José Horta Manzano
Na vida, é importante que lé rime sempre com lé e que cré rime sempre com cré. Na marcha da política, isso é ainda mais importante, sob pena de confundir a cabeça do eleitor. Quando o nome do jogo é eleição presidencial, então, dissonâncias podem custar votos preciosos, em especial numa disputa acirrada.
Os lés do Lula, assim como seus crés, são de conhecimento geral. Afinal, Nosso Guia já fez seis tentativas de chegar ao Planalto (três em que passou a rampa e três em que foi reprovado). Esta é a sétima e, diz ele, a última. A ver. Com passado político tão denso, Luiz Inácio parece que nem engatou a primeira para a partida. Foi direto para a quarta, tranquilo, como se candidato único fosse. Afinal, é ele o incumbente.
Quanto a seu desafiante, um certo Flavio B., marinheiro de poucas águas, a afinação dos lés é crucial. Menos conhecido que o incumbente, é proprietário de caçarolas e esqueletos que guarda discretamente no armário mas que podem, caso dê uma “fraquejada”, criar vida e sair por aí estalando ossos e batendo panela – um perigo!
Pois bem, este candidato desafiante sofreu um golpe seco logo no evento de apresentação de sua campanha ao distinto público. Marcou o comício para a praia de Copacabana, expressão máxima de nossa pretensa tropicalidade. Afinal, o Rio de Janeiro é o berço de onde irradiou o clã ao qual Flávio B. pertence. O ato tranformou-se num tremendo fiasco. No mesmo lugar em que o hoje preso Jair B. tinha atraído 64,6 mil pessoas na festa de 7 de setembro de 2022, em plena campanha eleitoral, seu filho não recebeu mais do que 8,9 mil apoiadores. Em outros termos, menos de 1 em cada 7 adeptos compareceram para louvar o candidato.
Com certeza, a conclusão que se impõe é que o bloco de apoiadores do passado está esfarelado, virou as costas a Flávio B. Ou não?
Pois parece que não. Nenhuma das pesquisas publicadas após o ato inicial da campanha de Flávio B mostra o mais leve tremelico na porcentagem de votos que lhe é atribuída. Nem na porcentagem do Lula, diga-se.
Passado um momento de estranheza, uma conclusão surge como obrigatória: os apoiadores cariocas de Flávio B já não estão dispostos a enfrentar sol de Copacabana para aplaudir seu herói. Até votam nele, mas preferem fazer isso na sombra amiga da cabine de votação. É o único jeito de fazer lé rimar com lé, e cré com cré. Fora isso, desafina e ninguém entende mais nada.
Com medo de virarem vidraça e serem acossados de perguntas e acusações constrangedoras, tanto o incumbente quanto o candidato desafiante já anunciaram não terem intenção de comparecer a debates televisionados. De novo, repito. O atual presidente, velho de guerra e sobejamente conhecido nos rincões e nos grotões, até que pode se permitir esse luxo. Já o desafiante está apostando alto.
A massa de eleitores que pretendem votar nele não está apenas constituída de devotos incondicionais. Há também um contingente de insatisfeitos com o governo Lula, grande número de indecisos (sim, isso existe), e outras parcelas menores. É justamente essa parcela que interpretará o fiasco de Copacabana como sinal de perda de força da candidatura de Flávio B, e a ausência nos debates, como confirmação da derrocada.
Quem busca a façanha de se eleger contra um Lula velho de guerra – e loga na primeira tentativa – não pode se permitir emitir esses sinais dúbios, que podem ser interpretados como os de um homem que está baixando os braços.
Tome cuidado, Flávio B.!
