Boas Festas – 1

Luleå, norte da Suécia
às margens do Mar Báltico congelado

José Horta Manzano

Meus caros leitores – uns mais antigos, outros mais recentes – são todos gente fina. A vocês, que me acompanharam ao longo deste ano complicado, deixo aqui meu agradecimento pela fidelidade. Cada visitinha é pra lá de bem-vinda e me traz muita alegria.

Desejo a todos um Natal alegre e um ano novo com saúde e alegria crescentes. E com pandemia e ameaças presidenciais minguantes, naturalmente.

Boas Festas e excelente 2022 a todos!

Vai ganhar

José Horta Manzano

O déficit de inteligência que aflige Nosso Guia é amplamente compensado pelo excesso de matreirice. Esse seu instinto ardiloso, calculador e populista aflora, dia sim, outro também.

Ontem esteve em São Paulo de visita a catadores. Deixar-se fotografar, ostensivamente, ao lado de gente humilde em período natalino é recurso pra lá de manjado. Sessenta anos atrás, os velhos Adhemar e Jânio já eram mestres nessa jogada. Esta é uma época do ano em que os corações amolecem. Ao ver um Lula velhinho, cabelo desgrenhado, rodeado de pobres, derretem de vez.

Agora tenho o dever de informar ao distinto leitor (e eleitor) paulista que a governança de seu estado está alfinetada no quadro de apostas, no estilo “quem ganhar, leva tudo”.

Descontraído no meio dos catadores, o Lula cometeu um de seus ocasionais sincericídios. Resumiu numa frase o modo como enxerga as eleições. Para ele, aquele que for eleito governador de São Paulo não receberá a pesada e complicada incumbência de dirigir o estado mais importante da Federação. Não. Ele “vai ganhar” o governo. Vai ganhar!

Vai governar. Vai dirigir. Vai conduzir. Vai administrar. Vai comandar. Vai chefiar. Vai liderar. Vai pilotar. Vai guiar. Vai encabeçar. Vai gerir. Vai gerenciar. Vai tutelar. Vai orientar. Vai manobrar. Qualquer desses verbos daria conta. Mas… “vai ganhar”? O lulopetismo continua enxergando a política como uma mesa de carteado. “Ganhar o governo” equivale a ganhar um prêmio.

Mais uma vez, Nosso Guia mostra que, na sua visão de mundo, o importante mesmo é “ganhar o governo”. Em seguida, a gente já sabe o que vai acontecer. Nos anos em que dominaram o poder federal, ele e seus comandados já deram a receita de como sugar o dinheiro do povo em proveito próprio. Deitando e rolando.

Que São Benedito nos proteja!

A pressa é inimiga da perfeição?

Myrthes Suplicy Vieira (*)


A pressa é inimiga da perfeição?


Depende. Se você for um burocrata distraído e, principalmente se trabalha com números, é muito provável que a pressa seja mesmo inimiga da perfeição. Com quase toda certeza, se você for um neurocirurgião de ponta operando um AVC hemorrágico posicionado numa região cerebral muito delicada ou inacessível, sua necessária atenção aos mínimos detalhes pode também ser comprometida pela sensação de urgência. Por outro lado, se você for um socorrista do SAMU atendendo a um acidente de trânsito grave com muitas vítimas, piloto de helicóptero da PM, motorista de ambulância ou bombeiro atendendo a um incêndio em um asilo de idosos ou na UTI neonatal de um grande hospital, a pressa pode muito bem ser entendida como um estímulo à perfeição.

O desafio é sempre, em todos os casos, equilibrar a entrega do trabalho dentro do menor prazo possível e com o maior padrão de excelência/qualidade disponível. A isso se dá o nome de competência e, para atingi-la, é preciso contar com uma equipe multidisciplinar altamente capacitada para acompanhar cada etapa do processo e comunicar rapidamente aos demais envolvidos a necessidade de providências extraordinárias.

Doutor Queiroga não entendeu bem, no início, onde o presidente queria chegar ao pedir que ele impedisse – ou, em caso de insucesso por falta de argumentos técnico-científicos convincentes, que atrasasse ao máximo – a vacinação infantil. Mas anuiu mesmo assim. Depois que lhe explicaram que seu chefe ainda oferecia muita resistência ao projeto e estava inseguro quanto à ocorrência de eventuais efeitos colaterais graves nesse público que poderiam cair nas suas costas, ele finalmente vislumbrou uma solução: discutir o tema com todos os órgãos intermediários de controle e com a sociedade civil organizada, antes da tomada final de posição do Ministério da Saúde. Não contava, porém, com a agilidade dos técnicos da Anvisa para aprovar por unanimidade a vacinação para esse segmento etário e o beneplácito de um sem-número de associações de pediatria, imunologia e infectologia.

No afã de mostrar serviço e agradar à chefia, sem comprometer sua permanência no cargo, ele no entanto acabou trocando as bolas: entendeu que sua missão era a de entregar a pior qualidade possível (no sentido da urgência do pedido de compra de novas doses e da logística de distribuição aos estados) dentro do prazo mais dilatado autorizado pelo STF. E foi isso o que ele fez, com total denodo. Contrariando todas as expectativas até mesmo de pais e mestres, ele imaginou ter feito um pronunciamento médico respeitável, durante o qual tentou disfarçar seu servilismo acrítico e sua incompetência atrás da alegação cor-de-rosa de que está comprometido com a segurança dos pequeninos brasileiros. Seria comovente se não fosse pela inevitável comparação com o desempenho tétrico de seu antecessor.

Um antigo colega consultor de empresas desenvolveu um conceito revolucionário para explicar às chefias as causas de frequentes erros em áreas sensíveis da organização capitaneadas por um gestor imaturo, autoritário ou inexperiente, que me encanta desde sempre: o da Síndrome da Anuência Precoce. Sabe aquele garoto assustado, acostumado a ser maltratado por um pai arrogante, perfeccionista e ditatorial, que não consegue ouvir até o fim a mais nova exigência de cumprimento de uma tarefa que lhe é apresentada aos berros? Então, dada sua enorme ansiedade e medo de falhar, a criança não consegue interromper a fala do pai para pedir esclarecimentos adicionais, contra-argumentar com dados realísticos ou tentar negociar um prazo mais elástico. Atira-se de cabeça na tarefa e, afundado na angústia da provável surra que vai levar se não obedecer aos conformes do combinado, não se organiza, atropela as fases do processo, ignora a necessidade de revisão da eficácia dos procedimentos adotados em cada passo e descuida do acabamento, terminando por falhar miseravelmente outra vez. À culpa vem se somar a crença de que é burro, desajeitado e não talhado para se destacar no mundo profissional. Pronto, está criado mais um jovem neurótico, especializado na arte de responsabilizar as contingências de sua vida, botar a culpa em terceiros e se alienar de toda e qualquer iniciativa no futuro.

Mesmo um observador não-treinado pode afirmar com toda a segurança que o fenômeno atinge pesadamente todos os integrantes do ministério bolsonarista. Da educação e cultura (inserida curiosamente, para vergonha nossa diante dos espantados olhares de estrangeiros, na estrutura do ministério do turismo), passando pelo Itamaraty e pelas Forças Armadas, até os criativos ministérios da economia e do meio-ambiente (que não se cansam de apresentar em fóruns internacionais um Brasil que desconhecemos integralmente), não há um só dia em que não sejamos convidados a interpretar as estatísticas nacionais sob o prisma de Alice no País das Maravilhas, elaboradas por orgulhosos portadores crônicos da Síndrome de Anuência Precoce.

Mas não se preocupe, prezado concidadão. Tudo isso deve acabar em breve. Deve ser apenas um efeito colateral indesejado da prevalência de militares em cargos civis de grande especialização técnica. E, para um militar, contrariar a voz de comando é uma insensatez inaceitável. Quem diria que um ex-capitão reformado por indisciplina agregaria tanto poder e influência para fazer calar generais e humilhar em público os mais prestigiados cientistas e instituições nacionais?

Que falta faz um estadista! Cuidado redobrado com quem você vai eleger no ano que vem.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Vacina para crianças

José Horta Manzano

Para futuros turistas que se preparam pra visitar determinados países ou regiões, recomenda-se tomar (ou exige-se que tomem) vacina contra doenças como tifo, febre amarela, raiva, hepatite A, poliomielite.

Para crianças, independentemente de qualquer viagem turística, a vacinação é obrigatória ou recomendada para proteger contra bom número de doenças: difteria, tétano, coqueluche, varíola, polio, hepatite B, pneumococos, sarampo, caxumba, rubéola.

Como se sabe, a vacinação dos pequerruchos é coisa corriqueira, sabida e aceita por todos. Não há mãe que deixe de levar seu filho ao médico ou ao posto de saúde pra ser imunizado.

Os mais antigos se lembram de um tempo em que essa proteção simplesmente não existia. Dá impressão de que vivemos hoje num mundo abençoado. Há quem diga que não passa de impressão. Mas essa é uma outra discussão.

Fico abismado – e meus leitores habituais sabem disso – com essa gente que recusa a vacina anticovid. Na Europa, espantosamente, são muitos. É verdade que, no Brasil, são poucos. Felizmente.

Fico boquiaberto com certos cidadãos de miolo mole, em geral apoiadores do capitão, que combatem a liberação da vacina anticovid para crianças. Como é que pode? Levam o filho para tomar vacina contra difteria, tétano, coqueluche, varíola, polio, hepatite B, pneumococos, sarampo, caxumba, rubéola, mas, na hora da vacina contra a maior pandemia que castigou a Terra nos últimos séculos, se afinam. Expõem os próprios filhos – e o resto da família – só pra obedecer à mente doentia do capitão. Não pode ser gente normal.

E tem mais. Não se está impondo nenhuma obrigação de vacinar crianças. O que se propõe é a autorização de vacinar. Ao fim e ao cabo, só vacinará seu filho quem quiser.

Vamos ver como está a situação além-fronteiras. Dia 25 de novembro, a Agência do Medicamento Europeia (que corresponde a nossa Anvisa) autorizou a vacina para crianças na faixa de 5 a 11 anos. Desde então, a Dinamarca e a Áustria já organizaram a campanha de vacina para os pequeninos. Na Alemanha, que é um país federal, como o Brasil, Berlim e a Baviera (Munique) já entraram para o time.

A Hungria – dirigida por Viktor Orbán, colega extremo-direitista de Bolsonaro – vai lançar sua campanha para a vacinação dos 5-11 anos quarta-feira. Na Grécia, os pais de 20 mil pequerruchos já inscreveram os rebentos para a picada, que também começa a partir de quarta-feira.

A Espanha, que está na categoria dos bons alunos no quesito vacinação, também já abriu sua campanha para vacinar os 5-11 anos. Portugal já planificou a imunização dos pequenos: começa esta semana e vai até 13 de março, os de 11 anos primeiro, e pouco a pouco baixando até chegar aos de 5 anos.

A Itália, a Lituânia, a Letônia, a Estônia, a Polônia (dirigida por colegas de Bolsonaro), a Eslováquia, a Tchéquia e a Suíça vão dar partida na campanha de vacinação infantil contra a covid estes próximos dias.

Enquanto isso, no Brasil… nosso respeitado capitão subiu a serra quando ficou sabendo que a Anvisa tinha conferido à criançada o direito de também ser imunizada contra a pandemia. Prometeu publicar, para execração pública, o nome dos diretores e funcionários que autorizaram “essa barbaridade”. O ministro da Saúde Pública, um sabujo interesseiro, repetiu como papagaio o discurso do presidente.

Destoando da covardia que os propósitos absurdos e cruéis de Bolsonaro costumam suscitar, a Anvisa soltou uma nota dura, indignada, inflexível.

Ai, que saudades do tempo em que nossos governantes se empenhavam em amparar os brasileiros, não em os assassinar.