Caneta vermelha neles

Escola elementar

Escola elementar

Um levantamento do jornal Correio Braziliense com súmulas do Brasileirão do ano passado e dos principais estaduais do país em 2013 mostra como alguns juízes expulsam a língua portuguesa de campo sem cerimônia.

Artigo de Amanda Martimon
Publicado na edição online do Correio Braziliense de 3 jun 2013

Errar marcação de “penalt” não tem perdão para o time desfavorecido. Tampouco “carrinhar por detrás” o adversário pode passar despercebido pela “árbitragem”. Depois de 90 minutos ouvindo pitacos, reclamações e xingamentos às mães, os árbitros têm ainda uma última missão antes de ir para casa: preencher a súmula da partida. E é nessa hora, no vestiário, sem olhares à espreita, que os papéis se invertem e eles cometem de infrações leves a penalidades máximas.

“Subistituições, paralizações, acrécimos, discursões, condições das estalações, chingamentos”(sic), tudo isso é relatado — assim, por escrito — ao fim do jogo. Se “ouve” problemas durante a partida ou se ocorreu tudo dentro “das normalidades”, está lá, anotado. A falta “acentosa” cometida “intensionalmente” ou “intencionaumente” é sempre registrada. E nem adianta o jogador “contextar” ou reclamar de maneira “assintosa”.

Às vezes, os árbitros até acertam na ortografia, mas são traídos pela falta de espaço. Quando não cabe a palavra na mesma linha, a falta à regra de separação silábica é clara. “Diretame-nte, expu-lsões, invadi-ssem” são algumas paradas bruscas nas súmulas do Candangão deste ano.

Clássico entre os erros de português, a conjugação errada do verbo haver não foi “excessão”, como diria, ou melhor, escreveria um árbitro no Campeonato Mineiro. Em súmulas do Carioca ou do Paulista, lá está, em destaque na primeira linha e, às vezes, na única frase do relatório: não “houveram”. Pior quando a infração é dupla, como “paralizações havida”. Vermelho para ele, naturalmente.

Para completar a seleção de equívocos com o mesmo verbo, alguns batem na trave. Acertam no tempo verbal, mas pecam na finalização. Sem o “h”, tem jogo em que “ouve” expulsão e jogador que já “avia” levado cartão.

Presidente da Associação Nacional dos Árbitros de Futebol, Marco Martins reconhece que os erros de português em súmulas preocupam e não deveriam ocorrer em grandes campeonatos, como o Brasileiro. “Subentende-se que, quanto maior o nível do árbitro, maior a qualificação. No Campeonato Brasileiro é anormal, não deveríamos ter muitos.” Nos cursos de formação, os aspirantes a árbitros têm aulas de redação e orientações para preenchimento das súmulas. “A gente se preocupa em aprimorar a língua portuguesa, pede para que haja cuidado, mas isso não é um problema específico da arbitragem, é da qualidade no ensino no Brasil”, justifica o presidente, em entrevista ao Correio.

Árbitro Crédito: Kopelnitsky, EUA

Árbitro
Crédito: Kopelnitsky, EUA

Fora do ar
Novidade no Campeonato Brasileiro do ano passado, a súmula eletrônica colocou o árbitro goiano Elmo Cunha, do quadro da CBF, em uma saia justa. Apitando Palmeiras x Botafogo nas rodadas finais do torneio, o juiz não conseguiu usar a internet para preencher a súmula no computador. Do jeito tradicional, ele escreveu apenas à mão e registrou o incidente: “Informo que não foi possível fazer os procedimentos da súmula digital devido a não conecção (sic) com a internet”. Desconectado com a língua portuguesa no momento desse deslize, Elmo ameniza a falha. “Isso é coisa normal, a gente comete gafes mesmo. Pode ter sido uma falta de atenção, muita correria. Todo mundo erra”, disse, à reportagem.

Nesse dia, o árbitro estava mesmo distraído ou com o tempo apertado. Ao relatar um confronto da polícia militar com a torcida do Palmeiras, ele informou que alguns policiais sofreram “escariações”. Sem perder o bom humor, Elmo reconhece que precisa ficar mais atento. “Nenhum dos dois erros justifica, mas, com certeza, é pior errar no jogo.”

Em terra de cego

José Horta Manzano

Em terra de cego, quem tem um olho é rei. É o que se costuma dizer.Peruca empoada 2
Mas os redatores do STF andam exagerando na dose.
Para eles, ter um olho não basta.
Não dispensam um pincenê e uma peruca empoada.

A mestra Dad Squarisi
― escritora, especialista em língua portuguesa,
editorialista e editora de opinião do Correio Braziliense ―
descreveu, em linguagem bem-humorada,
a impressão que lhe causaram
os recém-publicados acórdãos do mensalão.

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DE MAL COM A LÍNGUA

Dad Squarisi

Qual o texto mais aguardado por esta alegre Pindorama? Ganha um bombom Godiva quem respondeu a ementa dos acórdãos do mensalão. Ufa! Foram quatro meses de espera. Agora, finalmente, a obra veio à luz. Advogados, políticos, estudantes, réus, corréus, familiares, amigos, inimigos, indiferentes congestionaram o site do Supremo. Mas não desistiram. Pacientes, chegaram lá. Ao pôr os olhos no documento, ops!

Baita surpresa os espreitava. As 14 páginas parecem floresta sem clareiras. Mas percorrê-las é preciso. Vá lá. Tropeços em rimas, vírgulas, redundâncias, maiúsculas & cia. descuidada não arrefecem a avidez da leitura. O interesse no conteúdo abre trilhas. Ilumina desvios. Permite ignorar os obstáculos. Mas nem todos. Alguns freiam os pés e dificultam a marcha.

O tamanhão dos períodos impõe idas e vindas. Testes sobre a memória demonstram: o leitor retém bem frases com 150 toques. Com 200, guarda a segunda metade pior que a primeira. Com 250 ou mais, grande parte do enunciado se perde. Valha-nos, Padim Ciço. Períodos com mais de mil caracteres são regra, não exceção. Todos ostentam uma marca — o corte de relações com o ponto final.

Eis uma provinha de 296 dos 1.352 toques de um parágrafo: “Prosseguindo no julgamento quanto ao item III da denúncia, após o voto da Ministra Rosa Weber acompanhando parcialmente o Relator, divergindo somente em relação ao réu João Paulo Cunha para absolvê-lo do delito de peculato decorrente da contratação da empresa IFT – Idéias, Fatos e Texto Ltda., deixando a apreciação dos delitos de lavagem de dinheiro…” Quer chegar ao fim? Vá ao site do STF. Antes, previna-se. Peça socorro à legibilidade.

Passagens confundem. Ao passar por elas, o pobre leitor não sabe quem faz o quê: “O presidente indeferiu a suscitação de questão de ordem pelo advogado Alberto Zacharias Toron, ressalvando que poderá fazê-la por ocasião de sua sustentação oral”. Valha-nos, Deus! Quem é mesmo que vai fazê-la — o presidente ou o advogado? Com a palavra, a ambiguidade.

Qual é a da reforma ortográfica? Até 2016 convivem as duas grafias. Pode-se adotar uma ou outra. Só não vale misturar as estações. É o que fazem os acórdãos. Ora omitem o trema (cinquenta), ora o conservam (cinqüenta). Ora omitem o acento diferencial (polo), ora o ressuscitam (pólo). Ora atualizam o hífen (coautor, corréu), ora voltam ao passado (co-autor, co-réu). Cadê a coerência? O gato comeu.

E fez mais estragos. Nem o pronome escapou. O indefinido cada tem alergia à solidão. Pra evitar coceiras e brotoejas, anda sempre acompanhado. O texto às vezes respeita a fragilidade do dissílabo (cada um dos agentes), às vezes pisa-a sem piedade (multa no valor de 10 salários mínimos cada). Mais: a colocação do átono não se decide. Ou fica de olho na atração. Ou a ignora com desdém. O esta e o essa? A dupla compõe o samba do demonstrativo doido.

O ex aproveita o ritmo e dança. Fora do baile, o prefixo dá um recado claro. Diz que alguém foi, mas deixou de ser. O ex-marido dividiu a cama com a mulher, mas deixou de fazê-lo. O ex-ministro usou crachá de excelência, mas o devolveu. Enquanto foram marido e ministro, não eram ex. É o caso de João Paulo Cunha. Ele cometeu os malfeitos quando presidia a Câmara dos Deputados.

Eis o xis da questão. Os acórdãos o cassaram em pleno exercício do cargo: “Vinculação entre o pagamento da vantagem e os atos de ofício de competência do ex-presidente da Câmara, cuja prática os sócios da agência pretenderam influenciar”. Que baguuuuuuuunça. Mesmo sem poder, o homem fez e aconteceu. É mágica? Não. É cochilo da revisão.

Trinta dicas de Português

José Horta Manzano

1. Vc. deve evitar ao máx. a utiliz. de abrev., etc.

2. O escritor deve prescindir de recorrer ao uso de um estilo de escrita em demasia rebuscado. Tal prática costuma advir do excessivo esmero com que exibicionistas ― nem sempre ínclitos ―, cuja auto-incensação decorre justamente dos parcos conhecimentos linguísticos de que dispõem, chegam a raiar o paroxismo narcisístico, sem contar, para tanto, com supedâneo sólido no que tange à formação escolástica no campo da língua pátria.

3. Anule aliterações altamente abusivas.

4. não esqueça as maiúsculas no início das frases.Alfabeto

5. Fuja de lugares-comuns como o diabo foge da cruz.

6. O uso de parênteses (mesmo quando parecer relevante) é geralmente desnecessário.

7. Estrangeirismos estão out; palavras de origem vernácula são o top.

8. Evite o emprego de gíria, mesmo que pareça nice, sacou?… Então, valeu!

9. Palavras de baixo calão, porra, podem transformar o seu texto numa merda.

10. Nunca generalize: generalizar é um erro fatal em todas as circunstâncias.

11. Evite repetir a mesma palavra pois essa palavra vai tornar-se uma palavra repetitiva. A repetição da palavra pode até fazer com que a palavra repetida desqualifique qualquer texto onde tal palavra se encontrar assim repetida.

12. Não abuse das citações. Como costuma dizer um amigo meu: “― Quem cita os outros não tem idéias próprias”.

13. Frases incompletas podem causar

14. Não seja redundante, isto é, não é preciso dizer a mesma coisa de formas diferentes, ou seja, basta mencionar cada argumento uma só vez. Por outras palavras: evite repetir a mesma idéia várias vezes.

15. Seja mais ou menos específico.

16. Frases com apenas uma palavra? Jamais!

17. A voz passiva deve ser evitada.

18. Utilize a pontuação corretamente o ponto e a vírgula pois a frase poderá ficar sem sentido especialmente será que ninguém mais sabe utilizar o ponto de interrogação

19. Quem precisa de perguntas retóricas?

20. Conforme recomenda a A.G.O.P., nunca use siglas desconhecidas.

21. Exagerar é cem milhões de vezes pior do que usar a moderação.

22. Evite mesóclises. Repita comigo: “mesóclises: evitá-las-ei!”

23. Analogias na escrita são tão úteis quanto chifres numa galinha.

24. Não abuse das exclamações!!! Nunca!!! O seu texto fica horrível!!!

25. Evite frases exageradamente longas pois estas dificultam a compreensão da idéia por elas abarcada e, por compreenderem mais que uma idéia central, o que nem sempre torna o seu conteúdo accessível, forçam, destarte, o infeliz leitor a dissecá-las nos seus diversos componentes, de forma a torná-las compreensíveis, o que não deveria ser, afinal de contas, parte do processo da leitura, hábito que devemos estimular através do uso de frases mais curtas.

26. Cuidado com a hortografia, para não estrupar a língoa portu-guêza.

Alfabeto 227. Seja incisivo e coerente. Ou não.

28. Não vá estar escrevendo (nem vá estar falando) no gerúndio. Você vai estar deixando seu texto pobre e vai estar causando ambiguidade, com certeza você vai estar deixando o conteúdo esquisito, vai estar ficando com a sensação de que as coisas ainda vão estar acontecendo. E como você vai estar lendo este texto, tenho certeza de que você vai estar prestando atenção e vai estar repassando aos seus amigos, que vão estar entendendo e vão estar pensando em não estar falando desta maneira irritante.

29. Outra barbaridade que tu deves evitar, tchê, é usar muitas expressões que acabem por denunciar a região de onde vens, ô meu! Uai…nada de mandar esse trem… vixi… entendeu, bichinho?

30. Não permita que seu texto acabe por rimar, porque senão ninguém vai aguentar, já que é insuportável o mesmo final escutar, o tempo todo sem parar.

Politicamente correto estilo anos 60

José Horta Manzano

Você sabia?

Você acha que essa irritante moda do politicamente correto é novidade, uma importação recente? Pois prepare-se para uma decepção.

A GAZETA, São Paulo  -  20 jul 1961

A GAZETA, São Paulo – 20 jul 1961

Um movimento eclodiu neste Brasil brasileiro muitos anos antes de importarmos essa maneira estranha de nos comunicar, em que cada palavra tem de ser sopesada antes de ser pronunciada.

Um rascunho de cartilha politicamente correta foi apresentado décadas antes de trazermos, de importação, essa novidade tão distante do jeito irreverente de se exprimir de nossa gente.

Mais de cinquenta anos atrás, já havia gente enxergando o mal por toda parte. Na época, a solução preconizada era bem mais radical que hoje. Se, atualmente, certas expressões são apenas desaconselhadas, há meio século a ideia era francamente bani-las, removê-las do dicionário. ¡Vaya radicalismo! ― diriam nossos hermanos.

A capital paulista contou, durante mais de setenta anos, com um jornal de qualidade que, infelizmente, já desapareceu. Chamava-se A Gazeta. Circulou de 1906 a 1979. Quem se interessar em conhecer um pouco da história do jornal pode visitar esta página.

O professor Francisco da Silveira Bueno (1898-1989), filólogo e lexicógrafo, era autor do Dicionário Escolar da Língua Portuguesa, adotado no ensino público.

Em 20 de julho de 1961, o professor Silveira Bueno foi entrevistado por um jornalista da Gazeta. O assunto era justamente a ameaça que sofria seu dicionário de ser amputado de algumas palavras julgadas ofensivas.

Era o prenúncio dos tempos estranhos que vivemos. Já então, confundia-se o recado com o portador. Já então, imaginava-se ingenuamente que, eliminado o mensageiro, estaria automaticamente eliminada a mensagem.

É erro antigo que perdura. A língua é maior que dicionaristas. A língua pertence a seus falantes. Lexicógrafos e dicionaristas nada mais fazem que registrar fatos da língua, não são seus criadores, nem responsáveis por eles.

Inseri no post de hoje a entrevista de 1961. Ela se explica por si mesma, dispensa maiores comentários.

A GAZETA, São Paulo  -  20 jul 1961

A GAZETA, São Paulo – 20 jul 1961

Naquele começo dos anos 60, os Estados Unidos ― grande democracia ― ainda viviam tempos de segregação. Ainda se construíam banheiros públicos separados para pretos e para brancos, ainda se reservavam lugares para não brancos no fundo dos ônibus.

Está aí a prova do pioneirismo de nosso País. Para dizer a verdade, eu bem que preferia que tivéssemos sido os primeiros em outros campos mais proveitosos para a população, mas ― que fazer? ― não se muda a História.

Só mais um detalhe picante. Quem tiver a paciência de ler a entrevista de Silveira Bueno verá que a birra da época era contra a palavra negro, considerada, então, pesada e ofensiva. Os descendentes de africanos haviam de ser chamados de pretos, essa era a forma suave, delicada e correta.

O tempora, o mores!

Assim falava minha avó

Texto de autoria de Tereza Halliday, artesã de textos
publicado originalmente no Diário de Pernambuco de 3/12/2012

Chamava resfriado de defluxo e ladrão de gatuno ou larápio. Criança desobediente era mal-ouvida. Piada, gracejo, era pilhéria. Político desavergonhado? Um salafrário. Cacete dGrand-mèreesignava coisa chata, tediosa; costurar era coser (com s, evidentemente). Tinha nome preciso para mal-estar indefinido: macacoa. O dicionário o registra como “doença sem importância; indisposição”.  Mandava apagar com borracha um erro escrito a lápis, dizendo: “Raspe”. A fim de que lhe entregassem um objeto, pedia assim: “Dê cá…”

Misturar numa mesma frase a segunda e a terceira pessoa do singular ― o “tu” e o “você” ― era “coisa de gente inculta em geral e mau hábito de cariocas em particular”. Isto num tempo em que tal destempero de concordância ainda não era perpetrado por brasileiros de norte a sul. Pronunciava os infinitivos dos verbos com os corretos erres finais: partir, querer, contar… O ditongo “ei” era pronunciado em sua plenitude: janeiro, primeira. Corrigia imediatamente se avacalhássemos para “janero” e “primero”. Nunca, jamais em tempo algum de seus 70 anos de vida usou o pronome demonstrativo “esse” em lugar de “este”. E não tinha comiseração por gente letrada que usasse descuidadamente o português.

Pedante? Empolada? De jeito nenhum. Apenas dava testemunho da riqueza do idioma nacional como instrumento de precisão ou de linguagem figurada. Seu uso natural e competente do vernáculo muito me beneficiou, desde tenra idade. Foi professora de mão cheia, como tantas da sua geração. Formada pelo lendário Colégio Santa Margarida, Artemísia Sampaio Tavares tornou-se inesquecível para todos os seus ex-alunos, seja da escolinha do Arruda, seja filhos e netos. De uma carta, entre muitas que me escreveu quando passamos um ano separadas, destaco este primor de redação: “Notícias e novidades, aqui t´as envio cuidadosamente para não esquecer qualquer”. Meu saudoso mestre Sebastião de Albuquerque e minha sempre admirada professora Luzinete Pessoa haveriam de dar-lhe nota dez.

Sob fortíssima influência de minha avó, ainda sinto gastura, arrepios, sustos e desgosto com o atual descalabro (outro termo de sua preferência) no português escrito por aí afora, em todas as classes sociais. Nem ouso reclamar da linguagem oral, mais permissiva, mais informal, mais flexível. Não obstante, mesmo a tolerância linguística tem limites. Quando ouço “pode vim”, parece que estou vendo seu olhar consternado seguido de correção maternal. Consola-me saber que Dad Squarisi, perita em língua portuguesa e titular do Blog da Dad, seria também implacável, avisando que “Deus castiga” tal despautério.