Exclusividade racial

Ruy Castro (*)

Correu o país a história da jovem Thauane, branca, 19 anos, hostilizada num ônibus em Curitiba por mulheres negras por estar, segundo estas, se apropriando da cultura afro ao usar um turbante. Thauane alegou que sofria de leucemia, e o turbante escondia sua perda de cabelo causada pela quimioterapia. Espero que, depois de recuperada, Thauane continue a usar turbante – não como um estandarte de guerra, mas por achá-lo um bonito acessório.

Bem, se até turbantes já foram convertidos em símbolos de identidade racial, vamos ter de rever tudo. No futebol, por exemplo, fica proibido aos jogadores brancos fazer gol de bicicleta, como Leonidas da Silva, cobrar falta com folha seca, como Didi, e comemorar um gol com o soco no ar, como Pelé – são exclusividades da cultura negra. Na culinária, os restaurantes não poderão mais servir feijoada, moqueca, farofa, angu, quiabo, jiló, cocada, quindim e rapadura a clientes brancos.

by Catherine Valette, artista francesa

Lindas palavras de origem africana e há séculos incorporadas à língua brasileira, como cafuné, bunda, camundongo, xodó, zoeira, macumba, moleque, banguela, babaca, catimba, fuzuê e gandaia terão de ser abolidas do vocabulário branco. Quanto aos músicos brancos, mantenham distância do berimbau, da cuíca e do ganzá.

Aliás, a música popular será um problema. Ritmos de origem negra como o samba, o jazz, o blues, a salsa, o rap, o funk e dezenas de outros não poderão mais ser tocados em shows frequentados por brancos. E o rock, como ficará? Inventado lá atrás por negros pioneiros como Muddy Waters, Howlin’ Wolf, Chuck Berry, Bo Diddley e Little Richard, quem se apropriou e enriqueceu com ele foram Elvis Presley, John Lennon, Mick Jagger, David Bowie, Eric Clapton e milhares mais.

 Acho que os negros americanos deveriam pedir o rock de volta.

(*) Ruy Castro (1948-) é escritor, biógrafo, jornalista e colunista. O texto aqui reproduzido foi publicado originalmente pela Folha de São Paulo.

“Risco de morte”

Sérgio Rodrigues (*)

Boa notícia no mundo da língua brasileira: a expressão biônica “risco de morte”, que há cerca de 20 anos começou a se impor às cotoveladas no discurso dos meios de comunicação, sofreu um violento revés. Talvez não corra risco de vida, mas está no hospital.

Na última quinta-feira (9), depois que publiquei aqui um texto sobre os “podólatras da letra”, a direção de jornalismo da TV Globo soltou uma circular vetando em toda a rede o uso da locução, que chamou acertadamente de “modismo”.

Eu sei que isso não vai resolver os problemas do Brasil. A notícia é boa para a cultura do país porque representa uma vitória da língua natural, aquela que as pessoas de fato falam, e uma derrota de certa mentalidade prescritiva que, mesmo bem intencionada, comete o pecado de inventar “erros” onde eles não existem.

Dança dos mortos
Estampa da nota de 1000 francos suíços que circulou de 1954 a 1974

Basta pensar na reputação que o português tem para grande parte dos estudantes e da população em geral –a de língua dificílima e cheia de pegadinhas– para entender o potencial nocivo da caça ao equívoco imaginário. “Seus tataravós falavam errado, seus bisavós e avós e pais também, preste atenção!”

Por ser emblemática, a história de “risco de morte” merece uma recapitulação. É preciso deixar claro que o problema da expressão não é estar “errada”. Seu problema é que, de uso minoritário ate então, foi vendida a multidões de falantes ao preço da criminalização de uma locução consagrada, familiar e tão popular quanto elegante.

Foi em fins do século passado que estudiosos apegados demais ao pé da letra transformaram a malhação de “risco de vida” –que até Machado de Assis usou– em cavalo de batalha. O jornalismo brasileiro, infelizmente, montou nele e saiu a galope.

A Globo não inventou o modismo, embora possa ser considerada sua maior propagadora. Introduzida na cultura da grande imprensa por consultores de português, a ideia de que “risco de vida” era um contrassenso chegou a ser acolhida também nesta Folha – que, no entanto, livrou-se dela faz tempo.

“Ninguém corre o risco de viver”, dizia-se. Era um equívoco. A análise em que se baseava obscurecia algo compreendido até então por todos os falantes, inclusive os analfabetos: que risco de vida quer dizer risco para a vida, isto é, risco de perder a vida.

Enxergar aí uma agressão à lógica requer um tipo bem carrancudo de literalismo. É mais ou menos como dizer que o “quarto de visitas” deveria ser chamado de “quarto para visitas”, uma vez que elas nunca terão a posse do cômodo.

A primeira voz que vi se levantar contra isso, no início do século, foi a do linguista Sírio Possenti. No campo conservador, o jornalista Marcos de Castro incluiu um verbete em reedição de seu livro A imprensa e o caos na ortografia para engrossar o coro. A resistência a “risco de morte” foi uma obra coletiva.

Não que a locução mereça o anátema que seus defensores tentaram impor a “risco de vida”. As duas são gramaticais e fazem sentido. Uma, preferida por gerações de brasileiros, refere-se ao perigo que corre a vida; a outra fala do perigo de que a morte vença. Dizem basicamente a mesma coisa.

Por que, então, comemorar o declínio da expressão “risco de morte”? Porque ela não soube brincar. A língua que as pessoas falam na vida real merece respeito.

(*) Sérgio Rodrigues é escritor e jornalista. O artigo reproduzido foi publicado originalmente na Folha de São Paulo.