Língua simplificada

José Horta Manzano

Você deve se lembrar que, algum tempo atrás, uma diligente brigada do ‘Exército de Perenização do Iletrismo’ encasquetou que a escrita de Machado de Assis era de padrão por demais elevado e sofisticado, e que, portanto, era urgente reescrevê-la à atenção dos brasileiros do século XXI.

De fato, vítimas da contínua deterioração do aprendizado da língua pátria, os brasileirinhos de hoje não alcançam mais o nível necessário para ler – e entender! – os livros de nosso escritor maior.

Para esses beneméritos vigilantes, a solução mais adequada não é a melhora do ensino, que seria o remédio apontado por qualquer criatura de bom senso. Para o ‘Exército de Perenização do Iletrismo’ a solução é rebaixar o grau de dificuldade da matéria ensinada. Como diz a velha piada, se a febre é muito alta, quebra-se o termômetro. É gesto de efeito mais rápido que aspirina, visto que a febre desaparece na hora.

A impressão que me fica é que a cegueira dos gênios que preconizam lançar a coleção “Machado de Assis adaptado para mal alfabetizados” também é fruto do esgarçamento do aprendizado da arte de raciocinar e entender o mundo.

O ensino pobre da língua não tem sido fenômeno isolado; acompanha-se do rebaixamento do nível de ensino das demais matérias. No final, os alunos se ressentem dessa formação medíocre e têm dificuldade em entender e enfrentar os problemas do mundo.

Quando jovens escolarizados, formados e diplomados sentem dificuldade em entender um texto técnico e não pensam em procurar ajuda num dicionário ou em outro lugar, a boa solução não é empobrecer a linguagem do texto, mas ensinar ao leitor perdido o caminho a seguir.

Faz muitos anos que, seguramente para facilitar a vida do leitor menos esclarecido, certos jornais abandonaram os algarismos romanos e adotaram os números comuns para designar sequências de reis e papas. Assim, foi-se D. João VI; bem-vindo D. João 6°. O papa João XXIII, popularíssimo em seu tempo, no Brasil responde pelo nome João 23. Se, no velho curso primário, algum de nós ousasse escrever assim, perigava levar um coque ou uma reguada de dona Mariazinha.

Suponho que a escola não ensine mais os algarismos romanos. É pena porque, caso o aluninho de hoje leia amanhã uma obra em língua estrangeira, vai empacar nessa numeração que ele desconhece e que, no exterior, não foi abolida.

O Conselho Nacional de Justiça, associado ao STF, anuncia um pacto do Judiciário “pela linguagem simples”. O objetivo é chegar a uma linguagem mais compreensível à população. Que seja enxugada a prolixidade cartorial de certos textos, com repetições a granel, é boa ideia. Mas “linguagem simples”? Abolir expressões latinas do Direito? É ilusão. Termos específicos são indispensáveis em textos jurídicos.

Soluções menos radicais já existem. Passeando pela internet, encontrei diversos glossários de termos jurídicos. Um deles, feito pela Procuradoria da República no Espírito Santo, me pareceu bem completo, com centenas de entradas.

Acho que violentar a obra de Machado de Assis ou rebaixar a qualidade de textos jurídicos é solução de ponta-cabeça. O nivelamento deve ser feito por cima, não por baixo.

Molière e Machado

Jean-Baptiste Poquelin, dito Molière
(1622-1673)

José Horta Manzano

Não faz muito tempo, uma proposta, não me lembro de quem, causou escândalo. Sugeria que os livros de Machado de Assis fossem reescritos em linguagem moderna, compreensível para os brasileiros do século 21.

Os que ainda conseguem entender a obra de Machado tim-tim por tim-tim ficaram de cabelo em pé. Já os que pouco leem talvez nem tenham ficado sabendo da polêmica. Não sei se a ideia foi levada adiante.

Este 15 de janeiro marca o 400° aniversário de nascimento de Molière, ator e dramaturgo, o escritor de língua francesa mais conhecido no mundo todo. A importância dele para a cultura francesa pode ser medida pelo número de palavras que seu nome legou aos dicionários: moliérien (=molieriano), moliériste (=molierista), moliéresque (=molieresco), moliérisant (=molierizante), moliérophile (=molierófilo), moliéromane (=molierômano), moliérophobe (=molierófobo).

Nascido em 1622, Molière se exprimia no estilo de seu tempo, com todos o maneirismo e os rodopios característicos daquele início de reino de Luís 14. Suas peças de teatro, escritas em elaborados versos alexandrinos (de 12 sílabas), representam um requinte nas artes cênicas.

O problema é que, compostos quatro séculos atrás, seus versos são hoje de difícil compreensão. Se os eruditos se sentem à vontade no universo “molieresco”, o mesmo não ocorre com gente comum, especialmente os mais jovens. É uma pena o cidadão pagar a entrada e refestelar-se na poltrona do teatro pra passar duas horas ouvindo uma sequência de versos e rimas cujo significado muitas vezes lhe escapa.

Há atualmente um movimento, liderado por um temerário professor de literatura, que propõe a reescritura das peças “molieranas” traduzidas para a linguagem atual. A ideia, naturalmente, aborrece os poucos que ainda conseguem captar a verve e o humor de peças escritas há quatrocentos anos. Há também aqueles que, embora não sejam especialistas nos originais de Molière, respeitam a sacralização do grande autor e preferem que não se modifique nem uma vírgula.

Ainda que alguém se arriscasse a “traduzir” alguma peça para o francês moderno, seria difícil encontrar um editor que publicasse o resultado. Mais difícil ainda, se não impossível, seria convencer um teatro a permitir a montagem e apresentação da peça.

Uma outra ideia está no ar. É a tradução simultânea, a ser afixada logo acima (ou logo abaixo) da cena, como se faz para óperas. Talvez floresça, talvez não. Quando se tenta mexer em monstros sagrados, muita gente faz corpo duro, especialmente em países orgulhosos de seu patrimônio cultural, como a França.

No caso de Machado de Assis, a maior parte de sua obra foi escrita em prosa. É matéria para livro, não para o palco. Reescrever algum livro seu e publicá-lo no lugar do original me parece um sacrilégio, um atentado à memória do autor. Já uma edição “bilíngue”, em que o texto original seja cotejado com a “tradução” em linguagem atual não me parece uma afronta à glória do autor.

Se alguma obra de Machado já não tiver sido editada nesse formato, fica a ideia.

Ao vencedor, as batatas!

José Horta Manzano

Para 38 milhões de eleitores, hoje é dia de ir às urnas. De novo. E é bom votar direitinho, porque não há terceiro turno. A escolha de hoje é definitiva e o mandato dos eleitos, de quatro anos.

É de Machado de Assis (1839-1908) a expressão «Ao vencedor, as batatas!», que aparece no romance Quincas Borba. O tubérculo – que antigamente chamávamos batata-inglesa, por oposição à batata-doce – é originário da América do Sul, mais precisamente das encostas da Cordilheira dos Andes. Ainda hoje é a base da alimentação de populações inteiras naquela região.

Os primeiros europeus que visitaram a América se interessaram por aquele estranho tubérculo que alimentava tanta gente. Levaram mudas e se surpreenderam com a facilidade com que a nova planta se aclimatava às condições europeias. Não precisou muito tempo para a batata ser consumida e apreciada por todos os povos do Velho Continente. Seu consumo logo se equiparou ao do pão, chegando até a suplantá-lo na Europa do Norte.

Entre 4500 e 5000 variedades de batata (!) estão inventoriadas pelos organismos dedicados à classificação dessa solanácea. Em muitos países, entre os quais a França, sua produção é rigorosamente controlada. Não se pode vender qualquer tipo de batata assim, sem mais nem menos. Para que a comercialização de uma variedade qualquer seja autorizada, ela tem obrigatoriamente de estar inscrita Catálogo Oficial francês.

Em 2010, apenas 214 variedades estavam oficialmente registradas. Assim, somente elas tinham o direito de ser comercializadas. Antes do plantio, o agricultor prudente consulta a lista oficial. Caso tente vender uma variedade não autorizada, estará cometendo infração. Portanto, estará exposto a sanções. É possível inscrever uma nova variedade no catálogo oficial, mas não é fácil. O caminho é longo e a burocracia, pesada.

Espantado? Eu também fiquei no dia em que soube da existência da lista oficial e, principalmente, da proibição de escapar dela. Mas o problema é só de princípio, tem pouca influência sobre a vida de todos os dias. Os comércios, mesmo as épiceries fines (mercearias finas), não oferecem mais que 10 ou 15 variedades. São amplamente suficientes para a realização das receitas mais sofisticadas.

Sem dúvida, é muito interessante saber que, entre nativas e manipuladas, milhares de variedades de batata já foram identificadas. Para o cidadão comum, no entanto, não passa de mera estatística.

Nota
“Ao vencedor, as batatas!”, a frase marcante de nosso escritor maior, tem de ser adaptada à realidade de nosso século. Hoje em dia, convém dizer “Ao vencedor, o abacaxi!”.

Publicado originalmente em 29 dez° 2012.

Se fôssemos espertos

Ruy Castro (*)

Comecei a suspeitar de algo errado com a educação no Brasil quando uma de minhas filhas, matriculada num colégio “experimental” do Rio em fins dos anos 70, chegou aos oito anos sem ser alfabetizada. Em troca, subia e descia de árvores com uma destreza de Jane do Tarzan. Seu colégio dava grande importância a essa disciplina e, não por acaso, o pátio parecia uma miniatura da Mata Atlântica.

Desde então, nosso sistema de ensino vem procurando novas fórmulas com as quais preparar os garotos. Uma delas propôs – e conseguiu – extinguir do currículo o Latim, talvez por ele não figurar entre as línguas oficiais da Disney World. Outra postulou o desaparecimento da Geografia, sob a alegação de que era inútil saber, digamos, os afluentes do rio Amazonas – para que decorar a resposta a uma pergunta que jamais lhes seria feita?

Mas isso foi então. Nos últimos 15 anos, voltamos aos conteúdos, só que para tentar inverter o polo da história – diminuindo a presença do opressor europeu e enfatizando a dos nossos indígenas e africanos. Com isso, menos Estácio de Sá e D. Pedro I, por exemplo, e mais Zumbi dos Palmares e o cacique Arariboia. Muito justo – mas o que faremos com o Aleijadinho, Chiquinha Gonzaga, Machado de Assis, Lima Barreto, Di Cavalcanti, Mario de Andrade, Elizeth Cardoso, Ademir da Guia, Taís Araújo e a torcida do Flamengo, todos com algum branco descascado na composição?

Enquanto no Brasil discutimos ideologia, Portugal há anos começou a privilegiar o ensino de Português e Matemática em suas escolas. Sem ler ou escrever direito, ninguém chegará à História e à Filosofia. E sem uma forte base Matemática, ninguém dará para a saída no mundo cibernético. Os portugueses começam a colher os frutos dessa política.

Se fôssemos espertos, já os estaríamos copiando.

(*) Ruy Castro (1948-) é escritor, biógrafo, jornalista e colunista. Seus artigos são publicados em numerosos veículos.

“Risco de morte”

Sérgio Rodrigues (*)

Boa notícia no mundo da língua brasileira: a expressão biônica “risco de morte”, que há cerca de 20 anos começou a se impor às cotoveladas no discurso dos meios de comunicação, sofreu um violento revés. Talvez não corra risco de vida, mas está no hospital.

Na última quinta-feira (9), depois que publiquei aqui um texto sobre os “podólatras da letra”, a direção de jornalismo da TV Globo soltou uma circular vetando em toda a rede o uso da locução, que chamou acertadamente de “modismo”.

Eu sei que isso não vai resolver os problemas do Brasil. A notícia é boa para a cultura do país porque representa uma vitória da língua natural, aquela que as pessoas de fato falam, e uma derrota de certa mentalidade prescritiva que, mesmo bem intencionada, comete o pecado de inventar “erros” onde eles não existem.

Dança dos mortos
Estampa da nota de 1000 francos suíços que circulou de 1954 a 1974

Basta pensar na reputação que o português tem para grande parte dos estudantes e da população em geral –a de língua dificílima e cheia de pegadinhas– para entender o potencial nocivo da caça ao equívoco imaginário. “Seus tataravós falavam errado, seus bisavós e avós e pais também, preste atenção!”

Por ser emblemática, a história de “risco de morte” merece uma recapitulação. É preciso deixar claro que o problema da expressão não é estar “errada”. Seu problema é que, de uso minoritário ate então, foi vendida a multidões de falantes ao preço da criminalização de uma locução consagrada, familiar e tão popular quanto elegante.

Foi em fins do século passado que estudiosos apegados demais ao pé da letra transformaram a malhação de “risco de vida” –que até Machado de Assis usou– em cavalo de batalha. O jornalismo brasileiro, infelizmente, montou nele e saiu a galope.

A Globo não inventou o modismo, embora possa ser considerada sua maior propagadora. Introduzida na cultura da grande imprensa por consultores de português, a ideia de que “risco de vida” era um contrassenso chegou a ser acolhida também nesta Folha – que, no entanto, livrou-se dela faz tempo.

“Ninguém corre o risco de viver”, dizia-se. Era um equívoco. A análise em que se baseava obscurecia algo compreendido até então por todos os falantes, inclusive os analfabetos: que risco de vida quer dizer risco para a vida, isto é, risco de perder a vida.

Enxergar aí uma agressão à lógica requer um tipo bem carrancudo de literalismo. É mais ou menos como dizer que o “quarto de visitas” deveria ser chamado de “quarto para visitas”, uma vez que elas nunca terão a posse do cômodo.

A primeira voz que vi se levantar contra isso, no início do século, foi a do linguista Sírio Possenti. No campo conservador, o jornalista Marcos de Castro incluiu um verbete em reedição de seu livro A imprensa e o caos na ortografia para engrossar o coro. A resistência a “risco de morte” foi uma obra coletiva.

Não que a locução mereça o anátema que seus defensores tentaram impor a “risco de vida”. As duas são gramaticais e fazem sentido. Uma, preferida por gerações de brasileiros, refere-se ao perigo que corre a vida; a outra fala do perigo de que a morte vença. Dizem basicamente a mesma coisa.

Por que, então, comemorar o declínio da expressão “risco de morte”? Porque ela não soube brincar. A língua que as pessoas falam na vida real merece respeito.

(*) Sérgio Rodrigues é escritor e jornalista. O artigo reproduzido foi publicado originalmente na Folha de São Paulo.

Quem é mesmo?

José Horta Manzano

Faz muito tempo que os vi pela última vez ‒ afinal, ambos faleceram há mais de cem anos e o tempo abranda a memória. Assim mesmo, a lembrança que guardei dos dois grandes escritores foi a seguinte:

Machado de Assis era este:

Joaquim Maria Machado de Assis (1839-1908)

Joaquim Maria Machado de Assis (1839-1908)

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Castro Alves era este:

Antônio Frederico de Castro Alves (1847-1871)

Antônio Frederico de Castro Alves (1847-1871)

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A Folha de São Paulo de ontem publicou uma chamada intrigante. Falando de um, pôs o retrato do outro. Salvo melhor juízo, naturalmente.

Chamada da Folha de São Paulo, 25 jun 2016

Chamada da Folha de São Paulo, 25 jun 2016

Nota birrenta
His mother’s death fica bem em inglês. La mort de sa mère é irreprovável em francês. Já em português brasileiro, o possessivo é perfeitamente dispensável em casos como esse. Chora a morte da mãe” soa mais fluido e mais natural.

O legado da nossa miséria

Helio Gurovitz (*)

Machado de Assis 1Machado de Assis encerra Memórias Póstumas de Brás Cubas com um capítulo intitulado “Das Negativas”, em que o narrador elenca tudo aquilo que não fez na vida: não foi ministro, não foi califa, não vendeu seu emplasto, não conheceu o sucesso. Conclui com aquela frase que todos conhecemos de cor: “Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria”. Em vez de proclamar sucessos, o narrador nem sequer lamentava seus fracassos. Machado foi irônico como só ele sabia ser.

Hoje em dia, estamos acostumados a ouvir negativas de outra natureza, como resultado da Operação Lava Jato e de seus desdobramentos.

Interligne vertical 16 3KeDa presidente Dilma Rousseff:
“Meu governo não está envolvido em corrupção”.

Do presidente da Câmara, Eduardo Cunha:
“Não tenho qualquer tipo de conta em qualquer lugar que não seja a conta que está declarada no meu imposto de renda”.

Do presidente do Senado, Renan Calheiros, sobre o lobista Fernando Baiano:
“Não há fato, não conheço a pessoa, nunca vi”.

Do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em depoimento ao Ministério Público Federal a respeito dos contratos firmados pelo BDNES:
“Jamais interferi”.

Do presidente do PT, Rui Falcão, a respeito das denúncias de dinheiro do petrolão na campanha eleitoral:
“O PT desmente a totalidade das ilações de que o partido teria recebido repasses financeiros da Petrobrás”.

Do presidente da Odebrecht, Marcelo Odebrecht:
“Podem investigar à vontade que não acharão nada sobre nós”.

Em alguns países, sobretudo na Ásia, políticos flagrados em escândalos de corrupção chegam até a cometer suicídio. Foi o caso do ministro da Agricultura do Japão, Toshikatsu Matsuoka, em 2007; do ex-presidente sul-coreano Roh Moo-hyun, em 2009; do deputado de Cingapura Teh Cheang Wan, em 1986; do almirante chinês Ma Faxiang, em 2014; e do teatral senador Budd Dwyer, da Pensilvânia, que se matou diante das câmaras em 1987.

Todos esses casos trágicos, presume-se, são resultado de algum conflito moral que a mente dos acusados foi incapaz de resolver. Por aqui, esse conflito – quando existe – costuma ser resolvido na base do cinismo mesmo.

(*) Helio Gurovitz é jornalista e colunista de O Globo. O trecho reproduzido é excerto de um artigo. Para ler na integralidade, clique aqui.

O mérito de Marina

José Horta Manzano

Paleta 1De onde vivo, estou longe de ter visão integral do que ocorre no Brasil. Embora dê pra ter uma ideia consistente, sempre ficam faltando algumas peças pra completar o quebra-cabeça.

Tenho acompanhado a evolução da campanha eleitoral com notável lacuna: não assisti a nenhum debate televisivo. Portanto, algum ponto pode ter-me escapado.

Pelo que tenho lido, dona Marina ― que possivelmente será a próxima chefe do Estado brasileiro ― não tem utilizado suas origens raciais como trunfo eleitoral. Se as utilizou, não fiquei sabendo. Espero que não o tenha feito.

Muitas enormidades têm sido ditas e cometidas estes últimos tempos em torno da diversidade étnica de nosso povo. Onde antes todos enxergavam uma paleta onde o dégradé ia do mais retinto ao mais alvo, a tese oficial nos incita hoje a encaixar cada brasileiro numa categoria: ou é negro ou não é. Assim, sem nuance. Das duas, uma.

Para mim, isso é bobagem pura. Todos sabem que o preconceito não está ligado à cor da pele, mas ao dinheiro que cada um tem no bolso. Pobre, desdentado e mal vestido será tratado como pobre, desdentado e mal vestido ― pouco importando que seja preto, branco, azul ou violeta.

Um país cujo escritor maior foi o mulato Joaquim Maria Machado de Assis não tem o direito de instigar diferenças raciais. Uma terra cujo músico lírico maior foi o mulato Antônio Carlos Gomes não deve se envergonhar da miscigenação.

Marina Silva 1O mundo se espanta até hoje com o fato de um mulato ter sido eleito presidente dos EUA. Enquanto isso, negros, mulatos, orientais, árabes, escandinavos, mediterrâneos ocupam em nossa terra, há décadas, cargos de governador, prefeito, ministro, deputado, vereador, juiz. E isso nunca estarreceu ninguém.

Temos agora a forte probabilidade de ser presididos por uma mulher que se autodefine como negra. É autodefinição, não vale a pena discutir. Se bem que, observando bem os traços de dona Marina, é lícito pressentir que o leque de suas origens étnicas seja muito mais aberto. Ela não se encaixa nas duas categorias obrigatórias. Pode muito bem ser produto do cruzamento das três principais raças que compõem a nação brasileira: o ameríndio, o africano negro e o europeu.

Mas faz ela muito bem em não dar peso às proprias origens étnicas. Que tudo seja feito para evitar que o Brasil resvale um dia para o voto étnico ou comunitário. Não vale a pena atirar mais lenha à fogueira. Que a política do «nós ou eles» do atual governo se possa em breve transformar em política do «nós todos».

Machado de Itararé, Barão de Assis

Deonísio da Silva (*)

Quando junho vier, antes de outubro chegar, milhões de leitores serão enganados por um falso Machado de Assis.

O alienista 3É que serão distribuídos seiscentos mil exemplares (600.000; você não leu errado!) de uma edição falsificada de «O alienista», uma história de loucos, isto é, de médico e louco, dos quais todos nós temos um pouco, mas não na dose a ser administrada ao distinto público nas próximas semanas.

Machado de Assis foi o maior escritor brasileiro de todos os tempos. De seu livro roubado e mutilado foi produzida essa montanha de equívocos, com o seu, o meu, o nosso dinheiro, por meio de um recurso fabuloso, a renúncia fiscal, que, entretanto, tem resultado em projetos culturais tão louváveis, bonitos e importantes! Mas que vem se prestando também a algumas falcatruas.

A vida do Bruxo do Cosme Velho, como o chamou Carlos Drummond de Andrade, não foi fácil, mas, se ele vivesse no Brasil de hoje, seria ainda pior. Poucos entendem seus livros nos circuitos escolares, e a razão é muito simples. Basta olhar nossos indicadores de educação no mundo!

Mas o motivo é outro, segundo nos esclarece Patrícia Secco, a autora da «adaptação».

O alienista 1«De onde menos se espera, daí é que não sai nada», profetizou o lendário humorista gaúcho Barão de Itararé. «Entendo por que os jovens não gostam de Machado de Assis», disse Patrícia Secco ao jornalista Chico Felitti. «Os livros dele têm cinco ou seis palavras que não entendem por frase. As construções são muito longas. Eu simplifico isso.»

Escreve o jornalista: «Ela simplifica mesmo: Patrícia lançará em junho uma versão de ‘O alienista’, obra de Machado lançada em 1882, em que as frases estão mais diretas e palavras são trocadas por sinônimos mais comuns (um ‘sagacidade’ virou ‘esperteza’, por exemplo).» (…) «A ideia não é mudar o que ele disse, só tornar mais fácil.»

Machado era órfão de mãe (de pai é uma coisa, de mãe é outra, o abandono é ainda maior!), descendente de negros, pobre, gago, epiléptico, casou com uma solteirona portuguesa que tinha comido a merenda antes do recreio, e não tiveram filhos para não transmitir a ninguém o legado da doença. Mas deixou-nos uma obra imortal!

Mais que gênio, oxigênio de nossas letras, Machado venceu preconceitos de raça, de cor, de dinheiro, de tudo. Mas não passou pela senhora dona Patrícia Secco, em breve «coberta de ouro e prata (600.000 exemplares!)», mas que «descubra seu rosto», «queremos ver a sua cara».

Augusto Meyer disse que «quase toda a obra de Machado de Assis é um pretexto para o improviso de borboleteios maliciosos, digressões e parênteses felizes».

Araripe Júnior também foi outro que se enganou: «Filho das próprias obras, ele (Machado) não deve o que é, nem o nome que tem, senão ao trabalho e a uma contínua preocupação de cultura literária».

O alienista 2Astrojildo Pereira enganou-se ainda mais: «Machado de Assis é o mais universal dos nossos escritores; (…) ele é também o mais nacional, o mais brasileiro de todos».

O francês Roger Bastide, destacando a paisagem carioca que poucos viam em Machado, concluiu: «Escrevi estas páginas de protesto contra os críticos literários que lhe negam essa qualidade: humilde homenagem de um estrangeiro a um mestre da literatura universal».

Paro por aqui. A senhora dona Patrícia Secco não tem o direito de fazer o que fez. A obra de Machado de Assis não é dela. É patrimônio do povo brasileiro.

(*) Deonísio da Silva é escritor e filólogo.