Aviso aos navegantes

José Horta Manzano

Você sabia?

Este aviso é dirigido aos distintos leitores que residem na Suíça francesa, especialmente àqueles que se preparam para exercer a obrigação de votar domingo que vem.

As urnas eletrônicas NÃO ESTÃO mais instaladas no Consulado-Geral. Desta vez, maquinetas e mesários sorridentes aguardam a colônia em PALEXPO. É isso mesmo, leram bem: Palexpo.

Palexpo - Palácio das Exposições, Genebra

Palexpo – Palácio das Exposições, Genebra

Para quem não conhece, Palexpo é o Palácio de Exposições de Genebra, equivalente ao Anhembi paulistano. Fica grudado ao aeroporto. É de crer que o contingente de conterrâneos tem aumentado barbaridade.

O atendimento oferecido pela agência consular tem melhorado muito estes últimos anos, é verdade. Infelizmente, ainda não chegam a fazer milagres. Botaram a novidade no site, e pronto: quem não leu, mal se deu.

Se você sabe de alguém que vota em Genebra, faça a fineza de passar a informação. Quanto a mim, já avisei os que conheço. Ninguém sabia da novidade.

Fico só imaginando a multidão que – vindo de longe e sem saber da mudança de local – vai se aglomerar na porta do consulado domingo que vem. São coisas nossas.

Para mais amplas informações, visite o site do consulado. Clique aqui.

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PS: Vote em quem quiser, mas evite eleger mais corruptos. Os que temos já são suficientes.

Apagando a História

José Horta Manzano

Dois dias atrás, a Câmara Municipal de Porto Alegre (RS) aprovou, por ampla maioria, a alteração do nome de importante via pública da cidade.

Se o prefeito sancionar a lei, a Avenida Presidente Castelo Branco passará a chamar-se oficialmente Avenida da Legalidade e da Democracia.

Entendo a intenção do legislador, mas fico dubitativo quanto ao sucesso da iniciativa. O propósito dos vereadores que propuseram o banimento do nome que lhes provocava azia era sepultar a memória do primeiro general-presidente do período militar. Agiram como quem guarda mágoas na geladeira ou no porão. “Longe dos olhos, longe do coração” ― imaginam. Quanto a mim, não tenho tanta certeza.

Avenida Castelo BrancoPor outro lado, tenho dificuldade em entender a lógica da escamoteação. A não menção de um fato não tem o condão de fazê-lo desaparecer. Não se refaz a História. Vale ainda ressaltar uma ironia: Castelo Branco, a mais recente vítima dos revisionistas, foi justamente o presidente-general que chefiou a ditadura em seu período menos feroz.

Mas o pior vem agora. Para continuarem afirmando que têm reinventado o Brasil desde que se aboletaram no poder há doze anos, os que nos governam precisam de pontos de referência anteriores. Ao sonegarem a memória do que tinha acontecido antes, seu discurso há de soar ainda mais falso e artificial.

E tem mais. Se a moda pega, as câmaras dos quase seis mil municípios brasileiros vão ter muito trabalho pela frente. Praticamente todas as as cidades têm um logradouro nomeado em homenagem ao ditador Getúlio Vargas. Sem contar os interventores por ele nomeados.

Senhores vereadores, arregacem as mangas e comecem já antes que vosso mandato se esgote. Vai dar um trabalhão!

Judiciarização

José Horta Manzano

O jeitinho brasileiro, antes decantado em prosa e verso, era ostentado por nós todos como prova de tolerância. Com muito orgulho. Uma expressão concentrava o espírito de nosso povo. Dar um jeito, em sua acepção tradicional, significava chegar ao melhor resultado utilizando os recursos que tínhamos à mão.

Imaginem uma oficina mecânica, um automóvel enguiçado, o proprietário sem saber o que fazer, a peça sobressalente em falta, o mecânico coçando a cabeça. «Vamos dar um jeitinho», dizia o profissional. A expressão conjugava boa-vontade, esforço e astúcia. No dia seguinte, o dono podia vir buscar o carro.

Dava-se um jeito para superar situações difíceis, quando faltavam os recursos básicos. O brasileiro, assim como aceitava a substituição de uma peça faltante por outra qualquer, acolhia com filosofia os desconfortos e os incômodos que a vida lhe trazia a cada momento.

Hoje em dia, o termo jeitinho mudou de registro. Deixou de significar o fato de encontrar solução em momento adverso. Dar jeitinho, hoje, começa a fazer parte da lista de sinônimos de corrupção. A locução entrou para o campo semântico das expressões feias, politicamente incorretas, ainda que amplamente difundidas.

Jogo de cintura

Jogo de cintura

Parlamentares dão um jeito de contornar o regulamento da Casa para fazer passar projetos que vêm ao encontro de seus interesses. Dão também um jeito de barrar a votação daqueloutra lei que não lhes convém. Darão um jeito de encobrir malfeitos, encontrarão um jeitinho de proteger algum de seus pares que haja delinquido.

O velho jeitinho se desnaturou. A proverbial tolerância do brasileiro também está escorrendo pelo ralo. Se ontem entendíamos que certos acontecimentos eram obra do acaso, hoje tendemos a procurar um culpado para toda e qualquer ocorrência. Figurões tentam encobrir seus crimes atribuindo a culpa à mídia que haverá caricaturado os fatos. Se um raio incendeia um bosque, há que encontrar o culpado, aquele que deveria ter sustado as forças da natureza.

A desnaturação do jeitinho faz que o homem se sinta paralisado diante de situações um pouco mais complicadas que o habitual. Quando desaparece a capacidade de resolver problemas com os meios que se tem à disposição, resta a reclamação, a ira, a contestação e, em última instância, a judiciarização da sociedade. Incapazes de dar solução a problemas do dia a dia, os cidadão têm de apelar para a autoridade judicial para resolver os inevitáveis pequenos atritos cotidianos.

Faz uma semana, a cidade de São Paulo teve um dia de tempestade tropical, daquelas às quais os paulistas estão acostumados desde os tempos do Padre Anchieta, faz meio milênio. A chuva forte derrubou uma árvore, que acabou bloqueando a entrada de uma casa. Ninguém mais pôde entrar nem sair da residência. Os moradores tiveram de batalhar por doze horas até que a prefeitura enviasse um destacamento de profissionais para desobstruir o portão.

Em outros tempos, vizinhos e amigos teriam sido acionados para dar uma mão aos habitantes. Teriam dado um jeitinho. Infelizmente, hoje já não é assim. Nossa sociedade progrediu, a distribuição das tarefas está mais definida que 50 anos atrás. Isso é bom. O lado ruim da história é que o jeitinho amigo está-se perdendo. A noção de solidariedade entre membros de uma comunidade ― que, admitamos, nunca foi muito forte entre nós ― está-se esgarçando a olhos vistos. Em vez de tentar ajudar, hoje chamamos o resgate.

Folha de São Paulo, 21 nov° 2013

Folha de São Paulo, 21 nov° 2013

Mais sintomático ainda dos caminhos preocupantes escolhidos pela sociedade moderna são os comentários formulados pelos leitores da notícia. Um deles preconiza um pedido de ressarcimento por danos morais. Outro vai mais longe e aventa a hipótese de se qualificar o acontecido como cárcere privado ― com suas previsíveis consequências penais.

Temos aí um problemão. Carros continuarão a enguiçar, raios e árvores continuarão a cair. A judiciarização de acontecimentos corriqueiros vai tornar a vida dos brasileiros mais difícil do que já é. Um pouco de bom-senso não faria mal a ninguém.

Se já não chegou lá, a expressão «dar um jeitinho» está em via de se tornar palavrão. Por indecente ― ou por inútil ― periga vir a ser proscrita dos dicionários. Se Ary Barroso ainda vivo fosse, talvez hesitasse em cantar «meu Brasil brasileiro, meu mulato inzoneiro». Entre um Brasil a cada dia menos brasileiro e um afrodescendente de pele clara que não sabe mais dar jeitinho… a coisa vai mal.

Mudança de endereço

Você sabia?

José Horta Manzano

Em (quase) todos os países do mundo, o cidadão escolhe onde quer morar, compra ou aluga sua moradia, e se muda. Até este ponto, imagino que em qualquer parte do planeta funcione (quase) igual. É a partir daí que começam as diferenças.

No Brasil, após a mudança, tchau e bênção. Ninguém fica sabendo onde foi parar o indivíduo. Se ele for organizado, vai providenciar espontaneamente a mudança de endereço nos documentos que trazem essa indicação, como o título eleitoral, por exemplo. Muitos nem isso fazem. Moram num endereço e permanecem inscritos noutra região, às vezes noutro Estado.

Nos países mais regulados, cada município mantém um cadastro dos habitantes. Na Suíça, por exemplo, a coisa é levada extremamente a sério. O cadastro é exaustivo, exato e mantido em dia. Cada morador é registrado na prefeitura, com nome, endereço, telefone e outros dados pessoais.

A consequência tanto pode ser uma vantagem quanto uma desvantagem. Quando se procura localizar alguém, seja por que motivo for, o registro é um ponto muito positivo, essencial mesmo. Já para quem tem culpa no cartório e gostaria de sumir do mapa, este não é o país ideal.A Lusitana

Quando da mudança de casa, o cidadão tem a obrigação de anunciar sua partida do endereço antigo e, em seguida, sua chegada ao novo endereço, ainda que seja no mesmo município. Os que moram de aluguel ― a maioria ― nem precisariam, na prática, cumprir essa formalidade. Os senhorios cuidam de fazê-lo: o antigo anuncia a partida, e o novo anuncia a chegada do morador.

Mas as autoridades são intransigentes: cada habitante, que lhe agrade ou não, tem de fazer o anúncio por si mesmo. Pode ser pessoalmente ou por correio, tanto faz. Mas as autoridades, bondosas, concedem um ‘amplo’ prazo de até 14 dias entre a mudança e o aviso.

Além de anunciar à prefeitura, o indivíduo tem, naturalmente, de cuidar de avisar seu banco, seu empregador, as companhias de eletricidade, telefone e tevê a cabo, as companhias de seguro, e quaisquer outras associações ou instituições às quais esteja ligado. Tem também ― e isto é obrigatório ― de comunicar a alteração de endereço aos serviços que cuidam do registro dos automóveis.

E ai de quem se esquecer de avisar a prefeitura! Uma vez, faz muitos anos, num tempo em que eu, chegado havia poucos anos, ainda não estava a par dessas picuinhas, mudei de endereço. Anunciei minha partida da morada antiga, mas não imaginei que também tivesse de avisar lá onde cheguei. Achei que fosse automático, que os municípios se comunicassem. Não era bem assim. As prefeituras se comunicam, sim, mas isso não dispensa o cidadão de cumprir as formalidades tim-tim por tim-tim.

Alguns dias depois de minha mudança, numa bela manhã ensolarada, tocam a campainha. Abro. Eram dois policiais uniformizados. Após um cumprimento polido mas sisudo e formal, disseram a que vinham: tomar satisfações sobre o anúncio incompleto de minha mudança. Fiquei muito embaraçado. Foram indulgentes e não me multaram, mas saí correndo para formalizar minha chegada junto às autoridades locais e para completar, assim, o ritual.

Foi a primeira vez que a polícia veio me procurar em casa. E espero que tenha sido a última.