Quem semeia vento…

José Horta Manzano

… colhe tempestade.
Qui sème le vent récolte la tempête.
Chi semina vento raccoglie tempesta.
As you sow, so shall you reap.
Quién siembra vientos recoge tempestades.
Wer Wind sät wird Sturm ernten.

Catavento

Catavento

A sabedoria vem de longe, mais precisamente do Antigo Testamento. Espertos, os antigos já tinham se dado conta de que, para atrair simpatia, melhor sorrir do que fazer cara feia. Honey catches more flies than vinegar, atraem-se mais moscas com mel do que com vinagre, dizem os ingleses.

Nesta quinta-feira, toda a mídia europeia menciona, em tom levemente jocoso, a desaventura vivida pelo presidente da Bolívia. Por mais que faça ares indignados, nosso caro hermano Evo não convence. Ele sabe muito bem ― ou deveria saber ― por que tantos chefes de Estado europeus desconfiam dele e não procuram esconder esse sentimento.

O presidente do país vizinho tem aprontado estes últimos anos. Aliou-se ao que há de mais duvidoso na vizinhança: Chávez, Correa, Ortega, os Kirchner, os Castros. Já invadiu e encampou refinaria de petróleo brasileira. Acusou diplomatas estrangeiros de espionagem e os expulsou. Num gesto autocrático, fez votar uma Constituição à sua imagem e semelhança e nela inscreveu tudo aquilo que satisfazia seus interesses.

Vento

Vento

O destrambelhado Snowden ― aquele que botou a boca no trombone e agora se esconde ― pediu asilo a mais de 20 países. A maioria deles não quis saber de confusão e caiu fora. Até Correa, presidente do Equador, se esquivou com a justificativa de o candidato ao asilo não se encontrar em território equatoriano.

Já a Bolívia não disse nem sim nem não. Ficou de estudar o caso. Deixou o resto do mundo com a pulga atrás da orelha. Isso dá uma pista sobre o porquê da má vontade com que Evo foi tratado.

O Brasil, naturalmente, juntou sua voz ao coro dos vizinhos para reclamar do trato humilhante dispensado ao mandachuva. É normal que assim seja. Solidariedade diplomática não rima necessariamente com sinceridade. Logo passa.

É difícil entender por que razão Evo, Correa, Maduro & companhia insistem em brigar com os mais ricos. Para começar, são seus melhores clientes e, mais que isso, são justamente aqueles que lhes poderiam dar uma mão nas horas difíceis.

Tempestade

Tempestade

Enfim, eles que resolvam seus próprios problemas. Tolice será o governo brasileiro ir além da solidariedade de fachada. Não há razão para nos equipararmos a esses ressentidos, a essa gente que estacionou nos anos 50.

Os doze anos de experiência no comando já devem ter ensinado a nosso governantes que ideologia não dá camisa a ninguém.

Aqui se faz, aqui se paga. Quem não quiser ser colhido pela tempestade, que não semeie o vento.

Vesgo

José Horta Manzano

Acostumados que estamos a ouvir políticos de alto coturno discursando ou dando entrevista diante de câmeras, tendemos a imaginar que a boa postura e o recato fazem parte da personalidade de cada um deles.

Crédito: Ginette Ayral

Crédito: Ginette Ayral

Não é necessariamente assim. Como qualquer ser humano, eles também têm seus momentos de descontração, contam pilhérias em rodas de amigos, se soltam quando se sentem em ambiente menos pomposo.

Embora isso aconteça frequentemente, o mais das vezes o público não chega a ficar sabendo. São momentos reservados a plateia cúmplice e reduzida.

Mas todo cuidado é pouco. Nestes tempos em que cada um carrega no bolso uma máquina fotográfica, uma filmadora e um gravador, há que redobrar o cuidado. Melhor pensar duas vezes antes de pronunciar palavras desairosas.

Faz alguns dias, o presidente do vizinho Uruguai se viu numa situação embaraçosa. Momentos antes do início de uma palestra oficial, acreditando que os microfones estivessem desligados, referiu-se à mandachuva do outro lado do Rio da Prata com palavras pouco elegantes.

Para azar dele, os microfones já estavam ligados. E deu no que deu. A cena foi vista, ouvida, fotografada, gravada e filmada. Não tem como deixar o dito pelo não dito.

Ao referir-se à presidente da Argentina, o figurão, entre outras amabilidades, saiu-se com esta: «Esta vieja es peor que el tuerto. El tuerto era más político, esta es más terca».

Em vernáculo tupiniquim, ele disse nada menos que: «Esta velha é pior que o vesgo. O vesgo era mais político, esta é mais cabeça-dura».

Todos entenderam que «o vesgo» era o falecido Nestor Kirchner e que «a velha» é a viúva, a atual presidente.

Pegou muito mal. Já não não bastasse que os recatados habitantes das Falkland/Malvinas se refiram amavelmente a Doña Cristina como «old plastic face», vem agora o muy amigo vizinho pisar a ferida e chamá-la de «vieja». A presidente há de ter apreciado o cumprimento.

.:oOo:.

Fiquei pensando que, com uma pequena adaptação, a observação do senhor Mujica cairia como uma luva para nossos dois mais recentes mandachuvas maiores. Bastaria substituir «o vesgo» por uma palavra mais condizente, mais clara, mais branquinha. Deixo que cada leitor encaixe o termo que lhe parecer mais adequado.

O resto da frase fica como está.