O escândalo do ovo

José Horta Manzano

Você sabia?

Doutor Doria, prefeito da cidade de São Paulo, quando de recente visita à Bahia, serviu de alvo para um lançar de ovos. Se é sempre melhor levar uma ovada que uma pedrada, assim mesmo é desagradável. Moderada ou violenta, toda agressão física ‒ seja a ocupação da mesa diretora do Senado ou uma rajada de metralhadora ‒ é apanágio dos que não têm argumentos. Em linguagem de todos os dias, chamamos isso de apelação. Tivesse o incidente oval acontecido na Europa, o significado teria sido bem mais grave. Vamos começar do começo.

No fim dos anos 80, a empresa química Rhône Poulenc sintetizou uma molécula destinada a ser usada como pesticida. Seu nome técnico é Fipronil. A licença de fabricação e de comercialização pertence hoje ao gigante alemão Basf. Desde quando o produto foi lançado, estudos paralelos suspeitaram que fosse perigoso para a saúde humana. O inseticida, usado amplamente em antiparasitas para animais de companhia e também contra traças, baratas e formigas, tem sido ademais acusado de exterminar abelhas, animalzinho útil e indispensável para a polinização.

Faz alguns anos, em virtude de sérios indícios de nocividade, a União Europeia proibiu o uso do Fipronil em animais e produtos destinados ao consumo humano, entre eles, galináceos e ovos.

Passando por cima da interdição, grandes avícolas da Holanda e da Bélgica, que exportam a maior parte da produção, continuaram tratando galinhas e ovos com o pesticida. Poucos estavam a par até que, esta semana, espocou o escândalo dos ovos contaminados. A mídia não hesitou: estes dias, só se fala nisso. Foi um deus nos acuda. Dado que ovos entram na composição de grande variedade de produtos (massas, pães, bolos, doces, biscoitos, congelados, pratos «à milanesa» entre outros), as autoridades europeias estão sem saber pra que santo apelar. Descobriu-se que até ovos ditos «orgânicos» têm sido tratados com o produto proibido ‒ o cúmulo da trapaça.

Muitos produtos contendo ovos têm sido retirados das prateleiras dos supermercados mas, como se pode imaginar, é praticamente impossível conhecer a origem de cada componente de cada produto. À espera de que a poeira baixe, autoridades sanitárias tentam tranquilizar os consumidores dizendo que, em pequenas quantidades, a molécula não há de fazer mal a ninguém. Acredite quem quiser.

Pra ter certeza, pelo menos por enquanto, o melhor é comprar ovos do galinheiro da vizinha. Espero que o ovo que atingiu o cocuruto do prefeito não tenha sido importado da Holanda. O risco é pequeno, é verdade.

Mobral neles!

José Horta Manzano

Tostão (80 réis) de 1830

Tostão (80 réis) de 1830

Segundo especialistas, Fedro, escritor que se exprimia em latim, nasceu na região da Trácia, ao norte da Grécia. Foi levado para Roma ainda muito jovem, na condição de escravo.

Como voltaria a fazer Jean de La Fontaine um milênio e meio mais tarde, Fedro especializou-se em fábulas, historietas curtas, simples, de conteúdo pedagógico e moral.

Durante séculos, não foi considerado um grande escritor. Não o situaram à altura de um Ovídio, de um Cícero, de um Catulo ou de um Horácio. A grandiloquência de seus contemporâneos fez sombra ao despojamento de seus textos.

É pena. Frases simples podem conter ensinamentos profundos. No outro extremo, discursos impressionantes e inflamados podem revelar-se vazios, nada mais que falatório. Fedro nos legou o fruto de uma mente perspicaz. São historinhas, máximas, frases e ditados que, passados dois mil anos, continuam fazendo sentido.

Hoje temos a impressão ― nem sempre verdadeira ― de ir mais rápido, de possuir conhecimento maior, de usufruir conforto superior. Acho que é tudo muito relativo.

De que adianta carregar um telefone no bolso se, entre o momento em que ele nos serve para alertar a polícia de que nos estão assaltando e a chegada da patrulha, o assaltante já se foi carregando nosso suado dinheirinho?

De que adianta estar ao volante de um bólido superveloz quando o tráfego pesado nos obriga a viajar à velocidade de um pedestre?

Um nível de vida elevado não corresponde necessariamente a uma boa qualidade de vida. Na Roma dos Césares, o nível de vida era certamente inferior ao que é hoje. Em compensação, toda a alimentação era orgânica. O único aditivo utilizado era… esterco. Orgânico e biodegradável.

Voltando a Fedro, li hoje uma de suas citações. Além de não ter perdido a atualidade, continua mais que nunca dans l’air du temps. Segue na mesma linha daquela fábula que espezinha a vanidade do rei nu.

Inlitteratum plausum non desidero.
Não desejo o aplauso dos ignorantes.

Milréis de 1939

Milréis de 1939

Se os madachuvas desta terra tropical parassem para pensar nessa máxima, e principalmente se seguissem o conselho, nosso País melhoraria logo, logo.

Mas acho que, aí, já estou pedindo demais da conta. Desgraçadamente, nossos reis continuam nus. E ingenuamente embevecidos com sua própria nudez.

Como diziam os antigos, “quem nasceu pra tostão não chega a mirréis”.