Vox populi

José Horta Manzano

A pluma do jornalista Lauro Jardim nos informa que convocar a manifestação na Avenida Paulista duas semanas atrás foi um grande erro que Bolsonaro cometeu. Não se trata de opinião de uma pessoa, mas de resultado de pesquisa do Ipec, instituto que, entre os dias 1° e 5 de março, consultou dois mil eleitores sobre o assunto.

A uma questão direta, a resposta tem de ser direta. A pergunta era: “Na sua opinião, está certo ou errado o ex-Presidente Jair Bolsonaro convocar um ato em seu apoio após se tornar alvo de investigação da Polícia Federal pela suspeita de ter planejado um golpe de Estado?”. E a resposta só podia ser “certo” ou “errado”, sem mais nuances.

Pasmem: 61% dos entrevistados julgam que Bolsonaro errou ao organizar o comício. O resultado é surpreendente, visto que, pouco mais de um ano atrás, o país saiu das eleições dividido em dois campos de tamanho praticamente igual.

A pesquisa mostra que não só os que votaram no Lula acham que Bolsonaro fez uma grande besteira. Até entre os que têm simpatia pelo capitão e nele votaram, um eleitor em cada três acredita que ele errou.

Ao longo de seu mandato, Bolsonaro especializou-se em convocar reuniões, entrevistas e comícios que, sendo erros políticos, desabaram sobre sua cabeça.

* Vamos lembrar das desastrosas reuniões ministeriais em que a enxurrada de palavrões não encobriu a estupidez e a maldade do que foi dito. A última delas está até servindo de prova nos processos movidos contra o ex-presidente.

* Vamos recordar também o calamitoso “brienfing” com Suas Excelências, os embaixadores de países amigos. Esse meeting absurdo cobrou custo pesado: provocou a inelegibilidade do capitão.

* E não nos esqueçamos do trio elétrico montado nas comemorações de 7 de setembro, alguns anos atrás, peça importante entre as acusações que pesam sobre o ex-presidente.

Lula tem cometido erros primários, que embaçaram o brilho que envolvia sua personalidade. No entanto, verdade seja dita, até agora se absteve de convocar “brienfings” e manifestações em causa própria.

Que continue assim, pra não arriscar ficar cada dia mais parecido com seu predecessor.

Inelegibilidade

by Kleber Sales

José Horta Manzano

Talvez o distinto leitor e a encantadora leitora se recordem de um caso escabroso, ocorrido uns dez anos atrás, envolvendo um médico que acabou condenado a quase 300 anos de prisão por abusar sexualmente de pacientes. Paralelamente, o Conselho de Medicina decidiu anular seu direito de exercer. Seu registro de médico foi definitivamente cassado.

Um caso mais recente envolveu outro médico, um anestesista, filmado enquanto estuprava uma paciente anestesiada – uma história abjecta. Também esse perdeu definitivamente o direito de continuar a exercer. Pode até sair da cadeia um dia (certamente sairá), mas terá de procurar outra profissão.

É longa a lista de profissionais, não só da área médica, que perderam o direito de exercer em consequência de terem desonrado a profissão.

Jair Bolsonaro está sendo julgado por flagrante desvio de conduta cometido enquanto exercia a Presidência do país. O caso mais notório foi aquele “brienfing” para o qual convocou dezenas de embaixadores lotados em Brasília para “revelar-lhes” que o sistema eleitoral brasileiro era um jogo de dados viciados, verdadeira roleta fraudada.

O veredicto ainda não saiu no momento em que escrevo, mas observadores acreditam que o ex-presidente será julgado culpado, e que a pena será a perda de seus direitos políticos. Trocado em miúdos, talvez continue a ter o direito de votar, mas não poderá ser votado. O curioso é que a pena é limitada no tempo: vale somente por 8 anos.

Esse homem deu provas, durante quatro longos anos, de não estar apto para exercer a Presidência do país. Se está recebendo essa pena, não é por castigo – é o país que se protege contra um indivíduo que atentou durante seu inteiro mandato contra as instituições. O capitão não é culpado por ter escorregado uma vez, quiçá sob efeito de uma qualquer medicação. Seu problema é incrustado, permanente e incurável.

Sabe-se que, ainda nos longínquos tempos de capitão da ativa, já planejava explodir instalações do Exército. Durante seus anos na Presidência, fez o que pôde para explodir o Estado brasileiro. Seu caso não tem solução. Afastá-lo por 8 anos dá alívio temporário mas não resolve. Ele periga voltar para chacoalhar o coreto em 2030.

Imagine você se, no caso dos médicos indignos, fosse dado um “castigo” de 8 anos. Seria apenas uma suspensão temporária. Findo o prazo, eles voltariam à carga com todo o risco que isso comporta. A cassação do direito de exercer não deve ser vista como punição, mas como medida de proteção da sociedade.

No caso de um ex-presidente, permitir que ele um dia possa voltar ao lugar do crime para cometer as mesmas barbaridades pelas quais foi condenado é temeridade. Seus direitos políticos teriam de ser cassados definitivamente. Para sempre. Em seu caso, não há esperança de remissão.

Lembra do “brienfing”?

José Horta Manzano

Parece que faz um século, mas aconteceu quatro meses atrás. Foi quando um desesperado capitão convocou o corpo diplomático acreditado em Brasília para revelar-lhe que nosso elogiado sistema eleitoral era disfuncional e fraudulento.

Todos hão de ter duvidado da sanidade mental do presidente. Disfuncional mesmo é um sujeito que venceu todas as nove eleições de que participou dizer que o sistema é aberto a fraudes. Coisa de desequilibrado.

Presidentes ignorantes, corruptos, populistas, mentirosos, incapazes, já tivemos. Mas a história não assinala nenhum que tenha convocado o corpo diplomático acreditado em Brasília para falar mal do Brasil. Fico imaginando os termos que cada embaixador utilizou no relatório enviado a seu respectivo governo. É melhor nem ficar sabendo. De vergonha, basta o que o capitão disse em público.

Na ocasião da palestra oferecida por Bolsonaro aos embaixadores, o telão erguido ao lado do orador dizia que a palestra era um “brienfing”. A palavra utilizada me pareceu ofensiva e presunçosa. No original, designa uma reunião em que o discursante dá instruções aos que assistem. Para coroar, foi mal grafada. Por ignorância ou desleixo, enfiaram um “n” onde não devia estar. O correto é “briefing”.

Francamente, ignorância e desleixo parecem estar incrustadas no universo bolsonarista. A foto acima foi tirada num desses acampamentos organizados diante de quartéis. De novo, maltrataram uma palavra da língua inglesa. “Freedom” (=liberdade) aparece mal grafada.

Quem bolou o texto julgou que palavra terminada em “m” parece brasileira, não inglesa. Deve ser por isso que tascou um “n” no fim. Fica com ar mais estrangeiro. É como alguns “Willian” que há por aí.

Antigamente se dizia que “quem não tem competência, não se estabelece”. Parece que o ditado já não vale.

Ação e reação

José Horta Manzano

Artigo publicado pelo Correio Braziliense de 30 julho 2022

Vladímir Putin é homem esperto. Até antes do tremendo erro tático que cometeu ao invadir a Ucrânia numa guerra de conquista, sua ascensão tinha sido fulgurante. Obscuro funcionário burocrático dos serviços de espionagem até o fim dos anos 1980, perdeu o emprego assim que o império soviético se desintegrou. De volta à pátria, pôs um pé na política ao se aproximar do então prefeito de São Petersburgo, segunda metrópole do país.

O prefeito era sabidamente “capo” de uma rede mafiosa. O fato não saía nos jornais, mas, à boca pequena, todos sabiam. O jovem Vladímir há de ter se entendido bem com o chefe, visto que este lhe abriu as portas de uma carreira política à moda russa: sinuosa, mas certeira. Poucos anos depois, Putin já se encontrava em Moscou, agora sob as asas de outro figurão: Borís Eltsin, presidente do país.

Eltsin simpatizou com aquele funcionário taciturno que estava comandando os serviços de segurança interna. Imaginou que ele pudesse ser-lhe útil. Bonachão mas desregrado, Eltsin não vinha governando bem. O país, após oito anos vividos sob sua presidência, encontrava-se em má situação. Uma nova classe de ávidos oligarcas tinha se apoderado do espólio da antiga União Soviética. A população estava desassossegada. No final de 1999, acossado por escândalos de corrupção, Eltsin renunciou à Presidência e deixou Putin em seu lugar como substituto temporário. Nas eleições seguintes, Putin foi confirmado no cargo. Desde então, não deixou o topo do poder.

Nos primeiros anos, foi visto pelo mundo como dirigente respeitável. Foi até convidado a integrar o grupo das nações mais ricas, que então se chamava G8. Em 2014, porém, a Rússia invadiu e anexou a Crimeia, território ucraniano. A partir desse momento, Putin foi desconvidado pelo G8 e a Rússia foi posta de molho. Alguma sanção econômica foi infligida, mas nada que bloqueasse o país.

Se a anexação da Crimeia pareceu ter sido digerida, a invasão da Ucrânia, em 2022, passou dos limites. Ressuscitou dolorosas lembranças de guerras passadas. Era intolerável ver uma nação europeia invadindo outra nação europeia. A reação do mundo civilizado foi imediata, unânime e radical. Sanções duríssimas foram aplicadas ao país.

Mas o pior, a marca que permanecerá por décadas e décadas, é a degradação da imagem da Rússia e de seu povo. A Europa e o mundo voltaram a temer o urso soviético – e quem teme, repele. Em poucas semanas, Putin destruiu a normalidade que tinha sido construída desde a queda do Muro de Berlim. Gerações de russos, embora não sejam culpados dos delírios de Putin, sofrem hoje e vão continuar amargando a desconfiança e a repulsa dos povos civilizados.

Diferentemente de Putin, Bolsonaro não é esperto. Desde o início de seu mandato, parece não conhecer outro modo de operar se não o da marretada. Se a porta não abre, prefere demoli-la, sem que lhe ocorra entrar pela janela. Se encasqueta que tem de armar a população, pouco se lhe dá que pesquisas informem que a maioria abomina essa ideia: armará seus sequazes. Falta-lhe o senso da nuance. Sua personalidade é feita de arestas aceradas. Em seu lugar, um indivíduo de mente arejada já teria se dado conta de que ventos contrários ameaçam sua almejada reeleição. Ele não parece perceber que é hora de dar o pulo do gato, ainda que fosse preciso guardar na geladeira algumas convicções. Não – continua na marretada.

O mundo civilizado não é anestesiado como Bolsonaro parece imaginar. Se não foi vaiado ao fim do “brienfing” a que convocou os embaixadores, é porque diplomata é discreto por dever de ofício. Mas paciência tem limites e ninguém atura ser feito de bobo. Se o mundo continua calado, é por estarem todos no aguardo das eleições de outubro. Caso o capitão seja reeleito, a passividade terminará em janeiro. Caso dê autogolpe, a reação será imediata. Os EUA já deram o tom ao redigir a nota de repúdio à fala presidencial.

Se as forças vivas da nação não reagirem com vigor, os países civilizados o farão. O mundo precisa menos do Brasil do que o Brasil precisa do mundo. Segurem-se, que a reação vai ser forte! Ricos e pobres, todos vão sentir.

Crime de responsabilidade

José Horta Manzano

Bolsonaro passou por cima do Itamaraty e mandou o chefe de cerimonial do Planalto convidar embaixadores estrangeiros lotados em Brasília para um encontro a realizar-se nesta segunda-feira. O convite não explicita o tema da reunião, mas todos já sabem do que se trata. O capitão já deixou vazar que tem intenção de “convencer” os diplomatas de que o sistema brasileiro de voto eletrônico é falho, disfuncional e aberto à fraude.

Em resumo, o objetivo é enxovalhar nosso avançado processo de voto, sistema que vem dando satisfação há um quarto de século. O presidente prefere não recordar o fato de ele vir sendo eleito e reeleito há décadas por esse mesmo sistema. Ousa acusar de fraudulenta a última eleição presidencial, vencida por ele. Os diplomatas hão de estar perplexos com o contorcionismo presidencial.

Agora vamos aos fatos. Eu, você e o menino da porteira, que não somos personalidades públicas, somos livres de ter e exprimir nossas opiniões. Já com o presidente, o caso é diferente. Ao receber em palácio diplomatas estrangeiros, ele deixa de ser o cidadão Jair Bolsonaro. Naquele momento, ele é o presidente da República do Brasil. Suas palavras têm um peso que as nossas não têm.

Diplomatas costumam ser discretos, é o próprio da função. Difícil será obter deles algum comentário depois do encontro. Mas as paredes têm ouvidos. Nestes tempos de redes sociais hiperativas, não vamos tardar a saber o que foi dito.

Caso se confirme que o presidente chamou representantes de dezenas de países estrangeiros para difamar e desacreditar nosso sistema eleitoral, rebaixando o Brasil ao vergonhoso patamar de republiqueta de bananas, ele terá cometido flagrante crime de responsabilidade – um crime que o expõe a processo de impeachment.

É surpreendente que ninguém, no entourage presidencial, tenha alertado o chefe para esse risco. Talvez seja a demonstração de que essa gente não pensa com a própria cabeça e não consegue enxergar um palmo além do nariz.

Se o crime não for denunciado por nenhum parlamentar da oposição, será porque estão todos dormindo no ponto.

A adega do Lula

Cláudio Humberto (*)

Lula caricatura 2Na reta final do governo, as visitas do Lula ao exterior foram marcadas por ligações do Planalto às embaixadas do Brasil informando que o então presidente “esperava receber de presente” algumas caixas de vinhos especiais, cuja lista era em seguida enviada.

Embaixadores do Brasil naquela ocasião afirmaram à coluna, pedindo anonimato, que recebiam o “pedido” do Planalto como um ultimato. Outros diplomatas interpretaram o pedido como uma “oportunidade de agradecer” pelo posto que ocupavam no exterior.

Lula deixou o Alvorada com 1.403.417 itens transportados em 11 caminhões da Granero no trajeto de Brasília a São Bernardo (SP). Um dos veículos, climatizado, levou espantoso acervo de vinhos. Dona Marisa pediu à Granero “cuidado redobrado” com a adega do Lula.

A oposição planeja, este ano, esmiuçar a formação da adega do Lula, considerada como uma das mais valiosas de todo o País.

(*) Cláudio Humberto, bem informado jornalista, publica coluna diária no Diário do Poder.