O desafio do sul-africano

José Horta Manzano

O empresário sul-africano Elon Musk (que adquiriu a nacionalidade americana em 2002) tem ganhado rios de dinheiro. Como ocorre com quase todos que saem de baixo e entram no clube dos imensamente ricos, o dinheiro lhe subiu à cabeça e lhe deu uma (falsa) sensação de onipotência.

O rapaz não é o único a experimentar a embriaguez do poder. Ditadores lhe fazem companhia. Putin, Kim Jong-un, Maduro, Ortega, os pranteados irmãos Castro passaram por esse estágio. Steve Jobs, Bill Gates, Jeff Bezos também. Uns mais, outros menos, todos tiveram seu momento de Tio Patinhas ou até de Deus todo-poderoso.

Nem todos sucumbem. No ramo das novas tecnologias, se bem me lembro, Musk é o único que foi tão longe, a ponto de se imaginar auxiliar de Deus-Pai ou talvez até seu substituto. Sua fortuna é tão imponente, que ninguém costuma lhe negar os favores que seus caprichos exigem.

Como muitos cidadãos de países ricos e desenvolvidos, nosso personagem lança, a países como o nosso, um olhar de desprezo enojado. Só isso explica ter metido a mão em cumbuca. Imaginou estar tratando com uma republiqueta de bananas e decidiu afrontar o ministro Alexandre de Moraes, logo ele! Apostou que o magistrado nunca ousaria tocar no seu Twitter.

Esborrachou-se no chão. Quem estourou a banca foi nosso juiz carequinha, quem diria. O bilionário caprichoso, com todos os seus dobrões, perdeu a parada. Deve estar decepcionado e furioso. Afinal, perdeu 22 milhões de adeptos, clientes que justificavam os anúncios inseridos em sua plataforma e engordavam sua conta bancária. Não são muitos países que lhe oferecem essa multidão de assinantes.

A gente fica curioso para saber o que vai acontecer daqui pra frente.

O respeitado The New York Times estampou hoje um texto que reproduzo aqui abaixo.


X began to go dark across Brazil on Saturday after the nation’s Supreme Court blocked the social network because its owner, Elon Musk, refused to comply with court orders to suspend certain accounts.

The moment posed one of the biggest tests yet of the billionaire’s efforts to transform the site into a digital town square where just about anything goes.

O X começou a apagar por todo o Brasil no sábado, depois que a Suprema Corte do país bloqueou a rede social devido ao fato de Elon Musk, seu proprietário, ter recusado cumprir ordens judiciais que o intimavam a suspender determinadas contas.

Isso representa um dos maiores testes para os esforços que o bilionário tem feito para transformar seu site numa “praça de vilarejo digital”, onde quase tudo pode rolar.


 

Bill Gates e o SUS

José Horta Manzano

Passou debaixo do radar um artigo que saiu semana passada na Folha de SP. O escrito trata dos comentários feitos por Bill Gates em suas páginas nas redes sociais.

Como se sabe, Mr. Gates é o fundador da Microsoft. Hoje, à beira dos 70 anos, está afastado da firma que criou. Além de bilionário – ou talvez por causa disso –, ele aparece entre os maiores filantropos de todo o mundo.

Em 2000, cedeu 5 bilhões de dólares de sua fortuna pessoal para criar a Fundação Bill & Melinda Gates. Ao longo dos anos, a dotação inicial cresceu até atingir cerca de 35 bilhões de dólares, capital que hoje sustenta a Fundação.

A instituição dedica-se a financiar grandes causas, sobretudo ligadas à saúde mundial. Aids, tuberculose, malária e poliomielite estão entre suas áreas de atuação. Bill Gates soube direcionar sua imensa fortuna para amparar causas que países pobres, sem ajuda, não conseguem cuidar.

Voltemos aos comentários do filantropo. Foram elogios rasgados endereçados ao SUS, o Sistema Único de Saúde brasileiro. “Nenhum país é perfeito, mas o Brasil é a prova do que acontece quando um país investe no cuidado com os mais vulneráveis: o retorno tende a ser grandioso” – foi uma de suas frases, postadas no Instagram. Mr. Gates ainda anexou um gráfico sobre a queda nos índices de mortalidade infantil no Brasil.

E seguiu, admirativo: “Em cerca de 30 anos, o Brasil conseguiu reduzir a mortalidade materna em 60% e diminuiu a mortalidade infantil em 75%, o que supera amplamente as tendências mundiais. Ainda por cima, aumentou a expectativa de vida de seu povo em cerca de dez anos.”

Bill Gates foi mais longe em seus posts. Deu uma rápida visão geral sobre a criação do SUS no fim dos anos 1980. A par disso, saudou a grande ideia de estarem atualmente em atividade 286 mil agentes comunitários de saúde, disponíveis para quase 70% dos brasileiros.

O filantropo, habituado a operar em países em que o Estado é inexistente ou quase, revelou sua admiração pelos programas de transferência de renda, como o Bolsa Família, que ajudam a extrair famílias da miséria negra e que são responsáveis pela diminuição da mortalidade infantil.

Seria o caso de o governo propor a Bill Gates participar de uma campanha institucional do SUS, como tantos programas de autolouvação que costumam ser montados. Talvez ele aceite, não custa tentar.

O artigo original está aqui (para assinantes da Folha de SP).

Gerontocracia

José Horta Manzano

A maior parte das civilizações considera que, conforme avançam em idade, os cidadãos vão-se tornando mais sábios. Há verdade nisso. A sabedoria do velho resulta da experiência de quem viveu muitos anos combinada com a prudência de quem sabe que não se deve cutucar onça com vara curta.

No último meio século, não só no Brasil como no resto do mundo, a juventude tem sido sobrevalorizada. O fantástico desenvolvimento da informática só veio reforçar a tendência. Já não surpreende ver jovens que, mal chegados à vida adulta, encontram-se à frente de companhias de alcance planetário e faturamento bilionário. A meu ver, é sobressalto que se vai acalmar com o tempo. Afinal, Bill Gates & congêneres hão de envelhecer, gostem ou não.

Gerontocracia soviética ‒ anos 70

Os romanos mandavam ao Senado os sábios aos quais cabia governar o império. Senado é um conselho de idosos. A palavra, derivada de sénex, é da mesma família que nos deu senhor, senador, senil, senilidade, sênior, senectude.

Já os gregos antigos, que rezavam pela mesma cartilha, escolhiam os gerontes ‒ anciãos de bom senso cuja reunião constituía a Gerúsia. A voz grega géron, gérontes é análoga ao sénex latino. Também significa velho. A língua portuguesa abriga descendentes da raiz grega. Entre outros, temos gerôntico (=senil), gerontologia (=estudo dos fenômenos ligados à velhice), gerontocracia (governo exercido por indivíduos de idade avançada).

Gerontocracia brasileira atual

No Brasil, por motivos que seria fastidioso enumerar aqui, a classe política tem envelhecido, o que não é um mal em si. O mais preocupante é que não se entrevê, a curto prazo, a renovação. Escândalos e má gestão têm afastado gente fina do jogo político. Sobram os de sempre: coronéis à antiga, apadrinhados, velhas raposas, trambiqueiros tradicionais, afilhados políticos.

Por não ter sabido preparar a renovação, caíram dignitários e ruíram impérios. Em nosso país, estamos no esgotamento de um ciclo que já deu o que tinha pra dar. Só sobrou o bagaço. E, salvo duas ou três honrosas exceções, não se vislubram personalidades mais jovens capazes de apanhar o bastão e garantir o revezamento.

Reação tardia ou intencional?

José Horta Manzano

«A presidente Dilma Rousseff vai editar um decreto de programação financeira com bloqueio de R$ 10,7 bilhões em despesas discricionárias como água, luz, fiscalização da Receita, da Polícia Federal a partir de 1º de dez°. A decisão segue a orientação do TCU e põe o governo em estado de calote.»

Tricher 1Acabo de citar matéria do Diário do Poder. Se for verdade – e tudo indica que é – está aí a evidência de que nosso Executivo sulca o Mar dos Sargaços, aquele atoleiro marinho que tanto assustou navegadores no século XVI. A água entorno está coalhada de algas traiçoeiras que perigam, a todo momento, se enroscar na hélice e paralisar a nave.

Teria o distinto leitor ideia do que sejam 11 bilhões de reais? Dificilmente. Tirando meia dúzia de terráqueos do tipo Bill Gates e Warren Buffett, essa quantia está fora de nosso referencial. A imagem mais aproximada é a de um quarto cheio de notas graúdas. Do chão ao teto.

Em vez de cortar na própria carne, como seria razoável, dona Dilma decidiu cortar em carne alheia. Não cogita dispensar funcionários supérfluos nem extinguir boquinhas tão apetitosas quanto inúteis. O corte será feito em despesas essenciais como água, luz e… Polícia Federal. É sintomático.

Tricher 2Embaixadas e representações brasileiras no exterior já foram avisadas que a torneira secou. Como todos sabem, dona Dilma, alérgica a relações exteriores, considera inútil toda despesa feita nesse ramo. A menos que se destine a ditaduras companheiras naturalmente.

Já a diminuição de verbas da Polícia Federal não é de natureza ideológica – o buraco é mais fundo. Dona Dilma há de supor que a supressão de verbas vá frear o ímpeto da PF. Os do andar de cima andam apavorados com a ideia de não mais serem os eternos vencedores do jogo de cartas marcadas ao qual se acostumaram estes últimos anos.

Frase do dia — 113

«Fico feliz com as suas palavras de incentivo. Seria como se o Federer me encorajasse a jogar tênis, como se o Bill Gates me estimulasse a programar computadores ou como se o Lula me incitasse a roubar 100 milhões do tesouro nacional.»

Resposta risonha e franca dada por um jovem amigo a quem eu havia dirigido algumas palavras de incentivo. A parte final da metáfora me fez sentir o nec plus ultra da parada. Um elogio e tanto!