O pizzo

Folha de São Paulo, 23 mar 2022

José Horta Manzano

Na linguagem da bandidagem mafiosa italiana, o pizzo – italianização do original siciliano “pizzu” – é uma forma de extorsão praticada por organizações criminosas. É a “taxa de proteção” cobrada de pequenos comerciantes e até de empresas de porte médio, que não têm outro remédio se não pagar.

Não se tem certeza sobre a origem do termo. É aceito por todos que se trata de forma dialetal siciliana. Dado que, no falar daquela ilha, “pizzu” é o bico de pequenas aves, acreditam alguns que o ato mafioso lembre as bicadinhas que passarinho dá quando se alimenta. Já outros são de opinião que “pizzu” seja uma forma abreviada de “capizzu” (cabeceira da cama), transmitindo a imagem de que os que se resignam e pagam o pedágio podem descansar tranquilos.

E ai de quem não pagar! Uma manhã, ao chegar para abrir a loja, o recalcitrante pode ter a terrível surpresa de encontrar seu comércio incendiado. Os que forem se queixar às autoridades correm até risco de vida.

Nesta altura, quero fazer uma correção. Mais de uma vez, devo ter qualificado o Brasil como terra de bandidos. Eu não estava fundamentalmente errado, mas a definição estava imprecisa.

Estes dias, quando as manchetes trazem a notícia das práticas vigentes no Ministério da Educação (da Educação!), sou obrigado a desembaçar minha definição. Não vivemos numa terra de bandidos, mas numa terra de mafiosos.

Nos tempos do mensalão e do petrolão, a dinheirama extorquida vinha de grandes empresários, principalmente do ramo de construção. No final, quem acabava sendo lesado era o povo, naturalmente, mas a conta chegava de modo indireto, em suaves prestações.

As notícias dessa nova forma de “pedágio” mostram que a bandidagem se alastra e contamina nosso quotidiano. A curriola que dá sustentação ao governo federal não mais se limita a extorquir milhões de grandes empresários. Seus tentáculos já estão coagindo prefeitos a pagar o “pizzo”.

Falta muito pouco para chegarem ao cidadão comum. Em breve, estaremos todos alimentando diretamente a máfia que se instalou nas entranhas da República e que vem sendo acariciada – e incentivada – pelos mais altos escalões que nos presidem.

Em matéria de corrupção generalizada, estamos correndo a passos largos para transformar nosso país numa grande Venezuela ou numa Rússia tropical.

É verdade, mesmo!

José Horta Manzano

A Interpol acaba de incluir em seu seleto rol de procurados o Signor Henrique Pizzolato, antigo diretor do Banco do Brasil, condenado a quase 13 anos de reclusão no processo do mensalão.

O homem foi diretor do Banco do Brasil, minha gente! O banco mais antigo do País, aquele que abriu as portas em 1809, por vontade de Dom João VI. Justamente aquele que estampa, na versão inglesa de seu site, o lema «A history of trust» ― uma História de confiança. Quanta ironia…

Wanted! ― Henrique Pizzolato ― Wanted!

Wanted! ― Henrique Pizzolato ― Wanted!

Por enquanto, pelo menos, o cavalheiro fugido escapa da Papuda. Tranquilo, vai poder usufruir da parte que lhe coube do butim surrupiado do suado povo brasileiro. Tranquilo? Tenho lá minhas dúvidas.

Não deve ter sido fácil escolher entre passar algum tempo eclipsado numa cela brasileira padrão cinco estrelas, ao abrigo de olhares indiscretos, e passar o resto da vida se esgueirando rente aos muros italianos e desconfiando da própria sombra. O Signor Pizzolato fez sua escolha. Ganhou, com isso, o raro privilégio de ter nome, idade e foto difundidos pela polícia internacional. Wanted! É glória reservada a um punhado de gente fina.

Lembrei-me de um detalhe pitoresco. Há de ser mera coincidência, mas vale a pena mencionar. Uma das tradicionais atividades da mafia siciliana é o achaque de pequenos comerciantes. Os pequeninos são coagidos a pagar aos criminosos uma «taxa de proteção». Caso se recusem, as represálias podem chegar à destruição do comércio ou até pior que isso. Em terras sicilianas, o montante extorquido leva o curioso nome de «pizzo».

A desonestidade já é terrível defeito. Mas a defecção ― uma traição perpetrada contra seus próprios comparsas ― é ainda mais tremenda. Shame on Signor Pizzolato. Vergogna!

Pra que lado eu corro?

José Horta Manzano

Salsicha

Fabricação de salsicha

«Gesetze sind wie Würste, man sollte besser nicht dabei sein, wenn sie gemacht werden»

Leis são como salsichas: é melhor não estar por perto quando são fabricadas.

Citação atribuída a Otto von Bismarck (1815-1898), homem político alemão.

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Decididamente, há um bocado de esquizofrenia na maneira como o governo brasileiro vem-se comportando com relação às revelações públicas de espionagem americana.

Lado A
Pela pluma de Denise C. Marin, o Estadão de 8 de agosto nos informa que o Planalto está disposto a dar «proteção» ― seja lá o que isso signifique ― a um jornalista americano. Note-se que o homem a quem se está propondo proteção não a solicitou. Oferecer blindagem a quem não pediu é prática utilizada sistematicamente por organizações mafiosas. Vindo de um governo, é menos usual.

Mas essa é uma outra história. Soaria artificial se eu comparasse a proteção garantida pelo Estado brasileiro a estrangeiros divulgadores de segredos de Estado com o pizzo extorquido por chefes de clã sicilianos em troca de defesa e segurança.

O jornalista é cidadão americano, vive no Brasil e oficia como correspondente do jornal londrino The Guardian. Andou escrevendo, no respeitável periódico para o qual trabalha, aquilo que todos já sabiam sem que estivesse escrito. Disse simplesmente que espiões espionam.

É uma das práticas mais antigas do planeta. Ela começa com vizinhos, que se espreitam através das frestas da veneziana. Passa por camelôs, firmas comerciais, indústrias, que se espiam como podem, com maior ou menor classe. E chega até países, que se espionam mutuamente com a sofisticação de que são capazes.

Todos fazem isso. Não é o fato de não se falar de um fato que faz que ele não exista. Não se costuma falar de espionagem, mas a realidade é que ela sempre existiu e sempre existirá. De certas coisas, não convém falar. Ponto e basta. É como a fabricação de salsichas: mais vale não conhecer detalhes.

Lado B
O mesmo artigo do Estadão nos dá conta de que o governo brasileiro anda preocupado com a visita aos EUA, que dona Dilma tem programada para o mês de outubro. Nestes tempos de popularidade escassa, na falta de uma recepção com chuva de papel picado na Quinta Avenida, umas fotos sorridentes ao lado de Obama fariam grande bem a nossa mandachuva.

Essa é sem dúvida uma das razões que explicam esse comportamento «morde e assopra» do governo brasileiro. Com a China desacelerando, é prudente não levantar muito a crista perante um de nossos maiores clientes.

Rica de informações, a matéria do jornal ainda informa que o Brasil está propenso a retomar com os EUA as negociações, emperradas faz quase 15 anos, sobre o compartilhamento da base de lançamento de Alcântara. Compartilhar com o inimigo que nos espiona! Quem diria…

Conclusão I
Que o país que nunca espionou nenhum outro atire a primeira pedra! Essa lapidação não periga acontecer.

Conclusão II
Essas «revelações» feitas por iluminados ou por surtados podem causar algum espalhafato mas não abalam a marcha do mundo. Se a História guardou o nome de alguns espiões famosos tais como Judas, Mata Hari, Joaquim Silvério dos Reis, Günter Guillaume, não há registro de denunciadores de espiões.

Com ou sem «proteção» do Estado brasileiro, a glória desse senhor será efêmera.

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