O nome

José Horta Manzano

Pobre, analfabeto, sem profissão e sem perspectiva de melhorar de vida, o italiano Giovanni Segnorio decidiu emigrar. Tinha de sair daquele fim de mundo. Corria o ano de 1894. No vilarejo, corriam histórias de conterrâneos que haviam partido para um país novo chamado Brasil – Brasile, como eles diziam – e que haviam feito fortuna em pouco tempo. Diziam até que minúsculas pepitas de ouro rolavam pela rua. Mas a simplicidade de Giovanni não chegava ao ponto de acreditar. Só podia ser balela.

Vendeu a cabra, as galinhas e o casebre que possuía, juntou mulher e filhos pequenos e partiu para a grande aventura. Balançou durante um mês no porão de um vapor, que é como chamavam os navios à época. Ao desembarcar no Brasil, a primeira obrigação foi entrar na fila para declarar a identidade ao oficial de imigração, que inscrevia tudo, com letra caprichada, num livro enorme de capa preta. Foi aí que a história da família se complicou.

Quanto ao nome, que era Giovanni, não houve grande problema. O oficial, pouco versado em línguas estrangeiras, se distraiu e nosso herói se tornou Giovani, com um ene só. Não era tão grave. Já com o sobrenome, a coisa complicou. Ao ouvir Segnorio – que se pronuncia Senhorío, com acento tônico no í – o funcionário escreveu à moda sua, com nh no lugar de gn. Por azar, esqueceu do r. Transcrito, o sobrenome virou Senhoio, estropiado e distante do original. Analfabeto, Giovanni não se deu conta do aleijão, assinou com um xis, deixou as impressões digitais, e seguiu em frente.

Giovani Senhoio trabalhou duro para educar os filhos que, em poucos anos, já estavam perfeitamente integrados na nova terra. O tempo passou, as gerações se sucederam. Mas persistiu aquela chateação de se chamar Senhoio, nome que, lá pelos anos 1940, por excesso de zelo sabe-se lá de quem, passou a ser grafado Senhôio, assim mesmo, com acento. Soava exatamente «sem ôio» – sobrenome mais apropriado para uma família de zarolhos.

João Senhôio, membro da quarta geração, não gostou nunca do nome que lhe tinha cabido. Sentia-se envergonhado, primeiro na escola, depois na vida adulta, a cada vez que tinha de declarar identidade. Um dia, decidiu tentar alguma coisa. Comentou entre os amigos, que lhe recomendaram consultar um advogado pra ver se havia algo a fazer.

João não gostou da ideia. Não botava muita fé em advogado. Era daquele tipo que dispensava intermediação de santo. Preferia falar com Deus. Um dia, foi ao fórum da cidade procurar a informação direto na fonte. Sentado diante de uma mesinha de madeira repleta de carimbos, um atendente lhe disse que mudança de nome só podia ser determinada por via judicial. Em outras palavras, quem decidia era o juiz. João quis falar com um juiz. O atendente respondeu que era impossível, que juiz não atende assim, de supetão, sem hora marcada.

Insistente, João não se deu por vencido. Disse que dali não arredava pé sem antes ver um juiz. Cansado, o atendente fez uma busca interna e descobriu um magistrado livre naquele momento. Perguntou-lhe se podia receber um visitante que tinha uma dúvida simples, seria questão de minutos. Solícito, o juiz mandou subir. E lá foi João.

Diante do magistrado, um pouco impressionado com os móveis escuros e as pilhas de processos sobre a escrivaninha, João não tinha coragem de encarar o juiz. Este, para deixá-lo à vontade, disse, amistoso:

– Sente-se, meu jovem. Fique à vontade.

– Obrigado, doutor. Fico de pé mesmo – respondeu, olhando fixo o bico do sapato.

– Conte então qual é o problema que o preocupa.

– É meu nome, doutor. Tenho muita vergonha e queria mudar.

– Olhe, meu jovem, mudança de nome é coisa séria. Não se pode conceder a torto e a direito, senão como é que havia de ser? Imagine se todo o mundo se dispusesse a mudar de identidade. Não se encontrava mais ninguém. Seria um pandemônio.

– Entendo, doutor. Mas meu caso é sério. Não aguento mais me chamar assim

– Qual é seu nome?

– É João Senhôio, doutor.

– Ah, entendo! Tem razão. Em casos como o seu, em que o nome prejudica a pessoa, a Justiça costuma ser benevolente e atender à solicitação. E já pensou como gostaria de se chamar?

– Já sim, doutor.

– E qual é o nome?

– É Pedro Senhôio.

Aviso aos navegantes

José Horta Manzano

Você sabia?

Este aviso é dirigido aos distintos leitores que residem na Suíça francesa, especialmente àqueles que se preparam para exercer a obrigação de votar domingo que vem.

As urnas eletrônicas NÃO ESTÃO mais instaladas no Consulado-Geral. Desta vez, maquinetas e mesários sorridentes aguardam a colônia em PALEXPO. É isso mesmo, leram bem: Palexpo.

Palexpo - Palácio das Exposições, Genebra

Palexpo – Palácio das Exposições, Genebra

Para quem não conhece, Palexpo é o Palácio de Exposições de Genebra, equivalente ao Anhembi paulistano. Fica grudado ao aeroporto. É de crer que o contingente de conterrâneos tem aumentado barbaridade.

O atendimento oferecido pela agência consular tem melhorado muito estes últimos anos, é verdade. Infelizmente, ainda não chegam a fazer milagres. Botaram a novidade no site, e pronto: quem não leu, mal se deu.

Se você sabe de alguém que vota em Genebra, faça a fineza de passar a informação. Quanto a mim, já avisei os que conheço. Ninguém sabia da novidade.

Fico só imaginando a multidão que – vindo de longe e sem saber da mudança de local – vai se aglomerar na porta do consulado domingo que vem. São coisas nossas.

Para mais amplas informações, visite o site do consulado. Clique aqui.

Interligne 18b

PS: Vote em quem quiser, mas evite eleger mais corruptos. Os que temos já são suficientes.