Genocida, não!

José Horta Manzano

Artigo publicado pelo Correio Braziliense em 29 janeiro 2022

A validade de um estudo científico só é autenticada depois de ele ter sido avaliado e abonado por um conjunto de reconhecidos cientistas da mesma área. É o que os ingleses chamam ‘peer review’.

Costuma-se traduzir essa expressão como ‘revisão por pares’, ‘revisão paritária’ ou até, um tanto desajeitadamente, ‘arbitragem’. A tradução flutuante vem do fato de não ser comum, entre nós, designar de “pares” os que exercem a mesma função ou os que pertencem à mesma categoria. Assim, qualquer tradução literal periga sair meio manca. Mas, pela atual tendência de integração de conceitos estrangeiros a nossa língua, a solução já foi encontrada: mantém-se a expressão inglesa, com casca e tudo.

A organização MedRxiv, cujo estranho nome se deve pronunciar “med-archive” (‘arquivo médico’) é um repositório online de preprints da área médica, clínica e de saúde. Preprint, como o nome sugere, é a publicação prévia de artigo científico ainda não validado pelos pares.

Agora vamos aos fatos. Alguns dias antes do fim de dezembro 2021, uma dezena de cientistas brasileiros assinaram, sob forma de preprint, um alentado estudo sobre a correlação entre vacinação, hospitalização e morte de maiores de 60 anos. A primeira constatação, como se imaginava, é de que a taxa de óbitos decresce à medida que a vacinação se generaliza.

Em seguida, os signatários do estudo valeram-se de fórmulas complicadas demais para serem descritas por não-iniciados como este escriba. O que interessa são as conclusões. E elas são comprometedoras para o governo brasileiro. O incrustado negacionismo gerado pela ignorância presidencial custou caro ao país. Em vidas humanas.

O estudo estima que milhares de idosos brasileiros foram salvos pela vacinação: um total de 75 mil, só no ano de 2021. Não fosse a vacina, esse contingente já não estaria mais entre nós. Essa é a parte decente da história. Em paralelo, há um lado bem mais sombrio.

Todos se lembram dos esforços envidados pelo capitão para frustrar – ou, pelo menos, retardar – a compra de vacinas anticovid. Baseados em análise dos dados e em cálculos atuariais, os cientistas chegam à conclusão de que, se a vacinação tivesse começado 8 semanas antes, 48 mil mortes poderiam ter sido evitadas. Quarenta e oito mil mortes! Para efeito de comparação, essa hecatombe equivale à queda de 185 Boeings modelo 767 lotados, com 260 passageiros cada um, sem nenhum sobrevivente pra contar a história. Ou 4.800 desastres como o de Capitólio (MG), que ocupou as manchetes com suas 10 vítimas – um Capitólio por dia, durante 40 meses sem parar. Estamos falando apenas das mortes evitadas.

Muitos chamam Bolsonaro de genocida. Estão errados. Genocídio é palavra relativamente recente, criada nos anos 40 e oficializada por convenção da ONU de 1948. A definição é rigorosa: exterminação sistemática de um grupo humano por motivos de raça, língua, nacionalidade ou religião. É, portanto, limpeza étnica – um ato extremado levado a cabo por motivos religiosos ou por loucura.

Os atos de Bolsonaro não correspondem à definição. Sabe-se que ele não gosta de pobre, mas a negação da pandemia não causou morte só de pobres. Sabe-se que ele tem medo de “comunista”, mas o atraso na compra das vacinas não mandou só “comunistas” pro cemitério. Sabe-se que ele é misógino, mas a louvação da cloroquina não matou só mulheres.

Bolsonaro tem alguns parafusos soltos. Sua loucura é apimentada por ignorância, poltronice e preguiça – condimentos explosivos, mas que não chegam a configurar um genocida que se preze. Genocidas verdadeiros, não houve tantos assim. O século XX conheceu alguns dos grandes, tais como Hitler (Alemanha), Pol Pot (Cambodja) e Stalin (URSS). Há outros menos conhecidos. Por mais que tenha feito, nosso capitão não entra nessa categoria.

Genocídio requer método e planejamento, conceitos que não frequentam o universo mental de Bolsonaro. Ele não passa de um ser perturbado, atrasado, sem instrução, paranoico, que chegou à Presidência numa esquina da história que não se repetirá. Está mais pra patacão que pra genocida.

Quem tem medo de Bolsonaro?

Avaliação do governo Bolsonaro
Pesquisa Datafolha publicada em 17 set° 2021

José Horta Manzano

A última pesquisa Datafolha sobre as perspectivas da eleição presidencial do ano que vem traz muitos ensinamentos. Novidades, quase nenhuma – se há, não há nada abracadabrante.

A tendência verificada nas análises publicadas nos últimos meses por todos os institutos sérios é sempre a mesma. O viés de baixa de Bolsonaro é relativamente lento, mas parece inexorável. Já o Lula continua imperial, flutuando sozinho por cima de uma massa de candidatos indefinidos e não-declarados.

No ano passado, muita gente contava com a memória ultracurta do brasileiro. Acreditava-se que, jugulada a pandemia, todos esqueceriam rápido a montanha de mortos e Bolsonaro recobraria popularidade. Não é o que se verifica.

A pademia, jugulada, não está; mas que arrefeceu, arrefeceu. A média de mortos caiu a menos da metade do que foi nos piores momentos. Até a frequência com que se ouvia o epíteto de “genocida”, dirigido ao capitão, diminuiu. Mas, infelizmente para ele, esse esperado esquecimento não se reflete nas pesquisas.

É sinal de que o problema do presidente é mais profundo que isso. A pandemia só fez agravar a situação dele. Até na comunidade neopentecostal, o apoio tem diminuído. Nem perspectiva de nomeação de um juiz “terrivelmente evangélico” para o STF tem ajudado. Os PMs, no feriado do 7 de Setembro, não deram nem um passo, nem um pio.

Com a perspectiva de autogolpe praticamente descartada, evangélicos pulando do barco e PMs sem ânimo de subir a bordo, não se vê, neste momento, o que é que poderia impulsionar a reeleição do capitão.

E o Lula que se cuide. Basta surgir um candidato de terceira via razoavelmente forte pra ele também ficar pra trás. Embora não tão astronômica quanto a de Bolsonaro, a taxa de rejeição do ex-metalúrgico também é elevada.

Os próximos meses dirão. Mas o caminho não está fácil nem para um nem para o outro. Para o capitão, todo esforço parece furo n’água. Quanto ao Lula, ainda vai precisar comer muita buchada de bode pra se fortalecer.

Comentário de um leitor da Folha, ao pé do resultado da última pesquisa Datafolha: “Espero que o Brasil tenha aprendido as consequências de eleger um meme.”

O rasgado e o esgarçado

by Anne ‘Adene’ Derenne (1983-), desenhista francesa

 

José Horta Manzano

Parece maldição. Faz 20 anos que, na hora da eleição presidencial, a gente é obrigado a votar contra. Já vai longe o tempo em que cada um saía de casa, votava no candidato de sua preferência e voltava tranquilamente pra esperar a apuração, sempre torcendo pra seu preferido. Mesmo sabendo que ele tinha pouca chance, votava-se nele assim mesmo. Se outro ganhasse, a gente não gostava, mas acabava se conformando. Que remédio?

Desde que o lulopetismo se agarrou ao poder, muitos de nós deixaram de escolher candidato e passaram a votar contra. São já cinco eleições presidenciais em que não se dá mais o voto ao candidato preferido, mas vota-se contra. Contra quem? Contra aquele que não se quer de jeito nenhum. No meu caso, contra o lulopetismo, nos últimos anos.

Dois anos atrás, quando houve a troca da guarda e entrou esse que está aí, muita gente pensou que, doravante, tudo passasse a ser melhor. Que horror, minha gente!

Este governo não governa. Passa metade do tempo assaltando o erário e roubando nosso dinheiro para comprar parlamentares, militares, magistrados e emissoras de tevê. E passa a outra metade do tempo estudando como se esquivar das escabrosas revelações quotidianas e das acusações diárias de crimes.

Do jeito que vão as coisas – e a pesquisa Datafolha confirma – no ano que vem teremos um problemão. A menos que surja um candidato forte e crie uma terceira via, a final será entre o genocida e o cachaceiro.

Pra escolher entre um e outro nem precisava eleição – cara ou coroa era a mesma coisa.

Cotas raciais no comércio exterior

Percival Puggina (*)

Se existe uma parte do planeta onde bate com mais vigor o generoso coração de Lula e Dilma, esse lugar é a África Negra. Imagino ser por isso que existam cotas raciais para o comércio exterior brasileiro. Volta e meia – às vezes nem meia volta se completa – e lá estão nossos presidentes petistas na África Subsaariana, cada um a seu turno, perdoando dívidas milionárias que aqueles países têm para com o Brasil. A conta já passa de US$ 2 bilhões. Não por acaso são, em parte, débitos de governos ditatoriais, sanguinários, genocidas, que lidam com as finanças locais em regime de partilha. Vai um pouco para o interesse público e o restante para contas familiares em bancos estrangeiros.

Um deles, o senhor Omar al-Bashir, já leva 24 anos no cargo de presidente do Sudão. Tem dois mandados internacionais de prisão e, segundo um promotor do Tribunal Penal Internacional, acumula US$ 9 bilhões de recursos próprios em paraísos fiscais. Outro, o senhor Teodoro Obiang, que comanda a Guiné-Equatorial, adquiriu em 2010 um apartamento na Av. Vieira Souto, no Rio de Janeiro, naquela que foi até então a maior transação da história da cidade envolvendo um imóvel residencial. O pequeno refúgio carioca do ditador é um tríplex com 2 mil metros quadrados. O patrimônio pessoal do bilionário ditador do Congo-Brazaville, Denis Sassou Nguesco, proprietário de algumas dezenas de imóveis na França é superior à dívida do país perdoada pelo Brasil (US$ 352 milhões). E por aí vai. Em maio deste ano, numa única tacada, a presidente Dilma anunciou perdões, abatimentos e novos parcelamentos para dívidas de uma dúzia redonda de nações africanas.

Brasil e África Crédito: Cebráfrica, UFRGS

Brasil e África
Crédito: Cebráfrica, UFRGS

Alega o governo que esse procedimento está alinhado com as orientações do Clube de Paris, que o recomendam como forma de estimular a contratação de novos financiamentos e promover o desenvolvimento daqueles povos. Faria sentido se não estivéssemos tratando, em alguns casos, de povos cuja miséria aumenta na proporção direta em que a elite governante amplia sua riqueza pessoal. Faria sentido se não houvesse, na lista de beneficiados, governos ditatoriais que só perdem em longevidade e truculência para a dinastia cubana dos Castro Ruz.

É uma pena que a benevolência dos governos petistas em relação aos seus cotistas raciais no comércio exterior não encontre simetria de tratamento com as dívidas dos produtores rurais brasileiros quando suas lavouras são assoladas por estiagens e secas.

É uma pena que essa mesma prontidão não apareça na hora de atender os brasileiros vítimas de cheias, cujos bens são arrastados pelas águas.

É uma pena, também, que não se respeite o preceito bíblico de que a mão esquerda não saiba o que a esquerda faz em favor do próximo. De fato, enquanto a generosidade nacional é proporcionada pela dadivosa mão direita, a esquerda encaminha novos recursos para obras de empreiteiras brasileiras nesses países. Quem garante que a virtude da probidade e a adimplência tenham desabrochado em meio aos maus pagadores e prevaricadores de ontem? Continuaremos financiando empreiteiras e cancelando os débitos?

E é uma pena, por fim, que, junto com a bonomia das cotas raciais de nosso comércio exterior, não venha junto uma transparência maior sobre as comissões pagas pelos novos negócios que estão sendo contratados lá com as empreiteiras daqui. Tenho um palpite, mero palpite, de que iríamos encontrar, beneficiado por tais valores, um conhecido lobista que mantém relação de intimidade paternal com as decisões de governo.

(*) Arquiteto, empresário e escritor. Edita o site puggina.org