Mesquinho

José Horta Manzano

«Cancelei, desde o ano passado, todas as assinaturas de jornais e revistas. Ministro que quiser ler jornal e revista vai ter que comprar.»

Essa frase, pronunciada esta semana por doutor Bolsonaro, evidencia mais um aspecto maligno do caráter dele: a mesquinharia. Em repetidas ocasiões, nosso mito tem reafirmado seu agarramento a picuinhas, a revides, a pequenas vinganças.

Se essas birras obstinadas são atributos comuns na adolescência, sua persistência num adulto denota um distúrbio de personalidade. É de crer que nosso presidente teve infância infeliz.

Sabe-se que o presidente tem medo da imprensa, razão pela qual foge de jornais e revistas.

A pequena vingança simbolizada pela suspensão de jornais e revistas no Planalto faz lembrar a história do Joãozinho. Era aquele garoto que ia à rua com a bola (no tempo em que se podia jogar bola na rua) para uma pelada com a garotada. Tudo ia bem até o momento em que Joãozinho, por uma razão qualquer, embirrava. Nessa hora, ele não perguntava se os amiguinhos queriam continuar a jogar ou não: confiscava a bola e ia embora. Para os mesquinhos, vale a norma: os outros que se lixem.

Jairzinho, nosso presidente, é como o Joãozinho da história. Visto que não gosta de ler, confisca jornais e revistas sem se preocupar se os demais gostariam de ler.

Nem o Lula, apesar de confessar seu horror à leitura, ousou confiscar jornais e revistas de seus assessores e privá-los de informação confiável. Nesse ponto, Jairzinho não é igual ao Lula; é pior.

Mesquinho
A palavra mesquinho vem do árabe miskin ou meskin. Nessa língua, significa pobre, desprovido de tudo. A raiz, presente também em hebreu, é atestada já na língua acádia, falada na Mesopotâmia 3.000 anos antes de Cristo. Ao passar para as línguas europeias, o termo sofreu alteração de sentido. Nas línguas latinas, designa aquele que se agarra a coisas pequenas, que não tem grandeza nem generosidade.

Estão na mesma infração

José Horta Manzano

Conheço vagamente Danilo Gentili, mais de ouvir falar do que de ver. Escutei uma vez, faz alguns anos, uma entrevista dele no rádio. Na época, se me lembro bem, combatia veementemente o lulopetismo e a corrupção que o acompanha. Ponto pro rapaz!

Fiquei sabendo hoje que ele apresenta um programa no canal de televisão do Sílvio Santos, em que o entrevistador é ele mesmo. Deve ser interessante, dada a vivacidade de senhor Gentili. Felicito-o por ter passado de entrevistado a entrevistador.

Fiquei sabendo também que a Câmara Federal acaba de pedir ao STF que mande prender o rapaz. O motivo é ele ter tuitado um incentivo à população para entrar no Congresso e «socar todo deputado que estivesse discutindo a PEC de imunidade parlamentar».

Vai preso? Não vai preso? A meu ver, não tem muito que discutir. Pau que dá em Francisco tem de dar em Chico. Se o deputado que atiçou o povo contra o STF foi parar atrás das grades, não há como não reservar o mesmo destino ao apresentador de tevê que incitou o povo contra o Congresso. Por mais selvagem que seja Silveira, por mais gentil que seja Gentili, estão na mesma infração, como pontificou Ataúlfo Alves no samba Errei erramos de 1938.

Nossa sociedade está regredindo aos tempos do faroeste. O cidadãos deste país estão se comportando como se estivessem em terra sem lei, onde os conflitos se resolvem no tapa, no soco ou na bala.

Não digo que Bolsonaro, com seus modos de chefe mafioso, seja o inventor da violência brasileira. A tendência nacional para embates ferozes vem de longe, já dos primeiros tempos da colonização. O que o atual presidente fez foi abrir a porteira. Com sua boca suja e seu jeito de meliante, instaurou esse clima de ‘liberou geral’, de ‘agora pode tudo’.

Em raro momento de lucidez, dona Dilma disse um dia que, uma vez espremido fora, é impossível enfiar o dentifrício de volta no tubo. Talvez ela possa nos esclarecer agora. Será possível enfiar a violência oficial de volta no baú de onde nunca deveria ter saído?

Loucura?

José Horta Manzano

Cafonice não dá cadeia. Burrice não dá impeachment. Mas os dois pecados juntos dão mistura explosiva. Ostentação dá inveja. Sinais exteriores de riqueza incompatível com as posses podem render processo.

O senador Bolsonarinho deveria ter pensado nisso antes de cometer a imprudência que talvez fique na história como o Fiat Elba do clã – aquela gota d’água que faltava pra fazer transbordar um pote até aqui de mágoa.

O distinto leitor já deve estar a par da enormidade que veio a público hoje: a mansão de 6 milhões comprada pelo primogênito do presidente. Tudo já foi dito sobre o caso. Sabe-se que, com o salário que recebe, não tem como aguentar a prestação mensal do empréstimo. Sabe-se que a casa fica no bairro mais caro de Brasília e tem 1.100m2 construídos num terreno de 2.400m2. Sabe-se que, embora o imóvel esteja em Brasília, a escritura não foi passada lá, mas em Brazlândia, uma cidadezinha do cinturão agrícola da capital. Sabe-se que colegas do senador, quando informados, mostraram-se incrédulos; não podiam acreditar que o Bolsonarinho tivesse cometido aquela ‘loucura’ justo na hora em que ele tenta reverter sua situação na Justiça.

O caso dá margem a algumas reflexões.

  • Comprova a inesgotável capacidade do clã Bolsonaro de criar armadilhas para si mesmo.
  • Demonstra que, assim como o pai, o senador também vive numa bolha, desconectado da realidade, insensível à insatisfação que fermenta no país real.
  • Deixa claro que debaixo desse angu tem carne. Quando se compra um imóvel de 6 milhões sem ter dinheiro declarado é porque há dinheiro escondido.
  • O fato de o caríssimo imóvel estar em Brasília informa que o senador, que não tem raízes na capital do país, conta com a permanência do pai na presidência por longo tempo.
  • O fato de os investimentos do clã se limitarem a compra de imóveis no Brasil é indicação da falta de imaginação dessa gente.
  • Há hipótese mais dramática. Os membros do clã parecem resignados a passar o resto da existência em território nacional. De fato, todos eles – mas principalmente o pai – terão de tomar muitíssimo cuidado ao pisar solo estrangeiro. Pode(m) ter de aparecer enjaulado(s) num tribunal de Haia, a enfrentar processo por crime contra a humanidade.

Vistas essas considerações, não dá pra entender por que o Bolsonarinho escolheu Brasília pra empatar sua fortuna.

ou também

Vistas essas considerações, pra entender por que o Bolsonarinho escolheu Brasília pra empatar sua fortuna.

Seja qual for a hipótese verdadeira, a conclusão final é sempre a mesma: a família Bolsonaro dá a prova definitiva de que todos eles padecem profundo déficit de inteligência.

Se está sobrando…

Ascânio Seleme (*)

De acordo com levantamento do Tribunal de Contas da União, 6.157 militares das três Forças Armadas servem em postos civis no governo Bolsonaro. Destes, 3.029 são da ativa, segundo o Ministério da Defesa. Com o contingente desviado de função, dá para montar uns cinco ou seis batalhões de infantaria do Exército. Se esse volume de gente não faz falta às Forças Armadas, não seria o caso de reduzir o tamanho do aparato todo e economizar recursos?

(*) Ascânio Seleme é jornalista. O texto foi publicado no jornal O Globo de 27 fev° 2021.