¡Extranjeros, no!

José Horta Manzano

O misterioso título do artigo da Folha me chamou a atenção:


“Argentina aperta cerco contra estudantes brasileiros sem visto e falsos turistas”.


Sei que os brasileiros têm o direito de permanecer na Argentina até 3 meses sem visto. Sei também que o período é prorrogável por 3 meses. Cogitei: “Onde estarão esses ‘falsos turistas’ e por que razão um cerco se aperta contra eles?” Intrigado pela enigmática chamada, li o artigo.

O drama, creio eu, tem a ver com má circulação da informção no emaranhado de funcionários burocráticos argentinos que fixam diferentes taxas. Há jovens brasileiros que optam por estudar numa faculdade argentina, o que pode ser uma ideia interessante. Em princípio, para eles, o roteiro deveria ser: primeiro, matrícula no estabelecimento; segundo, obtenção de um visto de estudante; terceiro, viagem rumo à Argentina e entrada no país.

Só que aí tem um problema – burocrático, acredito. O visto de residência para estudar na Argentina (normalmente solicitado antes de entrar no país) custa 550 dólares (R$ 2.700). No entanto, o mesmo visto solicitado por um estrangeiro que já se encontra no país sai bem mais barato: 14 mil pesos (R$ 80).

Essa disparidade explica que muito candidato a estudar num estabelecimento argentino de ensino superior tente burlar a regra fazendo o caminho inverso. Em vez de solicitar o visto antes de entrar na Argentina, o indivíduo entra como turista, sem pagar nada, e só então faz a solicitação do visto de residência para estudante. Sai por R$ 80.

A diferença de custo entre os dois vistos é tão brutal que dá margem a esse tipo de “caminho alternativo”. Pecadinho que, convenhamos, não é tão grave assim.

Agora, com a subida de Javier Milei à Presidência, ficou mais difícil escapar da taxa de 2.700 reais. Controles têm sido feitos para desmascarar e expulsar do país os “falsos turistas”, ou seja, os estrangeiros que os agentes de imigração julgam ser futuros estudantes. Há muito de adivinhação nesse procedimento, e a consequência são injustiças aos montes.

Para corrigir o problema na raiz, bastaria que a burocracia argentina acertasse os ponteiros com referência às taxas. Basta igualar as duas e o nó será desfeito. Todos entrarão no país já com o visto no bolso e os “falsos turistas” serão coisa do passado.

O que surpreende nesse drama é o fato de o governo argentino dificultar a vinda de estudantes estrangeiros que buscam as universidades do país. Os alunos não argentinos acabam se sentindo “personae non gratae”, expressão que anda por todas as bocas. Não atino a razão por detrás dessa prática de estigmatizar alunos estrangeiros.

Em princípio, todo país, principalmente os que já são (ou gostariam de ser) potências importantes, trabalham para difundir sua cultura e seu modo de vida. Foi assim que a cultura dos EUA e seu “American way of life” marcaram e continuam marcando o globo. Países importantes mantêm escolas e institutos no estrangeiro para espalhar sua influência. Todos querem ser sede de encontros importantes: G7, G20, Brics, Olimpíadas, Copa do Mundo.

O estudante que passa quatro ou cinco num país como a Argentina chega ao fim do curso com uma bagagem cultural que conservará por toda a vida. E essa bagagem inclui a língua e os costumes do país no qual passou esses anos todos.

Parece-me que a Argentina, ao tratar estudantes estrangeiros como penetras, está na direção errada. O aluno rejeitado encontrará de qualquer maneira outro país que o acolha. A continuarem as coisas desse jeito, quem sai perdendo é a Argentina.

The bac is back!

José Horta Manzano

Como todos os anos, a estudantada francesa está em efervescência. É época do «bac», que equivale a nosso Enem. «Bac» é redução de baccalauréat, o nome completo. Encolhido a uma sílaba só, o exame parece menos assustador, torna-se quase amigo íntimo. Isso deve servir pra esconjurar o pânico.

Nesta época, a mídia dá conselhos aos candidatos. Evitar comida pesada, não tomar calmante, não varar a noite estudando de última hora, tomar café da manhã antes de sair de casa (ou, se o nervoso tiver causado enjoo, tomar pelo menos um chá com açúcar e levar um lanchinho pra mais tarde). Chegar ao local da prova com boa antecedência. São recomendações de bom senso.

A estranha palavra baccalauréat formou-se no latim medieval. Naquela época, era o nome da primeira distinção concedida pelas universidades de Teologia, de Medicina e de Direito. Na composição do termo, é evidente a influência de laureare (=oferecer ao homenageado uma coroa de folhas de louro). Acredita-se que a primeira parte da palavra venha de bacca (=designação comum a certas frutinhas silvestres). Portanto, baccalaureatus é aquele que recebeu a coroa de louros. Note-se que a forma latina bacca deu, em português, bago e baga.

No país de Voltaire, Sartre, Montesquieu e Raymond Aron, a Filosofia ocupa lugar de destaque. As provas do ‘bac’ sempre começam por essa disciplina. Todos os candidatos têm de passar por ela, embora o peso atribuído varie conforme a carreira. Tem peso maior para os que escolheram Letras. Mas até os que se propõem a fazer estudos científicos têm de enfrentar a ‘filô’.

E a prova de ‘filô’ foi hoje. Não sei como anda o nível do Enem, mas é de constatar que o “bac” francês mantém padrão elevado. Aqui estão os temas de Filosofia correspondentes a cada carreira. O candidato pode escolher entre duas proposições e tem quatro horas pra bolar uma dissertação.

Carreira científica
Tema 1
A pluralidade de culturas é nociva à unidade da humanidade?

Tema 2
Reconhecer seus deveres significa renunciar à própria liberdade?

Carreira econômico-social
Tema 1
A moral é a melhor das políticas?

Tema 2
O trabalho divide os homens?

Carreira literária
Tema 1
É possível fugir ao tempo?

Tema 2
Vale a pena explicar uma obra de arte?

Pronto. Celular desligado, o distinto leitor dispõe de quatro horas pra produzir sua obra-prima. Em francês, s’il vous plaît.

ET
A palavra “baccalauréat” pertence à família que deu o inglês bachelor e nosso familiar bacharel – todos eles bambambãs em Filosofia, naturalmente.

Formar

José Horta Manzano

Forma é voz amplamente difundida nas línguas latinas. Com pequenas diferenças de grafia, aparece em todas elas. Em nossa língua, é responsável por centenas de palavras derivadas. Entre muitas outras, temos: formal, formoso, formulário, formação, formalidade, formatura, reforma, informe, transformação, uniforme, deformação, conformidade. E muitas mais.

Essa raiz nos legou boa coleção de verbos: enformar (botar na fôrma), informar, reformar, uniformizar, conformar, pré-formar, deformar, transformar, disformar. Sem contar, naturalmente, com o mais simples deles, que é formar.

O verbo formar é sempre transitivo ou pronominal. Há um único caso, bastante raro, em que é usado com valor intransitivo. É quando indica alinhar, enfileirar, dispor em certa ordem: o batalhão formou para homenagear o visitante ilustre. O uso intransitivo raramente estravasa da área militar.

Chamada d’O Globo, 17 maio 2019

A esse propósito, um cartaz revelador foi levantado por um manifestante quando dos protestos estudantis de alguns dias atrás. Está reproduzido acima destas letras. Diz lá: «Eu formei, tu formaste, mas eles não formarão se a universidade parar». O rapaz que segura o papel mostra semblante bastante convicto da justeza do próprio protesto. Pelo uso da primeira pessoa (‘eu formei’), deduz-se que ele ostenta na parede de casa um diploma universitário.

Pois é, pode até ser que nosso protestatário tenha obtido o diploma, mas fica claro que faltou a algumas aulas de Português. É de crer que o cartaz não se esteja referindo a formação de fila, mas a formação universitária. Nesse caso, o verbo formar não pode ser usado intransitivamente. No sentido de terminar o curso e diplomar-se, o verbo é reflexivo: eu me formei, tu te formaste, eles se formarão.

Parece simples pra quem sabe. Pra quem não sabe, é mistério insondável. Quando foi mesmo que a obtenção de diploma se divorciou da vontade de aprender pra se tornar um fim em si? Quando foi mesmo que formação deixou de significar construção intelectual para ser só sinônimo de diploma pendurado na parede? Algumas peças da engrenagem se perderam pelo caminho, e a máquina parou de funcionar.

A tragédia da língua portuguesa

Dad Squarisi (*)

Tornou-se lugar-comum falar na baixa qualidade do ensino. Em testes nacionais, comprova-se, ano após ano, o mau desempenho dos alunos, sem domínio das habilidades de ler, escrever e fazer as quatro operações. Em exames internacionais como o Pisa, os estudantes brasileiros figuram na rabeira dos concorrentes.

ExameO Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) 2013 chama a atenção para o resultado da língua portuguesa. Mais de 5 milhões de jovens se submeteram à avaliação para concluir o ensino médio, entrar em universidade pública, participar de programas de intercâmbio, obter bolsa de financiamento em instituições privadas. No total, 14.715 escolas compõem o ranking.

Pouco mais de um terço (33,87%) obteve nota abaixo de 500 na redação. Foram reprovadas. Levando-se em consideração o desempenho individual, mais da metade dos alunos de 3.900 colégios tiraram nota vermelha. O fracasso na produção de texto implica soma de incompetências. Entre elas, falta de domínio da norma culta; incapacidade de leitura e compreensão de enunciados, de organizar e interpretar informações, de argumentar, de transitar de uma ideia para outra.

AnalfabetoAvaliar a redação vai além de analisar a habilidade de escrever. A língua funciona como pré-requisito para as demais disciplinas. Antes de resolver um problema de matemática, por exemplo, o estudante precisa entender o enunciado. Ele pode até saber o raciocínio para chegar à resposta, mas é incapaz de perceber o que a questão pede. Limitação similar se observa em geografia, história, biologia. O jovem estuda, mas não aprende.

Ele é vítima de uma a escola que não ensina. Currículos desatualizados, material didático de má qualidade, bibliotecas mortas, laboratórios decorativos aliam-se a professores desmotivados e sem a qualificação necessária. Espaços assim funcionam como castigo para rapazes e moças que vivem em universo tecnológico povoado de atividades desafiadoras.

Professora 1Sentar-se calado, um atrás do outro para ouvir o professor que repete o que está nos livros ou copiar matéria do quadro é cena do século 19, quando estabelecimentos preparavam os empregados exigidos pela revolução industrial. Não condiz com a sociedade do conhecimento, que exige profissionais proativos, empreendedores, aptos a responder a desafios com criatividade.

Como chegar lá? O ponto de partida é o professor. A carreira do magistério deve atrair os melhores talentos. Para tanto, além de formação acadêmica, impõe-se carreira top. Os brasileiros ambiciosos devem saber que vale a pena ser docente. Não só pelo salário, mas também pela progressão profissional e pelo respeito da sociedade.

(*) Dad Squarisi, formada pela UnB, é escritora. Tem especialização em linguística e mestrado em teoria da literatura. Edita o Blog da Dad.

Boa-fé, má-fé, pouca fé

José Horta Manzano

A comunicação verbal é um dos traços distintivos entre o homem e o resto dos animais. Essa relação passa por um conjunto de códigos ― em princípio conhecido por todos os participantes.

Damos a essa coleção de símbolos o nome de língua. Dialeto, pidgin, crioulo, patoá, gíria, jargão são variantes do mesmo tema. Para que a informação passe, é imprescindível que os integrantes do grupo conheçam os códigos. Se assim não for, o recado não chega aonde deveria chegar, o que pode causar a maior confusão.

Estudante 2Como toda obra humana, a difusão das chaves da comunicação não é uniforme. Por mais homogêneo que seja o grupo, nem todos os seus componentes conhecerão todo o elenco de palavras disponíveis.

A reportagem de J. M. Tomazela, do Estadão, relata um fato constrangedor, daqueles que escancaram o resultado do processo de infantilização ao qual nosso povo vem sendo submetido.

O artigo relata a péssima ideia ocorrida a um jovem adulto brasileiro, que atualmente toma aulas de publicidade nos EUA. Sabe-se lá por que razão, o moço descabeçado decidiu cutucar a área de segurança americana. O mundo inteiro sabe que, por aquelas bandas, esse é assunto altamente sensível. Bulir com segurança nacional é pior que xingar a mãe do guarda.

Acreditando-se inatingível, o jovem enviou mensagens eletrônicas nas quais anunciava a presença de bomba num determinado voo, programado para dali a alguns dias. Para coroar o desvario, o moço tentou embarcar justamente no voo que havia apontado em suas denúncias. De criança, não deve ter aprendido que brincadeira tem hora, lugar e, principalmente, limite.Bomba 1

Desde os atentados de 2001, os serviços de segurança americanos não brincam em serviço. Pelo contrário, chegam a exagerar na prevenção. O irresponsável foi rapidamente identificado. Os policiais não se deram nem ao trabalho de colhê-lo em casa. Esperaram no aeroporto. Quando lá chegou, o engraçadinho, naturalmente, não embarcou. Foi direto para o xilindró, onde periga passar uma boa temporada. Naquele país, habeas corpus e embargos infringentes não são corriqueiros.

A família do estudante declarou que o jovem adulto agiu sem má-fé. Como é que é? Sem má-fé? Uma consulta ao dicionário se impõe. Está lá no Houaiss:

Interligne vertical 13«Má-fé
1 Disposição de espírito que inspira e alimenta ação maldosa, conscientemente praticada; deslealdade, fraude, perfídia
2 Termo usado para caracterizar o que é feito contra a lei, sem justa causa, sem fundamento legal e com plena consciência disso».

É exatamente o que fez o tresloucado jovem: movimentou todo um dispositivo de segurança, atrasou um voo comercial, atazanou a vida de centenas de passageiros, sacudiu a logística de uma companhia aérea, fez estrilar alarme vermelho em agências de segurança. Agiu de forma deliberada e consciente. Se isso não for má-fé, o que será?

Para efeito de comparação, vejamos o que nos ensina o mesmo Houaiss no verbete boa-fé:

Interligne vertical 13«Boa-fé
1 Retidão ou pureza de intenções; sinceridade
2 Convicção de agir ou portar-se com justiça e lealdade com relação a alguém, a determinados princípios
3 Respeito ou fidelidade às exigências da honestidade ou do que é considerado direito; lisura»

Agora ficou claro. O ato praticado foi de má-fé, sim, senhor. Aqueles que, preocupados em defender o jovem, disserem o contrário estarão deturpando a expressão.

Esperemos que estejam usando o substantivo errado por simples ignorância e não por… má-fé.