Nordeste contra Bolsonaristão

Sérgio Rodrigues (*)

Folheio o “Dicionário do Nordeste” (Cepe), de Fred Navarro, procurando entre seus mais de 10 mil verbetes palavras que expressem o que escapa à minha linguagem habitual, como escapou às pesquisas de opinião. Já não falamos a mesma língua, o Brasil e eu?

Como bem observou Marcelo Coelho em sua coluna de 4 de outubro, era para Bolsonaro, que não vale um jerimum cheio d’água, não ter voto nenhum depois do mal que fez à população brasileira. Ao contrário, o que vimos foi essa estrovação, esse estrago.

Bem, falar em voto nenhum é exagero, pois o cabra detém a máquina e sempre vai haver abestalhados no mundo, gente que tem as tripas na cabeça. Mas no máximo, vamos supor, aqueles 27% dos votos que lhe deu o povo do Nordeste, contra os 67% de Lula.

Aí, sim, a gente estaria agora mesmo arretirado da luta e caindo por uns dias na vadiação, na folia merecida depois de atravessar o raso da Catarina desse governo dos infernos. Em vez disso, que vergonha – ou como se diz no Piauí, o mais antibolsonarista dos estados, que bonito pra sua priquita, Brasil!

Eu sei, devo estar falando nordestinês com sotaque, embriagado pelo ótimo dicionário de Navarro. Minhas intenções são as melhores. Cresci num engenho de açúcar com Zé Lins, contemplei treponemas com Zé Ramalho, estudei o samba com Tom Zé, estrangeiro é que não sou.

Nunca me esqueci de um show de Bráulio Tavares no Rio de Janeiro no início dos anos 1980, quando ouvi pela primeira vez as divertidas glosas do compositor e escritor paraibano para o mote “Imagine o Brasil ser dividido/E o Nordeste ficar independente”.

Pois acabo de imaginar e não gostei: subtraído do naco acima de Minas, o Brasil já seria neste momento um aleijão, uma Gilead histérica embalada em sertanejo universitário, slogans liberaloides de faria-limers e frases motivacionais de coaches semialfabetizados.

Encaremos os fatos: sem o voto nordestino, já estaríamos rendidos ao cabrunquento encarregado de pendurar o Brasil, conta gorda e vistosa, no colar da extrema direita internacional.

Pode ser que o país acabe sendo essa desgraça mesmo, mas não ainda, não tão depressa – graças ao Nordeste. Nossa metade sadia, que está toda dolorida como se tivesse tomado um chá de casca de vaca, uma surra de chicote, sabe bem para onde remeter seus votos de gratidão.

Se o futuro fascistoide não está rebocado, quer dizer, garantido, devemos essa graça à terra abençoada de Graciliano Ramos e Jackson do Pandeiro, de Nise da Silveira e João Cabral, de Lia de Itamaracá e Mestre Vitalino, de Maria Bonita e Xico Sá.

Mas talqualmente uma lagartixa, que sabe em que pau bate a cabeça, já passou da hora de todo mundo ficar esperto e proteger o franzidinho. Depois do dia 30, se nossos irmãos lá de cima não tiverem ajuda para varrer o basculho, ninguém vai poder dizer uste nem aste, vai ter que calar o bico.

Para quem não é caso perdido, mas anda com leseiras de neutralidade, um aviso: ou a gente elege o filho de Garanhuns ou pode esquecer. Mais quatro anos daquele xexéu e não vai ter democracia mais, não vai ter floresta mais, não vai ter índio mais, não vai ter Brasil mais.

Aí o jeito vai ser adotar a saída Bráulio Tavares e declarar a independência do Nordeste, quem sabe acompanhada da reivindicação do nome Brasil, que, acredito, o Bolsonaristão não fará questão de manter. Já estou estudando com o mestre Navarro para requerer minha cidadania.

(*) Sérgio Rodrigues é escritor e jornalista.

Algumas vezes é preciso não entender

Luto

Myrthes Suplicy Vieira (*)


Algumas vezes é preciso não entender


A frase acima foi dita originalmente por Anna Verônica Mautner, psicóloga, psicanalista e escritora altamente provocativa, que foi também minha professora na USP. Na ocasião, ela havia sido chamada a explicar por que uma pessoa até então dita “normal” atingira um grau de crueldade tão inaudito. O caso era o de um homem que pensava em se suicidar e, de última hora, achou por bem jogar antes mulher e filho pela janela do 13º andar. Para piorar, no último instante, ele recuou de seu intuito e acabou preservando a própria vida.

O pasmo, a incompreensão, o estado de choque tem paradoxalmente um impacto esclarecedor e reumanizador poderoso sobre nosso psiquismo, mais forte talvez do que qualquer explicação científica ou policial. Servem de alerta que sempre estamos sujeitos a ultrapassar os limites civilizacionais e embarcar numa jornada inumana de destruição de tudo à nossa volta. Não há como explicar o inexplicável por mais que se tente: pulsão de morte, o mal-estar na cultura, a dimensão trágica da existência, o niilismo, a alienação, o predomínio da emoção sobre a razão, tudo isso pode servir de justificativa temporária apenas e tão somente para tentar exorcizar a possibilidade de que isso aconteça conosco. Mas não serve de consolo, nem de vacina. O inferno continuam sendo os outros, os tais psicopatas que continuam circulando livremente por aí.

Ficar com a dor, passar recibo do luto, contorcer-se dias sem fim diante da perda injustificável, praguejar contra os deuses e o destino, pode ser nossa única salvação. Reservar um tempo para lamber as próprias feridas é a única rota de escape admissível. Saber que o humano não abrange apenas um lado espiritualmente iluminado e gregário, mas chafurda também num poço sombrio e irracional, nos permite reavaliar nossos recursos internos e reequilibrar forças.

Essas considerações me ocorrem ao analisar os resultados das eleições 2022. Até dá para sacar timidamente uma explicação para o crescimento de última hora de Jair Bolsonaro e a acachapante vitória de seus aliados no pleito para governadores do sudeste – e mais grave ainda para a Câmara Federal e o Senado. Se há um fator racional para justificar a inversão das preferências, ele tem um nome: Ciro Gomes. Graças ao fato de ter elegido Lula – e não Bolsonaro, como seria de se esperar – como seu único adversário, de forma a se oferecer como contraponto palatável, ele conseguiu desestabilizar o emocional dos eleitores que já se dispunham a fechar o nariz, ignorar suas reservas intelectuais e votar no PT, na tentativa desesperada de salvar a democracia tupiniquim. Colheu o que plantou: até o final de sua vida vai ser forçado a ruminar em casa os motivos inconscientes de sua raivosa batalha egóica. Em volta de sua tumba política, vão se juntar as vivandeiras e carpideiras nem-nem que apostaram mais uma vez na própria incorruptibilidade e superioridade intelectual/moral.

Até aí, dá para tentar, não sem esforço, entender. No entanto, como explicar a eleição de Damares, de Pazuello, de Mário Frias, de Carla Zambelli e principalmente de Ricardo Salles? Que justificativa moral terão se concedido as pessoas que enfrentaram enormes perdas nos últimos três anos, desde mortes de familiares por covid, desemprego, fome, não-acesso à saúde e à educação, até as terríveis enchentes e as queimadas na Amazônia? Serão os eleitores das classes C, D e E os culpados mais uma vez por impedir o avanço civilizatório em nosso país? Ou será que os evangélicos se consolidarão como os novos bodes expiatórios da brasilidade?

Ontem fui dormir mais cedo, exausta de pensar na lógica estapafúrdia do quadro pós-eleitoral e arrasada emocionalmente com esse festival de mediocridade e agonia democrática. Embora minha intuição já me avisasse há algumas semanas que ainda não era hora de celebrar a volta da racionalidade ao jogo político-ideológico, eu ainda tinha esperança de ver esse pessoal jogado na lata de lixo da história. Não deu. Esqueci que também votam os farialimers, os empresários do agronegócio, os coronéis com expertise no voto de cabresto, os grileiros e os garimpeiros, os CACs, os milicianos, os moralistas de plantão e os ressentidos de classe média.

Fechei os olhos sem querer para a divisão bicentenária de nossa sociedade em dois Brasis irreconciliáveis: o Brasil das elites urbanas do Sul e do Sudeste e o Brasil dos desassistidos dos rincões miseráveis do país. Porém, acima e além da incompreensão com a aposta na perpetuação do fascismo à brasileira, meu maior desalento se deu com a escolha dos integrantes do Legislativo.

Lembrei que, há mais de duas décadas, o Senado solicitou uma pesquisa de imagem ao instituto para o qual eu trabalhava. Montamos uma gigantesca equipe de pesquisadores quantitativos e qualitativos, mantivemos reuniões exaustivas sobre a melhor forma de abordar o eleitorado sem permitir que simpatias e antipatias para com senadores isolados interferissem na análise do coletivo, gastamos horas e horas no treinamento do pessoal de campo. Já na primeira fase do projeto-piloto colhemos um resultado estarrecedor: pouquíssimos brasileiros sabiam dizer para que serve um senador da República e que importância ele tem como contrapeso ao Executivo. Simplesmente não dava para avançar no entendimento das características ideais para ocupar um cargo federal ou para a melhoria da imagem do Senado. Tiro n’água total, o restante do projeto acabou sendo abortado.

A pergunta, então, é como acontece a escolha dos representantes do Congresso. Intimidados com a profusão de nomes e números, desinformados sobre o histórico político dos candidatos e distraídos pela disputa mais tensa para o cargo presidencial, como apontar os que poderiam contribuir de forma mais efetiva para um futuro promissor, livre do toma lá, dá cá? Se não se sabe a quais tarefas eles vão se dedicar, só resta então aos eleitores mais apartados do jogo identificar os nomes já conhecidos – e mais polêmicos – do cenário político atual, que não por coincidência também se destacaram no apoio explícito às teses amalucadas do presidente de plantão. Antiabortistas, misóginos, portadores de virilidade tóxica, racistas, homotransfóbicos e companhia bela se unem então para exorcizar o “perigo comunista” e reafirmar os valores de defesa da família, da vida, da propriedade, da pátria e de Deus. Ganha uma passagem só de ida para a Ucrânia quem conseguir vislumbrar uma forma eficaz de reverter esse quadro dantesco e peitar os invasores russos.

Tristemente, cabe perguntar aos que, como eu, não conseguem atinar com uma explicação ou justificativa minimamente aceitável: ATÉ QUANDO?

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

As falsas assimetrias

Eduardo Affonso (*)

Digam o que disserem antropólogos, sociólogos e cientistas políticos, ninguém conhece melhor a alma de um povo do que seus artistas. Eles são “a antena da raça”, na definição do poeta Ezra Pound. Antena, radar, sonar, telescópio, microscópio, tradutor, oráculo, o artista atira no que sente e acerta no que talvez apenas pressinta. Mesmo quando fala de uma dor de corno ou de cotovelo, pode estar retratando o relacionamento tóxico de um povo consigo mesmo e com suas escolhas.

Esses moços, pobres moços (…)
Saibam que deixam o céu por ser escuro
E vão ao inferno à procura de luz

cantou Lupicínio Rodrigues com o pensamento nos que buscam os altos voos do amor se atirando no precipício da paixão. Mais ou menos o que temos feito na vida política.

Com Mário Covas, Ulysses Guimarães e Roberto Freire na disputa, elegemos Fernando Collor. Agora abrimos mão de Simone Tebet, Ciro Gomes e Luiz Felipe d’Avila para encarar uma escolha de Sofia entre o que deu errado e o que não tem como dar certo.

Mantidas as tendências apontadas nas pesquisas de opinião, Bolsonaro (em ascensão) poderia alcançar Lula (estabilizado). Mas isso foi antes das entrevistas no JN e dos debates, em que Lula leva vantagem.

Como o impossível sempre nos acontece, resta torcer por gafes, revelações bombásticas, plot twists e armadilhas do destino. Não havendo, entretanto, fato novo que nos faça dar uma chance ao bom senso, algumas previsões podem ser feitas, com probabilidade de 150% de virem a se cumprir:

O novo presidente não pacificará o país – ao contrário, ampliará o fosso. Terá contra si, se não o ódio, pelo menos o ranço de metade da população. Não respeitará o teto de gastos. Adotará medidas que já não funcionaram em governos anteriores.

Será alguém que não nutre simpatia pela imprensa livre. Que se sente perseguido, injustiçado e sonha com uma cobertura chapa branca – devidamente recompensada.

Será um iliberal. Que não esconde uma queda por regimes autoritários. O representante de um anacronismo – a velha esquerda antiamericana (ops, agora é antiestadunidense) com camiseta de Che Guevara, ou a velha direita reacionária, com bandeira do Império e mentalidade das capitanias hereditárias.

Alguém com um passivo de conivência com a corrupção, esteja o balcão de negócios no MEC, na Saúde, nos Transportes ou na Previdência dos Correios; sejam as jocosamente diminutivas rachadinhas ou os superlativos petrolão e mensalão. E que não se arrepende dos malfeitos, nem garante que não voltará a cometê-los.

Alguém que odeia a Lava-Jato – e pelos motivos errados. Que não se compromete com a lista tríplice para a escolha do PGR. Que terá deixado um país pior para o sucessor, ainda que atribua a maldição à herança recebida. Alguém incapaz de metáforas – no máximo, analogias rasas com casamento e futebol.

Será o governo de um tigrão nos cercadinhos e uma tchutchuca diante do Centrão. E de quem não admite ser comparado a seu suposto antípoda.

Sobre essa nossa sina, já cantava Lupicínio:

Se deixo de alguém por falta de carinho
Por brigar e outras coisas mais
Quem aparece no meu caminho
Tem os defeitos iguais.

(*) Eduardo Affonso é arquiteto, colunista do jornal O Globo e blogueiro.

Zé Pequeno

Gaudêncio Torquato (*)

Dinarte Mariz era governador do Rio Grande do Norte. Em uma de suas costumeiras visitas a Caicó, visitou a feira da cidade, acompanhado da sempre presente Dona Nani, secretária de absoluta confiança. Dá de cara com um amigo de infância e logo pergunta:

– Como vai, Zé Pequeno?

O amigo, meio tristonho e cerimonioso, responde:

– Governador, o negócio não tá fácil; são oito filhos mais a mulher… tá difícil alimentar essa tropa vivendo de biscate. Mas vou levando até Deus permitir.

Dinarte o interrompe de pronto:

– Zé, que é isso, homem, deixe essa história de governador de lado. Sou seu amigo de infância, sou o Didi!

Vira-se para Dona Nani e ordena:

– Anote o nome do Zé Pequeno e o nomeie para o cargo de professor do estado.

Na segunda-feira, logo no início do expediente, Dona Nani entra na sala de Dinarte e vai logo informando:

– Governador, temos um problema, o Zé Pequeno, seu amigo, é analfabeto; como podemos nomear…

Antes que concluísse a fala, o governador atalha:

– Virgem Maria, Dona Nani! O Rio Grande do Norte não pode ter um professor analfabeto. Aposente o homem imediatamente.

E assim foi feito!

(*) Gaudêncio Torquato é jornalista, professor titular da USP e colunista.

Os mantras da política brasileira

Crédito: MoisesCartuns.com.br

Myrthes Suplicy Vieira (*)


De que serve uma sensação se há uma razão exterior para ela?
Fernando Pessoa


Em psicologia clínica, é comum o alerta aos jovens terapeutas: é justamente nos momentos de maior vulnerabilidade e dor que o paciente menos tem condições emocionais de pedir e de aceitar ajuda. A pessoa está tão empenhada em provar que não há solução viável para o seu caso que rejeita sistematicamente toda forma de aconselhamento e descarta todas as medidas profiláticas sugeridas. Pior, entra numa desesperada batalha inconsciente para desqualificar a expertise, o profissionalismo, a sensibilidade ou a isenção de todos que lhe estendem as mãos.

“Você não entende… Se eu prestar queixa contra meu marido e ele for preso, vai querer se vingar nos meus filhos e na minha família. E eu não saberia viver carregando essa culpa. Além disso, eu não teria como sobreviver financeiramente sem a ajuda dele. Você não sabe como é duro ver seus filhos passarem fome… O que ninguém quer entender é que eu não posso viver o resto da vida em um abrigo, nem depender da decisão de um juiz para evitar que ele saia da cadeia e aí, sim, queira se vingar de todos. Preciso trabalhar e não tenho estudo suficiente, nem onde deixar as crianças… Melhor deixar pra lá, eu me viro sozinha, sei me defender quando é preciso. O problema é que ele está passando por um período difícil sem trabalho e acaba bebendo muito, mas tenho certeza que ele não teria coragem de me matar. Ele só faz essas ameaças porque tem medo de me perder…”

Tristemente, não é diferente na vida de uma nação. No Brasil, além do desastre humanitário causado pela pandemia e pela crise econômica que se sucedeu, estamos tendo de nos debater com uma aliança inédita entre o fundamentalismo pentecostal e o militarismo golpista. E, forçoso é admitir, nenhuma dessas duas forças conhece limites para a manipulação de mentes e de vontades. Seus códigos disciplinares não são somente vendidos a granel, mas agressivamente impostos em bloco a quem não partilha dos mesmos valores como uma questão de patriotismo. A luta deixa, então, de ser política e se configura como a batalha decisiva do bem contra o mal. Saem de cena os direitos e deveres consolidados na Constituição de 1988 e reassume triunfante seu lugar no palco o Código de Hamurabi, com sua Lei de Talião a tiracolo.

Assim, o eleitorado brasileiro já não tem a quem recorrer para pedir ajuda, e não quer – ou não pode – ser ajudado no esclarecimento dos fatores críticos que estão em jogo, seja porque desacredita da análise especializada dos cientistas políticos e juristas, da imparcialidade dos órgãos de imprensa e da credibilidade individual dos jornalistas ou da isenção dos ministros do Supremo. Acossados pela fome, pela total falta de perspectivas de um futuro melhor para todos, pela brutal insegurança pública e pelo ódio que contamina todos os setores da experiência cotidiana, vivem todos enclausurados em seus guetos ideológicos, acusando-se mutuamente de serem gado alienado e recusando-se a serem dissuadidos de suas respectivas intenções de voto.

Num estado de ânimo como esse, é fácil para o eleitor embarcar na ilusão de que “é tudo farinha do mesmo saco”. Depois de incontáveis tentativas frustradas de eleger um salvador da pátria, um pai amoroso que os resgate de seu desalento e impotência infantil, como acreditar que pode ser diferente agora? É quase inescapável a tendência de adotar uma postura cínica de equivalência moral entre os candidatos líderes nas pesquisas – principalmente quando se considera que o eleitor brasileiro vota em pessoas e não em ideias ou projetos de governo.

No que diz respeito à escolha dos melhores candidatos para o Legislativo, a situação é ainda mais aterradora. Sem se darem conta de que eles teriam um papel fundamental para reequilibrar e limitar os desmandos do futuro Executivo, desinformados pelo horário gratuito de propaganda eleitoral, herança trágica da ditadura militar, o que resta para a maioria é adotar como principal método de escolha aquele que se usava descuidadamente nas brincadeiras infantis: “Minha mãe mandou bater neste daqui, mas como sou teimoso bato neste daqui”.

Ainda não entendemos que a irracionalidade não tem como ser combatida com argumentos verbais lógicos. É o profundo investimento emocional do eleitor e sua identificação com figuras polêmicas de poder que precisariam ser confrontados. E quem ousaria se oferecer para essa tarefa? O analfabetismo político de boa parte da população, a abissal desigualdade que impede a visualização de uma solução única para todos os estratos sociais, a falta de uma identidade ideológica clara dos partidos, a crise da democracia representativa e o presidencialismo de coalizão reforçam-se mutuamente para afastar de vez a possibilidade de mudança dos ventos.

Há ainda outra tragédia à espreita. Hoje em dia ninguém mais se apresenta ao eleitorado como capaz de elaborar propostas criativas para a solução dos problemas sociais que nos afligem ou por ter maior capacidade de trânsito e negociação com forças políticas opostas. Agora tudo se resume a comprovar que você desfruta de fama e prestígio nas redes sociais – e que, portanto, suas chances de angariar o número de votos necessários para se eleger são maiores, quase certas. E dá-lhe influencer, tiktoker, subcelebridades, gente ligada ao entretenimento de massa. Não importa seu histórico educacional, profissional ou sua visão de mundo, nem que pesem sobre cada um acusações graves de descomprometimento com os valores iluministas e democráticos.

Dessa forma, a intenção de voto acaba ficando mesmo ao sabor do resultado das pesquisas eleitorais: com medo de “perder o voto” apostando num candidato lúcido mas sem reais chances de chegar lá, qualquer um que prometa pulso firme para enfrentar os poderosos de plantão, ser diferente de ‘tudo isso que aí está’ ou acabar com a corrupção e a impunidade pode atrair o interesse e a confiança maciça da população.

Ignorar que seu voto representa também a permissão para que seu país continue priorizando a economia em detrimento da qualidade de vida e bem-estar da população, que o meio ambiente sofra as consequências trágicas de uma visão deturpada de progresso, que o acesso a uma educação de qualidade continue apenas nas mãos de uma elite endinheirada, que falte capacidade ao sistema de saúde para dar atendimento digno aos mais carentes, que se normalize o infernal acréscimo no número de moradores de rua, de famintos, de desempregados e de violência contra as minorias. Em última instância, que sua indiferença significa autorizar que a democracia agonize nas mãos de déspotas nada esclarecidos. E que, ao fazê-lo, você consente em arrastar seus compatriotas para um abismo ético sem volta apenas para não entrar em contato com sua própria dor, impotência e desesperança.

O que fazer, então? Não tenho as respostas, mas pressinto que a única forma de colocarmos fim a estes tempos de barbárie é acolher terapeuticamente as frustrações e o ressentimento que ainda desorientam os dois lados do espectro ideológico. Aceitar que escolha moral é para quem não tem fome, ser capaz de ouvir os argumentos ainda não-explicitados que forem surgindo à medida que formos nos desapegando da sensação de desamparo como quem realmente quer compreender, e não como quem apenas se prepara para contra-argumentar.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Imbrochável ou imbroxável?

Aldo L. Bizzocchi (*)

O coro de apoiadores de Bolsonaro que, no último Sete de Setembro, entoou o grito “imbroxável, imbroxável” suscitou, além de perplexidade em muitas pessoas, algumas dúvidas linguísticas. Primeira: essa palavra existe? Segunda: qual a sua origem? Terceira: a grafia correta é imbrochável ou imbroxável?

Primeiramente, é preciso dizer que, ao contrário do que afirmam muitos gramáticos, uma palavra existe na língua a partir do momento em que é criada e passa a ser usada socialmente. Essa nova palavra, que ainda não consta nos dicionários, é chamada de neologismo. Nesse sentido, pode-se dizer que Bolsonaro e os bolsonaristas criaram um neologismo. Se ele sobreviverá a ponto de ser dicionarizado ou se desaparecerá após algum tempo como moda passageira, só a história dirá. Muitos neologismos são assim criados como termos da moda (vide as gírias dos jovens) e, meses depois, caem em desuso. É a lei da seleção natural agindo sobre as palavras como age sobre os seres vivos. Algumas sobrevivem e até deixam descendentes (palavras derivadas, por exemplo), outras morrem e por vezes nem deixam vestígio.

Quanto à origem da palavra imbroxável, é um derivado parassintético do verbo broxar (parassíntese é um processo de derivação que consiste em prefixar e sufixar a palavra primitiva ao mesmo tempo). Trata-se de um termo um tanto chulo para designar a perda da ereção do pênis durante a relação sexual. Logo, imbroxável é o indivíduo que supostamente (apenas supostamente) nunca broxa. E broxar, de onde vem? Vem de broxa.

E broxa, todos sabem, é aquele pincel graúdo que os pintores usam para pintar paredes, especialmente com tinta à base de cal. A relação entre a broxa de pintura e a disfunção erétil é bem sugestiva: quando o pintor mergulha a broxa na tinta e depois a retira da respectiva lata, os pelos do pincel arqueiam todos para baixo sob o peso da tinta impregnada neles.

Como o leitor deve ter percebido, até o momento utilizei broxa, broxar e imbroxável com x, mas também existe em português a brocha com ch, só que com outro significado. Brocha é um tipo de prego, ao passo que o pincel se grafa broxa. Essa é mais uma das pegadinhas do nosso idioma que podem representar uma casca de banana no caminho de vestibulandos e concurseiros. Brocha e broxa são denominadas palavras homófonas, isto é, que têm a mesma pronúncia, mas grafias diferentes.

Portanto, se imbroxável deriva de broxar, e este de broxa, a grafia correta do primeiro é com x e não com ch, como tem saído na imprensa.

(*) Aldo L. Bizzocchi é doutor em Linguística, palestrante e blogueiro.

Multidão x multidão

Ascânio Seleme (*)

Havia 64,6 mil pessoas no comício de Bolsonaro em Copacabana na tarde de quarta-feira, segundo o Monitor do Debate Público da USP. Na noite do mesmo dia, 66,6 mil torcedores assistiram à vitória do Flamengo sobre o Vélez Sarsfield no Maracanã.

Pode não significar muita coisa, são apenas dois mil a mais, mas os que foram ao Maracanã pagaram para entrar. Já muitos dos que estiveram em Copacabana receberam algum “incentivo” para participar do ato e gritar “mito”.

No Maracanã, Bolsonaro foi vaiado e xingado. E Rodolfo Landim não pôde fazer nada.

(*) Ascânio Seleme é jornalista. Trecho de artigo publicado no jornal O Globo.

O Sete de Setembro é realmente o dia da independência do Brasil?

Dona Leopoldina e o conselho de ministros
Rio de Janeiro, 2 de setembro de 1822
obra de 1922 by Georgina de Albuquerque (1885-1962)

Antônio Aurélio do Amaral (*)

Em viagem a São Paulo para controlar uma rebelião, o então príncipe regente Pedro transferiu formalmente o poder para a esposa austríaca, a futura imperatriz Leopoldina. Na época não existia telefone nem telégrafo para dispensar essa transferência de poder ao viajar.

Em fins de agosto de 1822, Dona Leopoldina recebeu uma carta de Portugal que comunicava a destituição de seu marido das funções e determinava que ele voltasse para Portugal. A missiva ordenava ainda que tratasse de obedecer pois uma força de 25.000 soldados portugueses estava a caminho do Brasil.

A princesa sopesou a situação, reuniu os ministros e tomou a decisão: assinou o rompimento das relações com Portugal e a independência do Brasil. Era 2 de setembro de 1822. Em seguida, enviou um emissário atrás do príncipe informando a situação e a sua decisão oficial.

Dom Pedro só foi alcançado pelo emissário no dia 7 de setembro, montado em sua mula, quando a vila de São Paulo já surgia no horizonte. Num cenário bem menos épico do que a “narrativa” retratada no imponente quadro de Pedro Américo – obra concluída na Itália 66 anos mais tarde –, proclamou a independência.

Na minha época de escola nunca ouvi nem li nada disso. Hoje os historiadores sabem, baseados em registros e documentações da época. A pavonice insegura dos machistas tóxicos elaborou a narrativa que foi para os livros escolares. Machismo que ainda hoje mata cruel e covardemente várias mulheres por dia no Brasil. E que “fez a cabeça” da minha geração (homens e mulheres), dentre outras discriminações.

Narrativas
Esse longo “delay” de 66 anos entre o evento e a famosa pintura de Pedro Américo só é menor que o espaço de tempo decorrido entre a morte de Jesus Cristo e os primeiros relatos: 70 anos. Os evangelhos de São Tomé, Maria Madalena e outros foram proibidos pelo Concílio de Niceia, convocado pelo imperador romano Constantino.

Leopoldina era membro da família real austríaca, de pensamento alinhado com os chamados “déspotas esclarecidos”, incomuns na época, porém marcantes pela visão e decisões alinhadas com o progresso social de seus povos. Ou pelo que assim podia ser entendido diante dos padrões vigentes.


Em síntese:
O nascimento do Brasil independente ocorreu por decisão e pela assinatura de uma mulher !


E agora, por conta da minha imaginação. Ela pode ter dito ao emissário: “Corra! Entregue esta carta a ele. E diga ao paspalho que encene uma proclamação perante sua tropa. Vá!”

Viva a independência do Brasil!

(*) Antônio Aurélio do Amaral é engenheiro.

Lei Maria da Penha ou pistola?

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Depende, senhor presidente. Se o “problema” em questão que presumivelmente poderia ser causado por essa tal “gente” que caminha em sua direção numa estrada deserta for uma ameaça de estupro e a mulher em questão for feia, o risco será mínimo para ela, segundo o senhor mesmo fez questão de ressaltar em outra ocasião.

Se for uma mulher bonita e conseguir sair viva da situação ilustrada, as duas ferramentas sugeridas mais do que provavelmente serão de pouca ou nenhuma valia. Antes de mais nada, é preciso dizer que elas são tão comparáveis em termos de eficácia para combater a violência contra a mulher quanto um nécessaire e uma jaca. A arma pode falhar, como aconteceu recentemente no atentado contra Cristina Kirchner. O indivíduo (ou os indivíduos, não restou claro) pode tomar a arma da mão da mulher, imobilizá-la e deixa-la ainda mais vulnerável, como o senhor mesmo contou que lhe aconteceu durante um assalto no passado. O tiro pode não atingir o potencial agressor ou só atingi-lo de raspão e deixa-lo ainda mais furioso e violento.

Já para “sacar” a lei Maria da Penha, seria preciso que a mulher vítima de uma tentativa de estupro, assalto ou assassinato se dirigisse a uma delegacia de polícia (ou a uma delegacia da mulher, caso houvesse uma na região), esperar o horário de abertura na manhã do dia seguinte e contar com a boa vontade do policial de plantão para registrar um boletim de ocorrência. Antes, porém, ela certamente teria de passar por um detalhado interrogatório, no qual lhe seria perguntado, dentre outras coisas: O que você fazia àquela hora numa estrada deserta? Como estava vestida? Havia bebido ou consumido drogas? Deu causa de alguma forma para o ataque ou o facilitou, seja não resistindo à aproximação do agressor e abrindo a porta do carro, seja sorrindo para ele e pedindo ajuda para trocar o pneu?

Para piorar, poderia acontecer de o delegado de plantão se recusar a registrar a ocorrência, alegando não ter havido nenhuma lesão física digna de nota, como aconteceu recentemente com uma senhora negra, esquálida e frágil, de 51 anos de idade, que teve seu pescoço (ou parte de cima das costas, como pretende o advogado de defesa) pisado por um brutamontes policial de mais de 80 quilos. Depois de recorrer a um advogado para ter seus direitos respeitados, essa mulher, no máximo, voltaria para casa com um papel na mão e esperaria sentada por meses ou anos até que o agressor (de quem ela desconhece a identidade, diga-se de passagem) a atacasse novamente ou fosse preso pela prática do mesmo ou de outros delitos. Se e quando isso acontecesse, a vítima poderia então entrar com um pedido de medida protetiva na justiça. Mesmo assim, se o agressor desrespeitasse a exigência de afastamento, só restaria a ela registrar um segundo boletim de ocorrência – e assim sucessivamente até a data de seu velório.

Outro dado relevante que precisaria ser levado em consideração para fazer uma escolha sensata e bem-informada do melhor jeito de reagir numa situação como a aventada diz respeito à sua suposição de que a “gente” que vem em sua direção “pode lhe causar problema”. Não ficou claro em sua douta exposição, senhor presidente, a partir de quais evidências essa impressão se concretizou: tratava-se de uma pessoal mal-encarada, segundo os critérios policiais? Talvez tivesse um olhar frio, vidrado, desses de quem consome drogas? A forma como estava vestido? Estava em atitude suspeita, atrás de um poste ou escondido embaixo de um viaduto? Portava algum objeto ameaçador nas mãos? São muitas as hipóteses e poucas sustentáveis a priori. Poderia ser, convenhamos, um simples transeunte ocasional, um morador da área, alguém voltando do trabalho e, quem sabe, até mesmo uma pessoa de boa vontade, querendo ajudar.

Digo isto porque já me aconteceu de ter o pneu estourado num cruzamento da Avenida Santo Amaro numa noite chuvosa, ter sido abordada por um cidadão – negro, veja só – que, sorridente, se aproximou da minha janela e se prontificou a me tirar daquela aflição, empurrando o carro e trocando o pneu em poucos minutos, sem nem mesmo esperar por gratificação. Tsc, tsc, tsc. Está claro que o senhor precisa conhecer melhor o “seu povo”, presidente, não apoiar suas convicções somente em seus fanáticos apoiadores mas também na gente simples e solidária que habita invisivelmente esta terra.

Além disso, capitão, não é nem preciso dizer que o [mau] hábito de atirar antes de perguntar, que está implícito na sua sugestão, deveria ser combatido e não incentivado. Esse é o traço mais distintivo da polícia militar brasileira desde sempre, usado com especial ênfase no período pós-ditadura. As manchetes sanguinolentas relativas aos constantes entreveros nos morros do Rio de Janeiro e na periferia de todas as demais capitais, com um número espantoso de vítimas colaterais, crianças e adolescentes desarmados, estão aí para quem quiser confirmar.

A defesa do excludente de ilicitude que tanto o anima está assentada exatamente nessa pressuposição de que há cidadãos de primeira categoria, honrados e cônscios de seu papel social, os militares e os PMs, e outros cidadãos de quinta categoria, os civis não pertencentes à elite branca heterossexual, que devem obediência irrestrita ao arbítrio das “otoridades” de plantão. Será que essa mentalidade já foi absorvida também pelos atuais detentores de posse e porte de armas, contaminando até mesmo aqueles que se dizem cristãos? Falando nisso: curiosamente, não lhe ocorreu sugerir que o melhor seria “entregar nas mãos de Deus” a solução do problema. Já que o senhor estava num templo evangélico, circundado exclusivamente por mulheres, seria de bom alvitre reforçar a tese de que o Altíssimo o ajudará a cuidar da segurança pública em um eventual segundo mandato seu, já que teria sido Ele a indicá-lo para o cargo presidencial ‘against all odds’.

Pensando em tudo isso, sinto dizer, senhor presidente, que, como de costume, seu pretenso argumento de apreço pela defesa da mulher foi miseravelmente infeliz. Ou melhor, como tudo que sai de sua boca, não passou de mais um ato falho para sua coleção de disparates. No seu inconsciente, onde pululam os vermes comedores de cérebro da “ideologia de gênero”, não deve haver espaço mesmo para indicar outras medidas civilizatórias, como melhor iluminação pública, serviço de assistência 24 horas nas estradas acessível online, carros de polícia circulando à noite por locais afastados do centro, etc. Acima de tudo, não lhe ocorreu a única medida realmente eficaz, já testada em diversos outros países com sucesso: a educação sexual nas escolas para meninos e meninas desde a primeira infância. Complementada preferencialmente por acesso universal a serviços de saúde mental para os transgressores.

Saiba que a única mensagem transparente – e auditável – que o restante da população recebeu foi a de que as mulheres brasileiras – sejam elas ou não portadoras de vaginas, como diz elegantemente seu filho 03 –, não podem se sentir seguras em lugar nenhum deste país, nem dentro nem fora de casa.

Segure suas cabras que meu bode vai sair para pastar…

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

31 de agosto, 1960

Eduardo Affonso (*)

– Você vai à parada do dia 7 tocando bumbo – garantiu o obstetra à minha mãe.

Não deu.

E ela gostava tanto de setembro. Casou-se em setembro. Um de seus filmes favoritos – ao lado de “As neves do Kilimanjaro” e “Candelabro italiano” – era “Quanto setembro vier”.

Quando setembro viesse, viria o segundo filho. De preferência, uma filha.

Esperara um ano antes pela Rita de Cássia, e vim eu. Desta vez, em setembro, Rita de Cássia haveria de vir.

Mas no dia 31 do mês do agouro, dos ventos e dos cachorros loucos, sentiu que o tempo virava – lá fora e dentro de si.

Entrou em trabalho de parto enquanto o céu começava a desabar – ou o céu desabou quando ela começou a sentir as dores, não é mais possível saber, e não faz diferença, pois não há relação de causa e efeito. Ou há?

Imaginemos que à primeira contração correspondeu um relâmpago, à segunda um trovão, às seguintes as janelas fechadas às pressas, e então as telhas voaram, e a água desceu pelas paredes, pelo bocal da lâmpada, até que se pôde ver o céu faiscando por entre as frestas do forro de madeira, e o quarto foi inundado.

Minha vó acudiu com rezas e panos. Meu avô abriu um guarda-chuva sobre a cama, para proteger a parturiente – avô, avó, cama, todos com água já pelas canelas.

Minha mãe queria que tudo acabasse logo – o vendaval, as dores – mas queria também que desse logo meia-noite e fosse setembro. E nem setembro chegava, nem o temporal se ia.

Às 11 e tanto, ainda sob a tempestade e o guarda-chuva, envolvida pelas ave-marias e salve-rainhas que tentavam subir aos céus se esgueirando por entre os raios e trovões, foi mãe de novo.

No quarto inundado, fez ela mesma o batismo com o resto de água benta guardada no armário, antes que o teto viesse a desabar e o bebê morresse pagão.

E o batizou de novo, para o caso de os estrondos terem abafado sua voz; e uma terceira vez, por garantia, e talvez porque ainda tivesse forças e houvesse água benta – ou quem sabe já fosse água da bica.

Sobreviveram todos – ela, o bebê, meus avós, os móveis, eu (possivelmente aos berros no colo de alguém), as tesouras do telhado, parte das telhas, o teto.

Ela queria tanto uma menina, que viria quando setembro viesse.

Foi mais um menino.

E ainda era agosto.

(*) Eduardo Affonso é arquiteto, colunista do jornal O Globo e blogueiro.

A reação das minhas cachorras ao debate

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Confesso que me surpreendi com a apatia com que minhas cachorras assistiram ao debate entre presidenciáveis do domingo passado. Eu estava uma pilha de nervos desde a hora em que acordei, aguardando ansiosamente o início do que prometia ser uma sanguinolenta troca de acusações entre os candidatos, ao invés de focarem em seus respectivos programas de governo.

Temia que, nos momentos mais tensos, dois ou mais competidores acabassem perdendo as estribeiras e se engalfinhassem fisicamente, ou ainda que o estúdio fosse invadido por uma horda de apoiadores armados até os dentes para exigir a cabeça dos adversários. Já me preparava psicologicamente para contabilizar um ou dois mortos e vários feridos graves, inclusive entre os âncoras e os jornalistas convidados. Só fiquei um pouco mais tranquila quando soube que não haveria a presença de plateia e que somente os assessores, marqueteiros e políticos aliados seriam autorizados a ocupar uma sala atrás do estúdio. Mesmo assim, eu vigiava com angústia e preocupação a cada segundo a escalada de ofensas, golpes abaixo da cintura e ameaças mal disfarçadas.

Minhas cachorras, por sua vez, pareciam bem relaxadas: se aboletaram gostosamente no sofá em frente à televisão e fingiram prestar atenção aos confrontos do primeiro bloco, permanecendo em absoluto silêncio. No entanto, tão logo terminaram de jantar, logo na entrada do segundo bloco, não conseguiram disfarçar que estavam entediadas com tanto palavrório, tanta conversa mole para boi (também cachorro?) dormir, desconcentraram-se e se deixaram embalar pela monotonia dos discursos, logo caindo em sono profundo.

Sacudi-as no começo do terceiro bloco para questioná-las a respeito das razões para tanto desinteresse. Ainda sonolenta, a mais velha me lançou um olhar enviesado e respondeu: “Tá brincando? Pra um domingo à noite, com chuva e frio, tinha que ter alguma coisa mais empolgante para assistir. Até agora, só teve mais do mesmo. Qual é a novidade que está sendo trazida a público? Nadica de nada! Parece que todos acabaram de reinventar a roda e descobriram a solução definitiva para exterminar todos os males que assolam a população desde o descobrimento, em 1500. Por que ninguém tinha pensado em tudo isso antes?”.

Já a mais nova e ainda inexperiente nos empolados confrontos pátrios agitou-se por alguns minutos para reclamar quando o candidato Felipe D’Ávila fez referência desdenhosa ao complexo de vira-lata que caracteriza os brasileiros. Rosnou, um tanto indignada: “Dobra a língua para falar de nós, seu verme! Somos SRD, com muito orgulho! Isso significa que, assim como vocês, somos fruto de miscigenação e exigimos respeito por nossa condição. Somos mais resistentes a doenças, mais resilientes e mais safos para lidar com situações de penúria, além de mais valentes para encarar as inevitáveis batalhas com tantos pitbulls nas ruas”.

Tive de concordar. Parecia mesmo que todos os debatedores diziam ao apresentar suas propostas pseudograndiosas: “Pra quem é [povo brasileiro alienado], tá de bom tamanho”. Antes que elas voltassem a dormir, ainda tentei entender como elas avaliavam a repercussão do comportamento dos candidatos-líderes nas pesquisas sobre eventual mudança de intenção de voto. Para afastar o tédio, propus a elas um joguinho, perguntando: se os candidatos fossem bichos, como vocês enquadrariam o perfil psicológico de cada um? Tudo o que consegui reunir, entre muxoxos, foi o seguinte:

Bolsonaro, o escorpião e seus instintos irrefreáveis
Deve perder um bocado de votos entre as eleitoras ainda indecisas, até entre as evangélicas. Mesmo tomando extremo cuidado para não parecer exageradamente agressivo em suas colocações, acabou deixando implícito que, tão logo ele chegue à outra margem do rio, não resistirá ao impulso de dar uma ferroada mortal no cangote daqueles que o tiverem auxiliado na travessia – com provável exceção dos fardados. Se e quando, ainda em estado de choque, um dia a população confrontá-lo com sua promessa de respeitar os demais poderes, o estado democrático de direito e o resultado das eleições, ele responderá candidamente: “É da minha natureza, e vocês sabiam disso, tá ok?”

Lula, o bom cabrito
Também deve perder um bom percentual de votos entre os antibolsonaristas e bolsonaristas arrependidos pela aparente falta do tão estimado pulso firme. Esforçou-se o tempo todo para não berrar, sabedor que era de suas vulnerabilidades, mas acabou passando uma imagem envelhecida, de pouca força e ânimo para mudar o destino do rebanho. Apegou-se à imagem de valentia do passado, mas a falta de sangue nos olhos entregou seu cansaço. Perdeu-se de vez quando hesitou em assumir o compromisso de montar um ministério paritário, de homens e mulheres, quando tudo o que o mulherio ensandecido pelo desrespeito de Bolsonaro a Vera Magalhães esperava era que ele enterrasse seus chifres bem fundo no intestino misógino de seu principal adversário.

Ciro, o rato que incorporou o flautista de Hamelin
Deve ganhar mais alguns pontinhos nas pesquisas, mas para encostar nos mais bem votados seria preciso encarnar a credulidade de um doutor Pangloss. Apesar de extraordinariamente articulado intelectualmente, não consegue desfazer a imagem de velho coronel nordestino autoritário que se vê como único portador de todas as virtudes e não se cansa de vomitar todos os defeitos de seus concorrentes. Ele parece acreditar piamente que seu projeto de pacto nacional + plebiscito após 6 meses de mandato será suficiente para que 27 ratazanas que engordam às custas do erário dos estados, 513 ratos pequenos e 81 grandes que estraçalham o restante do tesouro público se rendam ao seu carisma e o sigam acriticamente até a beira do precipício. Se vão se jogar ou não, essa é outra estória. Aposta ainda que a população já terá condição efetiva de estimar o acerto de suas medidas econômicas após 180 dias de governo e votará em peso pela manutenção de seu “revolucionário” esquema de governança.

Simone, a galinha-mãe e professora
Deve ser a que mais vai ganhar votos do público nem-nem e dos que avaliam que “é tudo farinha do mesmo saco”. Embora corajosa, auto afirmativa e doce ao mesmo tempo, desculpou-se o tempo todo por não ter conseguido apoio incondicional e universal dos galos do seu partido e assumiu seu desconforto com o passado corrupto da maioria de seus aliados, o que pode pesar muito contra seu estilo “lírio no pântano”. De boas intenções o inferno está cheio parece ser seu lema de campanha.

E isso é tudo. Minhas cachorras se recusaram a elaborar o perfil dos demais candidatos, seja por falta de informações confiáveis quanto aos seus reais interesses na candidatura e na política, seja por lembrarem do passado bolsonarista de uma e o perfil agressivamente desestatizador de outro.

Para encerrar logo a conversa e poderem voltar a dormir, elas avaliaram em uníssono que faltou abordar durante todo o debate um fato indesmentível e preocupante, ao qual a imensa maioria do eleitorado finge não prestar maior importância: qualquer que seja o resultado das eleições, estamos condenados a sermos governados por um tchutchuca do Centrão, velho ou novo, mais ou menos jeitosinho com seus pares homens e sempre tigrão com as mulheres, especialmente as mais pobres e as mais críticas/incisivas. Quem ousaria discordar?

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Não há ateus na política

Eduardo Affonso (*)

Demonstrações oportunistas de fé no Altíssimo e apreço à baixa gastronomia são tão tradicionais nas campanhas políticas quanto a troca de ofensas entre os novos adversários e de afagos entre os ofendidos na eleição passada.

Deus é testemunha de que, no Estado laico em que vivemos, campanha que se preze tem de ter candidato comendo pastel de feira e/ou em pose contrita – sempre de joelhos, se possível de mãos postas –, invocando a intercessão divina para ganhar mais voto do que peso. Pode até haver ateus em aviões que despencam – na propaganda eleitoral, jamais.

Tecnicamente, Estado e Igreja estão separados no Brasil desde 1891. Mas a atual Constituição foi promulgada “sob a proteção de Deus”. Nas cédulas, há a recomendação de que “Deus seja louvado”. O presidente de turno chegou ao poder com o slogan “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos”. É um Deus nos acuda em tempo integral.

Para fazer jus à cidadania brasileira, o Todo-Poderoso teve de se licenciar de suas inefáveis funções e virar cabo eleitoral na peleja de 2022. Ele se sentirá em casa por estar, desde a queda de Lúcifer, engajado nessa luta do Bem contra o Mal. A diferença é que, aqui, o Mal tem o dom da bilocação – está ao mesmo tempo nos dois cantos do ringue.

Michelle Bolsonaro tem dito que “o Brasil é do Senhor”, que “Deus tem promessas para o Brasil”, que “aquele lugar [o Palácio do Planalto] era consagrado a demônios”. Como o inferno são os outros, para Lula, “se há alguém possuído pelo demônio, é esse Bolsonaro”.

O petista atacou o uso da religião por parte de seu oponente: “É heresia falar o nome de Deus em vão como fala esse cidadão (…) que está mais para fariseu que para cristão”. Contudo se permitiu pregar: “A gente tem que olhar a Bíblia e ela tem que ser cumprida”. A que preceitos bíblicos estará se referindo? Aos que punem a homossexualidade e mandam apedrejar mulheres que não chegam virgens ao casamento? Aos mandamentos que condenam o roubo, o falso testemunho? Deve-se obediência coletiva a livros sagrados apenas nas teocracias – o que não é o caso. Porém levantamento feito pelo GLOBO revela que são 902 os candidatos que se declararam sacerdotes ou integrantes de ordem ou seita religiosa – um quarto a mais que em 2018. Majoritariamente evangélicos, vêm reforçar a bancada do dízimo – conservadora e pouco sensível a questões ligadas à laicidade do Estado ou à tolerância para com a fé alheia.

Rezam as feiquenius difundidas por bolsonaristas que, em caso de vitória do PT, “brasileiros serão impedidos de falar em Deus” (restrição que viria a calhar em relação aos que exercem cargos públicos) e que “templos serão fechados”. Interditar estabelecimentos caça-níqueis, que enriquecem os empresários da fé com “doações” obtidas mediante fraude, venda de caneta ungida (para passar em concurso) e de grão de feijão que cura Covid-19 seria uma ação legítima contra o estelionato. Mas, para dar cabo dos vendilhões do templo, só Jesus na causa.

Quando se faz o diabo para conseguir votos, lambuzar-se na gordurama do pastel de feira por puro populismo chega a ser um pecado menor.

(*) Eduardo Affonso é arquiteto, colunista do jornal O Globo e blogueiro.

11 de agosto

Ascânio Seleme (*)

Não adianta Bolsonaro e bolsonaristas reagirem com deboche ou ódio, o 11 de agosto entrou para a História como data nacional de repúdio à ditadura. Será comemorado daqui para sempre. Será lembrado como o dia do basta, o dia em que a sociedade civil tomou a si a defesa da democracia como bem maior da nação.

Os brasileiros fizeram o que seus representantes no Congresso não fazem por interesses privados e escusos: disseram não ao golpe e ao golpista.

(*) Ascânio Seleme é jornalista. Trecho de artigo publicado no jornal O Globo.

A norma culta do futuro

Aldo L. Bizzocchi (*)

Que a língua ela evolui todo mundo sabe. E que a gramática normativa, mais cedo ou mais tarde, ela acaba mudando também pra acompanhá a evolução da língua todo mundo também já sabe. Então por que que a gente não começa desde já a escrevê na norma culta do futuro, aquela que vai sê usada daqui uns cem, duzentos ano?

Cê pode achá esse meu exercício de futurologia meio esquisito, mas eu aposto de que é assim que as gerações futura vão redigi textos culto. Não vai mais tê tempo futuro sintético, só o analítico, não vai mais tê o verbo “haver” e talvez nem tenha mais concordância verbal e nominal, ou seja, as palavra não vai mais precisá sê flexionada no singular e no plural, a não sê a primeira palavra da oração.

Em compensação, vai tê concordância de numeral (duas milhões de vacina), e os infinitivos pessoal vão concordarem sempre com os sujeito. Os verbo vão sê facílimo de conjugá: eu sô, cê é, ele é, a gente é, cês são (ou é), eles são (ou é). Cês viram que moleza vai sê?

Os sujeito eles vão sê sempre duplo, que nem nessa mesma frase. Aliás, os demonstrativo “este”, “esta”, “estes”, “estas” eles vão sê puro arcaísmo. Ninguém mais vai escrevê como o Machado de Assis, o José de Alencar, ou mesmo o Jorge Amado e a Raquel de Queiroz. Escrevê que nem o Rui Barbosa, nem pensá!

Cê deve tá achando esse meu artigo bem provocativo, e é essa mesmo a intenção dele. Afinal, a língua da gente, isto é, a língua portuguesa do Brasil, que até lá ela já vai sê língua brasileira, divorciada do idioma de Portugal, já tá hoje mesmo dando sinais de como ela vai sê no futuro, e não só na fala, mas também na escrita. Afinal, o Brasil ele é e sempre vai sê o país do futuro, como disse certa vez o Stefan Zweig, e por isso a língua dele também tem que caminhá sempre pro futuro e não se apegá no passado. Pra onde a língua tá indo, e em que lugar a gente vai chegá eu não sei, mas eu preciso falá pra vocês de que não adianta nada nadá contra a corrente, porque o trem da história e da evolução passa e atropela quem se pôr na frente dele.

A minha hipótese é de que um dia todes vão falá e escrevê assim. Pelo menos tem vários linguista atualmente que eles pensam que nem eu. Pra gente escrevê bem e com correção textos culto e formal, a gente vai tê que aprendê a dominá a norma-padrão e, consequentemente, a gramática normativa. Que eu acho que vai sê mais ou menos assim como eu tô escrevendo nesse momento.

Eu e você a gente pode até não concordá com isso hoje em dia, mas o que que se pode fazê? A língua ela muda inexoravelmente (será que essa palavra ela ainda vai existi?). E quem que vai sabê dizê se daqui um ou dois século não vai sê essa a forma mais correta e elegante de se expressá? Até porque, se a norma culta for assim, é porque a norma coloquial vai sê ainda mais futurista. Cês não acha?

(*) Aldo L. Bizzocchi é doutor em Linguística, palestrante e blogueiro.

É tão simples!

Carlos Brickmann (*)

Tem gente discutindo política externa Sul-Sul, tem gente discutindo se urnas eletrônicas são confiáveis ou não, tem gente fazendo coisas que nos velhos tempos seriam chamadas de compra de votos, tem casal que vive sob o mesmo teto em que a residência do marido é contestada e a da esposa é aceita, tem gente que não consegue viver sem um tacão de coturno nos calcanhares.

Há candidatos que só querem saber se alguma coisa dá voto. E a resposta é tão simples! Um garoto de onze anos de idade telefonou para a Polícia, na região metropolitana de Belo Horizonte, pedindo comida. “Estamos com fome!”

Talvez nem seja necessário alimentar esse nosso povo por muito tempo: basta criar condições para que os pais possam trabalhar e ganhar um salário suficiente para oferecer três refeições diárias à família. Não é preciso importar armas caríssimas e perigosas: bastam talheres à mesa.

(*) Carlos Brickmann é jornalista, consultor de comunicação e colunista.

Patrulha julga atos do passado com régua moral de hoje

Eduardo Affonso (*)

O telescópio James Webb apresentou um grave defeito antes mesmo de ser lançado ao espaço. Não nas lentes e espelhos (que funcionaram magnificamente), mas no nome. O homenageado é um ex-diretor da Nasa, nascido em 1906, acusado de perseguição à comunidade LGBTQIAP+ nas décadas de 1950 e 1960.

Sim, não basta não ser homofóbico hoje, quando a homofobia é entendida como violação de um direito humano fundamental. É preciso não o ter sido no passado, sob a vigência de outra régua moral. Algo como receber multa retroativa por haver circulado numa rua cuja mão foi invertida. Você não estava na contramão em 1960, mas isso é irrelevante – perde pontos na carteira assim mesmo.

A Nasa ignorou os protestos do movimento #RenameJWST – ou abriria um flanco para o rebatismo de boa parte de seu equipamento. Antibelicistas poderiam exigir um novo nome na fuselagem do Hubble. Afinal, graças aos estudos do astrônomo Edwin P. Hubble na divisão de balística do Exército americano, bombas e foguetes tornaram-se mais eficazes – vale dizer, mais mortíferos. Kepler (1571-1630) tampouco seria poupado: filho de pai mercenário e mãe curandeira, não se dedicou apenas à matemática e à astronomia, mas também à astrologia – uma crendice, segundo a ciência moderna. Sem falar na indignação de ateus militantes e cristãos fundamentalistas diante de artefatos que evocam divindades como Júpiter, Saturno e Apolo.

Não adianta lançar esses nomes ao círculo do inferno destinado aos hereges: nada nos garante que os novos agraciados (progressistas, descolados, desconstruídos) não estejam sujeitos a pecados ainda por inventar. Quando os veganos dominarem o planeta, quem quer que tenha traçado uma picanha ou pedido um misto-quente na padaria (com uma média de café com leite) estará automaticamente no índex dos canceláveis.

Se o Webb perscruta lá fora, com sua nebulosa sexualidade, as origens do Universo, aqui neste planetinha pedregoso os arqueólogos agora discutem não o sexo dos fósseis, mas seu gênero. Pela análise do tamanho e formato dos ossos, é possível determinar se um esqueleto é de um espécime macho ou fêmea. Ativistas argumentam que essa atribuição presta um desserviço à causa, pois não leva em conta a maneira como aquele indivíduo se identificava. Ninguém garante que Lucy (hominídeo que viveu há cerca de 3 milhões de anos onde hoje é a Etiópia) e Luzia (sapiens de aproximadamente 11.500 anos, em Minas Gerais) se reconhecessem como mulheres. Seus nomes deveriam ser mudados, pois perpetuam a cisnormatividade, o colonialismo e a supremacia branca. Esse anacronismo vem de longe, e o céu parece não ser o seu limite.

O Hubble e o James Webb – rebatizados ou não a cada geração de acordo com os novos ideais de pureza ideológica – prosseguirão em sua jornada por onde nenhum homem (ou mulher, ou homem trans ou mulher trans) jamais esteve, desvendando a gênese do Universo. Enquanto isso, seguiremos aqui adaptando nosso próprio passado às conveniências contemporâneas.

Com uma única certeza: ao contrário do que sonhava Fidel Castro, a História não nos absolverá.

(*) Eduardo Affonso é arquiteto, colunista do jornal O Globo e blogueiro.

Jecas, incendiários, invertebrados

Lúcia Guimarães (*)

Os crassos jecas da Faria Lima, os incendiários do agronegócio e os invertebrados da avenida Paulista podem ter se fartado de comer mingau pela beirada do fascismo. Talvez agora tenham começado a entender o preço de negar que a agenda que apoiaram não é conservadora ou cristã, é terrorista e demolidora.

Se quiserem continuar decolando para Paris e manter o privilégio de tirar férias do martírio brasileiro, precisam de um país para onde possam voltar.

(*) Lúcia Guimarães é jornalista e colunista. O texto é fragmento de artigo seu publicado no Estadão.

O que o Lobo Mau diria a Bolsonaro

Eduardo Affonso (*)

Sr. presidente (ou candidato — nunca sei ao certo),

Invadi o provedor que o Elio Gaspari usa para fazer chegar aos vivos (principalmente aos muito vivos) certas mensagens do Além e valho-me dessa tecnologia de ponta para me dirigir ao colega, daqui do mundo das fábulas, onde bichos falam, e toda história tem uma moral.

Permita que me apresente e justifique a intimidade de tratá-lo de igual para igual: sou o Lobo Mau, aquele que contribuiu para o aumento do déficit habitacional entre os porquinhos, fez disparar a taxa de mortalidade de cordeiros e vovozinhas e lançou mão de feiquenius para tentar devorar Chapeuzinho Vermelho.

Tenho percebido, de sua parte, a apropriação de muitas das minhas estratégias — e não posso me furtar a lhe lembrar que elas nem sempre deram certo.

Como eu, o senhor bufou e mandou pelos ares a casa de palha. Bufou, bufou e derrubou a casa de pau. Animado com o sucesso, bufou, bufou, bufou e… não conseguiu pôr abaixo a casa erguida com cláusulas pétreas. Os porquinhos 01, 02 e 03, meus companheiros de fábula, poderiam ter lhe contado que, bufando, se consegue muita coisa, mas não tudo.

O senhor se travestiu de liberal na economia, assim como eu de vovozinha. Mas as orelhas grandes, que fizeram ouvidos de mercador às demandas pela reforma administrativa e por um modelo fiscal mais justo, ficaram de fora. O nariz grande, que farejou vantagens na manutenção da TV estatal e da empresa do trem-bala, também. O olho grande, que insistiu em intervir na Petrobras e travou as privatizações, idem. Por fim, a boca grande mastigou o equilíbrio fiscal e engoliu o teto de gastos. O senhor vai levar um susto maior que o meu quando o caçador entrar em cena — e olha que eu tinha imunidade por ser espécie em via de extinção.

Sua pinimba com as urnas eletrônicas é plágio descarado daquele meu entrevero, às margens do riacho, com o cordeiro. Nunca foi segredo que eu quisesse porque quisesse comê-lo, mas precisava de uma boa desculpa. Inventei que ele sujava a água que eu bebia. Isso seria impossível, haja vista ele estar 20 passos adiante de mim, no sentido da correnteza. Criei outras narrativas (se não era ele, era o irmão dele etc.), mas sem chegar ao ponto de sugerir que a direção em que corria o riacho não fosse auditável. Um lobo, ainda que mau, tem seus limites lógicos e éticos. Fosse o senhor, mesmo com os goles d’água impressos, um novo pretexto seria fabricado.

Sabemos do triste fim do cordeiro (triste para ele, não para mim, que o comi tão logo desmontou minha terceira ou quarta falácia). Quanto ao senhor, prepare-se: até o mais cordial dos cordeiros já aprendeu que bom cabrito é o que mais berra.

O pastor que gritava “é o lobo, é o lobo!” quando eu nem estava nas imediações teve sérios problemas no dia em que resolvi assuntar o rebanho. Os aldeões já estavam dessensibilizados para a ameaça.

Em outro momento, minha amiga raposa@uva entrará em contato para lhe falar de um golpe que ela tentou aplicar, o “as urnas estão verdes”. Não colou. E leão@rei manda dizer que deu boas gargalhadas com a PEC do senador vitalício.

Um abraço fraterno do

Lobo Mau

(*) Eduardo Affonso é arquiteto, colunista do jornal O Globo e blogueiro.

Bolsonaro questiona urna eletrônica por má-fé

Pedro Doria (*)

Todo ano de eleição, nós, jornalistas, arranjamos algum jeito de produzir algo explicando como funciona o sistema de votação brasileiro. No jargão das redações, é uma “matéria de serviço”. Sua utilidade é ajudar o eleitor a se nortear no dia do voto. É para que ele entenda o processo. Neste ano, explicar como funcionam a urna e a contagem dos votos, porém, não é mero serviço. É uma defesa ativa da democracia. E, sim, nosso sistema está entre os mais seguros e eficientes do mundo.

O principal ponto que garante a segurança da eleição brasileira é que todo o processo, apesar de digital, não ocorre na internet. Nem as urnas nem os computadores que contam os votos estão na grande rede. Em seu discurso, o presidente Jair Bolsonaro se aproveita de conceitos pouco compreendidos para deixar as pessoas inseguras. Confusas. A ação é de clara má-fé. O presidente da República mente, mente acintosamente, mente sabendo que está mentindo.

Porque a urna em que digitamos nossos votos não está ligada à internet, um hacker não pode entrar nela e modificar qualquer coisa. Poderia se estivesse em frente, fisicamente, à máquina. Mas não seria nada discreto. Teria de ligar um teclado, espetar um pen drive, fazer uma operação que chamaria a atenção de todos ao redor. Para ter efeito e mudar os resultados de uma eleição, seria necessária a ação de milhares de hackers trabalhando em milhares de urnas cada um. Sem que qualquer um percebesse. Não é razoável acreditar na possibilidade.

Quando a votação se encerra, o presidente da mesa ordena que a urna imprima cópias do boletim. Ali está, no papel, o número de votos registrados para cada candidato e partido naquela urna. Esse documento é afixado na porta da zona eleitoral, em público. Se você, eleitora ou eleitor, quiser confirmar que seu voto para um candidato obscuro a deputado estadual foi registrado, basta passar no local em que votou e confirmar que pelo menos um ponto ele garantiu.

Já houve eleições municipais em que prefeitos celebraram vitória antes de haver resultado oficial, simplesmente porque os fiscais do partido foram mais ágeis que o TRE. Somaram os votos de boletim em boletim. Foi o que ocorreu em Jaboticabal, interior de São Paulo, em 2020. O prefeito que fez festa, aliás, é do PL de Bolsonaro.

Além do registro em papel, o presidente de mesa também grava os resultados num pen drive que tem assinatura eletrônica e é criptografado. Essa mídia é transportada fisicamente para uma das centrais locais da Justiça Eleitoral, onde, após a assinatura ser checada para garantir que não houve adulteração, os dados são mandados para Brasília. Para a sede do TSE. Como? Por satélite, numa rede privada que o tribunal contrata e, claro, não está conectada à internet.

Em Brasília, os votos chegam a um supercomputador da Oracle que presta um serviço chamado, no jargão técnico, de cloud on-premise. Nuvem no seu local. Sim, se chama nuvem. Mas tem esse nome porque é uma infraestrutura como a de nuvem, porém privada. Colocada no escritório do cliente que busca, justamente, a certeza de que não é possível violar via internet seu sistema.

Bolsonaro, por causa disso, sugere que os dados estão na nuvem. Não, não estão. Fala de uma sala secreta – a contagem ocorre dentro de um computador, não de uma sala.

Vários estados americanos, todos republicanos, fazem eleição digital sem voto impresso, parcial ou integralmente. Várias cidades francesas. São os dois países que inventaram a democracia. Não se trata de uma jabuticaba brasileira. A eleição é segura. E Bolsonaro, obviamente, está com medo de perder.

(*) Pedro Doria é jornalista e escritor.