Terremoto em Taiwan

credit: Markku Uländer via Reuters

José Horta Manzano

Há imagens que não dizem grande coisa. Há outras que prendem a atenção e fazem refletir. A foto acima é daquelas que não deixam ninguém indiferente.

Esteticamente, é belíssima, uma réplica taiwanesa da torre original, situada em Pisa. Acho até que a inclinação desse prédio é mais forte do que a da torre italiana.

Há outros espantos. Dos aparelhos de ar condicionado, nove ainda estão lá, quietinhos, exatamente no lugar em que foram instalados. Aguentaram o baque. Instalador taiwanês é gente competente.

Dos vidros espelhados, excetuando os que foram esmagados no movimento de inclinação, a quase totalidade resistiu sem cair.

Fico imaginando o pavor de quem estivesse dentro do prédio na hora do sismo. Sentir um tranco e perceber que o assoalho se inclina, se inclina… Situação de infarto.

Aqui em Pindorama, volta e meia cai um prédio aqui, outro ali, sem terremoto mesmo. Engenheiros e arquitetos da ilha de Formosa (hoje Taiwan) merecem forte aplauso. Sabem fazer edifícios sólidos e resistentes.

Dá a impressão de que, com um guindaste gigantesco, se conseguiria erguer o imóvel e recolocá-lo na posição original.

Vai ver que ele só se inclinou pra dar bom-dia à cidade.

A Ponte da Crimeia

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José Horta Manzano

Tem muita gente fina afirmando que a invasão da Ucrânia vem sendo preparada há vários anos, com cálculo e frieza, por Vladímir Putin e seus comparsas. Os que assim pensam acreditam que a anexação da Crimeia, levada a cabo em 2014, era apenas o primeiro capítulo da saga que ora entra na fase 2.

Sei não. Não sou da mesma opinião. Para mim, a invasão do país vizinho não é parte de um plano solidamente arquitetado pelo Kremlin de reconstrução do antigo Império Tsarista. A decisão de tomar a Ucrânia só foi tomada bem recentemente. Siga meu raciocínio.

Antes de mais nada, é bom lembrar que, mesmo não sendo um país pobre, a Rússia está longe de viver na folga financeira de outras nações que a gente costuma colocar no mesmo nível: os EUA e a China. Seu PIB é o 12° maior do mundo, menor que o brasileiro, equivalente ao da Espanha. Moscou é, sem dúvida, uma potência bélica. Afora isso, sua economia baseia-se majoritariamente na exportação de matérias primas – como a nossa.

Agora, reflita comigo. Se em 2014, quando anexou a Crimeia, Putin já estivesse cumprindo a etapa 1 de seu plano de expansão territorial, estaria ciente de que não era hora de esbanjar um dinheiro que podia fazer falta mais adiante, na hora de alimentar sua máquina de guerra. Certo? Pois não foi assim que ele procedeu.

A Crimeia é uma península que avança sobre o Mar Negro. Cercada de mar por todos os lados, é ligada à terra firme por um istmo. O problema é que esse istmo não une a Crimeia à Rússia, mas à Ucrânia. Portanto, após a anexação, a Crimeia tornou-se um enclave russo em terras ucranianas, um pedaço de chão sem continuidade territorial com a pátria-mãe. Assim, um russo não podia chegar lá por terra, sem atravessar território ucraniano. Que é que Putin decidiu fazer?

Resolveu mandar construir uma ponte entre o litoral russo e a Crimeia anexada. Era o único jeito de integrá-la ao território nacional sem precisar baldear carros e caminhões numa balsa. Até aí, parece normal. O que não é normal é o custo dessa ponte. Para construí-la, o Estado Russo teve de desembolsar 3,8 bilhões de dólares (R$ 20 bi).

Agora diga-me: faz sentido o ditador de um país relativamente pobre, que se prepara para uma guerra de conquista, gastar essa exorbitância na construção de uma ponte, especialmente sabendo que, pouco mais tarde, será o único dono do litoral marítimo, fazendo a ponte perder toda importância estratégica? Para mim, não faz sentido. Torrar USD 4 bi é uma exorbitância! Não combina com um suposto plano de guerra de conquista em várias fases.

Acredito que só bem recentemente Putin se animou a invadir o vizinho. O elemento decisivo pode bem ter sido a retirada precipitada das tropas americanas do Afeganistão. O ditador russo, personagem que só entende a linguagem da força bruta, deve ter tomado aquela trapalhada por fragilidade de Joe Biden; afinal, era um presidente novato. Há de ter pensado que, se os EUA não se incomodaram de ver o Afeganistão ser retomado pelos talibãs, não iam se preocupar com uma longínqua e desconhecida Ucrânia ser tomada pelos russos.

O ditador russo tirou suas conclusões sozinho, foi na confiança, mas enganou-se.

Complemento de informação
A ponte que passa sobre o Estreito de Kertch, entre o território russo e a Crimeia ocupada por Putin, é a ponte rodoviária mais longa da Rússia. Tem 19 km de extensão. (Para efeito de comparação, a Ponte Rio-Niterói tem “apenas” 13 km.)

Ia ser engraçado se, numa hipótese altamente improvável, a Rússia tivesse de devolver a Crimeia à Ucrânia. A ponte, concebida para curto-circuitar fronteiras, passaria a ligar dois países diferentes. E um posto fronteiriço seria instalado em cada cabeceira. Quando menos se espera, o destino costuma aprontar das suas.

Mãe de todas as bombas

José Horta Manzano

Ainda bem que a memória humana é curta. A esmagadora maioria dos fatos acontecidos em passado próximo ou distante já nos teria saído da lembrança se não fossem registros escritos e livros de história.

Nos tempos que correm, a enxurrada de tragédias de que a gente fica sabendo deixam a impressão de que vivemos tempos terríveis, extraordinários, pontos fora de toda curva. Achamos que o mundo está sendo conduzido por desequilibrados e irresponsáveis dos quais nada de bom se pode esperar. Os impressionantes delírios de um Trump, de um Bachar, de um Maduro, de um Kim Jong-Un nos fazem esquecer que Hitler, Stalin, Mussolini, Napoleão já seguraram as rédeas e já fizeram das suas.

Dementes atuais relegam mentecaptos antigos ao baú do esquecimento. É melhor que seja assim. A cada época bastam seus desatinados.

Donald Trump se gabou, estes dias, de ter lançado a «mãe de todas as bombas» sobre um covil de djihadistas. Fica-se sabendo do prodigioso poder desse artefato bélico. Não se passaram dois dias, e Vladimir Putin manda dizer que dispõe de dispositivo de potência muito superior. Dá-lhe o nome de «pai de todas as bombas» e informa que sua arma tem poder ainda maior que o do rival. Seu potencial de explosão é quatro vezes superior ao dos EUA. Diz que já foi testada com sucesso e que está pronta para ser lançada se e quando necessário.

Hoje é Sábado de Aleluia, dia de malhar o Judas. Data venia, vamos sonhar um pouco, que não faz mal a ninguém. Sonho, qualquer dicionário confirma, é plano ou desejo absurdo, sem fundamento. Nestes dias em que grande parte da humanidade comemora a chegada da primavera, com sua simbologia de renascimento e renovação, por que não dar asas à fantasia e sonhar com algo (por ora) impossível?

Vamos imaginar que, no futuro, cientistas espremam seus miolos para inventar um engenho que, ao explodir, não destrua mas construa. Imagine o distinto leitor que se fabrique a «patriarca de todas as bombas». Ao ser acionada, consertaria, em um instante, as cidades e vilas destruídas na Síria. Reporia de pé monumentos milenares dinamitados por talibãs fanáticos. Reconstruiria localidades arrasadas por terremotos.

Essa, sim, seria uma criação digna de despertar respeito e admiração. Eu iria até mais longe. Lançaria a «patriarca de todas as bombas» sobre o Brasil, na esperança (e na expectativa) de que repusesse o país nos trilhos, que desse fim à corrupção que arruina o futuro de milhões em benefício do enriquecimento de um punhado de seres desprezíveis.

Infelizmente, acho que já estou pedindo demais. Certas coisas não são imagináveis nem em sonho.

Vamos erguer o muro

Juan Pablo Villalobos (*)

Vamos erguer o muro. Pagaremos nós, os mexicanos, sem problema. Mas vamos fazê-lo nós mesmos, e poremos um posto de socorro a cada vinte quilômetros. Um refúgio com médicos, comida, água, camas para descansar e retomar forças, aulas de inglês. E o mais importante: poremos muitas portas em toda a extensão do muro, milhares. Portas com tranca de um lado só: do nosso.

Vamos erguer o muro. Pagaremos nós, os mexicanos, sem problema. Mas, para levantá-lo, vamos antes pedir empréstimo ao governo dos EUA. Ou ao Banco Mundial. Melhor ainda: ao FMI. Faremos uma licitação para o projeto arquitetônico e outra para a construção. E mais uma para a gestão ‒ quando estiver pronto. Evidentemente, convidaremos para as licitações somente os amigos.

E que vençam os mais amigos entre nossos amigos. Os do projeto arquitetônico vão se atrasar muito, muitíssimo, anos. São arquitetos medíocres, mas são nossos melhores amigos. A construção começará com anos de atraso. E logo aparecerão problemas de alvará. E dores de cabeça com fornecedores. E greves de operários. Dois meses depois de terminada a primeira parte da obra, vão aparecer rachaduras e umidade, o que levará à suspensão temporária dos trabalhos. E assim passarão os anos. Com um pouco de sorte, passarão também os presidentes dos EUA, até que chegue um a quem a construção do muro não interesse. Melhor ainda: até que chegue um que mande parar a obra. (É evidente que não devolveremos o dinheiro do empréstimo.)

Vamos erguer o muro. Pagaremos nós, os mexicanos, sem problema. Mas vamos transformá-lo em atração turística, em parque de diversões. Vamos chamá-lo de «Muro da Vergonha» ou algo parecido. Ao lado, abriremos museus sobre o racismo, o imperialismo, a discriminação. E miradouros para poder ver de longe como estão as coisas do lado de lá do muro. Virão turistas japoneses, chineses, alemães, escandinavos, turistas do mundo inteiro. Nosso muro será excelente negócio e criará milhares de empregos. Que serão ocupados ‒ é natural ‒ por migrantes impedidos de cruzar a fronteira.

Vamos erguer o muro. Pagaremos nós, os mexicanos, sem problema. Um muro invisível, como a roupa invisível do imperador. Um muro que só possa ser visto por gente inteligente. Vamos erguê-lo nós, os mexicanos, com tijolos e aço invisíveis. Livres de restrições materiais, vamos fazê-lo altíssimo: mil metros de altura. E bem largo: dois quilômetros de espessura.

No dia da inauguração, diremos ao presidente dos EUA: aqui está seu muro, é muito alto e muito largo, mas só os inteligentes conseguem vê-lo. Tenho certeza de que o presidente dos Estados Unidos ficará muito contente.

(*) Juan Pablo Villalobos (1973-), mexicano, é escritor e empresário. Este artigo foi publicado no jornal El Pais.

(Tradução deste blogueiro)