“Risco de morte”

Sérgio Rodrigues (*)

Boa notícia no mundo da língua brasileira: a expressão biônica “risco de morte”, que há cerca de 20 anos começou a se impor às cotoveladas no discurso dos meios de comunicação, sofreu um violento revés. Talvez não corra risco de vida, mas está no hospital.

Na última quinta-feira (9), depois que publiquei aqui um texto sobre os “podólatras da letra”, a direção de jornalismo da TV Globo soltou uma circular vetando em toda a rede o uso da locução, que chamou acertadamente de “modismo”.

Eu sei que isso não vai resolver os problemas do Brasil. A notícia é boa para a cultura do país porque representa uma vitória da língua natural, aquela que as pessoas de fato falam, e uma derrota de certa mentalidade prescritiva que, mesmo bem intencionada, comete o pecado de inventar “erros” onde eles não existem.

Dança dos mortos
Estampa da nota de 1000 francos suíços que circulou de 1954 a 1974

Basta pensar na reputação que o português tem para grande parte dos estudantes e da população em geral –a de língua dificílima e cheia de pegadinhas– para entender o potencial nocivo da caça ao equívoco imaginário. “Seus tataravós falavam errado, seus bisavós e avós e pais também, preste atenção!”

Por ser emblemática, a história de “risco de morte” merece uma recapitulação. É preciso deixar claro que o problema da expressão não é estar “errada”. Seu problema é que, de uso minoritário ate então, foi vendida a multidões de falantes ao preço da criminalização de uma locução consagrada, familiar e tão popular quanto elegante.

Foi em fins do século passado que estudiosos apegados demais ao pé da letra transformaram a malhação de “risco de vida” –que até Machado de Assis usou– em cavalo de batalha. O jornalismo brasileiro, infelizmente, montou nele e saiu a galope.

A Globo não inventou o modismo, embora possa ser considerada sua maior propagadora. Introduzida na cultura da grande imprensa por consultores de português, a ideia de que “risco de vida” era um contrassenso chegou a ser acolhida também nesta Folha – que, no entanto, livrou-se dela faz tempo.

“Ninguém corre o risco de viver”, dizia-se. Era um equívoco. A análise em que se baseava obscurecia algo compreendido até então por todos os falantes, inclusive os analfabetos: que risco de vida quer dizer risco para a vida, isto é, risco de perder a vida.

Enxergar aí uma agressão à lógica requer um tipo bem carrancudo de literalismo. É mais ou menos como dizer que o “quarto de visitas” deveria ser chamado de “quarto para visitas”, uma vez que elas nunca terão a posse do cômodo.

A primeira voz que vi se levantar contra isso, no início do século, foi a do linguista Sírio Possenti. No campo conservador, o jornalista Marcos de Castro incluiu um verbete em reedição de seu livro A imprensa e o caos na ortografia para engrossar o coro. A resistência a “risco de morte” foi uma obra coletiva.

Não que a locução mereça o anátema que seus defensores tentaram impor a “risco de vida”. As duas são gramaticais e fazem sentido. Uma, preferida por gerações de brasileiros, refere-se ao perigo que corre a vida; a outra fala do perigo de que a morte vença. Dizem basicamente a mesma coisa.

Por que, então, comemorar o declínio da expressão “risco de morte”? Porque ela não soube brincar. A língua que as pessoas falam na vida real merece respeito.

(*) Sérgio Rodrigues é escritor e jornalista. O artigo reproduzido foi publicado originalmente na Folha de São Paulo.

6 pensamentos sobre ““Risco de morte”

  1. Sinto-me aliviado também… já comentei isso aqui. Sempre achei que “risco” é de algo negativo, ruim, então é o risco para a vida, risco de perdê-la! (Se bem que a outra, okay, é considerada correta… fazer o quê?

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  2. Eu, devo confessar, tento usar “risco de morte” sempre. Não gosto de prosseguir com algo só porque é o usual. Entendo que, se todos conhecem a expressão e ela passa a mensagem sem problemas, tem lastro para ser aceita. Mas a lógica e o sentido tem de ter mais força. Não serei machista porque essa é a tradição histórica. Não terei preconceito contra negros, homossexuais e outros por conta de nosso costume. Refleti sobre as duas expressões e escolhi a que usarei.

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  3. Eu, devo confessar, tento usar “risco de morte” sempre. Não gosto de prosseguir com algo só porque é o usual. Entendo que, se todos conhecem a expressão e ela passa a mensagem sem problemas, tem lastro para ser aceita. Mas a lógica e o sentido tem de ter mais força. Não serei machista porque essa é a tradição histórica. Não terei preconceito contra negros, homossexuais e outros por conta de nosso costume. Refleti sobre as duas expressões e escolhi a que usarei. Não obstante, quando os outros usarem “risco de vida”, entenderei a mensagem perfeitamente. Se sei inúmeras expressões em outra língua, por que não saber expressões sinônimas em minha própria língua?

    Mudando de assunto: Gostaria de saber a causa de usarmos “pois não” quando concordamos com algum pedido e não “pois sim”, o que seria mais lógico.

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    • A língua tem mistérios insondáveis, prezado Marcos. Diferentemente dos brasileiros, os portugueses costumam dizer «pois sim» de forma afirmativa, reservando o «pois não» para negar.

      «Il faut de tout pour faire un monde», dizem os franceses. Com isso, querem dizer que toda opinião e todo modo de ser são válidos e bem-vindos. A construção do mundo exige que cada um traga sua pedra. E não há duas pedras idênticas. Vive la différence!

      Cordialmente

      José Horta Manzano

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