Patriotas de araque

José Horta Manzano

A fuga da “patriota” Carla Zambelli engrossa o volume de bolsonaristas refugiados no exterior. Já são várias dezenas que escaparam para Argentina, Estados Unidos, Paraguai, Espanha. Um dos bolsonarinhos – até ele! – se “autoexilou” nos EUA.

Vai ficando cada dia mais claro que os membros desse clube são eloquentes no papo, fazem e acontecem da boca pra fora, mas, na hora do vamos ver, abandonam família e companheiros, e “dão no pira”, como se dizia antigamente. Gente fina é outra coisa.

A senhora Zambelli foi julgada e condenada pelo STF a 10 anos de prisão por ter invadido a central informática do Conselho Nacional de Justiça, crime gravíssimo. Quando viu que a coisa estava apertando e já dava pra entrever as grades da prisão, armou um plano caseiro de fuga. Falante como só ela, não conseguiu aguentar até chegar ao que considera seu porto seguro – deu com a língua nos dentes antes.

Deu entrevista por internet contando que estava nos EUA, a caminho da Itália. Declarou:


“Eles vão tentar me prender na Itália, mas eu não temo, por que sou cidadã italiana e lá eu sou intocável. […] Se eu tenho passaporte italiano, eles podem colocar a Interpol atrás de mim, mas não me tiram da Itália. Não há o que possam fazer para me extraditar de um país (de) que eu sou cidadã.”


Lembrei de quando a Operação Lava a Jato estava chegando aos finalmentes, muitos anos atrás. Um após o outro, os cabeças iam tomando o rumo da Papuda. Não tenho nenhuma simpatia por corruptos, mas devo dizer que, no geral, tiveram atitude mais digna que os “patriotas” bolsonaristas fugidos na hora H. Dinheiro, até que tinham suficiente. Mas se entregaram. Que eu me lembre, todos entraram no camburão, menos um.

Foi senhor Henrique Pizzolato, diretor do Banco do Brasil e condenado a quase 13 anos de cadeia por corrupção, peculato e lavagem de dinheiro. Ele se achou mais esperto que os outros. Numa história de filme americano, fez-se passar por um irmão já falecido, usou o passaporte do morto, fugiu para a Argentina e de lá para a Itália. Pizzolato também tinha dupla cidadania, italiana e brasileira, mesmo caso de Zambelli. Como ela, imaginou-se “intocável”. Alegre engano…

Assim que a Justiça brasileira tomou conhecimento do paradeiro de Pizzolato, acionou a polícia italiana e solicitou extradição. O extraditando choramingou, esperneou, bateu o pé, mas não teve jeito. Um belo dia, foi despachado direto de Roma para Brasília, em jatinho da polícia italiana, escoltado e vigiado por policiais. Ao descer, seguiu direto para a Papuda, onde iniciou o cumprimento de sua pena.

Como é possível que tenha sido extraditado? Acontece que a Constituição italiana, diferentemente da nossa, não proíbe a extradição de um nacional. Em raros casos, ela pode ocorrer. Quando um país estrangeiro pede a extradição de um italiano, o caso será estudado pelas cortes daquele país. Se acreditarem que o cidadão teve julgamento justo e se os crimes também forem reconhecidos como tais pelas leis italianas, a extradição pode perfeitamente ser concedida.

Portanto, dona Carla que se cuide. É bom não gargarejar por aí sua pretensa “intocabilidade”. Sua carapaça pode não ser tão resistente como ela imagina. Um dia, vai acabar descobrindo que é de lata barata, e olhe lá, borocochô.

A cabeça

Cabeça 1José Horta Manzano

Da capital da República vêm notícias espantosas. Começou com caixa dois. Segundo argumento capcioso brotado, à época, da cabeça do chefe-mor, é aquele tipo de captação que «todo o mundo faz».

Foi argumento capcioso , capítulo deplorável na história recente do país. O capitalismo tradicional, capturado pela incapacidade que só cabe na cabeça de mentecaptos, fez o Brasil regredir ao tempo das capitanias hereditárias.

É incabível que nosso país esteja cativo de cabos e caporais que usurpam o capuz de governantes. Mas tudo tem fim: capa, chapéu e capote estão caindo. Os incapazes que desgraçaram o Brasil não vão escapar. Serão capturados e despachados ao destino que lhes cabe: vão acabar atrás das grades.

Interligne 18h

Observação etimológica
O textozinho acima faz uso de numerosos parentes linguísticos. Entre as 114 palavras mencionadas, nada menos de 28 são da mesma família. Uma em cada quatro! Descendem todas de antiquíssima raiz indo-europeia *ker, que evoluiu para caput em latim. É o avô de nossa cabeça. Como se sabe, cortada a cabeça, o corpo não sobrevive.

Cabeça 2Veja agora o mesmo texto com os parentes sublinhados.

Da capital da República vêm notícias espantosas. Começou com caixa dois. Segundo argumento capcioso brotado, à época, da cabeça do chefe-mor, é aquele tipo de captação que «todo o mundo faz».

Foi argumento capcioso , capítulo deplorável na história recente do país. O capitalismo tradicional, capturado pela incapacidade que só cabe na cabeça de mentecaptos, fez o Brasil regredir ao tempo das capitanias hereditárias.

É incabível que nosso país esteja cativo de cabos e caporais que usurpam o capuz de governantes. Mas tudo tem fim: capa, chapéu e capote estão caindo. Os incapazes que desgraçaram o Brasil não vão escapar . Serão capturados e despachados ao destino que lhes cabe: vão acabar atrás das grades.