O cantil

by Caio Gomez (1984-), desenhista brasiliense

José Horta Manzano

Artigo publicado no Correio Braziliense de 24 novembro 2023

Outro dia, uma moça bonita e jovem viajou horas pra chegar ao Rio. Estava realizando o sonho de assistir ao vivo a um show de sua cantora preferida. Mas o destino foi cruel. O tempo tórrido, o estádio lotado, a atmosfera abafada e a falta d’água foram além do que a jovem podia suportar. Ela sentiu-se mal e, em que pese o rápido atendimento médico, perdeu os sentidos e não os recobrou mais.

O fato fez as manchetes da imprensa, se esparramou pelas redes, despertou comoção. Morte de pessoa jovem comove sempre. Rapidamente se descobriu que os organizadores do evento haviam proibido que o público entrasse com água para consumo próprio. Assim que a notícia correu, um dos primeiros a se manifestar foi nosso ministro da Justiça. A chamada de importante jornal carioca online informou que “após morte de jovem, Dino manda shows permitirem garrafas de plástico e água grátis”.

Ao dar a ordem, Sua Excelência perdeu belíssima oportunidade de incitar a população a abandonar o uso de recipientes plásticos descartáveis. Na era dramática que vivemos, de aquecimento global e mudança climática, toda diminuição no consumo de derivados do petróleo são bem-vindas. Bastava ele ter dito “Vou liberar a venda de água nos estádios, mas aconselho a cada um trazer sua própria água no cantil!”.

Fora do Brasil, está cada dia mais comum ver pessoas carregando um cantil com água para consumo próprio. Estudantes, ciclistas, trilheiros a pé, gente a passeio e cidadãos conscientizados são costumeiros do hábito de levar sua garrafinha d’água. Sai mais barato que água comprada, faz bem ao bolso e à natureza. É a generalizada consciência ecológica, que ainda não temos.

Para decepção dos negacionistas climáticos, fenômenos atmosféricos têm se tornado cada vez mais extremos e mais frequentes desde que entramos no novo milênio. Incêndios florestais na Sibéria, temperatura saariana na Inglaterra, inundações devastadoras no Rio Grande do Sul, furacões com ventos de 300 km/h, sensação de 60 graus no Rio – são eventos extremos que se multiplicam e preocupam autoridades e governos do mundo inteiro. A Austrália acaba de regulamentar a acolhida, como refugiados climáticos, dos habitantes de Tuvalu, país independente do Oceano Pacífico que vai pouco a pouco sumindo sob as águas.

Em outras partes do mundo, a população – os jovens especialmente – estão cientes de que o problema maior do planeta não está na política rasteira, nem nas guerras, nem nas alianças. A ameaça principal que paira sobre a humanidade é o desregramento climático. A situação que se antevia para 2050 já chegou, quase vinte anos adiantada.

No Brasil, até poucos anos atrás, não se sabia o que era um ciclone extratropical. Hoje, o fenômeno tem assolado o sul do país e ceifado vidas. Só este ano, já vieram dois desses eventos. A exorbitante onda de calor que nos atingiu este mês veio fora dos padrões. Sua extensão, sua força e sua duração escapam aos parâmetros. Praticamente o território nacional inteiro foi assolado.

A população brasileira tem de ser conscientizada para as mudanças climáticas, que nos anunciam um futuro complicado. Em vez de anunciar subsídios para quem comprar carro com motor a explosão, como fez o governo este ano, a ênfase tem de ser posta no paulatino banimento do petróleo e na adoção da energia limpa. Ao oferecer prêmio para o povo sair por aí envenenando o ar que respira, o governo está fazendo exatamente o oposto do que deveria.

Dizem que a orquestra do Titanic continuou tocando enquanto o navio afundava. É verdade que os músicos nada podiam fazer para evitar o naufrágio. Nós podemos. Portanto, não vamos ficar tocando flauta. A catástrofe planetária já começou, mas ainda temos tempo de amenizar o estrago. Compete a nosso governo investir em propaganda institucional para levar a informação a todos. Cabe também às autoridades desenhar um programa para implementar todos os conselhos de bom senso que ajudem a população a modificar seus hábitos.

Se os habitantes de um pequeno país adotarem comportamento amistoso com relação à natureza, será boa ideia, mas de pouco impacto. O Brasil tem território vasto e população importante. Se os brasileiros se conscientizarem de que cada um pode agir em favor da natureza, será um movimento de grande alcance. No fundo, a natureza somos nós. Chega de fomentar nossa própria perdição.

Em todas as línguas

José Horta Manzano

News, Austrália

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Irish Times, Irlanda

15min, Lituânia

Politis News, Grécia

Dagens Næringsliv, Noruega

DW, Indonésia

EWN, África do Sul

El Universal, Venezuela

Planeta Trump

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Ouvindo as notícias de que o presidente eleito dos Estados Unidos pretende renegar a adesão ao Tratado do Clima (argumentando que o conceito de aquecimento global não passa de embuste dos chineses), suspender pagamentos a organismos internacionais de pesquisa sobre o tema e investir todo o dinheiro apenas na preservação do meio ambiente americano, tive um insight.

Já sei o que Mr. Trump pode fazer para implementar essa e todas as demais propostas polêmicas da campanha sem incomodar outros países: mudar-se de mala e cuia para um novo planeta, levando consigo todos os concidadãos que apostam na viabilidade de suas ideias políticas, econômicas, sociais e ambientais.

trump-6Soube que cientistas descobriram recentemente um planeta que fica a apenas 33 anos-luz da Terra, ao qual deram o nome de Super Terra, dada a semelhança com nosso amado planeta. Pareceu-me de imediato o lugar ideal para alojar o reino desse líder visionário. Dadas as extraordinárias dimensões do novo planeta, não haveria problema para nele acomodar boa parte da população dos Estados Unidos e de vários outros países aliados – como ingleses que aderiram ao Brexit, russos simpáticos à invasão da Ucrânia, franceses apoiadores do clã Le Pen, etc.

Evidentemente, o planeta seria rebatizado de Planeta Trump para concretizar o sonho do idealizador: deixar de ser apenas o presidente de uma potência ocidental e se tornar dono do mundo. Já pensei até nos critérios de triagem de imigrantes terráqueos. Para lá seriam enviados exclusivamente:

•   Cidadãos americanos natos, desde que comprovada sua origem ‘wasp’ [isto é, descendentes de anglo-saxões brancos e protestantes]. Europeus provenientes de países ricos poderiam eventualmente se candidatar numa segunda fase, bastando apenas comprovar situação financeira estável e pertencimento aos estratos sociais superiores em seus respectivos países. Africanos e “latinos” teriam suas candidaturas automaticamente descartadas em função das premissas acima.

planeta-2•   Basicamente homens em idade produtiva. Mulheres só seriam aceitas caso aceitassem dedicar-se exclusivamente à procriação e/ou ao entretenimento masculino. Crianças seriam acolhidas somente em caráter temporário e, quando atingissem a maioridade legal, deveriam jurar fidelidade irrestrita ao fundador do novo mundo. Todo e qualquer cidadão trumpês seria automaticamente reenviado à Terra ou solto no espaço quando atingisse a idade da aposentadoria.

•   Profissionais dispostos a ocupar, sempre que necessário, cargos braçais e outros ofícios sem qualificação como: vendedores, atendentes e operadores de telemarketing, postos que eram anteriormente destinados a imigrantes ilegais.

•   Fiéis de várias denominações cristãs. Os adeptos de filosofias religiosas orientais seriam sabatinados para investigar a viabilidade de convivência pacífica com a doutrina oficial. Em nenhuma hipótese, seriam aceitos seguidores da fé islâmica.

•   Heterossexuais assumidos que jurassem preferir a morte ao engajamento em práticas homossexuais de qualquer espécie e que aplicassem rigidamente as mesmas regras a seus descendentes.

planeta-1•   Pessoas que declarassem apoiar, incentivar e valorizar o aumento do poderio bélico do Planeta Trump e que não objetassem a seu direito de conquistar militarmente outros planetas.

•   Civis defensores do direito de posse irrestrita de armas para defesa pessoal e militares submissos ao poder central do novo império.

Concluídas com sucesso as primeiras etapas de colonização do novo planeta, novas regras poderiam ser agregadas e as anteriores, revistas. Em princípio, seriam declaradas como prioridades:

•   Explorar ao máximo os recursos naturais do novo planeta, sem restrições, já que não haveria opositores a exigir satisfação nem questionamentos quanto a um futuro sustentável. Se necessário, outros planetas poderiam vir a ser utilizados em substituição, sempre que algum problema ambiental assim o exigisse.

•   Enquadrar os empreendimentos comerciais, em especial os da área de entretenimento, como os cassinos, como fontes vitais de progresso e bem-estar social.

•   Desconsiderar as exigências de atendimento público de saúde, uma vez que trabalhadores sem as condições físicas ideais poderão ser substituídos com vantagem por robôs.

planeta-3Finalmente, a medida estratégica mais relevante a ser implementada: caso o líder máximo do trumpismo viesse a adoecer ou falecer durante o processo de ocupação do novo mundo, seus descendentes assumiriam automaticamente o comando. Qualquer pessoa que se opusesse à perpetuação da família Trump no poder seria enviada a campo de trabalho e condenada a escutar para sempre os discursos originais de Melania Trump.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.