Macaca

Estadão, 15 out° 2024

José Horta Manzano

Imagine só. Um dia, na escola, você comete uma enormidade. Não digo uma besteirinha, não, você lança uma tremenda ofensa verbal a uma colega. Se, em outros tempos, tal “deslize” poderia passar batido, hoje não é mais assim: é ato criminoso.

Pois aconteceu. Não foi no Parquinho Infantil da Dona Mariquinhas, mas num conhecido instituto de ensino superior. Uma aluna, dotada de espírito refinado, chamou uma colega de macaca.

Imagino o rebuliço causado pela injúria racial. Orientação, diretoria, conselho de disciplina se concertaram e deram o veredicto: expulsão da aluna raivosa.

O auê deveria terminar aqui, mas estamos no Brasil, o que é que há? Sem vergonha do ridículo, a expulsada recorreu à justiça, obteve uma decisão liminar favorável e… retornou às aulas na faculdade. Tremenda cara de pau!

O primeiro pensamento que me ocorreu foi que o comportamento arrogante da expulsanda decorria, em linha direta, do ambiente que se instalou em nosso país desde que Bolsonaro assumiu a Presidência. É um incômodo caso em que ignorância e prepotência se mesclam numa espetacular carteirada.

Presume-se que a formação educacional da expulsanda esteja sendo financiada por sua família, o que significa que, além de apoiar a jovem em sua atitude, ainda cobrem o custo do advogado e as custas do processo. Sinal evidente de que concordam com a atitude da herdeira.

Em seguida, num segundo momento, me pareceu que unicamente o apoio da família não seria suficiente para fazer a jovem voltar aos cursos na cara dura. Se, entre os colegas de classe, prevalecesse um sentimento de indignação, a expulsanda com certeza não cometeria o despeito de voltar às aulas, com receio de ser massacrada pelas demonstrações de repulsa da classe inteira.

E concluí que o afago da família não é o único esteio do espírito soberbo da aluna. Tudo indica que parte significativa dos colegas de classe estão com ela e concordam com seu xingamento.

O mundo mudou, minha gente. As porteiras estão abertas. Sinais inquietantes pipocam aqui e ali, a todo momento. Preparem-se porque no futuro vem mais.

Tudo errado

José Horta Manzano

Contra a atual corrente que leva pequenos Estados a unir forças para atingir «massa crítica», como se costuma dizer, o movimento independentista tem-se exacerbado na Catalunha, uma das regiões autônomas que formam o Reino da Espanha. Liberdade de usar a própria língua e permissão de ser dirigidos por governo autônomo não lhes parecem suficientes. Muitos catalães querem cortar o cordão umbilical e conseguir independência total.

As motivações são tão diversas quanto o número de adeptos da independência: cada um tem avaliação própria do assunto. Não há um objetivo único. Cada cidadão tem sua visão pessoal. Visto assim, de fora, é difícil entender.

Entre os partidários da separação, há de tudo. Alguns se sentem oprimidos pelo governo central, como se não passassem de colônia de Madrid. Outros, menos altruístas, julgam que o fato de não serem independentes atravanca o progresso da região que, afinal, tem o PIB per capita mais elevado do país. Há ainda os ressentidos, aqueles que viveram os anos da ditadura franquista e não conseguem esquecer o (longo) tempo em que, rebaixados e humilhados, não tinham sequer o direito de utilizar a própria língua.

Do outro lado da cerca, estão os que se opõem à separação. Mais realistas, dão-se conta de que a Espanha é o maior comprador da produção catalã e que, sem esse importante cliente, a produção local periga desabar. Muitos se lembram também de que, uma vez independentes, serão automaticamente excluídos da União Europeia. Para toda nova admissão no clube, a regra exige aprovação unânime. É aí que a porca torce o rabo: como conseguir aprovação da Espanha? Não será tarefa simples. Tem mais. Os mais idosos se perguntam quem garantirá sua pensão de velhice? E a questão da nacionalidade, como é que fica? Que fatores determinarão quem será e quem não será catalão? E a dupla nacionalidade será reconhecida? E a moeda ‒ obterão permissão para continuar dentro da zona do euro?

Muitas são as questões em aberto. Tenho, cá pra mim, a impressão de que, se Madrid permitisse a realização do plebiscito, o resultado poderia ser decepcionante para os independentistas. Embora sejam muito barulhentos, nada garante que sejam majoritários.

Por seu lado, a atitude que está sendo tomada pela Espanha é prepotente e antipática. Proibir a consulta popular, confiscar urnas e cédulas de voto pode ficar bem numa Venezuela. Na Espanha, não combina. Antipatia gera antipatia. Prepotência provoca violência. O empenho de Madrid em impedir a realização do plebiscito deixa a impressão de que o direito à independência está sendo negado a uma imensa maioria de cidadãos. Pode ser que não passem de minoria. Sem plebiscito, quem saberá?

Entendo que a Espanha não queira ver seu território amputado de uma região importante. Assim mesmo, julgo que, se os catalães querem seguir o próprio caminho, que assim seja. Tchau e bênção. Madrid deveria adotar atitude menos prepotente. O fato de proibir o atual plebiscito não sufocará o anseio independentista de muitos catalães. Melhor seria deixar que votassem. Se, como imagino, o voto unionista fosse majoritário e o plebiscito confirmasse isso, os ânimos se acalmariam por dez anos pelo menos.

Nota
O território da Catalunha, cuja capital é a cidade de Barcelona, se estende por 32 mil quilômetros quadrados, pouco mais que nosso estado das Alagoas. Conta com 7,5 milhões de habitantes, um pouco mais que a população do estado do Maranhão.

Recolando os cacos

Cláudio Humberto (*)

O fim da baixaria
Diplomatas brasileiros comemoram, mundo afora, o fim da baixaria que marcou as viagens internacionais dos governos do PT.

As comitivas oficiais, de Lula ou de Dilma, tratavam os diplomatas como criados. E ainda deixavam para trás problemas para as embaixadas resolverem, como quando uma nora do ex-presidente Lula achou de meter na mala ricas toalhas e lençóis do hotel. Pagos, depois, pelo contribuinte, claro.

No exterior, a ex-presidente Dilma costumava humilhar diplomatas, referindo-se a eles com ironia até diante de próceres estrangeiros. Dilma abusava de diplomatas, como ocorreu em Londres e Oslo, ordenando até que lhe fritassem ovos caipiras, que sempre levava na bagagem.

Em hotéis de luxo, era frequente membros das comitivas presidenciais implicarem até com a mobília, exigindo sua troca. Sempre aos gritos.

rei-1As desculpas
Por orientação do presidente Michel Temer, o ministro Blairo Maggi (Agricultura) sepultou um impasse diplomático com o governo do Vietnã, que se arrastava desde 2013, provocado por uma grosseria da ex-presidente Dilma: ela cancelou de última hora uma audiência para receber Nguyen Phu Trong, herói do Vietnã e líder máximo do Partido Comunista, que veio ao Brasil sob a garantia de que seria recebido.

O episódio em Brasília representou grande humilhação para Nguyen Phu Trong e o Vietnã, que o tem como uma espécie de “semideus”. O Itamaraty divulgou a lorota de que o ex-chanceler Antonio Patriota foi a Hanoi pedir desculpas. Mas, se ele fez isso mesmo, de nada adiantou. Em visita real a Hanói, Blairo Maggi pediu desculpas e acabou homenageado por Nong Manh, sucessor de Nguyen Phu Trong.

Aliás, a situação do PT é tão ruim que faz lembrar a frase profética do saudoso jornalista Joelmir Beting, que há anos avisou: «O PT começou com presos políticos e vai terminar com políticos presos».

(*) Cláudio Humberto é jornalista. Publica coluna diária no Diário do Poder.

O ministro de Patos

Sebastião Nery (*)

Tropa 1João Grande, lá na Paraíba, era um tropeiro alto e muito forte, de mãos enormes, pernas arqueadas e botas cravadas de ferro. Levou uma tropa para Patos, cidade vizinha, depois sentou-se no bar, pediu uma cerveja e ficou ali olhando a praça e o povo.

Percebeu que, na calçada em frente, as pessoas iam andando e, de repente, quando chegavam diante de uma casa, desciam da calçada, davam uns passos na rua, subiam novamente a calçada e seguiam.

Foi ver o que era. Era a casa do delegado, que tinha posto uma placa na porta proibindo toda pessoa de passar pela calçada da casa dele, para não fazer barulho. É porque gostava de tirar uma madorna, uma soneca, todas as tardes.

Interior 1João Grande ficou indignado. Arrancou a placa e começou a andar na calçada proibida, batendo forte no chão com as botas cravadas de ferro. O delegado, irado, saiu de lá de dentro como uma fera, os olhos esbugalhados, abriu a porta, viu aquele homenzarrão de botas barulhentas, deu um sorriso amarelo, afinou a voz:

– Boa taaarde!

Burro 3João Grande não disse nada. O delegado também calou. Na calçada, já pronto para descer, andar pela rua e subir novamente a calçada, como fazia todos os dias e a semana toda, vinha vindo um homem baixinho, pequenininho. Vinha trotando, quase correndo, com um cesto na cabeça equilibrado numa rodilha de pano. Quando viu a cara amofinada do delegado, parou, olhou bem para ele e gritou:

– Olha o abacaxi!

Nunca mais, a partir daquele dia, o homenzinho do abacaxi desceu da calçada do delegado. Ele nem ninguém. João Grande jogou a placa na rua e voltou pra sua terra com as mãos enormes e as botas cravadas de ferro.

(*) Excertos de artigo do jornalista Sebastião Nery.